quinta-feira, 9 de agosto de 2018

SBT Culpabiliza os Negros pelo Racismo em Novela Infantil


Não gosto de falar de novelas que não assisto, ainda que já o tenha feito por questões específicas, ou a pedido de alguém.  Vamos lá, apareceu um pequeno trecho da novela As Aventuras de Poliana, novo sucesso infantil do SBT, na minha TL e senti-me obrigada a comentar.  Começo dizendo que acho importante que o canal invista nesse público e lhe ofereça alternativas.  A retribuição vem na forma da audiência.  Termina aí a parte elogiosa.  É mais que sabido que o SBT costuma inserir mensagens subliminares em várias de suas produções e seriados.  Você está vendo um episódio de uma série e, de repente, pisca muito rápido e do nada, uma propaganda da Jequiti.  Eu custei a notar e somente o fiz depois que me alertaram que acontecia.

Há, porém, outros tipos de propaganda e o SBT já foi punido por colocá-las na novela Carrossel.  Normalmente, consiste em pegar uma personagem popular, não raro um adulto em quem as crianças confiam, em posição que mistura afeto e autoridade, reforçando as características positivas de um produto.  Tipo, escovar os dentes é fundamental, mas, daí, aparece a Prof.ª Helena dá a recomendação e reforça que a marca X de creme dental é a melhor.  É desse tipo de coisa que falamos.  Agora, isso que aparece no vídeo de As Aventuras de Poliana me soa soa como mais grave ainda.  Claro, é a opinião da autora desse post, mas vamos lá.  Assistam, é curto:


Toda a cena tem caráter didático e o SBT deve ter
pensado que era empoderadora...
ou será que é de propósito mesmo?

Késsya (Duda Pimenta) está chateada por ter sofrido racismo.  Uma personagem adulta negra (*olha só a questão do lugar de fala*), Helô (Eliana de Souza), diretora da escola onde se passa a trama, uma mulher bem sucedida aparentemente, desqualifica a percepção da menina, que tem uma atitude desafiadora no início e durante parte da cena até ser convencida de seu erro.  A sequência toda é sutil, delicada, travestida de doçura.  Mensagem dada, tanto para as crianças negras, quanto para as socialmente brancas.  E qual é o ponto importante?  Convencê-las de o racismo só existe, porque os negros e negras acreditam que ele existe.  É tudo um produto da cabeça vitimista dos negros, os  brancos mesmo, nem se importam com essa coisa de cor, imagino, mas somente com o caráter e a competência de uma pessoa.

É uma cena deveras violenta e cruel.  Primeiro, porque o racismo é estrutural e basta fazer o teste do pescoço em uma turma de faculdade de Medicina, por exemplo.  Não sabe o que é isso?  Estique o pescoço e olhe os alunos e alunas assistindo uma aula.  Pode fazer o mesmo na sala dos professores, caso ela exista, o resultado será semelhante.  Agora, os procure entre o pessoal dos serviços gerais da mesma faculdade.  Conte quantos são.  Segundo, porque negros e, especialmente, negras, estão quase ausentes de postos de prestígio e poder em nossa sociedade.  Pegue o exemplo da primeira professora negra do ITA e das pedreiras que ela enfrentou e enfrenta por conta de seus três estigmas (*negra, mulher, de exatas*).  Terceiro, pegue as estatísticas da violência e leia sobre o que algumas entidades chamam de genocídio da juventude negra.  Mas é tudo coisa da sua cabeça, diz a diretora negra da novela do SBT.


Poliana (Sophia Valverde), a protagonista, e Kessya (Duda Pimenta).
Enfim, reforçar para  as crianças que racismo não existe, é coisa da cabeça dos negros, é um ato de grande covardia, mas se presta muito bem a manter as estruturas de poder.  Se um negro, ou negra, vai mal, não se esforçou o suficiente.  Se é rejeitado, é porque não tem as características exigidas para tal posto, ou função.  Espero que o SBT conserte isso, mas acredito que não o fará.  A novela é de autoria da esposa de Sílvio Santos, Iris Abravanel, mas coisas semelhantes já vi em outros produtos mexicanos da casa, como o Carrossel original.  Aliás, o Cirilo da versão brasileira era muito menos boboca do que o original, mas isso não quer dizer um grande avanço, no fim das contas... 

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