sexta-feira, 21 de setembro de 2018

Comentando Claudine de Riyoko Ikeda


Esta semana chegou minha edição americana de Claudine...! (クローディーヌ...!), um volume único, de 1978, que, para mim, fecha a série das grandes heroínas de Ikeda nos anos 1970: Oscar, Rei Asaka (Saint-Juste), Julia/Julius e Claudine.  É possível observar na quatro a evolução do traço da mangá-ka e gosto de brincar que Ikeda escalou a mesma atriz para os quatro papéis, porque, bem, elas são muito parecidas fisicamente.  Prometo fazer um texto sobre elas em breve.  De qualquer forma, Claudine é um marco por tocar em uma questão praticamente silenciada à época, a transsexualidade, e foi publicado em uma revista para meninas bem jovens, a Margaret.  

A história de Claudine Montesse se passa na primeira metade do século XX, na França, e é narrada por seu psiquiatra, de quem não sabemos nem o nome.  Ele conhece a paciente aos dez anos e reconhece nela uma criança notável conduzida por uma mãe medíocre.  Acabam se tornando amigos.  Claudine queria ser tratada por Claude, se dizia presa em um corpo feminino, e desde os oito anos só queria vestir roupas masculinas.  A mãe se preocupava, mas o pai estimulava a filha em seus comportamentos viris e via nela um retrato de si mesmo, ao contrário dos três filhos mais velhos que teriam saído à mãe.

O primeiro encontro com o médico.
A adolescência agrava o drama de Claudine.  Sua vizinha e amiga, Rose Marie, a ama, mas é ignorada pela protagonista.  O primeiro amor de Claudine é uma jovem criada chamada Maura, que é afastada dela pela família.  Mais tarde, ela se encanta pela bibliotecária de seu colégio, uma mulher mais velha, Cecilia, e termina por descobrir que seu próprio pai, que a protagonista venera, mantém um relacionamento um tanto sórdido com Cecilia e o irmão da moça, Louis.  A coisa termina em desgraça, mas não darei spoilers. 

Findo o colegial, Claudine segue para Paris e encanta a universidade com seu intelecto brilhante.  Lá, conhece uma moça chamada Sirene, seu derradeiro amor.  Elas chegam a morar juntas sob o disfarce de serem colegas de faculdade, mas a tragédia se impõe quando Sirene termina se apaixonando por um homem, pior ainda, pelo irmão mais velho da protagonista.  Claudine termina por sentir o peso de sua imperfeição e nem mesmo o apoio do psiquiatra e amigo, ou o amor de rose Marie, conseguem evitar o desdobramento sombrio da história.
Rose Marie ama e não é amada.
Eu tinha lido Claudine mais de dez anos atrás.  Foi uma das traduções do Lililicious, grupo especializado em traduzir material yuri e shoujo-ai.  Tenho o volume em japonês em alguma das minhas estantes, também.  De qualquer forma, não me lembrava que em tão poucas páginas Ikeda tinha construído uma história tão densa, ainda que com todos os clichês típicos do shoujo mangá e da própria obra da autora.  A protagonista loira (Claudine), a beldade de cachos (Rose Marie), o fato de todos ficarem fascinados por Claudine, por sua beleza e inteligência. 

Há as pequenas maldades de Rose Marie contra Maura, movida pelos ciúmes, que são o toque infantil em uma obra adulta cujo diferencial é a angustia da personagem principal, sua inadequação diante do mundo e sua ânsia por viver e ser amada, na verdade, amado.  E vou tratar o protagonista no masculino doravante. Sim, fica claro desde o início que Claudine é um homem trans. Ele não se vê como uma mulher, mas como um homem.  Tanto na tradução da editora, quanto nas scanlations, a palavra transsexual aparece.  Teria que ver se no japonês como está.  Mas o fato é que essas discussões sobre gênero, identidade e sexualidade fascinavam as autoras da geração de Ikeda e elas, em sua maioria mulheres cultas e sensíveis, tentaram trabalhar com esses temas tabu da melhor maneira possível e em mangás que, à princípio, seriam voltados para adolescentes.
Sirene, a mulher da vida de Claudine.
O peso de ser vista como um homem incompleto, a traição da amada, são coisas que o destroem.  Agora, o que eu mais odiei, que me ofendeu mesmo, foi a arrogância masculina do irmão de Claudine ao dizer que Sirene tinha lhe contado e que PERDOAVA as duas.  Sabe quando você quer tomar as dores de uma personagem?  Eu tive vontade de entrar dentro da história e dar na cara dele e lembro que senti o mesmo quando li as scanlations.

Ikeda poderia ter alongado mais a história.  Curioso é que eu lembrava dela mais longa.  O fato é que salvo Claudine, Rose Marie e, talvez, Sirene, as personagens não são aprofundadas.  Elas meio que passam pela história.  Algumas delas conseguem ser coadjuvantes convincentes, o pai e a mãe do protagonista, por exemplo.  Mas o irmão, que tem um papel tão relevante na história, é somente rascunhado.

Traição.
Falando da qualidade da edição da Seven Seas, ela é muito bem acabada e em um formato maior que possibilita a apreciação da arte de Ikeda em detalhes.  Claudine jé traz o traço quase anos 1980 da autora.  Quem me conhece sabe que é o traço que eu não gosto, mas ainda tem a beleza da arte de Ikeda dos anos 1970.  É um bom mangá e é bonito, também.  Traz discussões que ainda são contemporâneas e duvido que não tenha sido o primeiro quadrinho do mundo a discutir de forma série a transsexualidade.  aliás, duvido que algum outro tenha retratado o tema por qualquer ângulo antes.

A tragédia do final não tem função moralizadora, mas é uma espécie de grito contra a intolerância.  Quantas pessoas LGBT tiram suas vidas por não serem aceitas?  Compreendidas?  Por serem vistas como imperfeitas?  Pecadoras?  Claudine queria viver, mas o peso e a dor eram grandes demais.  Triste é que ela era amada, mas nunca conseguiu perceber Rose Marie como nada além de uma amiga.  Enfim, se você não leu Claudine, o mangá tem scanlations faz tempo.  Se quiser comprar a edição da Seven Seas, o link para o Amazon é este aqui.

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