terça-feira, 19 de julho de 2016

Comentando Agnus Dei (Les Innocentes, 2016)

Irene parte em busca de ajuda.
Ontem fui assistir ao filme Agnus Dei (Cordeiro de Deus), estranho título internacional dado para Les Innocentes, filme dirigido pela francesa Anne Fontaine.  Estranho, porque soaria perfeito se seu título fosse mesmo Os Inocentes.  Trata-se de um filme que vai da selvageria da guerra e da realidade do estupro coletivo (trigger warning pesado, aviso), passando pelo desenvolvimento da verdadeira sororidade até chegar à redenção.  Vamos ao inferno acompanhando a trajetória das protagonistas, uma médica da cruz vermelha francesa e as monjas beneditinas polonesas que ela decide ajudar e, no final, somos tiradas de lá de forma tão convincente e linda que o coração consegue sair confortado apesar de tudo.  E aviso que é um filme feminista, na medida que valoriza a solidariedade entre as mulheres, apresentando-as como seres plurais, não uma singularidade, que celebra a maternidade sem coloca-la como algo natural para todas.  Recomendadíssimo.  Se está passando perto de você, corra!

Polônia ocupada pelos soviéticos, dezembro de 1945.  Mathilde Beaulieu (Lou de Laâge) é uma jovem médica francesa que integra a missão da Cruz Vermelha no país, cujo objetivo é atender franceses feridos, libertados ou perdidos neste país do Leste.  Em um dia de inverno, uma jovem monja lhe pede ajuda.  A médica não lhe dá atenção, diz que só atende franceses, mas a moça permanece horas de joelhos na neve do lado de fora.  Tocada, a médica decide acompanhá-la até a abadia, que fica isolada no meio de uma floresta.  Lá, faz uma cesariana de emergência de uma moça que teria sido acolhida pelas irmãs.  

Como conciliar vida religiosa, violência sexual e maternidade?
Mathilde volta contra a vontade das religiosas para checar a recuperação da moça e termina por descobrir um terrível segredo: várias das irmãs estão grávidas e prestes a dar à luz, porque todas elas, talvez todas as religiosas, sejam jovens ou idosas, foram violentadas por soldados soviéticos.  A partir daí, Mathilde tem que fazer uma série de escolhas e sua forma de ver o mundo passa por grandes transformações.

Les Innocentes é baseado em fatos reais e a verdadeira Mathilde Beaulieu se chamava Madeleine Pauliac, uma jovem médica, tinha somente 27 anos, que comandou a missão da Cruz Vermelha Francesa em Varsóvia.  A protagonista do filme, Mathilde, está em uma posição mais modesta, quase uma residente e subordinada a dois homens, um coronel e o médico Samuel Lehman (Vincent Macaigne), um judeu polonês que só escapou do Holocausto, porque fugiu para a França no início do conflito.  

Mathilde.
Esta é uma parte curiosa do filme, transformar uma mulher que estava no comando em alguém subordinada.  Talvez, a idéia da diretora e dos roteiristas (*três deles mulheres: Sabrina B. Karine, Anne Fontaine e Alice Vial) foi colocar Mathilde em uma situação semelhante a das irmãs.  Elas seguindo regras e costumes, Mathilde tendo que se explicar e obedecer, impossibilitada de tomar todas as decisões que acreditava que deveriam e poderiam ser tomadas.

O filme se alterna entre três lugares basicamente: o posto da Cruz Vermelha, uma taverna onde Mathilde e Samuel costumam beber, conversar e dançar, e o mosteiro.  Há a floresta, algo das ruas, o quarto de Mathilde, mas basicamente, são esses três cenários.  A idéia de fechamento, clausura, é forte no filme, da mesma forma que esses ambientes oferecem algo de familiar, de proteção, que, no caso do mosteiro, não serviu muito para proteger as irmãs.  As sequências que evidenciam o trauma das freiras, por exemplo, quando a noviça vai atrás de uma médica que não seja nem polonesa, nem soviética, ao passar pelos soldados, ela quase perde a coragem, ou quando Mathilde tenta examiná-las pela primeira vez, são muito fortes. 

Seguir vivendo como se nada tivesse acontecido.
A duas personagens mais importantes depois de Mathilde são a Irmã Maria (Agata Buzek) e a madre superiora (Agata Kulesza).  Ambas foram violentadas, mas não engravidaram.  A madre superiora, no entanto, está doente e recusa que Mathilde tente tratá-la.  Ela contraiu sífilis.  Resistente à presença da médica e tentando manter a boa imagem do mosteiro e proteger as irmãs (*Quem iria acolhê-las?  Qual seria o destino do mosteiro se a situação fosse descoberta?*), a madre cometerá alguns atos terríveis.  A madre só aceita Mathilde depois que esta consegue salvar, usando de um estratagema e de muito sangue frio, o mosteiro de um novo ataque dos soldados soviéticos.  Já Maria, começa resistente, sempre obediente à madre e ao longo do filme se revela uma pessoa inteligente, afetuosa e capaz de fazer as escolhas mais sensatas, além disso, torna-se amiga e aliada de Mathilde. 

Através de Maria, Mathilde fica sabendo que o mosteiro foi atacado três vezes pelos soviéticos, que há sete irmãs grávidas para além daquela que a médica atendeu no início, dos horrores, enfim.  A própria Mathilde passa a ter mais compaixão e compreensão da situação vivida pelas mulheres quando é abordada por soldados no meio da estrada.  Sozinha, ela é um alvo fácil.  No entanto, ao invés de desistir, a experiência traumática faz com que ela se sinta ainda mais forte para ajudar aquelas mulheres e manter o seu segredo.  E não pensem que a coisa é fácil, que a protagonista tem tudo à mão e portas abertas para agir como bem quiser.  Tudo é clandestino e perigoso, além disso, os costumes do mosteiro e a dureza da madre superiora dificultam a ação da médica em alguns momentos.

Momento mágico do filme, as irmãs aceitam Mathilde.
Quando falo em costumes, ou superstições até, me refiro, por exemplo, da rejeição das irmãs em serem examinadas.  Aí, junta-se o trauma do estupro e a concepção errônea de que deixar-se ver é pecar contra a castidade.  O fato é que as monjas nunca poderiam se imaginar passando pela terrível situação de uma gravidez indesejada, ainda mais resultante de estupro.  A regra de São Bento, que eu conheço bem, nada diz sobre se deixar examinar ou tocar pelos médicos, aliás, ela é muito ciosa do cuidado com os idosos, jovens, fracos e doentes.  No entanto, não se trata de situação usual, há o trauma, a gravidez indesejada, a vergonha, os tabus sexuais, tudo junto em um combo monstruoso.  Maria, por exemplo, diz em determinado momento do filme que ela, pelo menos, não era mais virgem, tivera uma vida pregressa (*da qual, aliás, não parecia se arrepender*) e que, segundo ela, seu sofrimento fora menor. 

Das irmãs, que aparecem no filme e tem nome, destacam-se: Zofia (Anna Próchniak), que passa pela cesariana e tem seu bebê levado de imediato pela madre superiora, ela terá um fim trágico; Ludwika (Helena Sujecka), que tão traumatizada, irá parir sem nem perceber ou dar-se conta das dores; Irene (Joanna Kulig), a noviça que desobedece e vai em busca de Mathilde, ela é a que mais se revolta contra a dureza da superiora.  Há ainda a monja ruiva que conclui que não quer seguir a carreira religiosa, porque se descobriu na maternidade, apesar da violência, e outra que, enviada à força para o mosteiro pela tia que a criou, romantiza o estupro, acredita que o soldado soviético a amava e a protegeu de ser violentada por vários homens, e larga o bebê para trás no claustro, indo em busca de outra vida.

Como salvar "os inocentes"?
O filme toca em vários temas espinhosos, muitos mesmo, e não vou economizar nos spoilers.  Enfim, o fim trágico de Zofia, e antes dela houve outra monja que morreu, talvez de parto, o filme não volta à questão, é provocado pelas ações da abadessa.  Impedida de cuidar de seu bebê, que a superiora entregou à “Providência”, ela amamenta às escondidas o bebê de Ludwika por recomendação de Mathilde e da irmã Maria.  A médica defende que a madre superiora não entende de recém nascidos e que eles não podem ser separados das mães de imediato.  Quando a superiora descobre, leva a bebezinha, chamada de Helena, embora.  

O que a monja estava fazendo era levar os bebezinhos para um cruzeiro no meio da floresta, promover seu batismo provisório (*porque se acreditava que bebês não batizados iriam para o inferno*) e abandoná-los para morrer.  Tudo com o intuito de impedir que o escândalo fosse descoberto.  Impotenta, a jovem Zofia comete suicídio e precipita a terrível descoberta, afinal, a superiora dizia às irmãs que tinha entregue os bebês para famílias adotivas, ou parentes das jovens.  Descoberta a mentira, Maria se insurge e tenta salvar os três bebês que nascem quase ao mesmo tempo com a ajuda de Mathilde e da monja ruiva.  Apesar do ato terrível da abadessa, que pode ser desdobramento dos sofrimentos da sífilis, as irmãs a acolhem.  Ela perde o poder, mas não é abandonada pela comunidade, afinal, elas sofreram muito, todas juntas e no filme nenhuma mulher é deixada para trás.

Samuel é um poço de revolta e ressentimento,
mas consegue ser terno e solidário.
Falando um pouco da única personagem masculina relevante do filme, o médico Samuel, trata-se de uma sujeito complicado.  No início, ele parece muito machista, sim, ele é um tanto, mas nada que destoe daquele momento histórico.  Grosseiro e um tanto insistente.  O romance dele com Mathilde parece mais fruto dessa insistência, no entanto, eles são acima de tudo amigos.  Ele sofreu muito, é polonês, mas detesta o país, afinal, como ele bem pontua, os únicos poloneses que ele amava morreram no Gueto de Varsóvia.  Não é objetivo do filme, mas através de Samuel podemos vislumbrar que a Polônia, apesar da violência sofrida nas mãos da Alemanha e da URSS, não é de todo inocente.  O país tinha um governo fascista e era profundamente antissemita.  

Samuel tem muito rancor e não esconde isso, nem quando Mathilde rompe seu silêncio e pede sua ajuda, pois duas irmãs entraram em trabalho de parto ao mesmo tempo. Ele trata a madre superiora com profundo desprezo e raiva, a mesma que expressa quando Mathilde lhe pergunta o que ele acha que será feito da Igreja polonesa sob o domínio soviético.  De resto, ele julga mal Mathilde.  Como ela é silenciosa, comedida, muito bem educada, ele acredita que ela é de família católica e burguesa, ela, no entanto, é filha de operários comunistas e é atéia.  Seus pais se esforçaram para que ela se tornasse médica e não ficaram satisfeitos de vê-la se juntar à Cruz Vermelha antes mesmo de se formar.

Maria, uma monja com passado, coração, inteligência e até humor.
Enfim, as relações entre a URSS e os demais ex-aliados estão se deteriorando e, por conta disso, a missão francesa precisa partir.  Mathilde tenta ajudar as irmãs o máximo possível e ela e Maria conseguem descobrir uma forma de esconder a tragédia que se abateu sobre o mosteiro.  Há um grupo de criancinhas abandonadas e órfãs que vivem nos arredores da missão francesa, ambas recolhem a meia dúzia de meninos e uma menina e os levam para o mosteiro.  Assim, o lugar ganha uma função social, as jovens monjas podem manter seus bebês consigo sem levantar suspeitas, e, de uma certa forma, promove-se a cura da comunidade, ainda que não para todas as irmãs.  O filme tem esse mérito, ele nos leva ao inferno e nos tira de lá, terminei com quase lágrimas, apesar da sombra sinistra e das incertezas que o novo governo comunista poderiam lanár (*na verdade, lançaram*) sobre a Igreja Católica na Polônia.

É isso!  O filme cumpre espetacularmente a Bechdel Rule e consegue ser feminista na medida que promove a solidariedade e compreensão entre as mulheres.  É um filme aliás, com muitas mulheres na produção.  Além da diretora, das roteiristas, a responsável pela montagem (Annette Dutertre)  e fotografia (Caroline Champetier).  E os inocentes do título, é bom dizer, são tanto os bebezinhos, quanto as irmãs, vítimas de uma violência indescritível.  Bom ressaltar, também,  que tudo é resolvido pelas mulheres que se ajudam e se organizam, os homens do filme não tem ingerência ou poder sobre elas, os que teriam, autoridades religiosas como o bispo, por exemplo, são ausentes. Se cooperação,  sem sororidade, elas estariam perdidas,  mas elas encontram forças em si mesmas para irem adiante. É isso. Espero que a produção seja indicada ao Oscar de melhor filme estrangeiro, além de outros prêmios importantes, pois merece. 

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2 pessoas comentaram:

Valéria, suas resenhas de filmes (infantis a dramas) são excelentes! Já havia comentado isso em algum post anterior, gosto muito da forma que você resume o filme, analisa questões sociais e emite a sua opinião pessoal. Lendo essa resenha, eu me emocionei com a história das monjas, fiquei com lágrimas nos olhos...

Quero agradecer pelo seu esforço com o site e mandar um abraço à sua pequena!

Muito obrigada. Engraçado que no celular é possível responder comentários. Se eu pudesse, resenhas mais. 😊

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