segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

O melhor presente que recebi no Natal: Bate-papo entre Riyoko Ikeda e Hagio Moto - Parte 2



Como escrevi ontem, um dos melhores e mais inesperados presentes da minha vida foi a tradução feita por um leitor do blog de um bate-papo entre Riyoko Ikeda (Rosa de Versalhes) e Hagio Moto (O Coração de Thomas).  Comentei em 2013 sobre este material comemorativo da publicação do primeiro volume de La Reine Margot - Ouhi Margot (王妃マルゴ) - e o Luiz Carlos Guimarães conseguiu a edição da revista YOU, acredito que duas, porque a conversa tem parte 1 e 2, e a traduziu.  Hoje, publico a segunda parte do bate-papo.  No final, alguns comentários.





Hagio Moto X Ikeda Riyoko


(Parte 2, publicada na edição de março da revista YOU de 2013.)

O primeiro diálogo dessas duas mestras do mundo do shoujo manga. Nesta segunda parte, elas conversaram sobre as dificuldades e alegrias de se desenhar obras históricas. Também é possível ter um vislumbre do sofrimento de que se precisa estar ciente dessas duas mangakas pioneiras.

Hagio: Graças ao fato de que a Riyoko-sensei desenhou obras que “se pode continuar a ler, mesmo passando vários anos”, nos mangás também passaram a surgir os clássicos. As editoras também passaram a pensar que os mangás não estão limitados a apenas um lugar. Também devido ao fato de que A Rosa de Versalhes tornou-se um grande fenômeno, as mangakas passaram a ter seu valor bastante reconhecido socialmente.

Ikeda: Porém, na hora de construir uma casa, eu não consegui pegar um empréstimo. Por ser solteira, mulher e mangaka. Era uma desvantagem tripla (risos).

Hagio: Foi mesmo?!

Ikeda: Sabe, houve uma época em que meus mangás sofreram ataques do tipo que dizia ser culpa deles que as crianças não conseguiam ler letras impressas. Quando isso aconteceu, Tezuka Osamu-sensei me disse alguma palavras de conforto. Ele disse “meus mangás também passaram por situações difíceis”. Os mangás do Tezuka-sensei foram empilhados e queimados no pátio de uma escola. Para dar um exemplo. Porque o consideravam um deus…

Hagio: Desde que, por volta de 95, o governo começou a se movimentar com uma estratégia nacional no sentido de vender os quadrinhos japoneses para o mundo, as coisas mudaram um pouco, não é?

Ikeda: Sim, ficou mais confortável.

Hagio: Como é de se esperar, uma pioneira como a Riyoko-sensei passou por muitas experiências…

Ikeda: Além disso, quando eu tinha 47 anos, entrei em uma faculdade de música. Quando fiz isso, perguntavam-me com frequência “Eu também tenho um sonho, mas não importa o que aconteça, não consigo dar um passo adiante. O que eu posso fazer?”. Eu respondia que se a pessoa realmente quisesse fazer aquilo, ela definitivamente conseguiria dar esse passo adiante. E que se ela não fazia isso, é porque o sonho não era tão importante assim.

Hagio: Quanta gentileza! Se fosse eu, diria “você é uma pessoa limitada” (risos). Porque para dar um passo adiante, você definitivamente precisa jogar algo fora.

Ikeda: De fato. Por exemplo: talvez, devido a isso, a relação entre marido e mulher seja destruída. Porém, se você pensa que é algo que gostaria de fazer mesmo se estivesse morrendo, você iria adiante com isso.

Hagio: Exato. Se for um sonho grande a ponto de, caso não o realize, correr o risco de enlouquecer. Porque deixa de ser uma questão de perdas e ganhos e passa a ser uma questão de vida ou morte.

“Através da produção de uma ópera, entendi as vestimentas.”
A serialização de A Rainha Margot já chegou até o capítulo quatro. Em quais partes você está sentindo dificuldade?
Hagio: A coleta de informações é bem complicada! O responsável por essa parte é um otaku conhecido meu que mora na França estão fazendo isso por mim lá. Isso e as imagens religiosas têm ajudado bastante. Porque a arquitetura e as roupas dessa época estão pintadas juntas.

Ikeda: Quanto aos dados de vestimentas, eu por um acaso tenho um livro que mostra padrões para o corte de roupas. Fiquei feliz por ter entendido as estruturas das roupas.

Hagio: O que eu não entendo agora é um manto curto que estava na moda naquele período. Ao ver as gravuras em cobre, ele está pendurado no ombro. Mas como eles conseguiam mantê-lo preso? Era usada uma fita? Ou será que era um grampo?

Ikeda: Ah, quanto a isso, ele é amarrado com um manto de baixo ou com uma fita. Como eu agora também estou dirigindo óperas, na hora de fazer os cantores vestirem as roupas daquele período, frequentemente acontece de eu pensar “ah, é assim que fica”. Lojas de aluguel de vestimentas para ópera também, esses lugares que fazem as roupas de forma bem precisa. Como você está recriando as roupas do período nos papéis principais, eles te mostram como se faz.

Hagio: Que história valiosa! Tentarei ir em um desses lugares.

Ikeda: Mas sabe, mesmo estando historicamente corretos, há coisas que eu não consegui colocar os personagens vestindo. Na época que desenhei Berubara, de forma alguma eu consegui fazer a Oscar vestir aquelas calças curtas... aqueles culottes (risos). Como as leitoras não conheciam as roupas da nobreza, elas iriam achar feio. Por isso, quando vi as vestimentas que a Hagio-san desenhou em Margot, achei incrível! Assim, se as leitoras acharem o que a Hagio-san desenhou lindo, a partir de agora as pessoas vão conseguir desenhar.

Hagio: Ah, é mesmo.

“A diversão em desenhar obras históricas é você poder solucionar enigmas”
Mesmo sendo difícil de desenhar, onde está a diversão desafiante ao fazer obras históricas?
Hagio: Na História, ainda restam muitos enigmas. A partir do ponto de vista de alguém da posteridade, você quer solucionar esses enigmas. Quando conheci a história do Massacre da noite de São Bartolomeu, eu pensei “como o ser humano pode fazer algo tão atroz?” Desenhando Margot, eu quero conhecer esse contexto histórico.

Ikeda: Você já conhece o resultado, mas quer saber do seu próprio jeito como chegou até ali. Através do processo de desenhar, você talvez consiga solucionar os enigmas se movimentar os personagens que aparecem um por um.

Hagio: “Era isso que você estava pensando.”

Ikeda: “É por isso que você agiu desta forma”. Matsumoto Seichô-sensei já disse isso antes. Há muitos casos em que a interpretação de um romancista é mais correta que a de um arqueólogo. Porque aquele olha para o ser humano. Eu me pergunto se com mangakas também não é assim.

Hagio: Entendo. Não sei se conseguirei resolver os enigmas, mas tentarei desenhar.

(Fim da segunda parte)

Para contato de tradução: Luiz Carlos GuimarãesWilliam Soares



Não vou comentar muita coisa, não.  Da entrevista passada, esqueci de pontuar a forma fantástica como o editor de Ikeda reagiu às críticas às cenas de sexo (*uma única, aliás*) na Rosa de Versalhes.  Também, foi linda a lembrança de Ikeda sobre o apoio que recebeu de Osamu Tezuka.  Já nesta segunda parte, além da expertise de Ikeda em relação à vestimentas de época por conta de suas atividades na área da música como diretora de óperas é bem interessante.  E, bem, mais uma vez, elas tocam nos preconceitos e obstáculos que as mulheres enfrentam.  Mesmo uma mangá-ka bem sucedida - vide os elogios de Hagio Moto ao exemplo da colega - e famosa não conseguiu um empréstimo por causa dos seus três estigmas: mulher, solteira e mangá-ka.  Como as coisas começaram a mudar?  Para os mangá-kas, a partir do momento - 1995 - em que o governo japonês percebeu o potencial dos quadrinhos produzidos no país.  E vemos que continuam investindo cada vez mais pesado nisso.

Mais uma vez, agradeço ao Luiz pelo esforço e pelo carinho.

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1 pessoas comentaram:

Obrigada, Luiz, pela tradução e a você, Valéria, por compartilhar conosco essa entrevista. Muito boa! Gostei da parte que elas falam de realizar um sonho... "se é muito difícil, é porque não é tão importante assim." Para se realizar um sonho tem que desistir de alguma outra coisa. E tem que encarar esse desafio como uma questão de vida ou morte, para ter forças de dar o passo pra frente. Amei.

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