sábado, 26 de novembro de 2016

Post 5: Semana da Consciência Negra


Ontem, não consegui postar nada sobre a Semana da Consciência Negra.   O dia foi cheio e eu acabei me focando em outras coisas, mas a idéia deste texto nasceu ontem.  Passando por uma notícia, sobre a tal pastora Isildinha e uma palestra homofóbica (*"Como Prevenir e Revertar a Homossexualidade".  Estrelinha por não usar "homossexualismo"*) acontecida em Minas Gerais.   Negaram que o título fosse esse usaram de mil desculpas esfarraparas, mas o que eu quero comentar é outra fala desta senhora:
"a desconstrução da família começou a partir dos anos 1950, quando o movimento feminista invadiu a sociedade e a mulher passou a disputar espaço com o homem no mercado de trabalho. Os filhos foram os maiores prejudicados"
A "pastora" Isildinha que se apresenta, também, como psicopedagoga.
Eu adoro essas opiniões fundamentadas de mulheres brancas de classe média média e alta, que acham que seriam as mocinhas de minissérie vitoriana da BBC ou seriados como Downton Abbey se os feminismos não tivessem aparecido para estragar tudo. Esta senhora mesmo, só ostenta o "título" de pastora, porque mutias feministas - teólogas e leigas - lutaram e ainda lutam pelo direito de exercer o sacerdócio.  

Falas assim ignoram as operárias, as trabalhadoras da lavoura, as domésticas, babás que por séculos sempre existiram.  Elas são invisíveis para elas. Aliás, algumas dessas mulheres trabalhadoras também eram brancas, mas subalternas. Obviamente, nos "bons tempos", esses que começaram a acabar nos anos 1950, segundo a "pastora" Isildinha, elas poderiam trabalhar sem receber, como escravas, ou mulheres que tinham seu trabalho apropriado como dom pela família. Sabe a dona de casa que não recebe um tostão e que em outros tempos poderia cozinhar quitutes, lavar e passar para fora, às vezes, sem ter realmente o status de "trabalhadora"? Não houve tempo em que a lei permitia que a mulher precisava de autorização do marido para ter um emprego e ele poderia receber seu salário por ela? 

Essas operárias brancas não cabem na narrativa
da pastora preocupada com a família.
Maldito feminismo que vai dizer que mulheres e homens merecem salários iguais por igual trabalho. Aliás, vocês vêem aí hoje como isso é coisa concreta a cada pesquisa do IBGE, ou relatório da OIT, e se são mulheres negras, então...  Eu que sou neta e bisneta de operárias e boias frias, que mais lá atrás devo ter alguma mulher escravizada entre minhas ancestrais, que sou historiadora, enfim, tenho pena de quem passa pela vida exibindo diplomas e dizendo bobagens. Pior é que do seu lugar de fala e autoridade são ouvidos e repetidos.

Mas o que isso tem a ver especificamente com a Semana da Consciência Negra?  Toda essa balela de feminismo destruiu a família, porque as mulheres foram trabalhar, me lembrou o famoso discurso da militante anti-escravista, pregadora pentecostal e, aos meus olhos, feminista, Sojourner Truth (1797-1883) intitulado "Ain't I a Woman?" ("Eu não sou uma mulher?").  

Escrava doméstica.
Segue a tradução da Wikipédia brasileira, mas o original está aqui
"Bem, crianças, onde há muita confusão deve haver algo de errado. Penso que entre os negros do Sul e as mulheres do Norte, todos falando sobre direitos, os homens brancos vão muito em breve ficar num aperto. Mas sobre o que todos aqui estão falando?
Aquele homem ali diz que as mulheres precisam ser ajudadas a entrar em carruagens, e erguidas para passar sobre valas e ter os melhores lugares em todas as partes. Ninguém nunca me ajudou a entrar em carruagens, a passar por cima de poças de lama ou me deu qualquer bom lugar! E não sou mulher? Olhem pra mim! Olhem pro meu braço! Tenho arado e plantado, e juntado em celeiros, e nenhum homem poderia me liderar! E não sou uma mulher? Posso trabalhar tanto quanto e comer tanto quanto um homem - quando consigo o que comer - e aguentar o chicote também! E não sou uma mulher? Dei à luz treze filhos, e vi a grande maioria ser vendida para a escravidão, e quando eu chorei com minha dor de mãe, ninguém, a não ser Jesus me ouviu! E não sou mulher?
Então eles falam sobre essa coisa na cabeça; como a chamam mesmo? [alguém na platéia sussurra, "intelecto"] É isso, meu bem. O que isso tem a ver com os direitos das mulheres ou dos negros? Se a minha xícara não comporta mais que uma medida, e a sua comporta o dobro, você não vai deixar que a minha meia medidazinha fique completamente cheia?
Depois aquele homenzinho de preto ali disse que as mulheres não podem ter tantos direitos quanto os homens, porque Cristo não era mulher! De onde o seu Cristo veio? De onde o seu Cristo veio? De Deus e de uma mulher! O homem não teve nada a ver com Ele.
Se a primeira mulher feita por Deus teve força bastante para virar o mundo de ponta-cabeça sozinha, estas mulheres juntas serão capazes de colocá-lo na posição certa novamente! E agora que elas estão querendo fazê-lo, é melhor que os homens permitam.
Obrigado aos que me ouviram, e agora a velha Sojourner não tem mais nada a dizer."
Poupadas de toda a crueldade.
Este provavelmente não foi o discurso proferido por Truth em um congresso sobre os direitos das mulheres em 1851, há duas versões anteriores, mas o discurso divulgado pela sufragista Frances Gage é o mais famoso e reflete bem algumas questões em pauta quando da concessão dos direitos das mulheres.  Ora, as mulheres eram alvo das gentilezas, da proteção, da tutela gentil dos homens.  Ah, ingratas (*com o patriarcado*)!  Como querer perder esse status superior e se meter nas durezas da vida!  O que Truth diz em seu discurso para os teólogos reunidos no congresso é que, bem, há mulheres então que não são mulheres.

Ela como mulher negra, nascida escrava em Nova York, enganada pelo seu terceiro ou quarto dono, que não lhe deu a liberdade quando prometida, que provavelmente foi violentada, que viu seus filhos e filhas serem vendidos, não gozava das benesses desse sistema de proteção.  Ela, então, não seria uma mulher?   Elas que carregam tanta ou mais carga que muitos homens, que não têm portas abertas para que passem e outros cavalheirismos, não são mulheres?  Elas sempre estiveram neste mundo, mas, ainda hoje, anti-feministas (*e mesmo algumas feministas classistas e brancas*) se recusam a percebê-las.  Elas melam o discurso bonitinho da "pastora" Isildinha e de tantos outros por aí.  Enfim, foi por isso lembrei de Sojourner Truth.

Sojourner Truth, a rebelde, era essa senhorinha aí.
Truth pode não ter feito este discurso todo arrumadinho, os críticos apontam, principalmente, para as inconsistências da linguagem.  Truth cresceu no meio de falantes de holandês, no norte dos EUA e esta versão do discurso, datada da época da Guerra de Secessão, tenta colocar sua fala segundo os moldes da linguagem usada pelos negros do sul.  enfim, mas Truth foi a primeira mulher negra e ex-escrava a conseguir vencer um brando na justiça.  

Ela recuperou a guarda de um de seus filhos, um menino vendido ilegalmente pelo seu último dono (*a lei de estado de NY já não permitia qeu as crianças fossem vendidas*) para um senhor no estado do Alabama.  Truth, com a ajuda de seus patrões, venceu a contenda e recuperou o menino.  Sojourner Truth ajudou, também, no recrutamento de negros para lutarem nas tropas da União durante a Guerra de Secessão.  Enfim, uma mulher notável e que precisa ser lembrada.

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