quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Comentando Orgulho & Preconceito (2014, Manga Classics)


Por conta das celebrações dos 200 anos da morte de Jane Austen, queria ter podido fazer uma série de posts relacionados à autora, filmes, quadrinhos, séries.  Não tive tempo para nada disso, enfim, mas faz alguns dias que concluí a leitura da adaptação de Orgulho & Preconceito, i.e. Pride & Prejudice, da série Manga Classics e preciso escrever uma resenha.  É a terceira desta coleção, aliás, já que resenhei Jane Eyre e The Scarlet Letter no mês passado.  Trata-se de um material com o objetivo de apresentar os clássicos obrigatórios escolares (norte-americanos) para jovens leitores.  Enfim, queria já marcar na introdução a minha impressão geral: decepcionante.  

Cinco irmãs.
Para quem não conhece Orgulho & Preconceito (*é possível isso????*), trata-se do livro mais famoso de Jane Austen, um dos mais lidos e vendidos em língua inglesa e adaptado sabe-se lá quantas vezes.  Enfim, o livro original foi escrito por uma Jane Austen quase adolescente, entre 1796-97, com o nome de First Impressions, rejeitado pelo editor, e publicado em 1813 com algumas revisões.  No livro, Elizabeth Bennet, uma jovem inteligente e perspicaz, mas que termina por julgar mal o Sr. Darcy, um jovem rico e solteiro que, por sua vez, parece orgulhoso demais, pomposo demais para apreciar a vida do interior da Inglaterra e a companhia das pessoas da região.

"Não é bonita o suficiente para me tentar"
Há várias outras personagens, claro, como as quatro irmãs de Elizabeth Bennet, começando por Jane, que se apaixona pelo melhor amigo de Darcy, Bingley.  Jane tem seu romance atrapalhado por Darcy e pelas irmãs de Bingley.  Uma delas, Caroline, tem uma queda por Darcy e tenta prejudicar a imagem de Elizabeth aos olhos dele.  Mas quem consegue mesmo atrapalhar a relação dos dois é Wickham, outrora amigo de Darcy e um sujeito bonitinho, mas ordinário.  Há, também, Mr. Collins, que herdará a propriedade dos Bennet e poderá lançar Elizabeth e suas irmãs em uma situação de penúria, e Chartlotte, melhor amiga de Elizabeth que termina aceitando um casamento de conveniência para deixar de ser a solteirona da família. Enfim, ouçam o Shoujocast sobre Orgulho & Preconceito que ele é muito bom.

Mr. Darcy pisaria no pé de uma dama?
Indo para o quadrinho, mais uma vez, o roteiro é de Stacy King.  Curiosamente, a roteirista que a meu ver foi tão competente nos dois últimos mangás que li, dessa vez fracassou.  Sim, sim, eu sei que toda adaptação é uma nova obra, que não precisa, nem deve ser absolutamente fiel ao original, o problema é que, em muitos aspectos, Orgulho & Preconceito foi desfigurado.  Fora isso, o Darcy do quadrinho me lembrou em vários momentos o de Laurence Olivier no filme de 1940, isto é, o sujeito já estava lambendo o chão em que Lizzie pisava antes mesmo do primeiro terço da história.  Já Elizabeth Bennet, em vários momentos passa a idéia de ser uma cabeça de vento, apaixonada por Wickham e incapaz de ver um palmo adiante do seu nariz.  O bom senso da personagem foi erodido.

Jane ficou muito linda nessa página.
Muito bem, quanto ao roteiro, algumas coisas que me incomodaram: Caroline Bingley praticamente desaparece.  Toda a sequência da carta, doo passeio pela sala, Caroline tentando chamar a atenção de Darcy e tentando fazer com que ele, em vão, desprezasse Elizabeth foi cortada.  A mãe e as irmãs de Elizabeth também não aparecem indo à Netherfield para pedir o baile.  Tudo limado, mas muito espaço para cenas inventadas e devaneios de Lizzie.  A frase “Todo o selvagem sabe dançar”, foi-se embora, ambém.  Darcy pisa no pé de Elizabeth quando os dois estão dançando.  Imaginem Mr. Darcy, serve qualquer um, o original, ou o das múltiplas adaptações, nervoso ao ponto de pisar no pé de alguém?  Pois é... E as pessoas se tratando pelo nome?  Nada de Mr. ou Miss boa parte do tempo... Lamentável.


Elizabeth percebe que fez bobagem. 
De resto, já que Lizzie é imprópria em um sentido bem negativo, por assim dizer, no quadrinho, a protagonista é chamada à atenção por Lady Catherine de Burgh, chamada de Mrs. De Burgh em dado momento, sabe-se lá por qual motivo, por não usar seu cabelo preso.  Sim, Lizzie usa o cabelo solto boa parte do tempo, tal e qual uma garotinha.  Além disso, se recusa a dizer sua idade para Lady Catherine, como no livro.  Já lá pelas tantas, quando Darcy volta a se declarar para Elizabeth, cai uma chuva torrencial.  A referência imediata é o filme de 2005.  

Combo declaração na chuva e camisa molhada.
Com a chuva, os dois saem correndo para um caramanchão e Darcy vai se despindo, dá o casaco para Lizzie se proteger e termina sem colete, gravata e com a camisa molhada aberta.  Referência, também, para a minissérie de 1975.  O problema é que o Darcy desse quadrinho é tudo, menos interessante.  Ele é desenhado de uma forma tão estranha, super alongado, meio vampiresco (*não no sentido sexy do termo*), enfim, a cena só fica esquisita mesmo.  Imagina a mocinha voltar encharcada e o mocinho praticamente pelado de um passeio, enfim... 

Lydia não segura a língua.  Veja o uso do SD (super deformed).
Vamos para o quesito arte, agora.  O desenhista, agora, é um homem, Po Tse, que, infelizmente, desenhou todas as adaptações de Jane Austen para a coleção.  Há alguns pin-ups muito bonitas.  Lizzie e Jane são super fofas em alguns quadros, mas a arte é mediana mesmo, e não parece aquilo que a gente vê na média dos mangás Harlequim, isto é, gente que sabe desenhar fazendo um trabalho de segunda.  Po Tse não tem a prática de desenhar esse tipo de história, ou precisa amadurecer muito como artista.

Mr. Collins é desenhado assim, às vezes,
com traços ainda mais simplificados.
Vejam Mary, ali, no fundo.
Detalhes problemáticos.  Darcy tem a aparência fantasmagórica, descarnada.  Ele parece um ser sobrenatural, não um ser humano.  Bem, se isso conta como aspecto positivo, o Darcy desse quadrinho está desconectado de qualquer ator que tenha encarnado a personagem.  O roteiro leva às referências – Laurence Olivier, Colin Firth e Mathew Macfadyen – o traço, não.  Agora, Wickham, que aparece muito no quadrinho, mais do que deveria, também tem a aparência alongada, demasiado esguia, só que, ao invés de ser moreno, é louro e tem aquela barba rala colocada normalmente em personagens masculinas meio cafajestes.  Vide o Flynn de enrolados.  Talvez, tenha sido o modelo dele, aliás. 

Wickham, já casado, tenta agarrar Elizabeth.
A arte do quadrinho recorre a todos aqueles clichês visuais que muita gente associa diretamente aos mangás.  Então temos SDs, tirinhas (4koma) plantadas para dar alívio cômico e personagens que são desenhadas de forma distorcida e humorística o tempo todo.  Por exemplo, Mr. Collins, o primo clérigo que vai herdar a propriedade, é desenhado como uma caricatura cômica o tempo inteiro.  Ele não parece gente, por assim dizer.  Já Mary Bennet, a irmã intelectualmente afetada de Elizabeth, é colocada com imensos óculos e sempre, sempre mesmo, usando um capuz.  Ela parece um espectro se arrastando pelos quadros. Só no finalzinho, ela aparece vestida como uma moça normal.  Mas, aí, já é o momento em que se fala do efeito benéfico que o casamento de Jane e Elizabeth teve sobre as irmãs Mary e Kitty.



Jane e seus três chapéus estranhos.  Tudo dentro de casa.
Falando em capuzes, bem, Po Tse não deve ter feito grande pesquisa sobre figurino e costumes.  Já citei Elizabeth, moça feita, de cabelo solto.  Além disso, o artista também não sabe que moças solteiras, naquela época específica, não cobriam a cabeça em casa.  Jane é a vítima preferencial.  Ela aparece linda na primeira parte do mangá, no final, quando Bingley volta para cortejá-la, ela aparece com uns chapéus e véus que vão do esquisito, passando pela touca de dormir, até o excessivamente comportado.  Tudo dentro de casa.  Queria assustar o moço?
Aqui, o uso das personagens deformadas funcionou.
Já Lady Catherine de Burgh se parece muito com o sobrinho.  Tem o mesmo aspecto fantasmagórico, ou vampiresco, enfim.  Agora, na sua primeira aparição, ela parece estar usando um vestido do final do século XIX e, não, do começo.  Assim, não diria que a arte é relaxada, ela é somente irregular, mesmo e não houve grande preocupação em ser fiel à época.

Primeira aparição de Lady Catherine.
É isso.  Se Stacy King, a roteirista, acerta ao falar que Jane Austen inventou a personagem tsundere – que desdenha, mas quer comprar, às vezes, agressiva e arrogante – ela não soube se aproveitar disso no seu quadrinho.  O seu Darcy é inseguro demais, caloroso demais, bandeiroso demais em relação à Lizzie.  Já a protagonista, ela terminou sendo um tanto idiotizada.  É possível ver a original nela, mas é possível, também, ver uma pessoa muito diferente e isso ficou bem ruim.

Devaneios de Elizabeth.
Como é a mesma dupla que faz Emma e Razão & Sensibilidade, não comprarei os dois volumes.  É uma pena que o bom trabalho de Stacy King não tenha se repetido em Orgulho & Preconceito.  Pena mesmo.  Queria que essa resenha fosse uma homenagem à Jane Austen, mas o mangá não conseguiu transportar a grandeza de Orgulho & Preconceito para outro formato.  Aqui há uma entrevista com a roteirista explicando a adaptação de Orgulho & Preconceito.  É importante ressaltar que, sequencialmente, é a mais antiga das que eu li feita por Stacy King.  Agora olhem as imagens abaixo:



Não conhecia esta adaptação de Orgulho & Preconceito, ela é da editora Seven Seas.  O traço é muito mais bonito, aparentemente equilibrado e agradável.  Vou tentar conseguir.  Infelizmente, não tem formato digital.  De resto, assim que tiver um tempinho, vou resenhar um mangá Harlequin que me surpreendeu pela qualidade do traço e a boa história.  Isso é raro, raríssimo mesmo.

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