domingo, 14 de junho de 2015

Universitária Americana e seus pais lutam para banir Sandman, Persepolis e outras graphic novels do currículo e outras reflexões sobre intolerância


Ou o mundo está se tornando mais idiota (*e ignorante, vulgar, hipócrita etc.*), ou as idiotices estão sendo melhor divulgadas pela internet.  Enfim, um amigo postou um link em português comentando o caso de uma universitária de 20 nos chamada Tara Shultz que inscreveu-se em uma disciplina intitulada English 250, cuja descrição é “o estudo da graphic novels como um meio viável de literatura através de leituras, discussões em sala e trabalhos analíticos”.  OK?  Parece bom, um sonho para o/a leitor/a de quadrinhos que deseja pegar uma disciplina que junte questões acadêmicas ao seu hobby. 

Entre o material listado para análise no curso estão  Persepolis, de Marjane Satrapi; Fun Home, de Alisn Bechdel; o primeiro volume de Y: O Último Homem de Brian K. Vaughan and Pia Guerra; e  Sandman: A Casa de Bonecas de  Neil Gaiman.  Enfim, quando a gente pensa em graphic novels, normalmente pensa em material para adultos, algo mais elaborado e até monográfico.  Afinal, quem cunhou o termo foi o grande Will Eisner.  Só que segundo a matéria do Comic Book Resources, a mocinha imaginava que leria algo como Batman e Robin (*era de ouro e de prata, eu imagino...*) e, não, sexo, violência e obscenidades: “Eu não esperava abrir um livro  e ver material gráfico dentro dele.  Eu esperava Batman e Robin, não pornografia”.  


Qualquer pessoa razoável, trancaria o curso.  Um fundamentalista de verdade transformaria sua presença em sala e seus trabalhos em uma forma de protesto, mesmo reprovando no final.  Só que esse povo preocupado com o bem estar do próximo e ciente de sua superioridade de discernimento sobre o que é certo e/ou errado normalmente vai além, buscando banir um determinado material e, se possível, conseguindo aparecer por algum tempo nas diversas mídias.  Nos EUA, imagino que o ápice seja ser entrevistado em algum programa da Fox News.

Segundo o site Redland Daily Facts, o professor do curso, Ryan Bartlett, que ministrou a disciplina por três semestres sem reclamações anteriores, defendeu as obras:  “Eu escolhi várias graphic novels altamente aclamadas e premiadas para o meu curso. Não porque elas são supostamente atrevidas, mas porque cada uma fala sobre as dificuldades da condição humana. Como Faulkner afirma, ‘A única coisa sobre a qual vale a pena escrever, é sobre o coração humano em conflito consigo mesmo.’ O mesmo pode ser dito sobre a leitura de literatura. Os personagens das graphic novels escolhidas estão todos lutando com questões de moralidade, auto-descoberta, rupturas, etc.”


Enfim, a moça vai além e disse em um protesto do lado de fora da faculdade junto com seus pais, “Pelo menos coloquem uma advertência nesses livros.  Eu gostaria que essas obras fossem erradicadas do sistema. Eu não quero que mais ninguém tenha que ler esse lixo.”.  Já o pai da criatura acrescentou: “Nós ainda não chegamos lá, mas queremos discutir a questão dos livros que estão sendo vendidos na livraria da Universidade. Há menores de idade neste campus!”

A moça e os pais culpam o professor, que deveria ter alertado os estudantes, no primeiro dia de aula, do conteúdo que iriam encontrar nas obras.  A realidade é que muitos pais educam seus filhos e filhas em redomas.  Sabe-se lá se esta moça veio do sistema, de uma educação em escola religiosa, ou mesmo do homeschooling.  Não estão acostumados a conviver com a diversidade e querem impor sua forma de ver o mundo à comunidade, mais ainda, esperam que professores sejam babás, mesmo na universidade.


De qualquer forma, aqui, ou nos EUA, vivemos um momento de backlash (*retrocesso*) no qual grupos religiosos tentam impor sua visão de mundo a todos os demais.  Se vocês observaram os eventos da semana, sabem que a mulher trans crucificada na parada gay de São Paulo despertou a indignação de muitos membros das comunidades evangélicas e católica.  Não que haja preocupação com o uso da figura do crucificado em capas de revista como a Placar ou a Veja, o problema, claro, é ver um homossexual ou uma pessoa trans em uma cruz.  Talvez, talvez mesmo, lá no fundinho, venha aquela culpa em relação aos excluídos para, logo em seguida, vir o ódio em reação a este breve, brevíssimo momento de reflexão sobre o real papel dos cristãos neste mundo.

De qualquer forma, o protesto no Congresso, com direito à banner com imagens da Parada Gay 2015, da Marcha das Vadias do Rio em 2013, e até material vindo de protestos nos EUA, mais a reza do Pai Nosso no plenário, interrompendo uma das sessões, aponte para um futuro bem trágico.  Querem transformar em crime hediondo o vilipêndio de símbolos religiosos, provavelmente, só os supostamente cristãos  (*os das religiões afro podem ser afrontados à vontade*) compartilhados em comum (*quebrar e chutar imagens religiosas católicas não faz pastor-deputado se mobilizar, salvo na Marcha das Vadias*) com os católicos.  Cristofobia é o nome do tal crime, porque, bem, ser  ou se dizer cristão, no Brasil, é ato de coragem, vocês sabem.


Como o Congresso é o mais conservador e trabalhador (*para o mal*) desde 1964, talvez possamos ter em breve uma lei de blasfêmia ao estilo das existentes em países como o Paquistão.  Espero mesmo que alguns dos defensores do fim do nosso frágil estado laico passem a  compreender quando notícias de crianças presas por blasfêmia, mulheres linchadas por supostamente ofenderem o Corão, professores cristãos atacados por motivos mais absurdos, mães de família condenadas à morte por causa de briga com vizinhas, e outras chegarem até nós, afinal, trata-se do legítimo exercício da defesa da fé, não a cristã, claro, mas isso nem deveria contar, não é mesmo?

De resto, considero todo o caso no Congresso, lamentável.  Seja por juntar coisas diferentes.  A trans crucificada passa uma mensagem, o ato performático da Marcha das Vadias passou outro.  Aliás, nunca escrevi sobre aquilo, mas considero lamentável em vários aspectos, a começar pelo uso de uma imagem feminina (Maria) como alvo do escracho, afinal, era uma marcha de mulheres.  Neste caso, talvez coubesse o uso do Art. 208 do Código Penal - Decreto Lei 2848/40, mas não sou advogada.  Da minha posição, só digo que foi de mal gosto e desnecessário.  

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2 pessoas comentaram:

Eduardo Cunha como presidente do Congresso foi uma das maiores tragédias políticas da história deste país.
E pelo visto, essas polêmicas todas são tudo teatro para desviar a atenção dos tais "jabutis" que ele enfia nas MPs do governo para favorecer seus interesses e de seus amigos. Como um recente que ele passou que diminui ainda mais o pagamento dos poucos impostos que as igrejas evangélicas ainda pagam. Pelo visto, rumo à isenção total para templos, sem nenhuma contrapartida social, enquanto muitas ONGs e trabalhos sociais não recebem uma ajudinha sequer do governo.
O fulano é um verdadeiro pilantra que distorce as regras do congresso ao seu bel prazer. Mas deve estar agradando todos os seus cúmplices lá.

Parece que estamos em regressão, está cada vez mais complicado. Não duvide se qualquer dia atacarem uma editora por causa de charges...

https://quantomaispaginasmelhor.wordpress.com/

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