domingo, 3 de dezembro de 2017

Comentando A Estrela de Belém (The Star, 2017)


Esta será uma resenha curta.  Hoje, excepcionalmente, afinal, era domingo, fui ao cinema com a Júlia para assistir A Estrela de Belém (The Star).  Na verdade, eu estava mais interessada em dar uma olhada na animação da Sony que foi vendida como filme religioso e que recebeu pouquíssima atenção por aqui.  Tanto foi que assisti ao trailer várias vezes e sempre legendado.  Trailer de desenho legendado nos cinemas é coisa que não vejo faz séculos.  Enfim, estou com duas resenhas de animações que assisti com a filhinha para resenhar, mas Estrela de Belém passa na frente.

O filme começa com uma legenda “9 meses A.C.” e partimos para o encontro de Maria, mãe de Jesus, como o anjo Gabriel.  É anunciado que ela seria a mãe do Messias. Este acontecimento é presenciado por uma ratinha (*não é ratinha, mas esqueci o nome do bichinho*) chamada Abby que trata de espalhar para a bicharada que o rei dos judeus iria nascer.  Enquanto isso, em Nazaré, um jumentinho trabalha sem fim na moenda, sem o direito de ver o mundo, salvo por uma pequena fresta.  Ele, assim como vários animais, presencia o aparecimento nos céus de uma nova estrela.  Seu sonho de liberdade e alimentado por seu amigo pombo, Davi, uma criatura que tem mania de grandeza, mas um bom coração.  O jumentinho, um dia, consegue escapar de seu dono e termina se abrigando na casa dos recém-casados José e Maria.  Lá a jovem lhe coloca um nome, Boaz ou Bo, como é chamado.

É difícil fazer com que os humanos entendam.
Já no palácio do Rei Herodes chega a notícia do recenseamento obrigatório romano e ele recebe a visita de três reis-sábios vindos do oriente para homenagear o novo rei.  Herodes finge interesse, mas manda seu assassino particular com dois cachorrões investigarem a história.  Quando Maria e José partem para Belém com o objetivo de atenderem ao recenseamento, Bo fica para trás e termina, sem querer, dando a pista para que os vilões encontrem Maria e a matem.  Para evitar a tragédia, ele parte para Belém junto com o pombo Davi.  No caminho, ele encontra ainda uma nova companheira, a ovelhinha Rute, que abandonou a segurança de seu rebanho para encontrar o Messias anunciado pela estrela.

A Estrela de Belém é mais uma recontagem da Natividade, isto é, dos acontecimentos relacionados ao nascimento de Jesus.  O diferencial da animação é o fato da perspectiva ser a dos animais.  O protagonista é um burrinho, temos ainda um pombo e uma ovelha como seus companheiros, e três camelos como coadjuvantes importantes.  Os bichinhos têm alguns comportamentos e movimentações típicas, mas, no geral, comportam-se como humanos, e bem bobos, para falar a verdade.  Ofende?  Não.  Acrescenta alguma coisa?  Também, não.  A parte dos bichos não é problemática de forma alguma, aliás, eles são tá simpáticos, quando os roteiristas não forçam a mão nas idiotices, o que ocorre várias vezes.  

A bicharada, sem os dois cachorros vilões e Abby.
Algumas piadas, no entanto, funcionam mesmo com os adultos, escapam às crianças muito pequenas (*Abby, por exemplo, acreditou que ela é que iria gerar o Messias*) e a maioria é plenamente compreensível para o público algo do filme, as crianças pequenas.  Agora, o humor é bem rasteiro mesmo. Situações bobinhas, a maioria bem inocentes, mas que reforçam o tempo inteiro que aquelas personagens inseridas na narrativa na Natividade são, simplesmente, pessoas contemporâneas como sonhos e objetivos do século XXI.  E não pensem que estou pedindo rigor histórico, estou simplesmente marcando que A Estrela de Davi é anacrônico quase que o tempo todo.

Se os bichinhos estão OK – nem excepcionais, nem ruins – tenho algumas críticas à forma como os humanos foram apresentados.  Não posso falar pelo original em inglês, mas colocaram em José e Maria um registro informal ao extremo.  Eles falam como moderninhos e até em momentos solenes, como quando o anjo (*que é representado como um ente luminoso e sem rosto*) aparece para Maria, é preciso fazer uma piadinha boba.  Não queria aquele engessamento da linguagem formal, mas teria sido mais inteligente marcar a diferença entre humanos e bichos de alguma forma.  Com um agravante, mesmo os idosos - Isabel e Zacarias, pais de João Batista - falam como adolescentes descolados do século XXI.

Débora, a personagem mais inteligente do filme.
Agora uma mudança realmente problemática, porque de certa forma mancha a imagem de Maria, é mostrá-la escondendo de José que está grávida até depois do casamento.  Explicando, para os judeus, na época em que se passa a história, o noivado tinha peso de casamento, a mulher que se relacionasse com outro homem seria vista como adúltera.  Daí, ao descobrir que Maria está grávida, José pretende fugir, para, de certa forma, assumir uma culpa que não era sua (*Maria seria vista como enganada e abandonada e não, necessariamente, adúltera*), mas não deseja de forma alguma assumir uma mulher grávida.  Um sonho o faz entender o que estava acontecendo e ele se casa com Maria.  Basta ler: Mateus 1:18-25.

Júlia e outras crianças pequenas talvez estivessem prestando atenção no burrinho, mas eu vi como lamentável essa alteração.  Se Maria esconde sua gravidez até depois de casar, ela agiu com má fé e nenhum dos textos da Bíblia a mostra fazendo isso.  Em um filme supostamente religioso, tal mudança serve para reforçar a imagem da mulher como um ser leviano, mesmo que, neste caso, seja a mãe do Messias.  Já que tudo é muito modernoso, o que ela fez foi dar um golpe da barriga no rapaz, não é mesmo?  Daí, não espanta que o apaixonado José seja a criatura mais mal-humorada da história, afinal, descobre na noite de núpcias que sua esposa está grávida, tem que digerir que se trata do Messias, e ainda tem que acolher um jumentinho voluntarioso.  

Maria adota Bo.
De resto, o desenho recebeu algum destaque por usar estrelas do mundo Gospel nacional como dubladoras. Maria tem a voz de Cristina Mel, uma das grandes estrelas do universo da música evangélica.  Já Caique Oliveira e Vini Rodrigues, não sei quem são, mas foram escolhidos por serem famosos no meio, também.  De qualquer forma, o cuidado com o filme, que, repito, parece que nem teve trailer dublado, foi pequeno.  Ao fundo tocam hinos de Natal conhecidíssimos e que tem versão em nossa língua, ninguém se dignou a chamar uma dessas estrelas para cantá-los, ou fazer uma versão da música tema.  Simplesmente, ficou como estava.

Terminando, o filme talvez cumpre a Bechdel Rule, porque em algum momento a eguinha Leah e a vaca Edith conversam sobre a estrela de Belém.  De qualquer forma, há várias personagens femininas com nome e que, em certos momentos, trocaram algumas palavras: Maria, Isabel (Mãe de João Batista), a ovelhinha Rute (*que me lembra a Dory em alguns momentos*), a ratinha Abby, a camelo Débora (*cujos companheiros são dois idiotas*), além da égua e da vaquinha.  Ah, sim, o bode que mora na estrebaria onde Jesus irá nascer, parece um plágio do galo tonto da Moana, só que com a capacidade de falar.  
Bo e Davi, amigos inseparáveis.
É isso.  A Estrela de Belém não é um filme ruim, afinal, sustenta-se sobre uma história robusta e mais do que visitada.  Há espaço para redenção, o que é importante em um filme assim, mas somente para os animais.  E tem seus momentos divertidos, mais personagens femininas interessantes, mas que peca por mexer na história original e macular a imagem de Maria.  Sim, porque é um filme religioso que coloca a Mãe de Jesus como uma mulher que escondeu do noivo algo que não se esconde, nem se você for a escolhida para ser a mãe do Messias. 

Enfim, se você não sair correndo para assistir, não vai estar perdendo grande coisa, vale mais assistir em casa, pela TV.  Ah, sim!  Nos créditos há uma série de ilustrações, inclusive José comprando Bo do seu dono original, afinal, ele e Maria são pessoas corretas, apesar do moleiro ser um abusador de animais.  E houve um trailer dublado, que eu nunca vi no cinema.  Ele está aí embaixo:

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