sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Se Marido não é previdência, esposa não deveria ser empregada doméstica


Ontem não tive tempo de postar nada.  Muito trabalho para fazer e ainda estava um pouco adoentada, eu acho.  De qualquer forma, preciso comentar uma notícia de ontem e cruzar com outra de hoje.  Vamos lá:

Uma dona de casa italiana pode pegar até 6 anos de cadeia por ter sido acusada pelo marido de maus tratos.  Segundo o The Telegraph, o cidadão foi até a delegacia acusar a esposa de não fazer o trabalho doméstico de forma adequada, não limpando a casa como ele desejaria, e, também, de não colocar a mesa da forma correta.  Ao invés da polícia mandar o sujeito para casa e arrumar o que fazer, como dividir as tarefas domésticas, ou pedir o divórcio se para ele tais coisas são fundamentais, enquadrou a esposa no artigo 572 do código penal italiano.  Imagino eu, que tal artigo tenha sido criado para proteger crianças e mulheres da violência doméstica, mas, agora, serve para marido machista agir com a conivência da polícia igualmente machista.

Pois bem, para completar a notícia da Itália, um desembargador brasileiro negou uma apelação feita por uma mulher em uma ação litigiosa de divórcio.  Ela pedia uma pensão maior alegando que abriu mão da carreira e dos estudos para cuidar do marido e ajudá-lo em seus negócios.  Alegou, também, que a pensão oferecida – 1700 reais – estava muito abaixo das necessidades do filho do casal e dela mesma e que o marido possui muitas posses e as ostenta, ao contrário do que afirmou em juízo.  Enfim, um desembargador negou o pedido e ainda arrematou “Marido não é previdência”.  Agora, olhe a figura abaixo, ela foi veiculada ano passado por um importante escritório de advocacia e gerou grande polêmica:


Trocando em miúdos, a imagem louva a dupla jornada de trabalho feminina – aquela que justifica que nos aposentemos mais cedo – e é muito perspicaz ao afirmar que uma esposa é muito barata, afinal, se desdobra em multitarefas e "não cobra NADA".  E se começarem a usar leis sobre maus tratos para nos punir quando não aceitarmos ser empregada doméstica, babá, office girl, psicóloga, secretária, enfermeira, em alguns casos motorista etc., vai sair mais caro ainda para nós, as mulheres.  "Homenagens" assim representam uma infantilização dos homens?  Sem dúvida, mas, também, o desnudamento das relações de dominação e apropriação do trabalho das mulheres.

Primeiro, e não sou eu que estou criando isso, muitas autoras feministas discutem a questão desde pelo menos os anos 1970, o trabalho feminino, aquele feito no espaço doméstico, não é visto como trabalho, mas como dom.  Algo que os homens e demais membros do grupo familiar podem se apropriar e que a mulher não deve negar.  A mulher pobre é adestrada para isso desde a infância, basta pegar os estudos que apontam para as horas de trabalho doméstico executadas por meninos e meninas no país.  E se um menino gosta ou é colocado para ajudar nos trabalhos domésticos isso pode representar a morte nas mãos do pai machista ou críticas à mãe por submetê-lo a fazer tarefas de menina.  Onde já se viu????  Os papéis de gênero não são naturais, eles são aprendidos desde cedo, reforçados por discursos e práticas.  No espaço doméstico – mesmo que a mulher tenha, também, função pública, trabalho remunerado, profissão – ela existe para servir.


Alguém poderia argumentar que mulheres de classe média alta não passam pelo mesmo tipo de exploração que as pobres.  Sim, mas sofrem exploração, também.  Uma mulher de classe média alta é uma poderosa relações públicas do marido, organizando, às vezes, sua agenda, jantares de negócios, servindo para ajudar na boa propaganda como bom pai de família.  Há uma seqüência do  (*excelente*) filme O Sorriso de Monalisa mostrando que nas boas faculdades femininas dos anos 1950 havia aulinha ensinando isso tudo e muito mais que uma boa esposa deveria saber para colaborar para o sucesso do marido.  Afinal, você pode até não cozinhar o jantar, mas precisa saber supervisionar tudo.

Enfim, conheço casos de mulheres de classe média, não classe média alta, mas professoras, como eu, que abriram mão de fazer mestrado, doutorado, para que o marido pudesse estudar primeiro.  Elas pegando mais aulas, eles menos; elas cuidando da casa e dos filhos, para que o cabra pudesse estudar, ir para congressos.  O sujeito defende o doutorado, se emprega em uma universidade, e dá o pé na bunda da esposa, trocando-a por outra ou outro.  Já ela, que trabalha e não precisa de pensão, afinal, marido não é previdência, fica com uma pequena pensão para os filhos.  Os anos de sacrifício não são contabilizados, afinal, marido não é previdência.


Falando nessa mulher de classe média e além, ela pode até explorar outras mulheres, mas ela não está em posição de igualdade com os homens.  Aliás, um divórcio – como o do caso citado na notícia – pode prejudicar de imediato muito mais a “dondoca”, para quem várias pessoas torceriam o nariz, do que a mulher pobre que empregada, ou subempregada, muitas vezes tem melhores condições de subsistência – apertada, no limite – do que a mulher que foi empurrada para a condição de braço direito (*até que o marido dela não mais precise*) misturada com troféu.  Por isso, muitas mulheres de posses preferem suportar situações de abuso, ou casamento falido, porque, bem, sabem que na partilha dos bens sairão muito prejudicadas, isso, claro, se o caso não for parar nas mãos de um amigo do marido.

O que eu quero dizer, é que é a exploração das mulheres, a apropriação do nosso tempo e trabalho, atravessa as classes sociais e a leitura machista das relações de gênero feitas pelos operadores do Direito pode agravar ainda mais essa situação.  Mas é isso, dois casos lamentáveis, ou três, se pegarmos a imagem, já bastam para azedar o dia.  Só um conselho, se é que posso dar algum, cuidado com essa história de abrir mão de estudo, trabalho, para viver um grande amor.  Pode parecer lindo, pode até ser lindo, mas é confiar sua vida nas mãos de outro e, bem, isso é muito perigoso.  Para mim, um perigo que eu jamais gostaria de correr.


P.S.: A matéria do The Telegraph seguia comentando outro caso polêmico da justiça italiana, que não se liga bem ao assunto do post, mas merece ser citado para quem não lê inglês: Um tribunal de Palermo, Sicília, absolveu um patrão da acusação de assédio sexual feito por três funcionárias.  Segundo a queixa, ele costumava fazer piadas de duplo sentido, apalpar os seios e as genitais das mulheres e coisas do gênero, durante o expediente.  O tribunal absolveu o sujeito argumentando que o senhor de 65 anos padecia de “um imaturo e inapropriado senso de humor, misturado com um velado abuso de poder e de uma forma ainda inadequada de estabelecer relações hierárquicas no escritório”.   Está bom para vocês?  Para mim, é o inferno.


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3 pessoas comentaram:

Incrível seu texto! Ainda não consigo ventender como que depois de tantos avanços, a mulher continua sendo tratada como ser inferior, por supostas diferenças de força, por exemplo, supostas características femininas, tais como a delicadeza e o amor ao lar.
É incrível como a justiça deixa passar uma situação perversa e aburda como as acima citadas e ver com maus olhos a situação da mulher.
Parabéns pelo texto. Acho que falar e refletir sobre o assunto é também uma forma de abrir os olhos da sociedade para quem sabe um dia alcançarmos uma mudança definitiva, na qual a mulher seja tratada com mais respeito e dignidade, como merece.
www.isabelasantiago94.blogspot.com

Aí volta aparece alguém na grande mídia falando mal do feminismo e do dizendo q é algo q "estragou as mulheres". O feminismo fez muito por todas nós inclusive as que hoje não acreditam nele. Uma parte da luta foi vencida, entramos no mercado de trabalho, falta ainda acabar com as diferenças salariais; e com essa cultura q mulher trabalha e cuida da casa e o marido "ajuda", chegou na hora d dividir e cobrar essa divisão.

O dorama Twenty Again deixa a situação que você comentou, sobre a mulher sacrificar seus estudos para ajudar o marido a melhorar sua formação, mostra exatamente isso (e como o cara é um canalha, depois de tudo...). É um dorama muito bom, recomendo!

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