domingo, 5 de agosto de 2018

Comentando (atrasado) o 4º Fórum Nacional de Pesquisadores em Arte Sequencial


Entre os dias 25 e 27 de julho, estive na cidade de Macaé, no Rio de Janeiro, participando do 4º FNPAS, um evento acadêmico promovido pela ASPAS, a Associação de Pesquisadores de Arte Sequencial.  Arte Sequencial é uma forma mais "erudita" de se referir aos quadrinhos.  O conceito foi criado pelo grande Will Eisner e a gente não pode esquecer de como os quadrinhos como expressão artística e social popular foram perseguidos, desmerecidos e censurados a partir do século XX.  

De qualquer forma, a ASPAs congrega os estudiosos de arte sequencial, gente dos mais diferentes campos: artes, design, história, geografia, letras, biblioteconomia etc. Descobri, para a minha surpresa, que há biólogos que estudam quadrinhos, também.  Um dos diferenciais dos eventos da ASPAS é reunir pesquisadores de quadrinhos e gente que faz quadrinhos.  é um evento acadêmico sério, por assim dizer, mas que não exclui os artistas.  Daí, um dos destaques do 4º FNPAS foi o projeto de fanzines desenvolvido com os alunos do  IFF Campus Macaé, que recebeu o evento.  Inclusive, houve votação popular para decidir os melhores trabalhos que estavam expostos em uma sala transformada em galeria.


O Alberto.
Em primeiro lugar, convém pontuar o quanto fomos bem recebidos pela direção do IFF.  O diretor nos acolheu bem e o Alberto, o funcionário do IFF que desenvolve projetos com quadrinhos e estava a frente da organização junto com a amiga Prof.ª Natania Nogueira, tentou tornar o 4º FNPAS o melhor possível. Eu nunca participei da organização de nenhum evento acadêmico, mas é fácil imaginar o quanto de coisas você tem que ver de alojamento, no caso, hotéis e pousadas que ofereçam descontos, até a aprovação de resumos de comunicações e organizações das mesas.  Sempre se tenta fazer o melhor, por assim dizer, nem sempre a coisa funciona como a gente espera.  Por exemplo, há quem falte e precise ser substituído de última hora.  São coisas que acontecem.  A programação completa pode ser vista aqui.

O tema escolhido para o fórum foi "Os Quadrinhos e a Diversidade".   Nada mais atual, por assim dizer.  Na cabeça de muita gente, quadrinhos ainda são vistos como "coisa de criança", ou de "homem que não cresceu".  Quando imaginamos o autor de quadrinhos - roteirista e desenhista, ou ambos - parece que só poderia ser um homem, de preferência hetero, cis e branco, ou um japonês, no máximo, porque mesmo com toda a disseminação dos mangás, ainda há quem só consiga lembrar de O Lobo Solitário, porque quadrinho bom é de Super Heróis, ou alguma coisa feita na Europa.  fugiu da narrativa tradicional?  Não é quadrinho.  



Enfim, tive a honra de abrir o evento com a conferência "Mulheres e Mangás: uma História a partis da Perspectiva de Gênero".  Tenho ainda que mexer nos meus slides, caso queira disponibilizar, mas ampliei a coisa para uma discussão da exclusão das mulheres ao longo da História da Arte e da Literatura no Ocidente e como, de certa forma, elas terminam sendo excluídas, ou invisibilizadas nos quadrinhos, também.  Daí, o contraponto com o Japão e os motivos que eu elenquei para isso.  é uma discussão, claro.  O fato é que eu estava bem nervosa e ainda consegui ficar presa dentro do banheiro pouco antes da abertura.  O trinco estava com defeito.  Ainda bem que eu não sofria de claustrofobia.  

Participei e assisti as comunicações do Miniauditório 3 e não fiquei para a sexta-feira.  Queria voltar logo para a Júlia, por assim dizer, porque ela tinha ficado com os avós, daí, terminei também não assistindo a última mesa redonda, última mesmo, cujo tema era "Gênero e Diversidade", mas se ficasse, só chegaria de volta no Rio perto da meia noite  e ainda teria que ir para São João de Meriti. 
Do primeiro dia da minha sessão de comunicações tivemos uma falta, o trabalho sobre a revista Vozes, e a inclusão da comunicação "O Grito de Zarturnnah: Subversão e Descolonização no Komik de Carlo Vergara", que veio da sexta-feira para a quarta.  Eu fiquei muito feliz, porque pude assistir ao trabalho apresentado pelo Lucas foi espetacular, tanto que ganhou um post no blog.  Sem querer desmerecer os outros trabalhos, o meu incluso, acredito que o outro ponto alto da sessão foi o trabalho da Valéria Bari (UFS) sobre Becassine.


Zarturnnah, a super-heroína filipina.
Para quem não conhece, Becassine é uma personagem de um quadrinho francês criado em 1905 pela escritora Jacqueline Rivière, sim, uma mulher.  Ela não desenhava, mas contava bem as aventuras e desventuras da empregadinha vinda da Bretanha, uma "caipira", por assim dizer, que não tinha boca, nem orelhas visíveis.  Já li análises de Becassine que enfatizavam exatamente isso, a personagem seria moldada para reforçar o patriarcado, pedagógica, portanto, afinal, uma mulher não deveria nem falar, nem ser bisbilhoteira.


As mulheres apaches reconhecem o valor de Bécassine.
Valéria Baria mostrou que a coisa não é bem assim, que Becassine poderia ser lida como uma crítica ao silenciamento das mulheres rurais, a forma complacente como eram tratadas.  Em 1905, muitas delas saiam dos interiores para trabalhar nas grandes cidades, em casas de família.  Esse movimento ainda acontece hoje em muitos países, nem sempre essas "empregadinhas" são tratadas como funcionarias, vivendo em regime de semi-escravidão.  Bari fez uma ponte, também, com o Ano Internacional da Mulher Rural e sua importância para a produção de alimentos.  


O sorriso de Bécassine.
Fora isso, mostrou um álbum específico de Becassine, "Bécassine voyage" (1921), em que a empregadinha encontra índios apaches e, pela primeira vez, tem seus saberes, sua inteligência, reconhecidas.  E ainda é vista pelas mulheres da tribo como a primeira mulher branca racional.  E Becassine sorri.  Ela tem boca.  Entre os ditos "selvagens", ela, a caipira, é um ser humano.  E, bem, eu me emocionei com o sorriso de Becassine.


Na quinta-feira tivemos outras boas surpresas.  Infelizmente, o Iuri Andreas Reblin não pode estar presente.  Ele é um dos pesquisadores mais competentes que conheço.  consegue combinar o uso da teoria com a análise do objeto como ninguém.  Sempre é um prazer ouvi-lo, mas ficará para a próxima vez.  Quem assumiu a mediação foi a Sabrina Paixão Brésio, que eu conheço de tempos.  O trabalho dela, se não estou tendo amnésia, terminou sendo transferido para a sexta-feira.

Dos trabalhos do dia, merece destaque o da Gislene Chatack de Paula (UFRJ), que trouxe sua pesquisa de TCC da pedagogia mostrando como as crianças - meninos e meninas - interagem com os super-heróis.  Todos os presentes apontaram o quanto o material que ela colheu na pesquisa é promissor e que ela não deveria desistir, mas persistir.  


Os Invisíveis.
O Attila de Oliveira Piovesan (UFES) apresentou um trabalho muito legal, parte de sua pesquisa de doutorado, falando dos ecos da chamada "literatura de testemunho", um termo que eu não conhecia, mas que se remete aos relatos de situações limites, começando com as tais memórias do Holocausto dos judeus (Shoa), em Os Invisíveis (*vol.1*) de Grant Morrison.  Deve ter sido o trabalho que mais me rendeu anotações.  Primeiro, não conhecia Os Invisíveis, nunca li.  Depois, ele trouxe dados de planos de efesa e evacuação da Era Reagan, algo que permitiria ao Estado prender uma grande quantidade de pessoas rapidamente se necessário.  o Attila também relatou as dificuldades de se trabalhar com quadrinhos no Departamento de Literatura, porque, bem, HQ não é bem uma fonte tradicional, por assim dizer.

Agora, a grande surpresa do dia foi o trabalho de Zoologia Cultural, área que eu nem nunca tinha ouvido falar, intitulado A Visão do Mundo Natural em Tin-Tin no Congo dos professores Elidiomar Ribeiro da Silva (UNIRIO) e Luci Boa Nova Coelho (UFRJ).  Tin-Tin no Congo, publicado entre 1930-31, é o segundo álbum da personagem, e meio que arroz de festa para o pessoal das ciências sociais, porque há toda a questão da glorificação do imperialismo e do colonialismo, mas o que o pessoal de biologia vê em Tim-Tim no Congo.


Tin-Tin no Congo, a página refeita do rinoceronte.
Primeira coisa, a Zoologia Cultural, se entendi bem, trabalha com a forma como os animais são representados na cultura popular e outras mídias. Enfim, as representações sociais do gato preto, por exemplo, ou como cada pokemon é inspirado em animais e plantas que realmente existem.  O trabalho sobre Tim-Tim tratou da forma objetificada e cruel como Hergé apresenta os animais.  Tim-Tim é um caçador inveterado e capaz das piores atrocidades em relação aos bichos que são representados de forma bem correta pela arte de Hergé.


Revista "A Bruxa".
Eu não tenho Tin-Tin no Congo em casa, mas fomos até a Livraria Cultura no domingo (29) e demos uma espiadela no álbum.  Uma das sequências mais cruéis do original, quando Tim-Tim não consegue abater um rinoceronte com tiros e decide explodi-lo com dinamite, não consta mais nas edições atuais.  O álbum traz uma espécie de pós-fácil do próprio Hergé fazendo a auto-crítica em relação ao tratamento dado aos animais em alguns momentos.  A passagem do rinoceronte, particularmente violenta, foi excluída.  E o autor fez isso.  Se pararmos para pensar, é uma atitude louvável, por assim dizer.  Autocensura, ainda mais devidamente explicada por um autor, sempre é bem-vinda.


As duas Valérias (Bari e Fernandes)
com a mesa de lançamentos e livros.
Voltando ao pessoal da Zoologia Cultural, uma área, segundo o Prof. Elidiomar, ainda discriminada na academia, eles tem uma revista científica, chamada A Bruxa e um Colóquio.  O segundo acontecerá no Jardim Zoológico do Rio de Janeiro, no dia 15 de setembro.  Se eu pudesse, iria assistir, se você está no Rio de Janeiro, que tal dar uma olhadinha?  O Elidiomar deu aula para o meu irmão, ele fez Biologia na UniRio e quando soube, elogiou bastante o professor.


Arte Sequencial e seus
Multiversos Conceituais.
Além das sessões de comunicações, e só falei daquilo que assisti, eram três salas diferentes com várias comunicações.  Além disso, houve diversos minicursos, mesas redondas e palestras.  Além do lançamento de livros da ASPAS, destaque para Arte Sequencial e seus Multiversos Conceituais, com capa de Amaury Fernandes, e Arte Sequencial e suas Sarjetas Metodológicas, capa de Catia Ana Baldoino da Silva.  São coletâneas de artigos voltados para pesquisadores, mas acessíveis ao público comum.  Eu levei exemplares do meu livro com o professor Amaro Braga para vender, também.  Aliás, se alguém ainda quiser, tenho vários exemplares comigo.

Arte Sequencial e suas
Sarjetas Metodológicas.
É isso.  A pesquisa com quadrinhos é ampla, ainda discriminada em muitas universidades, mas com possibilidades quase infinitas.  A cada encontro desses, aprendo muita coisa e queria poder dividir mais.  Este ano, entre 22 e 24 de agosto de 2018, acontecerá ainda a 5ª Jornadas em Histórias em Quadrinhos, na USP.  Trata-se de um evento muito maior e chancelado pela principal universidade pública do Brasil.  Eu tive que escolher.  As Jornadas costumavam ser bianuais, agora, acontecerão todos os anos.  Irei, se tiver sorte, no ano que vem.  Espero que o relato tenha sido útil.

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