sexta-feira, 24 de julho de 2015

Novelando: Mais algumas palavras sobre Os Dez Mandamentos


No momento, estou assistindo duas novelas, Os Dez Mandamentos e Além do Tempo (*post hoje, ou amanhã*).  A novela da Record finalmente entrou em sua terceira fase, isto é, Moisés viu a sarça ardente (*uma árvore grandona na versão da Universal*), Deus falou com ele, e, bem, é hora de voltar para o Egito e botar para quebrar.  

Zípora teve xilique, já se desculpou e disse que vai com o marido.  E vai mesmo, não esperava menos dela que, depois que largou o jeito mal educado, até que conseguiu alguma simpatia.  Agora, me irritou muito que os dois filhos dela e de Moisés demonstrem tanto desprezo pela prima.  Ora, eu esperava – e sei que não vai rolar – uma ceninha de mamãe Zípora mostrando para os dois moleques o que ela é capaz de fazer.  Como já são crescidos, não sei o que ela ensinou para eles, porque foi Moisés quem te ve que dizer que a mãe deles é que mostrou ao pai egípcio como usar uma funda... Enfim, mas depois rolou outra cena dos moleques fazendo pouco caso da prima, então já viu... Mensagem conflituosa em relação aos papéis de gênero.


Dentre as questões de gênero e religiosas já esperadas, temos a historinha da filha "perdida" de Jetro.  Betânia, irmã de Zípora, tem uma história própria, ela se apaixona por Moisés, tenta seduzi-lo descaradamente, tenta criar uma situação para que ele seja obrigado a se casar com ele, e tudo da errado.  Devota de uma divindade pagã, a deusa Asserá (*escrevi certo isso?*), ela acaba se tornando uma de suas sacerdotisas.  Seria tranqüilo de ficassem só no rasinho de chamar sacerdotisas de prostitutas - uma palavra tem sentido pejorativo, a outra, não - tornando o ato de fazer sexo como uma forma de servir a deusa uma degradação.  É uma novela religiosa, afinal.  

O problema é  a personagem ficar repetindo - já ouvi duas vezes - que ela celebra o sagrado feminino, a força que está dentro de toda mulher e, assim, louva e serve sua deusa.  O objetivo dessa ênfase é fazer a ponte com os cultos neopagãos contemporâneos, como a Wicca.  Fala-se supostamente do passado para se falar do presente.  Veja que tudo aparece em um contexto negativo, como se o feminino fosse associado ao mal ou práticas de degradação.  De  novo, é uma novela religiosa, que visa divulgar uma leitura específica dos textos judaico-cristãos, mas essa parte é invenção, monólogo, porque não há contraparte, com outras fés e reforço de que a Deus é homem... Enfim, é muita coisa problemática. 


Em outro texto sobre a novela, tinha pontuado que seria difícil conseguir convencer que os egípcios, muito mais simpáticos que os hebreus aos meus olhos, eram os vilões da história.  Bem, bem, Ramsés virou um monstro megalomaníaco.  E é preciso dizer que o Sérgio Marone caminha para se tornar um bom ator, o que sair da Globo não faz, ein?  Cruel ao extremo, o faraó não tem limites.  Fizeram até ima referência ao ISIS (EI) com a tal cena da decapitação dos 10 hebreus, só não vê quem não quer.  Foi uma virada possível, só que exagerada, mas, ainda assim, ele ainda fala com carinho de Moisés.  

Nefertári teve seus defeitos ampliados.  A cena dela com o filho delinqüente ameaçando cortar o pescoço de uma serva com uma faca, serviu para redesenhar o seu perfil. Desde o início, ela era complexa, amava o luxo, por exemplo, e o marido faraó a mimou ao extremo.  E os dois produziram um rebento detestável, o moleque é horroroso, mimado, mal educado, cruel, tudo que uma criança rica e sem limites pode ser e, bem, está já nos descontos da sua vida... 


Só que o trabalho de destruição dos egípcios precisa ser total.  Detestei o que fizeram com Ikene e Karuma.  Eram um casal simpático, agora, o marido passou a seguir Bakemut – que deve morrer no Mar Vermelho – e se comportar da pior forma possível.  Já Karuma, esquecida pelo marido, tornou-se amarga, o que se salva é a amizade dela com Nefertári, aliás, é o único momento simpático da rainha.  Até o querido Gahiji perdeu sua leveza...  Sobraram como egípcios simpáticos das fases anteriores, a princesa Henutimire, que assumiu o romance com o hebreu Hur, o fofo do Simut e Paser.  Aliás, o pai de Nefertári anda cada vez mais triste com o rumo que o governo de Ramsés vem tomando e com as características de personalidade que se tornam mais visíveis na filha.  

Eu gosto do Giuseppe Oristanio de muito tempo, é outro que na Globo não recebia o espaço que merecia.  Ótimo ator e com olhos muito expressivos.  Algumas das melhores cenas destas últimas semanas de novela foram dele, seu confronto com Yunet, a forma como expressou o amor pela filha e, agora, sua tristeza e enorme decepção.  Sei que ele e Simut vão servir de bobinho para Moisés e Arão e, bem, lamento, porque são duas personagens queridas mesmo. 



Lamento que Yunet seja uma espécie de “velha louca dos gatos” do Egito Antigo.  Ela era a alma da novela. Parece que, agora, ela voltará a estar em evidência.  Sua derrocada foi épica, mas somente arrastou com ela um de seus cúmplices homens.  De importante, vale ressaltar que ela ama a filha de verdade, normalmente, vilãs do seu tipo acabam sendo colocadas como pessoas que não amam ninguém.

De resto, Paulo Gorgulho – outro ator que era subaproveitado na emissora concorrente – cresceu ainda mais.  Aquele grande clamor dos hebreus foi muito culto de avivamento pentecostal para o meu gosto, mas, como escrevi no primeiro texto, é uma novela religiosa para propagandear a leitura da Universal em relação à narrativa bíblica.  É até engraçado ver como o Deus do Êxodo é vendido como um “salvador pessoal”, daí a necessidade de mostrar todos os punidos como corruptos ou afastados do caminho certo, porque, bem, feriria as nossas sensibilidades modernas ver gente “inocente”  punida pela divindade.



De resto, o encontro de Moisés com Deus foi mais ou menos, a voz de locutor da divindade foi mal escolhida e, bem, Guilherme Winter é fraco.  A emoção que faltou ali, sobrou na cena de Arão.  Aliás, a única justificativa para que ele não fale ao faraó, já que é culto, articulado, inteligente e tudo mais, é esta falta de carisma.  Talvez, você não esteja entendendo, mas vou citar o versículo do argumento de Moisés com Deus: “No entanto, argumentou Moisés a Yahweh: “Perdão, ó meu Senhor! Todavia eu não tenho facilidade para expressar-me, nem no passado nem agora que falaste a teu servo. Não consigo falar bem, pesada é minha língua!”” (Êxodo 4:10)  Os estudiosos se perguntam e debatem qual seria o problema de Moisés, mas Deus oferece a solução, claro!  “Então disse o SENHOR a Moisés: Eis que te tenho posto por deus sobre Faraó, e Arão, teu irmão, será o teu profeta.  Tu falarás tudo o que eu te mandar; e Arão, teu irmão, falará a Faraó, que deixe ir os filhos de Israel da sua terra.”(Êxodo 7:1,2)  

E foi por causa de Arão que eu escrevi este texto. A personagem, desde o início da novela, é depressiva, revoltada, renega as crenças religiosas dos pais e por aí vai.  Nessa terceira fase, ele continua lá, depressivo, agressivo, mas amargo e alquebrado.  Ele se nega a ir ao tal culto de avivamento promovido pelo pai e pela irmã, era o esperado, claro, mas começa a ser contaminado pelo clima geral entre os hebreus.  E, bem, a cena da sua conversão – porque tenham certeza que teremos um Arão antes e depois do “encontro com Deus” – foi um dos pontos altos da novela inteira para mim.  


Nunca dei nada por Petrônio Gontijo.  Lembro dele sofrível como o protagonista da novela Salomé (*1991, tempo que rolava até nudez no horário das seis horas*) e daí nunca vi tirarem dele nada de melhor na Globo.  Mais uma vez, trata-se de um ator que precisa sair da líder de audiência para mostrar que, sim, é muito bom.  Foi uma cena emocionante, o ator se entregou de tal forma que nem a voz horrorosinha que deram para Deus comprometeu o resultado geral.  Espero vê-lo brilhar, já que é ele que vai confrontar-se com Sérgio Marone.  Dos dois, Gontijo é o melhor.  

De resto, Oséias, futuro Josué, faz aquela linha “perseguido pelo Evangelho” que eu odeio.  A ação dele quando passou o cortejo do faraó foi de afronta sob qualquer aspecto, a lógica seria que ele rodasse, mas a novela cria toda a comoção para atrair simpatia.  Eu, de minha parte, admiro muito mais o herói que afronta e assume o que fez.  Naquele caso era "fazer a Yunet" e afrontar todo mundo, chutar o pau da barraca e morrer em grande estilo, mas Oséias não pode morrer.  Aliás, foi Yunet que salvou a vida dele... 



Enfim, como fui “criada” em igreja evangélica, conheço bem o tipo.  Essa coisa de colocar música “gospel” em volume alto para “evangelizar” o vizinho 7 da manhã no sábado e, depois, reclamar do funk ou pagode tarde da noite e dar testemunho na igreja não me comove.  O caso Oséias é uma tentativa de passar a mesma mensagem.  Ele deliberadamente provocou, queria ser visto pelo faraó, mas é um dos heróis, então, precisamos vê-lo como o lado certo da história.

É isso.  Hoje, Leila – que na segunda fase era a crente chata fanática – deve ficar em maus lençóis já que Ramsés vai cobrar a fidelidade dos hebreus que trabalham em seu palácio.  Imagino algo na linha que se fazia em Roma, estejam certos, prestar culto aos deuses, neste caso provavelmente a Ramsés, ou morte, na melhor das hipóteses, rua.  O pessoal da maquiagem está trabalhando bem e a minha esperança de não ver os malas na terceira fase se frustrou.  Está todo mundo lá.  

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