sexta-feira, 30 de março de 2018

Versão em quadrinhos de O Diário de Anne Frank causa polêmica em escola


Em 2017, a editora Record lançou no Brasil a versão em quadrinhos feita por Ari Folman e David Polonsky de O Diário de Anne Frank.  A versão tem inclusive status de adaptação oficial para a mídia dada pela Fundação Anne Frank (Anne Frank Fonds).  Mas, talvez, você nunca tenha ouvido falar da criança mais famosa do Holocausto, na verdade, uma das mais lembradas vítimas do extermínio promovido pelos nazistas, desde que seu pai, o único sobrevivente da família, encontrou seu diário e o publicou – com censura – em 1947.  Posteriormente, edições integrais foram lançadas em muitas línguas.  Mas vou fazer um breve resumo da vida da menina:

Anne Frank nasceu em 12 de junho de 1929, na cidade alemã de Frankfurt.  A família não era rica, mas pertencia a uma classe média muito bem estabelecida, era, também, liberal, isto é, não eram judeus ortodoxos.  Com a ascensão do nazismo e as leis antissemitas, a família de Anne deixou a Alemanha e refugiou-se na Holanda.  O pai de Anne, Otto, consegue garantir as condições de vida da família, mas com a invasão da Holanda e a rendição do país, em 1940, a situação dos Frank se deteriora e quando uma ordem chega para que o pai se apresente às autoridades nazistas, a família entra no esconderijo.  


Em 1942, a guerra ainda demoraria uma eternidade para terminar, especialmente, quando se corria tanto risco.  É nesse refúgio-prisão que Anne escreve seu famoso diário, entre os 13 e 15 anos.  Registra suas impressões do dia-a-dia, as dificuldades do convívio em um espaço tão pequeno, o medo, a esperança, o despertar da sexualidade, as saudades de tempos melhores, os conflitos com a mãe... Em 4 de agosto de 1944, devido a uma denúncia, todos são presos.  Anne e sua irmã mais velha, Margot, acabam morrendo em fevereiro de 1945 no campo de Bergen-Belsen, provavelmente, de tifo. Há mais informações no site do Museu Anne Frank.

Se você lê O Diário de Anne Frank pode discutir um monte de coisas.  Começando pela selvageria do Holocausto.  Garanto para vocês que até minha menina de 4 anos entenderia, obviamente, ela não seria público para esta adaptação, mas a dor de ter que se esconder, de perder a liberdade, a insanidade do extermínio, certamente, ela compreenderia.  Pois, bem, o livro foi recomendado como paradidático em uma escola particular de Vitória para as turmas do 7º ano, crianças entre 11 e 13 anos, eu presumo.  Alguns pais ficaram indignados, porque o quadrinho aborda questões relativas à sexualidade e obrigou os responsáveis – não qualquer pessoa, não a internet, não os colegas na rua – a conversarem sobre, enfim, coisas como o termo “vagina”.  Olhe a fala de um pai: "A minha filha trouxe a informação pra mãe dela, de que ela tinha lido o livro e começou a falar do que estava acontecendo em sala de aula, de que as crianças estavam repercutindo o conteúdo do livro na sala. Ela contou que alguns menino estavam fazendo chacota com as meninas, porque o livro fala do órgão genital feminino".   Assistam a matéria no site do G1.

Repito, o livro foi publicado a primeira vez em 1947 e escrito nos anos nos anos 1940 por uma menina entre 13 e 15 anos.  Crianças de 12 anos são curiosas e brincalhonas, também, e fazem piada de tudo.  Só que o pai entrevistado acredita que “(...) a escolha da escola acabou antecipando um momento da vida da filha”. "Ela comentou com a gente acerca de penetração, de masturbação, de colocar o dedo na vagina. Coisas que não são para a idade dela. Ela sequer tinha curiosidade de sabe aquelas coisas ainda, mas depois que ela leu, a gente teve que explicar, porque é melhor pai e mãe explicando do que um amiguinho ou uma pessoa mal-intencionada".  

Muitos pais têm dificuldade em lidar com temas ligados à sexualidade, em alguns casos, não tem mesmo o preparo para isso.  Talvez, a escola tenha sido negligente em perceber as demandas dos alunos e guiar a discussão.  Talvez, ainda, o material devesse ser recomendado para o 8º ano, quando as crianças estudam corpo humano, ou para o 9º ano, quando estudam 2ª Guerra Mundial e o Holocausto promovido pelos nazistas.  Talvez, simplesmente seja difícil acreditar que a palavra “vagina” seja desconhecida para uma menina de 12 anos.  De qualquer forma, acredito que nós, adultos, tenhamos sérios problemas ao olharmos as crianças e adolescentes, pois ou os cremos capazes de qualquer coisa, experientes, enfim, ou os vemos como completos inocentes e à mercê de influências malignas.  

Enfim, se discutíssemos mais e melhor certas questões teríamos menos neonazistas adolescentes por um lado e menos gravidezes nessa faixa etária por outro.  Só que vivemos em tempos de Escola Sem Partido e falsos puritanismos.  É mais fácil aceitar o Holocausto como banal do que imaginar que crianças de 12 anos conheçam o nome dos seus órgãos genitais, ou já tenham se masturbado alguma vez.

Termino o texto com a citação de uma especialista, a Prof.ª Maria Amélia Dalvi, da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), sobre a questão: “Me espanta muito que as pessoas se choquem com questões de sexualidade do que com o terror que milhões de pessoas condenadas aos campos de concentração passaram. Eu imagino que com 12 anos as questões ligadas a corpo e sexualidade já habitam o imaginário das crianças, dos adolescentes. As indagações já começam a aparecer. É muito melhor aprender sobre isso mediado pelos pais ou pela escola do que na rua (...)"Tem uma coisa, que a gente sempre precisa se lembrar: qual é o papel da literatura na escola? A literatura existe para complexificar a compreensão do real e ela faz isso quando nos defronta com questões difíceis da existência. Eu penso que uma obra que foi escrita por uma adolescente entre os 13 e os 15 anos, abordando coisas que passavam pela cabeça lá década de 40, e que se tornou após publicação um clássico juvenil no mundo inteiro, é um material muito importante que precisa sim ser debatido nas escolas."


Prometo uma resenha desse quadrinho.  Ele está aqui em casa faz vários meses, meu marido leu, e eu não li ainda.  Ah, sim!  A graphic novel que já foi lançada em mais de 50 países, vai virar animação.

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1 pessoas comentaram:

Nossa, eu nem estava sabendo disso! Fiquei chocada. Achei um máximo seu post, explicou toda a questão de forma bem clara, gostei muito da sua escrita :>
Realmente, é um falso puritanismo, uma hipocrisia incalculável: fazem questão de esquecer o que passaram quando eram adolescentes ou o que? Até parece que ao ser pai você apaga todo seu passado e só brota como adulta, sabendo de tudo. kkkk aiai
Obrigada por me informar a respeito disso, e parabéns pelo seu blog! É fantástico ♥

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