terça-feira, 21 de outubro de 2014

Menos de uma semana para o fim da insanidade (*ou assim espero*)


Para quem não entendeu, insanidade é este período eleitoral, mais especificamente, o segundo turno.  Que a febre das eleições varre as redes sociais e se alastra como o Ebola.  A coisa mais triste é que algumas pessoas perdem completamente a noção de civilidade, colocando em risco mesmo amizades antigas e o respeito angariado por anos de convivência.  Tenho pelo menos um caso, uma amiga muito querida, mas que cultiva ódio insano ao PT .  Daí, a qualquer menção (*ainda que não feita*) à Cuba, Coréia do Norte, china e Rússia (*que ela crê ainda ser a URSS*), ou notícia positiva sobre o PT, ela reage de forma desmesurada.  E, claro, também repassa os links mais alucinados contra o governo.  Esta está doente faz muito tempo, mas trata-se, no entanto, de exceção.  A maioria das pessoas logo irá se curar, ou assim tenho esperança.

Ontem, uma ex-aluna, que vota em Aécio, sintetizou muito bem este meu mal estar.  As pessoas – conhecidos e até amig@s – invadem os seus posts com o intuito de agredir, mais até do que anunciar suas preferências.  E isso, usando muitas vezes caixa alta, ou seja, estão gritando com você.  Não é mais fácil, quando você respeita a time line do outro?  Por que não escrever na sua própria TL sua insatisfação ou suas opções por candidato X ou Y?   Não, é preciso cobrar satisfações (*fosse no mundo real, imagino que haveria dedo em riste e tudo mais*) como se a pessoa estivesse com suas palavras escritas ou as notícias repassadas lhe ofendendo diretamente.  Se o agressor, sim, porque é desta forma que vejo a pessoa, é um conhecido, não raro alguém que chegou a você por outras pessoas, bloquear é a saída, mas e se for um amigo ou amiga?  Necessário será deletar o comentário e/ou calar torcendo que a pessoa caia em si.  A maioria, infelizmente, não cai.  Nessas horas me questiono se é doença mesmo, ou se é o verdadeiro caráter da pessoa aflorando...


Sei, no entanto, que minha experiência nas redes sociais nem é a pior.  Acredito que por não fazer parte de grupos políticos ou comunidades do gênero, por evitar entrar em discussões em Facebook e Twitter, não receba a maioria das coisas mais pesadas, seja as (pseudo) notícias, seja as agressões mais desmesuradas.  A amiga que citei lá em cima não conta, claro, mas ela parou de me seguir e eu a ela, só não sei se me bloqueou, também, mas isso eu nem vou caçar para descobrir.  Curiosamente, aliás, acontece o seguinte comigo.  No Facebook, as agressões partem dos contaminados pelo ódio ao PT, nem se trata de eleitores de Aécio, antes de Marina, também, é gente que odeia o partido do governo e em cima disso constrói todas as suas argumentações; no Twitter, são os religiosos petistas, sim, pois é gente que se comporta como membros de uma seita, que a qualquer suposta crítica contra o governo federal, vem para cima de você como se desejasse rasgar sua jugular à dentadas.  Simples assim, e como o Twitter não permite longos textos, inundam a sua conta com absurdos.  E, pelo menos no meu caso, é sempre gente desconhecida, que chegou até você através de outras pessoas que lhe seguem.  Normalmente, o caso termina em bloqueio.

Mas por qual motivo estou escrevendo este texto?  Sim, sim, ontem estava circulando uma imagem, ela está logo abaixo, com uma foto da cantora Wanessa, filha de Zezé di Camargo.  Confesso que nada sei sobre a música da moça.  Sei que é cantora e conheço a polêmica com a fala de Rafinha Bastos, que rendeu-lhe o afastamento do CQC, e da questão do seu parto normal pós-cesariana, amplamente divulgado em grupos de apoio ao parto normal humanizado que freqüento.  Enfim, mas eis que a moça termina criticada por apoiar Aécio Neves apesar de antes ter se colocado contra o Pastor Feliciano e suas posições homofóbicas.  Mas, ein?


Considero muito injusto esse tipo de post, sabe por qual motivo? Vanessa estava criticando Feliciano, e nisso a maioria concorda com ela. Mas eis que ela apóia Aécio(*direito seu, aliás*), daí, ela vira motivo de chacota e critica, porque, bem, a candidatura do PSDB foi apoiada por Feliciano e outros renomados homofóbicos. Quem posta algo assim, esquece que Feliciano foi da base do governo e que o PT - em uma de suas manobras mais canalhas - deu de bandeja a comissão de direitos humanos para ele? Será que o fato de Aécio receber tais apoios o torna naturalmente homofóbico?  Olha, eu du-vi-do que o PT não aceitasse essa corja no seu palanque se eles quisessem subir.  Aceitaria até o Malafaia, mas ele, acredito, nunca apoiaria o PT sem pedir muito em troca. Será que Wanessa se torna uma falsa, mentirosa, traidora, simplesmente por ter Aécio como candidato?  Mas eis que fico sabendo que o marido dela, Marcus Buaiz, é o articulador de Aécio junto aos “famosos” (*imaginava Luciano Hulk e Ronaldo, enfim...*) e que inclusive apoiadores antigos do PT, caso de Zezé di Camargo, pularam para o barco do PSDB por causa dele.  Acho que as pessoas esquecem que artistas apoiam candidatos desde sempre, minha memória é de uma maioria pró-PT, mas em uma campanha acirrada como a que vivemos, alguns precisam apoiar o PSDB, ora bolas!

Só que fiquei pensando: será que atiram pedras em Wanessa para acertar o marido?  Afinal, ela é alvo mais fácil.  Um amigo, a quem respeito muito e que entende muito desse universo musical, acredita que ela se colocou contra Feliciano para se promover junto à comunidade LGBT.  Não concordo, muita gente boa e nem tanto, indignou-se com o que estava acontecendo na comissão de direitos humanos.  Aliás, a maioria das pessoas com o mínimo de bom senso viu que Feliciano não podia ocupar aquele lugar e criticou, na época, as estratégias de poder do PT.  O que quero dizer é que essa fúria eleitoral está passando dos limites e que as pessoas estão perdendo o senso crítico, o bom senso, a cordialidade.  E isso de ambos os lados, não é privilégio somente dos seus adversários de ocasião, sejam petistas ou tucanos.


Não vou me estender comentando o suposto desprezo de Aécio – para mim, o grande vencedor do primeiro turno – pelas mulheres, vejo-o muito mais como um machista, um patriarcal mesmo, que nos trata com complacência, vide sua última propaganda antes do primeiro turno.  Para quem não lembra, era mais ou menos assim “Amiga dona de casa, enquanto as duas mulherzinhas brigam (Marina e Dilma), deixe um homem resolver a sua vida”.  Não acho que foi acreditar que o mundo é dividido em trabalhadores e donas de casa, que ele foi ao segundo turno, tampouco que acreditar que violência doméstica se resolve com polícia na rua, ou sinalizar que vai extinguir a Secretaria de Políticas para as Mulheres, que ele deixará de ser eleito presidente do Brasil no próximo domingo.  O fato é que a cara de nojo e outras expressões faciais, e a forma como tratou Dilma no debate da Band e do SBT, especialmente, repercutiram mal, muito mal. E isso foi detectado pelos analistas.  Fora a acusação de agressão contra uma mulher, algo que ficou em aberto, sem processo contra o acusador...   Não vejo, no entanto, isso como definidor da eleição.  Ganhe quem ganhar, será muito apertado mesmo.  

No mais, votarei 13 por conhecer o projeto de Brasil do PSDB, não por esquecer-me de todas as bobagens que o PT fez durante seu período no poder. Temos muito a comemorar, mas temos muito, também, a deplorar.  Já falei disso em outros posts aqui no Shoujo Café, não vou me repetir, acho que os links sobre Feliciano já sintetizam o que eu penso.  Mas vivemos um momento histórico, esta é uma eleição a ser lembrada, seja pelo número de candidatas mulheres, seja pela mobilização – para o bem e para o mal – que ela vem inspirando.  No entanto, não sentirei falta dela e temo pelas eleições futuras com o ambiente virtual cada vez mais hostil e se desdobrando em violência real em espaços públicos.  Espero que tenha sido um texto útil.  Queria desabafar desde ontem, nem falei do aniversário de Júlia ainda, mas estou sem tempo mesmo e com muitos problemas para resolver.


P.S.: O objetivo das ilustrações do post é inspirar bons sentimentos e nada tem a ver com o tema dscutido.  Flores sempre me trazem uma sensação de paz e tranqüilidade.

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2 pessoas comentaram:

Concordo plenamente com seu texto Valéria ... Também votarei 13 porque também me lembro do "modus operandi do PSDB.Mas é claro que isso nao tira o direito de quem votará no Aécio.

É complicado. Eu digo há muito tempo, a internet potencializa as coisas tanto pro bem quanto pro mal. E nesse processo faz muitas máscaras caírem.

Uma frase que li uma vez no Desfavor resume bem a situação: insultos, xingamentos e ofensas não definem a pessoa que está sendo atacada, mas dizem muito sobre a pessoa que está atacando. E isso a gente tem visto bastante por aí... Desde preconceitos como o machismo tosco dos que chamam a Dilma de "baranga mal-comida" até a hipocrisia dos que erguem a bandeira da legalização das drogas e depois ficam atacando o Aécio pelos boatos sobre cocaína.

Talvez eu não leve tão a sério quanto deveria, mas começo a achar divertido certas coisas. Como um parente que eu sei que tem curso superior e é bem informado, usando argumentos tão rasos (pra não dizer idiotas) como "vai morar em Cuba!". Raramente me envolvo em discussões porque sei que elas não levam a lugar nenhum, já que as pessoas dispostas a trocar idéias e refletir sobre elas são poucas, enquanto as pessoas dedicadas a mostrar que estão certas são muitas.

No fim, talvez tenha algo de bom no fato dessas coisas (raiva, preconceitos, falta de educação, falta de bom senso) estarem sendo expostas. Cada vez mais gente tá vendo que tem algo errado acontecendo, e isso vira algo a ser debatido. Melhor do que esses problemas ficarem escondidos e nunca serem questionados.

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