quarta-feira, 27 de julho de 2016

Backlash, Ficção Científica e a Fixação pelos Aspiradores de Pó


Passei os últimos dois dias preparando minha parte na oficina do Lady’s Comics e acabei me deparando com este artigo Gender Reversal Space Comics (Quadrinhos Espaciais com Papéis de Gênero Invertidos).  Essencialmente, é uma pequena resenha de uma história chamada  “It’s a Woman’s World!” publicada na Mystery in Space #8 (junho-julho/1952).  Os autores – John Broome, Bob Oksner e Bernard Sach – retratam a sociedade humana no futuro, no século 33, quando as mulheres ocupam todos os cargos de poder e prestígio e a vida dos homens é limitada e miserável, exatamente por ser igualzinha aquela sonhada para as mulheres nos anos 1950... 


Para quem não sabe, backlash quer dizer retrocesso e vários backlashes podem ser reconhecidos como fenômenos sociais, econômicos e culturais em diversos momentos da história.  Ainda que passível de serem identificados quando aplicados a outros grupos, normalmente a palavra backlash vai aparecer ligada às mulheres.  Por exemplo, depois dos primeiros meses da Revolução Francesa, com mulheres participando ativamente de quase tudo, inclusive pegando em armas, temos um backlash e elas são empurradas “de volta” para o lar, culminando com o Código Napoleônico, que consolida a inferioridade jurídica das mulheres para além dos discurso religioso.  Outro backlash ocorreu nos anos 1980, daí o famoso livro de Susan Faludi que popularizou o conceito.  E, no caso dessa história de ficção científica trata-se do backlash pós II Guerra, com os homens voltando para casa e as mulheres sendo empurradas para o ambiente doméstico por bem, ou por mal.  Vide o excelente filme O Sorriso de Monalisa.


A graça e o terror desse quadrinho de ficção científica é que ele usa todos os clichês de gênero, começando com a capa retratando uma mulher heroicamente vindo resgatar o indefeso mocinho.  Nos quadros que pude ver, e trouxe para cá, podemos ver a estranha fixação dos autores por aspiradores.  O mocinho da história, o rapaz louro que sonha em ser cadete e desbravar o espaço, está limpando a casa.  Ao expressar seu desejo, ele é ridicularizado pela mãe.  Só que ele não desiste e usa de um artifício que várias mulheres usaram para invadir ambientes masculinos: “Me mostre  onde nos regulamentos está escrito que um homem  não pode ser cadete?”.  E ele consegue entrar.  



Antes de mostrar o seu valor, ele é humilhado, inferiorizado e assediado pelas colegas cadetes.  Afinal, o que ele esperava ao invadir o espaço delas.  Mas ele é o herói e tudo dá certo para ele.  Ele é condecorado e alguém poderia até imaginar que homens e mulheres fossem governar esse novo mundo juntos, em pé de igualdade.  Qual nada!  Lá no fim da história, ele faz questão de passar o aspirador para a jovem esposa e deixar claro que na casa deles, ela é que irá usá-lo.  Já a moça, no último quadro, mostrasse feliz que os homens estejam retomando o comando da sociedade, porque, bem, é assim que deve ser.


E  por quê?  Não espera uma resposta razoável.  O que esse tipo de história revela é o medo absurdo que certos homens têm de serem colocados na situação que eles desejam que as mulheres ocupem ou as forçam a ocupar.  O patriarcado é tão bom e acolhedor que imaginar seu oposto – e eu não percebo matriarcado como oposto do patriarcado com todos os seus problemas – é um pesadelo.  Afinal, quem deseja não poder escolher seu futuro livremente?  Quem deseja ser escravizado às tarefas domésticas?  Quem deseja ouvir todos os dias discursos que defendem que você é menos competente física, moral, emocional e intelectualmente?   Não esses homens, mas eles em nenhum momento vão parar para pensar sobre seus privilégios.


O futuro desse quadrinho  é o mesmo de Os Jetsons.
E por serem tão travados, fora as naves espaciais, eles não conseguem imaginar um mundo que não seja o seu.  As roupas das mulheres são dos anos 1950, sem tirar nem por.  Os aparelhos de limpeza também são idênticos aos de meados do século passado.  Os esportes, idem.  Bilhetes  são escritos à mão, mas estão  lá as naves espaciais, afinal, elas não poderiam faltar, não é mesmo? Enfim, achei a história perturbadora, na medida que expõe os temores masculinos e a misoginia que muita gente carrega até hoje. Há quem sonhe em acorrentar as mulheres ao lar, confiscar-lhes direitos e convencer o máximo de fêmeas possível de que o mundo ideal – para quem é de classe média acima, claro – é aquele no qual as mulheres estão sob controle e acorrentadas aos seus aspiradores de pó.  Aqui, neste site que parece ter publicado todos os quadros da história, diz que essa fantasia machista foi republicada em 1971 com uma resposta muito negativa dos leitores.  Outros tempos... 

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