quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Se não pode ler o clássico, não leia nada...


Estava aqui preparando outro post quando me deparei com essa matéria da Folha de São Paulo "Pais de alunos reclamam de palavrões em livro usado por colégio de SP".  Uma escola de elite em São Paulo - cara, bem posicionada nos rankings do ENEM e outros - recomendou para leitura no 6º ano uma versão em quadrinhos francesa de Oliver Twist publicada pela editora Salamandra.  O original é muito pesado para crianças de 10, 11, 12 anos, eu diria, há versões recontadas, eu mesma li uma na adolescência, mas o uso do quadrinho é uma opção excelente, também.

Para quem não conhece a história, Oliver Twist é um menino órfão que come o pão que o diabo amassou três vezes na Inglaterra do início da Era Vitoriana.  Um dos motivos da sua desgraça é que sua pobre mãe o pariu em um abrigo público, morreu em seguida e, bem, roubaram-lhe a aliança, logo, ele era filho de mãe solteira, uma mulher sem valor, ou mesmo uma prostituta.  


Para mim, a obscenidade na obra de Dickens era a fome e as diversas torturas sofridas por Oliver e outras crianças de sua época.  Ao contrário de Oliver Twist, que conheci por livro, já adolescente, lembro bem de como me marcou o filme baseado em David Copperfield. Ele era criança como eu, vulnerável, só não era menina, por isso Jane Eyre me tocou mais.  As chicotadas que ele levava do padrasto, o trabalho forçado na fábrica, a escola infernal, era um filme de terror... Enfim, mas voltemos para Oliver Twist e as crianças paulistanas... 

Os pais das crianças dessa turma, ou pelo menos alguns deles, acham impróprio que se toque nesse assunto com crianças e pré-adolescentes.  Talvez, porque prostitutas não existam em seus mundos, mas, principalmente, porque o tradutor, Luciano Vieira Machado, optou por usar uma corriqueira expressão de valor semântico importante, e que suscita discussões diversas, como as de gênero, até, "puta".  Imagino que esta expressão também nunca tenha roçado os pudicos ouvidos de suas crianças. 

Um pai questiona:  "Que tipo de valor e que tipo de leitor se quer criar ao substituir uma obra-prima da literatura inglesa por esse gibi! A obra tem alguns palavrões e consideramos a literatura imprópria para a idade".  Lá nos comentários, uma mulher diz "Se o garoto não consegue ler o Oliver Twist original, então não é a hora e pronto. Essas adaptações para história em quadrinhos são ruins e para adultos.".  

O mundo gira, gira, gira e parece voltar ao mesmo lugar.  É possível discutir se um material é adequado?  Se tem qualidade?  A resposta é "sim", duas vezes.  É possível reduzir essa avaliação à presença de um palavrão?  Claro que não é.  Infelizmente, as pessoas são (falsas) moralistas, querem se eximir até de discutir coisas tão importantes com suas crianças, desejam mantê-las em bolhas.  O mesmo pode ser invocado no horror da menção ao tal bandidão Playboy em provas de duas escolas particulares do Rio.  Deveriam se revoltar de ter que fechar as escolas e comércio, guardar luto por um bandido, não que a realidade do dia-a-dia das crianças, devidamente contextualizada, apareçam nas provas.

De resto, ai de mim se tivesse que esperar a maturidade para ler os clássicos integrais, se não tivesse tropeçado em clássicos em quadrinhos, biografias de artistas e escritores, de livros da Bíblia e os tais clássicos recontados.  Enfim, esse é o mundinho que quer evitar as discussões de gênero nas escolas, que quer banir Will Eisner das bibliotecas escolares, que acredita que quadrinhos destroem a boa literatura, que ignora que um dos maiores eventos acadêmicos sobre quadrinhos das Américas aconteça em São Paulo a cada dois anos.  Imagino que o cinema deve ser um problema, também, afinal, simplifica, modifica, reinterpreta obras literárias desde que foi inventado.  Se esse pessoal descobrir que até tese de doutorado em quadrinhos alguém ousou defender...  Ainda bem que a escola decidiu não ouvir os tacanhas e vai promover um debate entre o tradutor e os alunos e alunas.

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