sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Novelando: A Terra Prometida, suas mulheres e o pior uso do ferimento do herói possível


Nunca fiz nenhum post sobre A Terra Prometida, a novela da Record, mas muita gente parece comentar a novela no Twitter como se fosse uma encarnação do texto sagrado, ou de um culto solene (*basta seguir a hashtag e comprovar o que eu escrevi*).  Assisto o programa desde o início, mas não me sinto lá muito estimulada a escrever sobre ela.  Já estive no quase várias vezes, mas resisti, achei que não valia  a pena.  Aliás, nem comentei o final de Os Dez Mandamentos, porque, bem, aquela maquiagem de envelhecimento e outros detalhes foram muito constrangedores.  Só que, agora,  Renato Modesto, autor da obra que está no ar, deu uma entrevista falando das intervenções feitas na novela pela cúpula da Igreja Universal, algo, aliás, que já era feito antes.  Imagino que tenha reclamado, porque seu contrato não foi renovado, mas, ainda assim, acredito nele e vale comentar alguma coisa:
Na sinopse e nos primeiros capítulos, Aruna é uma mocinha guerreira, voluntariosa, corajosa, à frente do seu tempo, a ponto de lutar contra os inimigos usando um disfarce que a transforma no Cavaleiro Mascarado. A supervisão artística da emissora exigiu que ela se tornasse uma mocinha frágil, desajeitada, recatada, submissa a Josué a ponto de prometer nunca mais usar seu disfarce heroico.
Enfim, para quem não assiste a novela, Aruna (Thais Melchior) é a mocinha da trama e uma personagem absolutamente ficcional, criação de Modesto.  O autor mesmo comenta na entrevista que o material do livro de Josué daria, no máximo, para uma minissérie de 10, 12 capítulos.  Ele está certíssimo,  aliás.  Enfim, Aruna é uma órfã com passado misterioso que se torna o interesse romântico de Josué, o líder do povo de Israel, que deveria já ser um sexagenário nesta fase, mas que parece cada vez mais jovem na pele de Sidney Sampaio.  O ator deveria ter sido mudado, mas foi decidido, ainda na época de Os Dez Mandamentos, que ele ficaria.  Mudaram colegas de juventude dele, mas mantiveram o mesmo Josué.  O efeito não é bom, mas a gente se acostuma.   E  eles formam um casal lindo, isso conta muito.  


Sexagenário?
Aruna, nossa heroína, sabe usar armas e ela e outras mulheres defenderam valorosamente o acampamento hebreu de um ataque cananeu, junto com os guerreiros mais velhos, quando os homens jovens estavam se recuperando da circuncisão.   Tudo isso parecia ser "da vontade de Deus", mas a mocinha  era o tal "Cavaleiro Mascarado", enganava a todos, e termina abrindo mão do seu disfarce e de sua vida dupla de guerreira por amor à Josué.  

Até meu marido que não vê mais que fragmentos da novela ficou confuso "Mas ela não lutou com as outras mulheres para salvar todo mundo? Que história é essa agora?".  Sim, mas, depois do cerco de Jericó, Aruna revela seu segredo ao amado e confessa seu "pecado", afinal, ela não confiou, nem em Deus, nem nos homens, foi orgulhosa e vaidosa, saiu de seu lugar "de mulher", acreditando que precisavam dela.  Foi uma cena destoante dentro da trama, não pela reação de Josué, que seguiu os cânones do heroísmo viril tradicional,  mas em relação à mocinha mesmo e a imagem de mulher que a novela parece vender. Só que a sequência veio toda envelopada em música, luz, closes, para valorizar a retomada do romance dos protagonistas.


A mocinha se revela e se humilha.
Lembrei de pronto de Aurélia, protagonista de Senhora, de José de Alencar, que aprendeu matemática financeira, salvou a família da penúria fazendo em segredo o trabalho do irmão incompetente, PORÉM não era dessas exibidas, guardava para si suas habilidades "masculinas".  Fingia ignorância para ser uma boa mocinha.[1]  No caso de Aruna, apaga-se o que ela fez antes, e ela se cobre de vergonha por não ter confiado em Deus.  Legal, é que quando os homens estavam prostrados, nenhum milagre se fez para salvá-los, aí, as mulheres podem e devem lutar, mas abafa o caso, coerência ZERO em nome de uma mensagem de assujeitamento e reforço de papéis tradicionais e, pior, CULPA.  Eu fiquei passada com a cena, com o tipo de sentidos enfatizados nos discursos em tela, mas nem é o pior, vamos falar da função de Inês. 

Uma das vozes femininas fortes da novela, na verdade, a voz de maior autoridade entre as mulheres, é Inês, a esposa do sumo sacerdote.  Ela é a única atriz que sobrou de Os Dez Mandamentos (*a atriz que fazia Noemi foi trocada  por Nívea Stelmann*) e sua intérprete, Brendha Haddad, foi envelhecida de verdade, ao contrário de Josué.  Ela fala com lentidão, tentando parecer uma mulher mais velha (*não com muito sucesso*), enquanto os homens de sua família estão na mesma condição de Sidney Sampaio, isto é, parecem jovens e garbosos.  


Herdados de os Dez Mandamentos.
Inês é a voz da sabedoria, da experiência,  ocupando um lugar de fala privilegiado. E o que ela mais faz? Aconselha submissão e faz a propaganda de que uma boa mulher é capaz de transformar um homem ruim em um bom sujeito, que é preciso paciência, e que se sacrificar pelo casamento é o dever maior de uma mulher.  É ela quem empurra Tirda (Priscilla Uba) para o casamento com um grosseirão muito mais velho.  Obviamente, no final, tudo se ajeitará e todos serão felizes  "para sempre", quer dizer, talvez, não, Maquir, mas não vou falar dele, nem de  (Alexandre Slaviero)  e Livana  (Letícia Medina), nem da repetição da trama (*porque foi usada em Os Dez Mandamentos*) da moça desonrada e grávida que é acolhida por um homem bom que aceita casar com ele e esconder seu pecado. 

Enfim, eliminar da história o Cavaleiro Mascarado, é algo que prejudica a personalidade de Aruna, mas mantém firme os pés na fantasia, ainda que reforce papéis de gênero incomode, afinal, cabe à mocinha se submeter e depender absolutamente do herói.  Já os conselhos de Inês podem ser prontamente atualizados para o século XXI e são colocados dentro da trama sob uma luz absolutamente positiva. Se trazidos para os relacionamentos modernos, eles poderiam ser mostrados no programa "salva casamentos" The Love School, da filha e do genro de Edir Macedo.  


Envelhecendo?
"A mulher sábia edifica a sua casa; mas a tola a derruba com as próprias mãos" (Provérbios 14:1) Enfim, Inês é a mulher sábia que joga nas costas das outras mulheres a responsabilidade pelo sucesso do seu casamento.  Se as coisas não funcionarem, é a mulher que deve se perguntar onde errou, por que não se esforçou o suficiente, por qual motivo, apesar de dever ser submissa, não foi firme em seus princípios  e cedeu.  Contradição,  eu sei, mas ela deu esse conselho para Tirda em um dos últimos capítulos. 

E, bem, fecho essa parte do texto, que nem sei bem por qual motivo escrevi, deixando o link para uma notícia "Cerca de 40% das mulheres vítimas de violência doméstica são cristãs".  São mulheres que se calam, que são aconselhadas nas igrejas a orarem e carregarem o peso de relacionamentos abusivos, a aceitarem a violência e se perguntarem onde erraram.  O discurso para as mulheres em A Terra Prometida, um discurso que não está deste jeitinho arrumadinho na Bíblia, assim como não estão as personagens mulheres que citei, está nos usos e costumes de várias igrejas cuja liderança é conivente com o sofrimento das mulheres.  Nesse sentido, a novela da Record vem como um reforço em tempos muito preocupados em definir o que é um "verdadeiro" homem e uma "verdadeira" mulher, em reforçar e criar identidades.  E termino esta parte citando Douglas Kellner, 
O rádio, a televisão, o cinema e outros produtos da indústria cultural fornecem os modelos daquilo que significa ser homem ou mulher, (...) A cultura da mídia também fornece o material com que muitas pessoas constroem o seu senso de classe, de etnia e raça, de nacionalidade, de sexualidade, de "nós" e "eles".  Ajuda a modelar a visão prevalecente de mundo  e os valores mais profundos: define o que é considerado bom ou mau, positivo ou negativo, moral ou imoral.  (...)  (KELLNER, Douglas.  A Cultura da Mídia. p. 9)
Olhem a expressão feliz da noiva.
Vamos então para a segunda parte deste post, a parte mais "leve", por assim dizer.  Faz tempo que estou me coçando para comentar sobre aquilo que eu chamo de ferimento do herói.  Sim, mas o que é isso, afinal? A primeira vez que ouvi falar em "ferimento do herói" foi em um texto em inglês muito antigo (*li em 1999, acho*), sobre anime. Um texto muito interessante, mas que não tenho mais. Ele listava as áreas nas quais os heróis costumavam ser feridos, os motivos, enfim, por que se fazia de tudo para garantir o efeito dramático,  sem que os heróis precisassem morrer "de verdade".  Sim, eu sei que heróis morrem, mas não é este o ponto aqui. 

Por qual motivo sempre se evita ferir um herói em nenhum ponto vital?  Por qual motivo um vilão menor morre com um ferimento na unha e um herói nunca?  Vide os vampiros da primeira temporada de Buffy, os inimigos menores em seriados tipo Power Rangers, ou os índios naqueles velhos filmes de faroeste.  Já o herói é, via de regra, ferido em áreas não letais, às vezes, muito ferido mesmo, mas sobrevive para continuar a sua história.  E isso vale para qualquer produto: filmes, seriados, anime e romance Harlequin.  Pois bem, em A Terra Prometida, assunto deste post, há uma personagem chamada Tobias que recebeu um típico "ferimento do herói".


Mulheres guerreiras?  Sim?  Não?  Só quando não rolar milagre?
Escalaram um sujeito mui guapo para fazer o papel de guerreiro poderoso, mas estourado e sem muita maturidade. Mimado pela mãe, porque a culpa é das mulheres, vejam bem, ele desfilava pelo acampamento hebreu nos primeiros capítulos da novela.  O cara ama uma mocinha, mas ela prefere outro rapaz, que é bom guerreiro, honrado, mas não é um cara alto e fortão.  Ele se revolta, faz bobagem e acaba capturado pelo inimigo.  OK.  Ele sofre pra caramba, verdade, mas o que o deixa "traumatizado" é ter o rosto marcado e o sujeito pira, se sente um monstro.  Só que quando a gente olha o tal ferimento?  Mas, ein, é isso?  Que ferimento mais besta é aquele?  Miraram em "O Fantasma da Ópera" e criaram um sujeito chorão, com umas cicatrizes discretas, que não aceita o "não" de uma mulher.   Sim, porque a roda gira e caímos de novo no desrespeito à vontade das mulheres.  

Pois é, o ferimento do herói pode ser marca física ou psicológica. Na Jornada do Escritor, Christopher Vogler deixa um conselho para escritores "Para humanizar um herói ou um personagem, dê a ele uma ferida, um machucado visível e físico, ou um ferimento profundo e emotivo".  Um sujeito raso como Tobias poderia se beneficiar do rosto (pseudo)deformado, mas, até o momento, foi só derrota mesmo.  Cenas melodramáticas, uma máscara ridícula e uma vingança que não engrandece em nada a trama, nem em termos micros, nem em termos macros.  Resumindo, Tobias é uma das personagens mais patéticas que eu já vi na ficção e, aí, a culpa é do autor mesmo, porque duvido que tenha o dedo da Record.  


Olha como o moço ficou deformado.
Pensem que quando um herói é ferido, ainda que o ferimento seja sério (*não estamos falando de caso de morte*), as convenções ficcionais (*e românticas*) normalmente pedem que o ferimento não seja nem incapacitante, nem terrivelmente desfigurador.  Por exemplo, é OK que o herói perca um olho, um tapa-olho é um adereço romântico; uma cicatriz no rosto pode tornar o herói mais viril (*entendeu, autor de A Terra Prometida?*); mancar de uma perna é aceitável, perder um braço, não.
  
E cito o exemplo de um clássico da literatura popular norte americano: Norte e Sul.  O autor de Norte e Sul, John Jakes, criou uma grande história, um épico, mas rompeu com a convenção do ferimento do herói ao fazer seu protagonista perder um braço inteiro, se minha memória não falha, o direito.  Perdido o braço, como o herói vai carregar a mocinha?  Como vai lutar espada?  Só que o John Jakes é dado à exageros...  Aí, veio a adaptação para a TV e Orry Main, a tal personagem, ganhou os traços de Patrick Swayze.  A minissérie de TV consertou as coisas e transformou o ferimento exagerado em um típico ferimento do herói.  Ferido na guerra, a personagem ficou manca de uma perna.

Que ferimento do herói caberia em Patrick Swayze?
O que eu quero dizer é o seguinte, Tobias tem um típico ferimento do herói, que não o deformou em nada e se comporta como se tivessem arrebentado com ele todo.  É um sujeito mimado e patético que dificilmente vai atrair a simpatia de alguém.  Claro, que pode rolar um processo de redenção, Zuma, o núbio, lhe deu uns conselhos, mas, ainda assim, como apagar essas cenas horrorosas e essas justificativas capengas para o ódio do sujeito pelo seu rival?

Mas chega de A Terra Prometida que eu assisto muito mais por inércia.  Hoje, é a única novela que estou vendo, não consegui me interessar por nenhuma das outras que estão no ar.  Há algumas personagens interessantes na novela da Record, poderia escrever sobre elas e eles, mas a trama geral é muito fraca, ainda que dê uma audiência mais que satisfatória para a Record.  Torço por Josué e Aruna, porque as personagens são simpáticas, ainda que tenhamos muitos absurdos na relação dos dois (*começando pela idade que não se reflete na aparência*), e por Raabe e Salmon.  Aliás, Raabe no meio dos hebreus virou coadjuvante de terceira categoria, vamos ver se as coisas mudam nos próximos capítulos.  Se não me engano, a novela seguirá até março e, conhecendo a Record, nada impede que não estiquem mais um pouquinho.


[1]  Trechinho de Senhora: "A natureza dotara Aurélia com a inteligência viva e brilhante da mulher de talento, que se não  atinge ao vigoroso raciocínio do homem, tem a preciosa ductilidade de prestar-se a todos os assuntos, por mais diversos que sejam. O que o irmão não conseguira em meses de prática, foi para  ela estudo de uma semana. Desde então, o caixeiro que ia à praça receber as ordens do patrão e levar-lhe os recados, era o Emílio, mas o corretor que fazia todos os cálculos e operações, ou arranjava o preço corrente, era Aurélia. Assim poupava a menina um desgosto ao irmão, e o mantinha no emprego a tanto custo arranjado." .

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