terça-feira, 18 de setembro de 2018

Não ia falar de política, mas minha mãe e minha avó me obrigam.


Ontem, o candidato à vice-presidência pelo PSL, o general Mourão, explicou em uma palestra as razões da violência e criminalidade em nosso país:
“Família sempre foi o núcleo central. A partir do momento que a família é dissociada, surgem os problemas sociais que estamos vivendo e atacam eminentemente nas áreas carentes, onde não há pai nem avô, é mãe e avó. E por isso torna-se realmente uma fábrica de elementos desajustados e que tendem a ingressar em narco-quadrilhas que afetam nosso país”, afirmou ele em evento do Sindicato da Habitação (Secovi), em São Paulo.
Acho compreensível que um candidato conservador, e não estou tecendo critica alguma nesta frase, pontue a importância da família heteronormativa como base da sociedade.  É importante até que o faça, aliás, é o que se espera de quem está nesse espectro político. No entanto, é terrível ver que a fala acima (*e há o vídeo aqui, para quem quiser*) culpabiliza as mulheres pela violência e várias outras mazelas sociais ao pontuar que "onde não há pai nem avô, é mãe e avó. E por isso torna-se realmente uma fábrica de elementos desajustados".  


Vejam bem, aproximadamente 11,6 milhões de mulheres chefiam lares em nosso país, na maioria das vezes, não se trata de escolha, mas de necessidade.  O marido foi embora.  O pai nunca se fez presente.  O marido constituiu outra família e esqueceu dos filhos do primeiro casamento.  O pai morreu.  Meu marido brinca com isso dizendo que ter pai é um luxo e é bem uma verdade.  Ao invés de louvar o esforço dessas mulheres que se esforçam muito para cuidar das necessidades de suas crianças.  Mulheres em sua maioria pobres, às vezes abandonadas com seus filhos no ventre e que não os abandonaram, tampouco se tornaram criminosas buscando um aborto, elas são culpabilizadas pela violência.  Tente somente imaginar se todo filho sem pai, criado por mãe, vó, tia, descambasse para o crime?  O problema não é a mãe que assume, é o pai que abandona.

Enfim, seria mais decente falar da ausência do Estado, da evasão escolar, da falta de oportunidades para que jovens pobres possam ter uma profissão.  Aliás, como candidato seria interessante falar de projetos nessa área.  Seria, também, interessante chamar os homens à responsabilidade, afinal, há mais de 5,5 milhões de crianças brasileiras sem o nome do pai na certidão de nascimento.  Mas a maioria dos que declaram voto na voto na chapa do PSL são homens, então, melhor esquecer do óbvio e reforçar o discurso misógino.


Mas escrevi que minha mãe e avó me obrigavam a escrever, porque mamãe deixou comentário no meu Facebook, exatamente na matéria que estou linkando aqui.  Meu avô materno morreu com 28 anos em um acidente.  Minha avó ficou com cinco crianças, a mais velha, minha mãe, tinha cinco anos.  O caçula, nasceria seis meses depois da morte do pai.  Minha avó costurou para fora, foi operária, enfim, trabalhou muito para sozinha educar cinco crianças.  Morava na Baixada Fluminense, juntou dinheiro, comprou terreno, construiu um barraco que depois virou casa em um bairro sem ruas asfaltadas.  Seus filhos tinham que andar muito para chegar até a escola, buscar água na mina subindo morro e descendo morro, mas era necessário.

Minha mãe começou a trabalhar fora em fábrica aos 14 anos.  Meus tios vendiam doces depois da escola para ajudar nas contas.  Minha avó juntava as moedinhas para poder colocar os filhos para estudar música, todos cinco aprenderam algum instrumento (*ou mais de um*), cantam em algum coro, ou são regentes.  Seu maior orgulho, nenhuma de suas crianças se perdeu.  Ela formou duas professoras, dois militares, um pastor, todos ajustadinhos ao modelo conservador, heteronormativo mais desejável.  Daí, vem um homem que teve todas as vantagens possíveis, afinal, já nasceu filho de general, e joga na nossa cara essa fala de quem não tem o mínimo de compreensão do mundo para além de seu umbigo, ou de amor ao próximo. Sim, é isso.


Essa é a história da minha avó materna.  Poderia contar a história de outras mulheres.  Minha avó paterna foi abandonada em Sergipe com quatro meninos pequenos, porque meu avô decidiu montar outra família.  Nenhum dos quatro se perdeu, também. Mas deixo esse caso para outro dia.  Você talvez seja mãe ou avó que nunca teve um homem em casa para "salvar" os filhos do desajuste social.  Eu fiquei muito feliz quando mamãe veio e comentou, porque espero que outras mulheres parem para refletir e se indignar contra esse senhor e seu cabeça de chapa.  Não importa em quem você vai votar, mas como mulher espero que perceba o quanto de misoginia habita dentro desse senhor que pode vir a ser vice-presidente, ou mesmo, dado os impulsos golpistas, presidente do país.

É isso mesmo!  #EleNão #EleNunca, porque sou mulher, porque tenho uma filha, porque honro o esforço da minha avó materna, e de tantas outras mulheres, porque espero que o futuro seja melhor para todos nós, homens e mulheres.  E se você acredita que isso desqualifica o Shoujo Café, desculpe, leia a descrição do blog, trata-se de um site feminista, sempre foi, desde sua criação, e eu não posso me esquivar de comentar certas coisas.

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