segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Comentando as Terceiras Jornadas em Histórias em Quadrinhos



Semana passada, entre 18 e 21 de agosto, estive em São Paulo, na USP, para as 3as Jornadas em Histórias em Quadrinhos.  Aliás, o congresso reuniu dezenas de pesquisadores das mais diferentes áreas, gente de dentro e de fora da academia, e se tornou o maior evento acadêmico sobre quadrinhos da América Latina.  Pensem no trabalhão da organização?  Simplesmente, foram mais de 200 comunicações ao longo dos quatro dias de evento.  Mais importante ainda, o número de ouvintes foi muito grande e o espaço utilizado pelas jornadas - o prédio principal da ECA (Escola de Comunicação e Artes) - ficou cheio até o final, a última conferência, a da Trina Robbins.  Deveria ter escrito um post, ou vários, mas acabei empurrando e empurrando, por absoluta falta de tempo e energia.  Pois bem, agora algumas palavras sobre o evento.

 Primeira coisa, eu esperava que fosse bom, mas foi muito, muito melhor do que eu poderia ter sonhado.  Pude assistir palestras com pessoas que eu nunca imaginava conhecer, como Trina Robbins e Paul Gravett.  Conheci melhor o trabalho de Ian Gordon, que fez uma palestra espetacular na quinta-feira (20).  E conversei com a Trina e quebrei galho de intérprete em alguns momentos. ^_^ Sabe o que é isso?  Meu exemplar de Pretty in Pink está autografado por ela!  Só não digo que morreria feliz, porque, bem, não quero morrer por esses dias.  Se acontecer, foi mera fatalidade.

Trina Robbins na Gibiteca Henfil.
Comentarei um pouquinho das conferências e o encontro com a Trina Robbins na Gibiteca Henfil, que ocorreu na quarta pela manhã como um evento à parte e organizado pela ASPAS (Associação de Pesquisadores em Arte Sequencial).  Os meus comentários, claro, serão bem seletivos e direcionados ao que me interessa: questões de gênero, feminismo e, sim, mangá.  Se quiser continuar a leitura, tenha esses três pontos em mente.

Dos três palestrantes internacionais, quarta-feira a conferência foi de dois professores brasileiros, o Paul Gravett é o único com alguma obra publicada em nosso país, Mangá Como O Japão Reinventou os Quadrinhos, da Editora Conrad.  Só por ter produzido este livro, que tem o melhor capítulo sobre shoujo mangá escrito por não especialista que eu já li, vocês já tiram que o sujeito é fã de quadrinhos japoneses.  Aliás, uma das frases dele durante a palestra foi que para o Brasil se tornar um dia um Japão precisa de mais mulheres fazendo quadrinhos.  Otimista demais, eu sei, mas que tirada legal essa!

Paul Gravett e o intérprete.
Enfim, a palestra de Gravett foi sobre a necessidade de manter a mente aberta em relação aos quadrinhos, sem se fechar em modelos excludentes.  Ele também estabeleceu que a regra dos quadrinhos é mostrar e,  não, contar e/ou descrever. Acredito que foi o único ponto no qual ele insistiu para determinar se algo é quadrinho, ou não. Ele apresentou obras de diversas origens, recursos criativos usados por artistas de todo mundo em várias épocas.  Focou em mangá já para o final de sua fala, a mais longa dos três conferencistas, e declarou que ama Emma de Kaoru Mori.

Um dos trabalhos que tive vontade de ler apresentados por ele foi The Art of Charlie Chan Hock Chye  de Sonny Liew sobre a vida de um pioneiro dos quadrinhos em Singapura, Chan Hock Chye.  Ele também falou da inventora do quadrinhos autobiográfico, Charlotte Salomon, artista judia morta em  Auschwitz. 

Ele, também, apontou que o cinema tem encontrado om material para trabalhar nos quadrinhos alternativos, vários deles de autoria feminina. Citou Persépolis, de Marjane Satrapi, e comentou que Gemma Bovery, de Posy Simmonds, virou filme.  Essa graphic novel foi publicada em nosso país pela Conrad.  Não li ainda, fiquei curiosa, mas confesso que uma coisa que me afastou do material foi a referência à Madame de Bovary, não gosto desse livro, nunca consegui termina-lo.   

Rodolphe Töpffer, o inventor dos quadrinhos para Gravett.
Obviamente, para muita gente, material que Gravett chama de quadrinhos não seria visto como tal, mas eu entendi o ponto de vista dele e abraço integralmente a idéia de que devemos manter a mente aberta para as inovações, atos criativos e subversões.  De resto e não menos importante, ele defendeu que o criador das histórias em quadrinhos modernas foi o suíço Rodolphe Töpffer que chegou a desenhar um quadrinho de Fausto e mandou para Goethe, o autor, que respondeu com uma carta empolgadíssima, ou seja, eis o primeiro fã de quadrinhos.  Não consegui tirar foto com o Gravett, mas tirei fotos dele.  Trata-se de um inglês fofo e excêntrico, queria poder comprar mais livros dele, mas o dólar está proibitivo.

Na quarta pela manhã, houve o encontro de Trina Robbins com quadrinistas brasileiras na Gibiteca Henfil.  Primeira coisa a pontuar, eu não conhecia o Centro Cultural São Paulo, na verdade, cada visita a esta metrópole me faz ver o tanto que há para se conhecer e o pouco que eu conheço.  Segundo, havia uns moços ensaiando ou se apresentando no corredor largo que dava para a entrada da biblioteca, não sei bem.  Stiletto dance é um negócio de cair o queixo.  Mas vamos à Trina Robbins.

Os moços dançando Stiletto dance.
Nesta palestra mais restrita – e muita gente que se inscreveu não apareceu, abrindo espaço para gente que chegou na hora – Trina Robbins falou de sua carreira, seu amor aos quadrinhos, o movimento hippie e feminista e os obstáculos enfrentados pelas mulheres que trabalham com quadrinhos.  Simpática, acolhedora, ela falou com leveza das durezas que enfrentou na sua trajetória a partir dos quadrinhos underground.  Coisas como entrar em conflito com Robert Crumb e outros sujeitos assumidamente misógionos nos anos 1960 (*parece que Crumb melhorou um pouco, segundo ela mesma*). 

Enfim, para se ter uma idéia do quão engajada Robbins é, ela coloca que é “herstorian” em seu cartão.  Herstory é como as feministas norte americanas – e outras – chamam a tentativa de fazer uma história das mulheres e com um olhar feminista.  É isso que Trina faz ao resgatar e interpretar a obra das mulheres quadrinistas americanas esquecidas pela historiografia tradicional.  Ouvi-la foi um prazer.

Garota Siririca.
Depois, foi a vez das quadrinistas brasileiras mostrarem seus trabalhos e interagirem com a Trina Robbins.  Eu não sabia, mas a autora da Garota Siririca, Lovelove6, é aqui de Brasília.  Ela parecia bem novinha e se emocionou com a fala da Trina.  Ela teve seu trabalho desqualificado por um professor.  O que ela produzia, para ele, não era quadrinho.  O caso dela foi o mais pesado, mas ficou evidente que os obstáculos à inserção das mulheres no mercado de quadrinhos são muitos.  Pior ainda, quando pensamos que o Brasil tem um mercado muito, muito restrito.  Como minha mesa de comunicação era à tarde, acabei saindo antes do fim das apresentações.

A Trina Robbins enfatizou a importância da internet, que abre e cria espaços alternativos, dá voz para quem em um mercado convencional nunca  teria.  E, bem, se eu posso fazer uma crítica a algumas daquelas moças é que elas ainda parecem precisar de uma aprovação do público masculino convencional.  Queridas, vocês não precisam.  Façam seu caminho e deixem esses sujeitos pra lá, porque eles vão continuar lambendo as bolas uns dos outros e andando atrás do próprio rabo. 

Trina Robbins e as artistas brasileiras mais a Dani Marino e a Natania.
A palestra de quinta-feira foi com Ian Gordon, australiano, historiador especializado em Estados Unidos, e professor da Universidade Nacional de Singapura.  De todas as conferências, essa foi a mais acadêmica no sentido mais estrito do termo.  Ele leu o texto, passou com antecedência para o tradutor, o que ajudou no trabalho do rapaz, e estava vestido de forma conservadora, por assim dizer.  Obviamente, este último comentário não teve relevância na excelente palestra, só quis pontuar para contrastar com o estilo dos outros dois conferencistas.

O tema da palestra de Ian Gordon era quadrinhos e cinema.  Eu perdi uns dez minutos e quando cheguei ele estava prestes a falar do primeiro filme de Super Homem (Superman, 1978), o primeiro blockbuster baseado em quadrinhos.  Ele comentou o quanto o filme representou um fenômeno multimídia, pois já implicava em licenciamentos diversos atrelados ao filme.  Ele traçou um paralelo com Guerra nas Estrelas (1977), cujos produtos só vieram depois que o filme conseguiu êxito.  


Foto com Ian Gordon no último dia.
Uma das questões que ele reforçou é que nãos e fazem bons filmes de super-heróis sem muito dinheiro envolvido e que cada vez esses filmes se tornam mais caros e demandantes.  Ele comentou o quanto so files de super-heróis ou baseados em HQs se multiplicam.  Citou que o primeiro filme de Scarlett Johansson, North (1994) , foi baseado em uma graphic novel.  Elogiou Sin City, as disse que não mostraria nenhuma imagem de Frank Miller, por ele ser um fascista e também, um porco misógino.  Trina Robbins e o Paul Gravett vibraram.  

Em um dado momento, ele começou a falar de anime e mangá e suas respectivas adaptações para o cinema.  Segundo ele, e isso deve valer para as primeiras produções somente, o material foi direto para vídeo.  Citou as adaptações de Black Jack e a versão coreana de City Hunter.  Algo importante que ele levantou é que a penetração dos mangás e animes nos mercados asiáticos produziu uma fascinação pela cultura japonesa, daí o Jpop ter florescido na esteira desse fenômeno.  No entanto, o material coreano, mesmo derivado de produtos originais japoneses, passou a se tornar tão ou mais popular que os nipônicos, e o mercado japonês sendo inundado pelo Kpop recentemente, provocando um fenômeno que ele chamou de pan-asianismo.  Segundo ele, muitos de seus alunos em Singapura estudam coreano e a esposa dele é viciada em novelas coreanas.  Outo ponto que ele ressaltou foi a dificuldade de produtores norte americanos, que cresceram lendo quadrinhos de super-heróis, conseguirem traduzir os mangás para o cinema.  O exemplo citado foi o famigerado Dragon Ball.


Maus, recomendadíssimo.
Voltando aos filmes, ele fez algumas considerações que devem ter parecido indigestas para alguns.  Segundo ele, os filmes de supers são fenômenos transmídia, isto é operam em diferentes plataformas que se relacionam entre si. Nesse impulso, o que vale mais são os filmes e as ações de merchandising, os quadrinhos em si não teriam mais importância.  Ele chegou a afirmar que os quadrinhos de heróis estariam mortos e que isso seria muito bom, porque as pessoas estão descobrindo que outros tipos de quadrinhos.  Para ele, o futuro dos super-heróis estaria no cinema e na TV, em seriados como Smallville, mas, ainda assim, seriam coisas cansativas e repetitivas.

Para fechar, ele conseguiu lançar outras luzes sobre o fenômeno Maus, de Art Spiegelman, um produto tipicamente underground, autobiográfico, e que normalmente passava despercebido.  Ele citou inclusive que Crumb era mais famoso na França do que nos EUA e que a própria Trina teria publicado neste país com mais sucesso que nos EUA.  O que fez diferença no caso de Maus foi que, por algum motivo, ele fez dinheiro e, segundo Gordon, isso faz toda diferença nos EUA.  E não se trata de desqualificar Maus, neste caso, qualidade e lucro se encontraram.  


Allison Bechdel foi citada por todos os conferencistas.
Eu não tinha pensado nisso, quando li e comentei várias vezes que Maus conseguiu ser bem-sucedido em um terreno que era típico da produção feminina, só que elas eram invisíveis.  Hoje, gente como Marjane Satrapi e Alison Bechdel conseguem destaque e muita gente acredita que quem inventou esse tipo de quadrinho foi Spiegelman.  Aliás, segundo Gordon, Art Spiegelman detesta que seus quadrinhos sejam rotulados de graphic novel, ele defende que faz comics e, bem, que comics não é somente o mainstream. Ufa!  Curioso é que ele falou muito e conseguiu ainda deixar tempo para perguntas.  Um sujeito foi perguntar sobre filmes de heróis, citou Mad Max, e disse que Mel Gibson era americano.  Ian Gordon não gostou e comentou que quando australianos e neozelandeses acertam, eles são americanos, quando erram, as pessoas se lembram que eles não são... 

Por fim, na sexta-feira o congresso fechou com a Trina Robbins falando das cartunistas norte americanas.  Ela usou imagens de seu livro Pretty in Pink e eu já conhecia tudo aquilo.  A questão é, para a maioria das pessoas era novidade e o tradutor não conseguia repetir a maioria dos nomes das autoras.  A palestra estava cheia, coisa difícil levando-se em conta que era o último dia do evento.  Durante as perguntas, Robbins também fez questão de reforçar o papel da internet para a divulgação do trabalho das mulheres quadrinistas, que elas podem fazer mais do que quadrinhso de supers e que não vale muito a pena sonhar com eles, apesar de coisas legais aparecerem, às vezes, como Miss Marvel.

Foto com a Trina Robbins na primeira noite (18)
Foi uma palestra gostosa e complementou a fala mais restrita da quarta-feira.  O que eu espero é que as pessoas passem a atentar para a produção feminina, as práticas de exclusão – como consumidoras e produtoras de quadrinhos, e outros mecanismos que conduzem ao esquecimento.  Eu realmente acredito que as sementes estão lançadas, mas que o caminho é longo.  Olhei por alto todas as mesas e vi muito pouco de trabalhos sobre produção feminina, zero uso da categoria gênero nos títulos, e nada de feminismo.  Vale ressaltar, também, que proporcionalmente havia muito pouca coisa sobre mangá.

Minha mesa, por exemplo, reuniu quatro trabalhos sobre mulheres artistas ou personagens femininas.  O meu falando de mangá-kas e seu papel a indústria; o da Dani Marino sobre a publicação de Misty no Brasil, um quadrinho da Trina Robbins e que a edição brasileira teve mais números do que a norte americana; um trabalho sobre BDSM e Mulher Maravilha e outro sobre a Fênix/Jean Grey dos X-Men.  Esses dois últimos trabalhos de moças da graduação e que estão buscando um caminho.  Espero que amadureçam em bons TCCs ou algo mais.


Minha sessão de comunicações na quarta-feira.
A única outra mesa que eu assisti foi a da Natania, na terça-feira.  Aprendi um monte sobre Jacques Tardi e preciso ler mais coisas sobre ele.  Conheci, também, a Mara do Mais de Oito Mil.  Confesso que foi muito emocionante, afinal, sou leitora antiga do blog.  Ela me honrou com sua presença na minha sessão de comunicações.  Encontrei, também, as moças do Studio Pau Brasil (Studio PBR) que fizeram a capa do meu livro com o Prof. Amaro Braga.  Elas estão para lançar um projeto no Catarse, assim que sair, posto aqui no Shoujo Café.

Foi um post longuíssimo, eu sei.  A maioria das fotos vieram do Facebook da Natania.  Ela fotografa muito mais que eu e consegue colocar on line, as minhas fotos, as filmagens do meu marido, estão todas nas câmeras e no celular até agora...  Visitei duas exposições na Pinacoteca, a de mulheres artistas e a da Galeria Tate.  Ambas muito interessantes, mas a da Galeria Tate com dezenas de quadros e nenhum, nenhum único pintado por uma mulher.  Fui, também, pela primeira vez ao mercado municipal.  Passeio caro, mas comi umas frutas tão maravilhosas, como a feíssima atemóia, que eu não iria provar jamais.  E recomendo misturar tâmaras e morangos, o gosto é de chocolate, acreditem!  De resto, não pude encontrar a Lina e isso me entristeceu.  

P.S.: Ia esquecendo, na bolsinha do evento vieram três livros e um zine como presente.  Se formos somar o valor dos três exemplares, talvez chegasse perto da inscrição que paguei, uma das mais caras.  Foi algo inesperado e depois os professores Waldomiro Vergueiro, Nobu Chinen e Paulo Ramos, que estavam a frente da organização, explicaram que se tratava de uma homenagem a três mestres que faleceram em 2014.  Um deles, Moacy Cirne, outro, Elydio dos Santos Neto, o terceiro, vou confirmar, porque comprei tanto livro e posso me confundir.  Não quero matar ninguém.

GOSTOU?

1 pessoas comentaram:

já ouviu falar de Ishinomori ?
http://www.valinor.com.br/forum/topico/curiosidade-mangaka-no-guiness-book-31-01-2008.80639/

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