quinta-feira, 12 de maio de 2016

Coisas que eu não consigo entender

"Faculdade é para garotas feias que não conseguem contratos como modelo."
"Não, faculdade é para mulheres que não querem casar com o
primeiro idiota que encontram e carregar suas crianças pavorosas."
Talvez por conta de algum problema de ordem cultural, afinal, engana-se quem acredita que existe uma coisa homogênea chamada "Civilização Ocidental" ou, mais ainda "Civilização Cristã Ocidental", e, pior, um movimento feminista no singular, me peguei sem entender bem a revolta de algumas comentaristas em relação a este meme.  Enfim, sigo no Facebook uma página chamada Women's Rights News.  Nem sempre aparece por lá matérias e imagens com as quais concordo ou que eu consideraria feministas.  Esta daí de cima, me fez concordar integralmente, mas causou fúria nas comentaristas americanas. Sim, até o momento - e lá se vão duas horas da postagem - só houve um comentário positivo, o meu e eu só o fiz, porque fique muito perplexa com as reações.  Escrevi o seguinte:
"Thanks for this meme. It's not necessary to know That '70s Show to understand that is not advisable marry an idiot (*that's the point*) in any situation and even more dangerous if you are very young and have not completed your education. It's true in Brazil and I think it works everywhere. In fact, I'll say this kind of thing to my daughter as soon as she can understand this kind of thing. Mommy is happy being a mother, but is even happier to be given the choice." (Obrigada por este meme. Não é necessário conhecer That '70s Show para entender que não é aconselhável casar com um idiota (*esse é o ponto *) em qualquer situação e ainda mais perigoso se você é muito jovem e não concluiu a sua educação. É verdade no Brasil e eu acho que funciona em todos os lugares. De fato, eu irei dizer esse tipo de coisa para a minha filha, logo que ela possa entender esse tipo de coisa. Mamãe é feliz por ser mãe, mas é ainda mais feliz por ter tido o direito de escolher.)
Para as comentaristas da página em inglês a postagem é ofensiva às mães, que são mães com orgulho, que amam o que fazem e às mulheres que decidiram ser donas de casa.  Houve até quem dissesse que é ofensiva com as pessoas de classes menos favorecidas.  Fiquei me perguntando se mulheres pobres ou muito pobres não vão para a faculdade por não quererem, ou por não poderem.  Aqui, no Brasil, eu saberia responder sem problemas.  

Elenco inicial de That '70s Show
Bem, o foco do meme – e você nem precisa conhecer That '70s Show para entender – é que um idiota está julgando as mulheres a partir do conceito distorcido que tem sobre todas elas e uma garota lhe responde à altura, afinal, ele é o idiota com quem nenhuma mulher deveria casar, ainda mais ao terminar o colegial, ou ainda antes disso por ter engravidado dele. Será que é ser discriminatória dizer que casar sem nenhuma profissão ou formação com um idiota qualquer e ter seus filhos, isto é, colocar-se em situação de extrema dependência e fragilidade, é ofender mães, donas de casa e, claro, os (pobres) homens? Acredito que não seja.

O drama do casamento precoce é algo que prejudica meninas no mundo inteiro.  Há estudos, há gráficos, há muitos projetos para tentar evitar esta tragédia, especialmente, em países subdesenvolvidos.  E não estou considerando precoce somente aquilo que a ONU considera, isto é, casamentos de meninas com menos de 18 anos, mas o fato de muitas mulheres muito jovens casarem e engravidarem antes mesmo de ter oportunidade de sonhar com algo diferente.  Aliás, estava lendo umas respostas da Petra Leão no Ask, ela é redatora da Turma da Mônica Jovem, para fãs que reclamavam da Mônica estar namorando outro sujeito que não seja o Cebolinha.  A Petra fez excelentes comentários que bateram exatamente com o espírito do meme: 
"E eu não gosto e nem desgosto que a Mônica esteja com o Do Contra também (eu acho interessante escrever tanto a dinâmica da Mônica com o Cebola quanto com o Do Contra). Mas fiz porque achava que era algo importante pro crescimento tanto da Mônica quanto do Cebola como personagens." 
Mônica entre dois amores.
"O primeiro é que na época as pessoas tinham parado de torcer pelo casal. Tava todo mundo falando "ai que saco, todo mundo sabe que a Mônica e o Cebola vão ficar juntos mesmo, que previsível, não aguento mais esses dois."  O segundo é que precisava acontecer algo pra estimular o desenvolvimento do Cebola, fazê-lo amadurecer e crescer como personagem. Muita gente dizia que eu fazia o Cebola "muito malvado", mas eu só mantive a personalidade que ele já demonstrava ter como criança -- pra ele ser o cara legal que todo mundo queria que ele fosse, ele precisava passar por algo que o obrigasse a amadurecer. E a perda da Mônica foi esse gatilho pra ele melhorar como pessoa.  Sei que muita gente queria que eu fizesse a Mônica e o Cebola ficarem juntos logo de cara, mas eu achava que isso passaria uma mensagem péssima -- a de que um moleque pode zoar uma garota a vida inteira e ainda assim tudo bem ela ficar com ele. Fora que a gente não tá no século XIX, sempre achei necessário mostrar que é normal uma menina não ficar com um só cara a vida toda." 
Vejam só, quanta coisa importante ela escreveu.  A primeira é que uma menina, ou mulher, não tem que aceitar ficar com um sujeito babaca só porque acredita que ele é o amor da sua vida, ou porque o povo acha que eles fazem um belo casal. Uma das críticas pertinentes que muita gente faz ao shoujo mangá, ou, melhor dizendo, essas séries que o povo adora fazer scanlations e são muito populares, é que a mocinha parece desesperada em ficar com o sujeito, mesmo quando ele é um babaca que a humilha e mesmo a obriga a fazer coisas que não deseja, porque, bem, ela tem uma necessidade louca de casar com ele e, lá no fundinho, lá no fundinho mesmo em vários casos, ele a ama.  Pensem Itazura na Kiss  (イタズラなKiss) e eu estou escolhendo um exemplo clássico e consagrado, poderia pegar umas coisas realmente pesadas para ilustrar o argumento.  Olha, pessoal, isso não é saudável, não.  E quadrinho é material com função pedagógica e que fique claro que não no sentido formal, mas por discutir valores, apresentar modelos.  As perguntas que a Petra recebe apontam para isso.

Itazura na Kiss e a recompensa da protagonista.
Outra coisa que a Petra pontuou é que o sujeito precisa amadurecer e que a porta está aberta para aceitá-lo se ele se tornar uma pessoa melhor.   Obviamente, em TMJ, isso vai rolar.  Na vida real, nem sempre.  Nenhuma mulher deve se colocar na posição de salvadora, muito menos acreditar que casando o sujeito melhora.  E eu acredito em redenção, já escrevi várias vezes aqui, por isso mesmo, meu casal favorito de novelas hoje é a Maria e o Celso de Êta Mundo Bom.   E gosto cada vez mais dos dois.  Por isso, também, um dos meus mangás favoritos de todos os tempos é Waltz wa Shiroi Dress de (円舞曲は白いドレスで) e sua continuação Magnolia Waltz (白木蘭円舞曲), da Chiho Saito (*resenha aqui*).  

Vejam bem, quem precisa se esforçar para melhorar e mudar é o sujeito, ele, não a moça, ela não tem o dever de abaixar suas expectativas, porque, bem, ela não será feliz sem ele.  De sujeitos imaturos e/ou abusivos e/ou manipuladores, a gente corre e aconselha as amigas a fazerem o mesmo.  Agora, se ela quiser, é com ela, mas a gente não deveria ficar estimulando esses comportamentos.  Algo que a ficção, especialmente aquela voltada para mulheres, adora fazer.


Shoujo Kakumei Utena ou Como trata um idiota.
A Petra também lança uma outra idéia importante: "(...)  a gente não tá no século XIX, sempre achei necessário mostrar que é normal uma menina não ficar com um só cara a vida toda".  Obviamente, qualquer pessoa pode sonhar em encontrar um amor verdadeiro e com ele ficar por todos os seus dias.  Não há nada de errado em se casar com o/a primeiro/a namorado/a, como esta pessoa que escreve fez, mas é muito ruim vender isso para as meninas - e somente para elas, veja bem - como o ideal.  

Nos EUA, entre esses grupos da linha "Quem Ama, Espera", é terrível ver como se trabalha na cabeça das meninas, especialmente delas, por que na cabeça desse povo virgindade é selo de garantia de futuro feliz e hímen lacre de segurança, que ter mais de um namorado, beijar mais de um cara (*ou até beijar*), pode tornar você impura.  Quem quer um tênis velho?  Quem quer beber água do mesmo copo que outros tantos já beberam.  É triste isso.  Bom ver que TMJ está colocando certas discussões em pauta, mesmo com as limitações impostas ao produto.  Waltz, que eu citei, também discute esta questão com uma heroína que se casa três vezes ao longo da trama e se apaixona por todos eles, cada um na sua vez, ou quase, e isso em uma história de época - Anos 1930 e 1940.
"Cinderella perdeu seu sapatinho, não sua VIRGINDADE.
Você não precisa fazer SEXO para encontrar seu príncipe",
mas, se fizer, isso não quer dizer que você mereça um sapo.
Voltando ao meme do Facebook, porque este texto tomou rumos muito estranhos, se as criaturas conhecessem o seriado (That '70s Show), as personagens e o contexto das discussões que rolavam lá, deveriam ter ainda mais vergonha de ficar reclamando do meme, ou, pelo menos, esta brasileira aqui acha isso.   Donna (Laura Prepon) era uma garota decidida e feminista, inteligente e meio tomboy, tendo que lidar com uns amigos muito imaturos e um namorado bem banana,  Eric (Topher Grace), incapaz de enfrentar o pai autoritário e conservador e tomar uma posição diante da vida. Imagino a desgraça se eles casassem depois do baile de formatura do colegial. Já o Kelso (Ashton Kutcher) era o idiota da turma, burrinho, e incapaz de falar qualquer coisa que fizesse muito sentido.  Era um rostinho bonito e um corpinho pegável, por assim dizer.  

A série se passava no fim dos anos 1970 e mostrava os dramas de então.  O meme aponta para isso.  Muitas meninas americanas eram a Donna, muitas queriam ser e não podiam, porque eram castradas.  Fora isso, Donna era grandalhona, muito diferente do tipo mignon fragilzinho ideal.  Das temporadas que eu assisti, ela era a minha personagem feminina favorita.   E o modelo de dona de casa frustrada, apesar da felicidade da maternidade e de amar o marido, era a mãe do Eric (Debra Jo Rupp), enfrentando a menopausa, convivendo com um marido insensível e bebendo para esquecer.  Certamente, a Donna não ia querer seguir os passos da sogra.

Donna era muito legal.
Sei lá, ainda estou tentando entender a reação, mas isso rendeu um post inesperado, bem inesperado até.  De resto, vale ler o Ask da Petra Leão.

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1 pessoas comentaram:

Eu não gostava d That 70`s Show justamente por esses personagens escrotos tipo o do Ashton Kutcher. Itazura na Kiss eu assisti até um certo ponto e sabe eu gostava da Kotoko ela era decidida e determinada naquilo que queria, mas o tal do Irie-kun além da machista e abusivo parecia ser aquele tipo d pessoa q detestava a humanidade sem motivos. Nos EUA praticamente quando você planeja o seu filho já tem q ir juntando poupança para faculdade dele. Embora, eu ache q alegar preconceito com as donas de casa ou as classes mais baixas justifique censura a críticas construtivas contra essa idealização de mulher dona de casa martir e realizada q parece q voltou com novamente aqui no Brasil e quiça nos EUA(ou nunca sumiu) vender isso como sonho d consumo inquestionável é no mínimo assustador. Não vejo preconceito nenhum no meme, mas parece q realmente vivemos numa caça as bruxas q nos impede d discutir ideias, por exemplo esses dias em uma página feminista no face o pessoal se ofendeu pq disseram q ser mãe d bicho não é msm q ser mãe de gente. Ninguém é obrigado a ter filhos, mas óbvio q cuidar d animal msm com todo o carinho, não é o msm q cuidar d criança q possui muito mais necessidades e sacrifícios pelos cuidados.

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