sexta-feira, 3 de junho de 2016

Aventuras de uma mãe no parquinho

Parquinho muito parecido com o que eu frequento.
Post meio off-topic de quem não tem tempo de escrever aquela mega resenha de X-Men que precisa.  Só que preciso desabafar um tiquinho.  Toda terça e quinta, mais sábado ou domingo, vou com a Júlia ao parquinho.  Ela consegue fazer uma série de coisas que eu não conseguia fazer, que era castrada ou incentivada a ter medo. Eu, mesmo com medo, opto por fazer o contrário, mas estou sempre por perto, metida na areia, sentando no chão e tudo mais.  As outras mães e pais, salvo se a criança é muito pequena, ficam fora olhando, normalmente, os celulares.  

OK, era mais uma tarde normal, ou parecia ser, terça-feira estava no parquinho com a Júlia e havia uma menininha de 4 anos lá.  Insegura, com a mãe dando pitaco no que ela fazia.  "Escorregue como uma mocinha!"  A Júlia estava escorregando de ponta a cabeça, a menina queria fazer algo diferente, também.  O que é escorregar como uma mocinha?  Alguém me explica?  

Minha escaladora.
"Não suba aí, você é muito gorda!"  A menina era cheiinha, só isso.  Estava lembrando daquela pesquisa que aponta que muitas meninas já tem problemas de autoestima aos 3 anos. Se acham gordas, principalmente, e meninas gordas, vocês sabem, não são bonitas.  "Você está toda suja de areia!"  Céus!  A criança está no parquinho.  A minha vira a própria menina de areia!

Tudo aquela mãe castrava, tudo interferia para rebaixar a autoestima da menina.  Depois, me vira para mim e diz "A sua filha não tem medo de nada, né? A minha é toda medrosa, não faz quase nada."  Eu disse que Júlia não tinha medo realmente, na maioria dos casos, mas que era necessário incentivar... "Ah, mas eu incentivo a minha!  Ela é que não consegue fazer nada..."  Eu respirei, estava com tanta pena da menina, estava ajudando ela a fazer certas coisas e tal e disse "É, deve ter a ver com personalidade..."  Ontem estava torcendo para ela não estar lá, eu poderia ter um rompante e acabar falando o que não devia.  Pena dessa menininha, muita mesmo... 

O importante é ser uma princesa... desde que você não seja gorda, claro!
Daí, a menina cresce, ela se acha incapaz de fazer um monte de coisas, ela tem medo de tudo, ela se fecha no mundo de princesa, que ela não é digna de ser, porque é gorda, enfim, eu estava projetando tudo isso na minha cabeça.  Estava lembrando, também, de mim, que tinha uma mãe super cuidadosa cujo maior orgulho era que nem eu, nem meu irmão  (*ele também sofria com as castrações*), tínhamos quebrado nenhum osso na infância.  Como dizia minha orientadora de doutorado, você arranca as asas da barata, ou corta as asas do passarinho, daí, eles não conseguem voar e você diz "Está vendo, é porque ela não quer!".  

Há fatores de personalidade, sem dúvida, mas as crianças são moldadas.  Damos exemplo, direcionamos os comportamentos (*de gênero*), celebramos a coragem dos meninos, cada salto, cada ousadia, "Meninos são meninos!" e exigimos que as meninas façam isso, ou aquilo, como mocinhas.  Depois, reclamamos delas, as culpamos quando elas crescem exatamente do jeitinho que a gente impôs: inseguras, frágeis, incapazes de lutar ou resistir.  Gênero é ensinado, é criado, é construído no dia-a-dia.  Triste, mas é isso.

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1 pessoas comentaram:

Bacana você suscitar uma reflexão desse tipo, porque, infelizmente é algo que está fortemente enraizado na cultura de educação familiar brasileira. Eu fui e sou um exemplo claro desse equívoco protetivo materno: minha mãe sempre me poupava de "brincadeiras perigosas" (leia = não descer no escorregador e qualquer jeito, não subir em árvores, não brincar de esconder ou 'picula'o tempo todo..)ou qualquer outra que eu tivesse interesse, mas, que não era direcionada para mim, como os jogos tidos por masculinos e isso me tolheu muito. Depois que entrei na fase adulta foi que ela se deu conta que eu não passeava e nem me divertia como outros jovens da minha idade e sentiu-se confortável em simplesmente atribuir o fato a meu jeito medrosa e insegura de ser. Passou a querer que eu fosse mais extrovertida, sociável e aventureira, como se sempre me estivesse estimulado!(risos)
Hoje rio e posso dizer que sobrevivi, mas com uma infância cheia de princesas e bonecas que nunca sequer pareciam comigo; grades e quase nenhum arranhão e nem braço engessado - ou seja, sem diversão! =P Mas, ainda alimento muitos temores reflexos dessas sabotagens em nome do amor e da manutenção da feminilidade.

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