quarta-feira, 29 de agosto de 2018

Orgulho e Paixão e BL: Comentando o Amor de Luccino e Otávio


Era para ser um Shoujocast, cheguei a gravar o programa, mas decidi escrever um texto mesmo, porque o áudio ficou longo, prolixo e eu não teria como editar, iria ter que gravar tudo de novo.  Enfim, desde sexta-feira passada, se não me engano, a novela Orgulho & Paixão vem apresentando o drama de duas personagens que vivem um amor quase impossível.  Elas poderiam ser de classes sociais muito distintas, poderiam ser de grupos étnico ou religiosos divergentes, poderiam ser de séculos diferentes (*vide O Tempo não Para*) poderiam ter, mil impedimentos que a gente vê todo dia nas novelas, mas o obstáculo maior, neste caso, é o fato de serem dois homens no Brasil do início do século XX.  

Curiosamente e para a alegria de quem acompanha a novela, uma (*muito*) livre adaptação de vários livros de Jane Austen, de coração aberto e sem uma muralha homofóbica, a relação do mecânico Luccino (Juliano Laham) e do Capitão Otávio (Pedro Henrique Müller) tem sido desenvolvida de forma muito sensível e humana pelo autor, Marcos Bernstein.  Ambos não são protagonistas, as personagens centrais da novela são mulheres tomadas de empréstimo de vários livros de Austen, ou criadas para a novela, mas, como o autor é generoso, eles ganharam uma história própria e tiveram cenas muito comoventes nos últimos capítulos.  Outras virão, com certeza.

Mário foi o primeiro amor de Luccino?
Luccino desde o início era uma personagem positiva e simpática, guardião dos segredos de personagens mais importantes que ele e vítima da violência do irmão mais velho e truculento, que faz parte do grupo dos vilões, por assim dizer.  Era uma espécie de fiel escudeiro do Coronel Brandão (Malvino Salvador) e, depois, passou a apoiar Mariana (Chandelly Braz) no seu sonho de pilotar motocicletas.  Para isso, ela se disfarçou de homem e Luccino a ensinou a se comportar como um homem.  Nesse momento, algumas pessoas começaram a aventar que Luccino seria gay, porque ele parecia interessado em Mário, a versão masculina de Mariana.  Eu discordei, afinal, tratava-se de uma reedição do Mito da Donzela Guerreira e, a rigor, não seria coerente um sujeito se apaixonar por um homem que ele sabia ser mulher. Mas, enfim, o rolo Mariana-Mário não é para ser crível, nem a novela se apresenta como realista, ainda que, infelizmente, não se assuma como fábula, paródia, ou o que seja.  Se fosse, desde o início, assumida como um Cordel Encantado, ela seria bem melhor.  

Enfim, não acredito que o autor planejou um Luccino gay desde o início. Ele viu as possibilidades e se aproveitou delas, da mesma maneira que Walcyr Carrasco fez com Niko e Félix, só que, como as fujoshi (*fãs de BL-Yaoi*) não parecem ter percebido a novela das seis, afinal, o horário é cada vez mais ingrato, porque muita gente ainda está fora de casa ainda, ou por simples preconceito, a coisa tem passado meio batida.  Há quem creia que novelas das seis são piores que as demais, mais simples, água com açúcar, menos reflexivas e chatas.  Enfim, fosse novela das nove, a de maior visibilidade e audiência (*normalmente*), muita gente estaria comentando as bonitas e inesperadas cenas e torcendo pelos dois como o fariam com uma das nove.  Fora que tanto Otávio, quanto Luccino, estão sofrendo muito esses dias.  Aquela sequência na chuva foi destruidora... Já o toque de mãos furtivo no jantar foi para aquecer o coração.

Um quase beijo, por assim dizer.
E eu nem pensava em escrever nada, mas um amigo de longa data, o Alex, postou uma das cenas dos dois no grupo do Facebook do Shoujo Café e muita gente veio comentar.  Eu, que estava atrasada uns dois capítulos, coloquei as coisas em dia e, sim, precisava falar de Luccino e Otávio.  E o caso deste último é bem peculiar.  Otávio é um caso raro de personagem inútil que ganhou densidade e vida própria na trama. Aconteceu com ele exatamente o inverso do que houve com o coitado do Murilo Rosa, que deveria ser um dos protagonistas, já que era o Mr. Knightley, par de Emma (Agatha Moreira), e virou coisa nenhuma. Se ele e a Amélia, personagem de Letícia Persiles, outra excelente atriz, fossem para a Europa, ninguém sentiria falta, porque eles não têm lugar na trama.

No caso do Otávio, ele fazia parte do núcleo cômico normalmente atrelado à Lídia (Bruna Griphao), uma das irmãs Benedito.  Ele era um de seus pretendentes.  De repente, mas não de maneira forçada, o Capitão passou a ser uma personagem completa, alguém que vivia fugindo do que sentia, que não conseguia mais fingir que se interessava pela mais assanhada e desmiolada das Benedito, na verdade, ele descobriu que não compreendia o que ele mesmo era.  Sair do armário, ou, pelo menos, compreender que se está no armário, é coisa das mais difíceis e, por mais que a novela seja frouxa em relação aos usos e costumes de época, seria ainda mais complicado descobrir-se gay.  Mesmo hoje, ser homossexual e militar parece, na cabeça de muita gente, algo incompatível.

Otávio quase casou com Lídia..  Quase...
Otávio não tem família e tem poucas amarras, salvo sua profissão, deseja dar o salto que Luccino não é capaz de dar.  Não ainda.  Quando Luccino e o Capitão são descobertos pelos pais do primeiro, a gente esperava que ele fosse até agredido pelo pai (Jairo Mattos).  Fosse uma novela das 23h, o violento patriarca talvez tentasse matar o filho.  Agora, não acredito que ninguém que tenha visto a cena com o coração aberto, com empatia pelo menos, não tenha sentido a dor do silêncio da mãe, Dona Nicoletta (Rosane Gofman), uma personagem do bem, por assim dizer, que fria, ou em choque, dá as costas para o filho sem dizer palavra.  Comportamento absolutamente normal e mais corriqueiro do que a gente imagina até hoje.  Fala-se do passado, em filmes, novelas, seriados de época, para se falar do presente, também, não se enganem.

Agora, enfim, é o momento da angústia, do sofrimento, que daria, sim um excelente mangá.  Alguém pode dizer, e com razão, que é exagerado o acolhimento que o Capitão e Luccino recebem de algumas personagens.  Mariana, como uma transgressora por excelência, foi a primeira a compreender, ou começar a perceber, pelo menos, que Luccino é diferente, ela poderia aceitar sem maiores problemas. Já, o Coronel Brandão, talvez se fosse um homem real, não um tipo de novela, fosse mais duro, menos compreensivo.  Não pensem, no entanto, e isso é o que mutia gente deseja acreditar, que a homossexualidade foi inventada ontem, ou que em certos círculos, desde muito, muito tempo, sabia-se bem quando alguém era “diferente”, o importante, muitas vezes, é que essa pessoa cumprisse com seus deveres, isto é, casar, procriar, se ajustar a maioria, ser discreta.  O Coronel já se mostrou um homem conhecedor do mundo, mas, reforço, ele é por demais acolhedor.

Antes de qualquer coisa, eles são humanos.
Voltando a um ponto que esqueci, uma das coisas importantes que o autor fez foi antes de apresentar Luccino e Otávio como homossexuais, e permitido que o público os colocasse em suas caixinhas de representações sociais sobre o que é, ou não, ser gay, o autor os apresentou como homens como quaisquer outros.  Como pessoas.  Daí, ao revelar que eles são, por assim dizer, outsiders, eles já eram gente como qualquer outra.  Um dos problemas da representação de gays e lésbicas em peças de ficção é que eles e elas são construídos a partir da sua orientação sexual e, de certa forma, ficam prisioneiros dessa característica.  Porque, e acredito que já discuti isso, se você não diz qual a orientação sexual de alguém, essa pessoa é, por princípio, hetero.  Se você não a descreve, ela é, obrigatoriamente, branca, e por aí vai...   

Outra questão, nenhum dos dois moços têm nada dos tipos efeminados (*e nada contra os gays efeminados, é que é um clichê*) das nossas novelas.  Eles são homens como quaisquer outros, isto é, se comportam dentro da média dos papéis de gênero esperados, e, bem, uma parte considerável dos homossexuais em tempos passados deveria ser exatamente assim.  Muitos gays hoje, também.  Luccino é mecânico.  Otávio é militar e sabe manejar muito bem as armas.  Revi a pouco o meu primeiro texto de Liberdade Liberdade e vi como aproveitaram mal o André (Caio Blat).  Ele era exatamente esse gay afetado, mas ser assim não o impediria, no século XVIII, de ser um espetacular atirador e espadachim.  Enfim, outro ponto para Orgulho e Paixão.

Qual o homossexual que a maioria costuma ver?
 O estereotipado, o maniqueísta, o inofensivo.
Já e encaminhando para o final, o autor construiu de forma muito sensível a situação de descoberta da (homo) sexualidade dos rapazes e o fez de forma mais competente do que a maioria dos autores de telenovelas e em um horário cheio de limitações.  Vide como Walcyr Carrasco tratou o tema em sua última novela e o que está sendo feito por João Emanuel de Carneiro.  Como não gosto de nenhum dos dois e os vejo como superestimados, não é surpresa alguma.

Falando como mulher cis hetero, ou seja, alguém que se vê representada o tempo inteiro na TV, que vê cenas de romance envolvendo pessoas como eu o tempo inteiro, não vejo nada de menos no romance de Luccino e Otávio, muito pelo contrário, o autor vem driblando as limitações e colocando em tela toda a tensão gerada pela repressão dos sentimentos e, mais ainda, pela dúvida real em como expressá-los.  Eles não precisam se beijar, duvido que o façam, para entender todo o afeto que os move.  Eles não precisam aparecer lado a lado em uma cama (*o carro da oficina fez as vezes de cama, vocês não acham?*) para que a gente entenda que há desejo entre eles.  É possível até falar de sexo (*e eles não fizeram nada, é certo*), sem mostrar o ato.  Subentendidos, olhares, toques de mão, um abraço podem ser tão ou mais expressivos.  Não sei se vocês concordam, mas é assim que eu vejo e se aplica, também, a muitos romances hetero. 

Murilo Rosa e Letícia Persiles não tem
mais função na novela... É faz tempo!
E para quem acredita piamente que em 1910 não havia homens e mulheres homossexuais, informo que o fato deles e delas serem invisibilizados, não quer dizer que não existissem.  Afirmo ainda que muita gente se incomoda – da mesma forma que muita gente torce por eles – porque está acostumado a tolerar o gay caricato, feito para rir, e tem baixa ou nenhuma tolerância quando eles são apresentados como seres humanos da mesma forma que os heterossexuais são.  Aliás, para os críticos das novelas há duas coisas que parecem incomodar mais que tudo, uma é que as mulheres façam sexo sem culpa, que não lamentem o prazer que sentem, outra, é essa agora, termos um casal gay surgindo com força e confiança em uma novela das seis de época.

Terminando, contarei um causo.  O professor que trabalha comigo no terceiro ano teve que pegar umas turmas no segundo ano do Ensino Médio.  Nós, no Colégio Militar, usamos um dos livros do MEC atualmente, é mais econômico para os alunos e alunas.  Nosso livro atual é feito por um grupo de professores badaladíssimos da UFF (Universidade Federal Fluminense), encabeçados por um especialista em estudar gente invisibilizada e excluída, Ronaldo Vainfas.  E qual não foi nossa surpresa por descobrir que, no capítulo sobre independência do Brasil, não se fala do papel de D. Leopoldina no processo.  Há uma frase sobre ela dizendo que era austríaca e esposa de D. Pedro I.  Em contrapartida, temos um box enorme sobre Domitila para falar que era a amante, reduzindo-a a isso.  Se você é capaz de apagar a Leopoldina, imagine outras personagens... 

Sessão do Conselho de Estado,
Georgina de Albuquerque, 1922.
Vejam que se não fosse esse meu colega um sujeito muito competente e perceptivo sobre o papel das mulheres na História, ele não falaria nada sobre Leopoldina, mas ele está falando e os olhinhos das meninas estão brilhando.  E, mais ainda, ele não está inventando nada, está usando as fontes que, ao que parece, não foram consideradas importantes pelos autores e autoras do livro.  O que eu quero dizer?  Um aluno, ou aluna, pode estudar o ensino Fundamental e Médio inteiros sem saber que houve mulheres, gays, negros importantes na História, que eles e elas podem ter sido protagonistas, que não era somente vítimas ou coisa que valha.  

De novo, parabéns para o autor, Marcos Bernstein, por Luccino e Otávio, aos atores, também, aliás, por ter feito deles seres humanos e estar conduzindo tão bem essa inesperada história de amor.  Obrigada por apresentar a diversidade do humano e, não, colocar todo mundo na mesma forminha.  Mais ainda, eu entendo a raiva dos conservadores, dos reacionários, e dos homofóbicos, enfim, porque deve ser muito difícil deixar de fingir que pessoas LGBT existiam em outras era e, mais ainda, não eram somente caricaturas de gente como outras obras de ficção nos mostram o tempo inteiro.  E vocês, fujoshi que não conhecem a novela, não sabem o que estão perdendo.

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9 pessoas comentaram:

Ótimo texto!
Sou gay e não os conhecia até sexta passada
Fiz maratona das cenas dos dois e estou apaixonado e torcendo por eles igual torço pelos personagens dos BLs
Fico muito feliz dessa representatividade e que os dois estão alcançando o coração de muitas das telespectadoras de novelas das 6
Não sei se você tem assistido algum BL atual. Se sim, gostaria de te pedir para falar sobre ou até mesmo comentar sobre algumas características dos BLs (como seus clichês de dois homens heteronormativos e a namorada ciumenta que é trocada)

Amei sua matéria. Não sabia desses personagens /novela.

Olá Valéria. Então no texto vc diz q eles n foram planejados desde o início para serem um casal, mas há esse post no twitter de um dos autores (q foi perguntado por uma galera sobre o início de Lutávio):
https://twitter.com/VictorAtherino/status/1028744466147016704

Veja bm, n estou concordando ou discordando, eu n sei bm oq pensar sobre, pq há tbm pessoas no twitter especulando q Lutávio pode ter sido baseado em Persuasão, outro livro da Jane, e fazendo comparações entre personalidades e situações. No caso, a mocinha do livro foi transformada em Luccino. O pessoal ainda espera (eu acho) uma palavra do autor Victor Atherino. Aqui a teoria: https://twitter.com/bruxadanovela/status/1031957063818268672

Gostaria de saber oq acha :)

Gostaria de saber oq vc pensa sobre.

Obrigada pelo comentário, Rodolfo! Olha, não sei se vc conhece, mas as melhores discussões sobre BL estão em um site chamado Blyme Yaoi. Vc encontra muita coisa por lá.

Jó, eu nem conhecia o colaborador do Marcos Bernstein. Enfim, se ele está dizendo que planejou... agora, o Lavam (Luccino) chegou a dar entrevista dizendo que não sabia... Enfim...

Já a história de Persuasão, eu acho que se encaixaria mal, muito mesmo. A protagonista era nobre e rica e rejeitou o mocinho pobre, porque foi aconselhada pela mulher que era uma espécie de sua segunda mãe. Ficou para titia, o cara volta rico, ofendido, mas terminam se acertando. Pouca semelhança , vamos combinar.

ah sim, o pessoal no twitter e no grupo do fandom no whats comparam as personalidades, já q mudaram bastante as situações. Fizeram uns paralelos lá das personalidades e algumas situações. Eu não li o livro e verei o filme ainda por causa dessa teoria, eu n conhecia essa história dela. Dizem q o fato de Lutávio ser sempre interrompido poderia ser um indício tbm kkkkk
Já em relação ao planejamento do casal. Teve pessoas lgbt+ q identificaram no Otávio uma possível homossexualidade desde a época da Lídia, pelas situações forçadas dele, inclusive se identificaram com ele, seria uma tentativa de aparentar, só n se sabia se desenvolveriam ele; ou estranharam as atitudes dele com Lídia rs.
Já o Luccino, eu pensei antes da descoberta dele, q ele ficaria com Mariana, pelo tal clichê citado no texto, mas teve gnt q apontou pra primeira descrição q a mãe dele faz dele, q ele não se encaixava no esteriótipo do padrão masculino e tals. Por isso acham q havia intenção de torná-los casal mais pra frente.
Bem, eu só sei q tô curtindo muito eles, e até fanarts tô fazendo em homenagem à Lutávio, coisa que não sou de fazer <33 rs
Obrigada por responder :)

Como você fez maratona das cenas dos dois? Quero fazer também, só vejo a novela vez ou outra, mas já amo esse casal

Nessa thread tem as cenas Lutávio

https://twitter.com/fuerzafer/status/1025126448628215809

que delícia de texto!
expressa todas as razões pq esse casal é tão necessário e cativou tanto a nós fujoshi.
me emociona a forma cm o Major muda ao longo da trama, justamente "contaminado" pela energia bondosa de Luccino.
Muito da personalidade egoísta dele devia ser por causa de seu segredo e o fato de pensar jamais encontrar alguem para amar.
revendo as cenas q eu nao assisti na novela, percebo q individualment kd um deles ja era rico, por assim dizer, e seriam extremament mal aproveitados se vivessem a sombra dos protagonistas ou cm escape cômico.
devemos muito ao autores, claro, mas tbm aos atores q souberam passar com olhares toda a angústia necessária e ao msm tempo, o encantamento. já q nada se pode demonstrar com "saliva" igual é feito deliberadament com outros casais.
Seu texto é tão lindo quanto Lutavio e eu fico honrada de ler suas palavras.

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