quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Três notinhas sobre O Tempo Não Para e Orgulho e Paixão


Estive muito ocupada nesses últimos quatro dias e não tenho conseguido postar no blog com qualidade.  Vou escrever pelo menos mais um longo texto sobre Orgulho e Paixão, prometo, ainda que somente o capítulo 14 merecesse um texto somente para ele, enfim.  Três notinhas:

Juliano Laham e Pedro Henrique Müller
adoram alimentar o fandom.
1. Os fãs de Luccino e Otávio (*Lutavio, mas odeio essas misturas carinhosas, acho feio mesmo*) estão fazendo um abaixo assinado e muita pressão para que a Globo lance uma web série com as personagens.  Sim, é possível, ainda que eu não saiba se a emissora estará disposta, ou os atores disponíveis.  Já houve uma web série com a personagem Mão de Luva, que era interpretado por Marco Ricca, e foi uma das melhores coisas de Liberdade Liberdade.  Enfim, para assinar a petição, clique aqui.  Esses dois personagens despertaram a fujoshi adormecida em mim desde Yuri!!! on ICE ( ユーリ!!! on ICE).  Gosto muito da forma como o autor - Marcos Bernstein - trabalha o romance dos dois.

Torço para que Ludmila faça como
Olímpia, mas acho que não fará.
2. Ainda Orgulho e Paixão, se você está acompanhando os últimos capítulos deve saber que a mulherada está toda engravidando.  Normal, afinal, não havia métodos anticoncepcionais muito seguros e todo mundo nessa novela, ou quase todo mundo, parece adorar fazer sexo. Não me surpreenderia, aliás, se até a Julieta (Gabriela Duarte) terminasse a trama grávida.  Enfim, mas Ludmila, a ótima Laila Zaid, continua sendo uma personagem feminista modelo e levantando bandeiras importantes, ela não quer ter filhos. Há mulheres que não tem vocação para a maternidade.  Há mulheres que veem a maternidade como um problema.  

Essas mulheres sempre existiram e não são anormais por causa disso.  Terrível é ter que ter filhos para satisfazer a sociedade, como se gerar outro ser dentro de si fosse coisa pouca e cuidar de uma criança fosse como brincar de boneca. Pois bem, mas Januário  (Silvio Guindane), seu parceiro, quer ser pai, ele inclusive aventou que ela não queria um filho por preconceito racial.  Uma personagem simpática, virou um chato e estamos, agora, em um impasse.  Não sei como o ator irá resolver, até porque a própria atriz está esperando um bebê, mas será muito lamentável se a personagem se curvar ao desejo do parceiro, porque vai se chocar com a própria lógica de empoderamento feminino da novela.  

Olímpia queria ser livre, Edgar queria
um relacionamento mais tradicional.
Só recordando, em Tempo de Amar,  novela das seis anterior, Olímpia (Sabrina Petraglia) era a feminista modelo da trama, sim, era esse o tom, ela tinha um noivo, Edgar (Marcello Melo Jr.); ele queria casar, ela queria continuar livre dessas amarras formais.  Curiosamente, ela era branca, ele negro, igualzinho Ludmila e Januário, com a diferença de que Edgar era um homem rico. Como a novela anterior resolveu?  Olímpia não cedeu, Edgar foi e arranjou uma mulher mais ao seu gosto.  Ela foi feliz com suas escolhas, ele, também, ao que parece.  Espero que Bernstein não dê uma derrapada logo com a única feminista burguesa bem resolvida de sua trama.

Cairu será uma personagem positiva, ou demonizada?
3. Manchete do Jornal O Dia "Última a ser descongelada em 'O Tempo Não Para', Cris Vianna acorda após 45 capítulos - Atriz conta que Cairu já chega causando na novela das sete e usa seu lado sensual para conseguir o que quer. "Sempre vi a sensualidade como algo natural em mim", afirma".  Meus dois centavos sobre a personagem e a trama que a envolve: como Dom Sabino é uma personagem positiva (*graças, em parte, ao ótimo trabalho de Edson Celulari*), apesar de ser dono de escravos em 1886 e ter mantido seu próprio filho bastardo em condição de escravidão, periga esta personagem negra "afrontosa" ser colocada em posição de vilania. Aliás, o moço era um dos tipos mais degradados de escravo, um "tigre", vejam o fragmento de diálogo abaixo:
"O sinhô abandonou ele à própria sorte", acusará ela. "Sempre olhei por meu filho", retrucará o personagem de Edson Celulari. "De que jeito? Deixou ele virar tigre! Escravo da pior qualidade, aquele que carrega no lombo as porcarias", enfrentará Cairu.
Fora esse "detalhe" acima, se a matéria do jornal O Dia estiver correta, ainda vão usar Cairu como a mulher negra sensual e que usa seu corpo para conseguir o que quer. O texto ressalta que as escravas Mina eram cobiçadas "por sua beleza e desenvoltura". Enfim, mulheres escravizadas não tinham alternativa, ainda que pudessem efetivamente ter relacionamentos amorosos com seus "donos", elas estavam em condição de sujeição, eram "coisa". Boa parte do que ocorria seria visto como estupro puro e simples aos nossos olhos. 

O excelente Maicon Rodrigues mais uma vez no papel
do jovem que não sabe que é filho do patrão branco. 
Pelo menos, em O Tempo Não Para,
o pai que não o assumia o tratava com todo afeto.
Agora, durante muito tempo, mesmo intelectuais, vide Casa Grande e Senzala, Gilberto Freyre, louvavam a miscigenação racial, algo que em sua época era, sim, nadar contra a corrente da eugenia, mas anulavam a violência desses "encontros" entre homens brancos e mulheres negras escravizadas.  Aliás, a violência mais enfatizada pelo autor nessa relação normalmente era a da mulher branca, frígida, sem atrativos sexuais, "estragada" por muitas gravidezes, contra as mulheres negras; 
Não são dois nem três, porém muitos os casos de crueldade de senhoras de engenho contra escravos inermes. Sinhá-moças que mandavam arrancar os olhos de mucamas bonitas e trazê-los à presença do marido, à hora da sobremesa, dentro da compoteira de doce e boiando em sangue ainda fresco. Baronesas já de idade que por ciúme ou despeito mandavam vender mulatinhas de quinze anos a velhos libertinos. Outras que espatifavam a salto de botina dentaduras de escravas; ou mandavam-lhes cortar os peitos, arrancar as unhas, queimar a cara ou as orelhas. Toda uma série de judiarias. (Freyre, 1984, p. 337)
Com todo o respeito que Freyre merece, afinal, ele era, sim, um grande intelectual, o primeiro a defender os quadrinhos da perseguição sofrida no Brasil, só para constar, isso não o eximia de  ser um machista como outro qualquer.  Voltando para O Tempo Não Para, olhando a descrição, percebo ecos da Rosa (Léa Garcia) de Escrava Isaura, a original, não a da Record, em Cairu.  


Rosa não foi perdoada pelo público.
Rosa era revoltada, usava das armas que tinha, seu corpo em oposição à casta e pura mocinha, e, portanto, era má, invejosa, e merecia morrer.  Aliás, sua morte foi celebrada com festa nas casas brasileiras, a atriz até fala sobre isso no documentário A Negação do Brasil, mas não localizei a parte exata.   Enfim, só vejo fragmentos de O Tempo Não para agora, mas a novela continua me incomodando muito.  Segundo li na coluna do Nilson Xavier, a trama parece ter estagnado, algo que eu imaginei que ocorreria, e a audiência caiu um pouco.  Cairu talvez venha para agitar as coisas, espero que do jeito certo.

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