quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Algumas reflexões atrasadas sobre o Dia dos Professores


Ontem, não pude fazer um post sobre o Dia das Professoras, se não se importarem, uso o feminino, afinal, somos maioria na profissão. A maioria dos que lecionam, dos que abraçam a profissão em seus níveis mais básicos e fundamentais, aqueles que mais sofrem com a discriminação, longas horas de trabalho, turmas lotadas e baixíssimos salários. Somos, também,nós mulheres as que mais colhem os  sorrisos dos pequenos e pequenas, que recebem os pequenos presentes cheios de valor sentimental, que somos abraçadas e beijadas.  Sim, isso é importante, eu acredito.  Mas, por sermos em maioria mulheres, pesa sobre a profissão uma depreciação calcada em leituras de gênero.  Afinal, trabalho de mulher é coisa de menor importância, é dom oferecido gratuitamente, é algo cuja remuneração não precisa ser relevante, afinal, mulheres amam servir ao próximo, enfim... 

Fiz a minha opção cedo, nunca quis ser somente – como se pouca coisa fosse – professora, mas sabia que tinha vocação e desejo de seguir por este caminho.  O exemplo de minha mãe, professora-alfabetizadora, modelo de dedicação, amorosa e até excessiva à profissão de lecionar e de meu pai, mecânico, que nunca se viu como professor mas tantas vezes me ensinou a me aprimorar na minha profissão e valorizar o trabalho bem feito, assinatura de qualquer profissional, me inspiraram.  


Salário ruim, coisa que experimentei nos meus primeiros anos lecionando, era a propaganda negativa principal; a violência que os professores e professoras sofrem, não era algo em evidência nos meus anos de formação.  Sofríamos violência do Estado, que paga mal em qualquer uma de suas esferas, mas que é muito cruel no Estado do Rio de Janeiro, e dos estabelecimentos particulares de ensino, que exigem muito e oferecem pouco, na maioria dos casos. 

De resto, acho que minha vida como professora tem sido tranqüila. A maioria das turmas que tive, se não gostavam de mim, nunca me desrespeitaram.  Certeza de que uma turma não gostava de mim, aliás, só tive uma vez.  Acredito que o respeito é o ponto de partida, se conseguir ganhar a estima, estou satisfeita, se a relação extrapola para um afeto genuíno, sinto-me abençoada e feliz.  Nos piores momentos da minha vida, aqueles em que cada dia parecia um peso, o que me mantinha funcionando e minimamente feliz era saber que iria dar aula no outro dia.  


Dividir o que sei, ou acho que sei com outros, estimular os alunos e alunas a pensarem criticamente (*não a pensarem como eu penso*), garantir que estudar e se divertir não são coisas incompatíveis, reforçar positivamente e não desqualificar meus alunos e alunas com dificuldades, são missões caras para mim.  Não tenho interesse em converter, não sou guia religiosa; quero estimular, ajudar a crescer.  Educar  e educar-se é exercício de transcendência.  Também não sou tia, ainda que reconheça a doçura desse tratamento, nem trabalho de graça.  Profissional e, não,  sacerdote (*em um sentido pouco compreendido hoje em tempos de padres e pastores pop star*), professoras e professores não deveriam trabalhar por migalhas, porque, bem, é seu dever servir e trabalhar em silêncio.  Aliás, me mandaram vídeo do Alexandre Garcia (*sujeito que detesto*), que reforça esta idéia.  Já chega disso!  Estamos no século XXI.

A profissão de professora precisa ser valorizada.  E se nós, professoras e professores, não exigirmos isso, seremos, sim, tratados  como qualquer coisa.  A culpa da situação não é nossa, mas precisamos mostrar excelência, comprometimento e parar de reforçar uma idéia terrível que persiste, como sempre precisarão de professores, a profissão acaba sendo refúgio para medíocres.  Em meus mais de 20 anos de sala de aula, conheci muitos colegas que eu não teria pena, caso fosse gestora, de retirar de sala de aula.  Na maioria dos casos, pelo bem dos educandos, em outros casos, para o bem do próprio profissional.  


Ter muitos diplomas, formação em uma boa universidade, não lhe torna excelente professor.  Conheci muitos que com seus conhecimentos limitados eram excepcionais mestres, dignos, sim, de carregar esse título.  Outros, estariam melhor somente na pesquisa, ou em outras profissões, mas persistiam lecionando e destroçando as cabeças e os corações de meninos e meninas.  Tal situação me aterroriza ainda mais quando eu imagino que minha filha poderá passar pelas mãos de algum profissional desse  tipo...

Enfim, vamos acabar este texto.  É sempre comovente receber as congratulações pelo "meu dia".  Comove-me quando ex-alunos e alunas me cumprimentam.  Choro até,, ando bem molenga.  Fico mais emocionada ainda quando algum deles diz que seguiu carreira porque eu, ou também eu, servi de inspiração.  Saibam, queridos, que vocês são minha inspiração para viver.  Meu alimento diário de esperança no futuro, de vitalidade e força para viver momentos difíceis. Se eu ajudo de alguma forma a vocês, não pensem que vocês não me ajudem muito, também.


Até o próximo 15 de outubro!

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