sábado, 29 de setembro de 2018

"Banir livros de história que não tragam verdade sobre 1964". Mas o que quer dizer isso?

Queima de livros na Alemanha.
Você que acredita que este blog é somente sobre animação e mangá shoujo, pode pular este post.  Certamente, você é nova/o por aqui e não conhece a postura da responsável pelo Shoujo Café, nem leu sua biografia.  Desta vez, dada a urgência do tema, não me desculpo, acredito que qualquer pessoa com o mínimo de bom senso esteja atenta ao que vem acontecendo em nosso país e dos ruiscos que nossa frágil democracia corre por esses dias.  Aviso, desde já, que este é um post político escrito por uma mulher feminista e professora de História, sim, formada, não diletante de internet.  Se quiser ler, siga adiante.

Ontem, foi publicada uma entrevista com o general da reserva Aléssio Ribeiro Souto, dada ao repórter Leandro Prazeres do site UOL.  Este general é um dos assessores técnicos do candidato do PSL, que declarou ontem que não aceitará o resultado das urnas caso seja derrotado, assumindo claramente o desprezo pelo jogo democrático.  Sim, eleição a gente perde, ou ganha, se as regras foram cumpridas, e o próprio nunca delas reclamou em sua múltiplas eleições e reeleições, algum problema há.  Mas a questão desse post é  o tal "banimento" dos livros que não falem a verdade, segue o trecho específico.  Basta clicar para ampliar, ou ir para a entrevista integral:
Venho por meio deste post externar a preocupação da professora de História que sou em relação à afirmativa do General, um não especialista no tema, jé que sua formação é AMAN (Academia Militar das Agulhas Negras) e IME (Instituto Militar de Engenharia), ou seja, ele teve o verniz básico na disciplina que todo candidato à oficial combatente do Exército Brasileiro recebe e uma formação adicional em Engenharia que deve ter sido uma das melhores disponíveis em sua época.  Eu, Valéria, não vou dar pitaco em Engenharia, mas considero desrespeitoso que alguém sem formação queira ditar o que é "verdade", ou "mentira", quando o assunto é História.  Curiosamente, todo mundo acredita que pode dar opinião quando o assunto é História e, caso chegue ao poder, já verbaliza que irá determinar quais livros podem, ou não, serem utilizados ou lidos.  O nome do primeiro processo é REVISIONISMO, o do segundo, CENSURA.

Queima de quadrinhos em Binghamton, New York, 1948.
Se você for olhar a História da Alemanha Nazista, verá que no dia 10 de maio de 1933, pouco depois da chegada de Hitler ao poder, foi promovida a noite de queima de livros (Bücherverbrennung) "nocivos" ao regime.  A ideia foi de Joseph Goebbels, ministro de propaganda, que percebeu que um movimento de retirada e destruição de livros das bibliotecas já vinha ocorrendo.  A experiência não era nova na História, queimar livros é coisa típica de regimes e governos que se vêem como representantes de uma verdade única e indiscutível, mas os nazistas sabiam promover espetáculos e já havia fotografia e cinema para registrar tudo.  Livros de autores como Stefan Zweig, Thomas Mann, Sigmund Freud, Erich Kästner, Erich Maria Remarque, Ricarda Huch e Hellen Keller foram destruídos.  

Segundo o Deutsche Welle, "O poeta nazista Hanns Johst foi um dos que justificou a queima, logo depois da ascensão do nazismo ao poder, com a "necessidade de purificação radical da literatura alemã de elementos estranhos que possam alienar a cultura alemã"."  Já o poeta Heinrich Heine escreveu "Onde se queimam livros, acaba-se queimando pessoas.".  Não demorou muito, em breve estraríamos presenciando o Holocausto, mas há quem negue que o extermínio planejado de segmentos inteiros da população da Alemanha e outros países tenha acontecido, 5 milhões de judeus mortos, sem falar de ciganos e outros e testemunhos e provas materiais existem aos montes, mas não custa repetir.  A queima dos livros foi mostrada no filme Indiana Jones e a Última Cruzada, mas foi colocada em 1938, o processo de expurgo foi bem mais rápido e imediato.  Será que veremos isso acontecer aqui?  Será que serão somente, como se fosse pouco, os livros de História, ou os de Paulo Freire, um dos maiores pedagogos do mundo no século XX, irão ser eliminados, também?   Já houve gente propondo isso por aí...  Ou quadrinhos "perigosos", quem sabe?  Afinal, eles, também, já foram queimados.  

Corpos de prisioneiro famintos que morreram no
caminho enquanto eram transferidos de outro campo para Dachau.
Agora, recomendo o texto "Bolsonaristas Negam Holocausto, Desprezam Mulheres, Insultam Marielle e Expõem Almas Doentes" e lhes pergunto, será que o único acontecimento a ser revisto será o Golpe Civil-Militar (*porque é assim que a historiografia atual chama esse acontecimento*) de 1964, ou será promovida a releitura de outros acontecimentos e processos importantes como a Escravidão, o Holocausto, a Revolução Francesa, a Revolução Russa, a 2ª Guerra Mundial etc. Teremos manuais de História escritos, provavelmente, por não especialistas e defendendo que o Nazismo é de esquerda (*aliás, nem a Embaixada Alemã escapou de ataques quando produziu um vídeo sobre a história do nazismo*), que a Inquisição nunca existiu e que os negros obrigavam os europeus à escravizá-los, porque queriam ganhar uma passagem grátis para o Novo Mundo. É isso que você quer para o futuro?  

Eu digo o seguinte, "Ele não.  Ele nunca.  Nem ele, nem Mourão!" e, hoje, dia 29 de setembro, haverá manifestações de mulheres em todo o país.  Não se trata de defender candidato A ou B, mas de defender a democracia, os princípios básicos da civilização frente a barbárie e a selvageria travestida de moral e bons costumes, os direitos das mulheres e outras minorias (*politicamente representadas*).  Lembrem-se que quando muitas mulheres no Irã perceberam, já estavam obrigadas a usar o véu e havia pouca coisa a se fazer.  No meu caso, como professora de História trata-se, também, ao que parece, da defesa dos estudos históricos, área séria, que se faz com fontes, metodologia e teoria, contra os censores que querem moldar as futuras gerações a verem a História do jeito como eles a percebem: pobre de teoria e crítica, elitista, masculina, branca e violenta.  E tenham um bom dia, porque, aqui, em Brasília, continua muito quente e muito seco.

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