sexta-feira, 23 de novembro de 2018

Comentando Animais Fantásticos: Os Crimes De Grindelwald (Inglaterra/EUA. 2018)




Terça-feira fui assistir Animais Fantásticos: Os Crimes De Grindelwald (Fantastic Beasts: The Crimes of Grindelwald).  Primeira coisa, é uma resenha difícil de fazer.  Até onde posso ir sem dar um spoiler gigantesco, por exemplo?  Vou tentar escrever a resenha em duas partes, então, spoilers maiores depois do trailer.  De resto, sempre é bom revisitar o universo de Harry Potter.  Assisti a todos os filmes no cinema e veria, acredito eu, tantos quantos fossem feitos.  Da mesma forma que gostaria de ver a série Animais Fantásticos em formato livro.  E, sim, Os Crimes de Grindelwald é um filme interessante, apesar de Johnny Depp e mesmo com a sensação desconfortável que todo filme de meio de história pode causar.  

Nosso filme começa em 1927, quando o Magical Congress of the United States of America (MACUSA) está transferindo Grindelwald  para a Inglaterra, onde o bruxo irá pagar por seus crimes.  No entanto, o poderoso feiticeiro já tinha planejado seu escape.  Ele segue para Paris, onde irá juntar seus seguidores e levar adiante um plano de dominação mundial.  Enquanto isso, Newt Scamander (Eddie Redmayne) volta a ser acionado por Dumbledore (Jude Law), que agora sabemos que foi quem o mandou para a América, para que encontre Credence (Ezra Miller) em Paris antes que o vilão o faça.  


Jude Law charmosíssimo como Dumbledore.
Credence traz dentro de si um poderoso obscuros, um concentrado de sentimentos ruins, rancor, ódio, capaz de causar grande destruição.  Só que o vilão sabe que ele pode ser ainda mais letal.  Grindelwald quer usar o rapaz para derrotar Dumbledore e neutralizar o único que ele acredita que poderá derrotá-lo.  Só que Newt está proibido de viajar pelo Ministério da Magia que desconfia dele e de Dumbledore.  Mas o tempo urge e mesmo contra a lei Newt deve tentar evitar o pior, isto é, que Grindelwald tenha condições de alcançar o seu objetivo.

Resumi mal o filme, porque um dos méritos e deméritos da película é que ela tem personagens demais e discussões demais.  Definitivamente, se você não viu o primeiro filme, dificilmente conseguirá aproveitar o segundo na sua totalidade.  É muita informação, por assim dizer.  Temos a trama central, com Grindelwald se apresentando como uma liderança messiânica que quer unir os bruxos e submeter os muggles (trouxas).  Há toda uma tensão à distância entre o vilão e Dumbledore.  Eles foram mais que amigos, mais que irmãos, amantes.  O filme não é explícito quanto a isso, mas deu conta do recado, apesar de muita gente ter reclamado horrores e se sentido traída pela autora.  Quem leu os livros, ou viu os filmes de Harry Potter, é capaz de entender perfeitamente. Eles fizeram um pacto de sangue e não podem se enfrentar.


Leta, personagem trágica central do filme.
Neste filme são apresentadas várias novas personagens, dentre elas, Theseus (Callum Turner), irmão de Newt, um auror, e Leta Lestrange (Zoë Kravitz), sua noiva e o primeiro amor do protagonista.  Enfim, a relação de amor e ódio entre os irmãos não foi bem desenhada no filme, apesar do elemento de tensão (Leta), Theseus me pareceu muito mais um irmão super-protetor que vê Newt como um sujeito que está fazendo as escolhas erradas, do que como alguém que quer eliminá-lo.  Fora isso, Theseus parece uma versão arrumadinha e normalizada de Newt, um sujeito nada convencional.

Falando nisso, li uma crítica que afirmava que Eddie Redmayne não passava credibilidade à Newt  Scamander, que ele não conseguia encarnar o herói de um filme como esse, um filme de ação, acho que esta era a ideia.  Olha, Newt é o herói improvável, um sujeito tímido (*veja a sutileza da interpretação de Redmayne, Newt parece nunca olhar as pessoas nos olhos*), que se sente mais seguro no meio dos animais, alguém de bom coração (*vê o melhor nos bichos, mesmo os mais assustadores, e em Leta, que é desagradável com todos*) e extremamente competente.  Quando sob pressão, normalmente, ele pensa rápido e faz as escolhas certas.  Independentemente da qualidade do filme, acredito que poucas personagens encarnaram tão bem o espírito de Hufflepuff (Lufa-Lufa), uma das quatro casas de Hogwarts, como ele.  


De volta a Hogwarts.
Ezra Miller tem uma boa participação no filme, ainda que o ator não lembre em nada um menino.  Ele (Miller) adquiriu feições de homem adulto, passa juventude, mas não manteve a cara de eterno adolescente que o papel talvez pedisse.  Credence é mostrado como alguém em busca de suas raízes, de sua identidade.  Newt deve evitar que ele seja cooptado por Grindelwald.  Os arquivos que apontariam para a origem do rapaz tem um papel importante e são alterados pelos minions do vilão, de qualquer forma, quem parece ter a chave para o mistério é Leta.  O sobrenome "Lestrange" para quem conhece o mundo de Harry Potter é uma credencial complicada, indica bruxos que, normalmente, optam pelo mal.  Também no encalço de Credence, está Tina Goldstein (Katherine Waterston), a americana foi promovida a auror e está muito magoada com Newt por causa de um mal-entendido.

Não há confronto entre as duas amadas de Newt, o que é muito positivo.  O protagonista só tem olhos para Tina e Zoë Kravitz dá muita dignidade à Leta.  Suas origens são bem interessantes e através do  uso do flashback, JK Rowling reforça que não existe racismo no mundo dos bruxos, quer dizer, se você é sangue puro, pouco importa a cor de sua pele.  As discriminações se dão em outras bases, as de classe social, as picuinhas entre as casas de Hogwarts e por aí vai.  Leta tem um papel importante no confronto final com o vilão.  Ela mostra que Newt não estava errado quando viu algo de bom nela.  E, bem, quando a moça diz "Eu te amo" em uma cena fundamental, para mim é claro que não é para o Scamander de quem está noiva.


Newt diz que o irmão o odeia, já tentou matá-lo,
mas Theseus parece muito preocupado com o irmão caçula.
Falando em racismo e preconceitos, o filme apresenta uma grande diversidade racial, especialmente, para os padrões dos filmes de Harry Potter.  E não são somente figurações.  Claudia Kim, a despeito da controvérsia em torno de Nagini, está muito bem como a amada de Credence que percebe que Grindelwald é uma furada.  William Nadylam, que interpreta o vingativo Yusuf Kama, meio-irmão de Leta (*sem mais spoilers*) tem uma boa atuação, também.  Ele está atrás de Credence não pelos mesmos motivos do vilão, ou de Newt, e termina se confrontando com Tina.

Agora, algo que me incomodou muito foi o encaminhamento dado à Queenie (Alison Sudol), a irmã espevitada de Tina.  Ela aparece bem antes de sua irmã no filme, porque está na Inglaterra com o "noivo", Jacob Kowalski (Dan Fogler), tentando conseguir se casar com ele.  Bem, uma das questões do filme - e o próximo será no Brasil - é rascunhar (*porque só em livro para aprofundar*) as diferenças das sociedades bruxas em diferentes lugares do mundo.   Nos EUA, relacionamentos de bruxos com não-bruxos são proibidos. Na Inglaterra, ainda que alguns torçam o nariz, o casamento dos dois seria possível.  A coisa não acontece bem do jeito que Queenie deseja, ela estava mantendo o namorado enfeitiçado e Newt percebe.  


Credence e Nagini.  Sim, é a Nagini que vocês estão imaginando.
Kowalski, cuja função é ser fiel escudeiro de Newt e servir de alívio cômico na trama, não consegue impedir que Queenie fuja para Paris em busca da irmã.  Lá, ela termina conhecendo o vilão, que reconhece as capacidades da moça, ela é uma  "Legilimens" poderosa.  Grindewald está atrás dos poder de Queenie de ler mentes, ou assim, eu suspeito.  O problema é alguém de tão bom coração, que estava disposta a afrontar as leis de seu país, que não carregava (pre)conceitos contra os diferentes e mais fracos, se deixar seduzir pelo mal.  Isso é um spoiler, mas não pude evitá-lo.

Sim, é isso que Grindelwald  representa.  E ela já estava enredada antes da grande reunião que o bruxo promove no cemitério para divulgar suas ideias de uma nova era.  Como se trata de um filme de meio de narrativa, este é o ponto alto da película.  Grindelwald  se apresenta como uma espécie de messias salvador para bruxos e humanos, que não seriam destruídos, mas colocados no seu lugar (*Há!*).  Grindelwald é mais democrático que Voldermort.  E de quem o mundo precisava ser salvo?  Entra, então, um espetáculo de efeitos visuais aterrorizador.  O vilão mostra o futuro, uma nova guerra, o nazismo, a bomba atômica.  O horror, enfim.  


O elenco principal do filme.
Não sou especialista no mundo de Harry Potter, nem rata do Pottermore, então fiquei curiosa em saber como os bruxos se relacionaram com a I Guerra.  Será que Rowling escreveu sobre isso?  Os países se dividiram da mesma forma?  Em HP, há um intenso patriotismo, manifestado, especialmente, nos campeonatos de Quidditch (*Quadribol*), mas isso significa que os bruxos embarcam nas loucuras dos muggles?  A sociedade dos bruxos parece ligeiramente mais evoluída, não tanto, claro.  E escrevi isso, porque Rowling, que assina o roteiro, colocou igualdade de gênero e diversidade étnica (*mas, não de orientação sexual*) em Animais Fantásticos para além de Harry Potter e isso, nos anos 1920.  Daí, fiquei meio com o pé atrás em relação ao impacto das guerras humanas sobre o mundo dos bruxos, enfim...

Falando do vilão, li críticas e elogios à atuação de Johnny Depp.  Em primeiro lugar, defendo que ele nem deveria ser escalado para o filme, lamento que o Colin Farrell tenha sido sacrificado no primeiro filme.  Havia outros atores aptos ao papel do vilão sem que Depp precisasse ser contratado.  Houve polêmica, ele estava envolvido em acusações sérias de violência doméstica, JK Rowling, que suponho ser fã do ator, deu de ombros, há quem tenha se recusado a assistir o filme por causa dele.  Repito, ele não precisava estar lá, mas decidi não boicotar o filme.  A atuação de Depp estava OK, não tão carregada dos maneirismos e exageros de outros papéis recentes. Agora, se um dos objetivos do filme - figurino e maquiagem - foi normalizar os bruxos, isto é, colocá-los com aparência de humanos comuns, Grindelwald  é um ponto fora da curva.


Achei a caracterização do vilão exagerada.
Como Johnny Depp tem atuado com pesada maquiagem em vários filmes, ele acabou, de novo, parecendo diferente, o esquisitão.  E não, isso não era necessário.  Seria interessante que o vilão se destacasse somente pelos seus poderes e imponência.  E fica ainda mais gritante quando vemos um Jude Law todo arrumadinho (*e lindo e elegante*) na última moda dos anos 1920 e sem parecer em nada com o excêntrico diretor de Hogwarts que aprendemos a amar.  O que passou pela cabeça da produção?   Eu adorei Law derramando charme e mostrando-se um professor criativo e além do seu tempo, mas o figurino era comum demais.  Outra coisa, esse povo do Ministério da Magia, que está perseguindo Dumbledore, é muito, muito burro.  Aliás, parece até que é uma piada repetida.

Estou falando de figurino, aqui.  Uma das coisas que gosto no universo dos filmes de Harry Potter é de como são criativos com o figurino.  Cada bruxo, ou bruxa, tem um estilo todo seu.  ainda que você possa manter links com o momento vivido, com o mundo dos muggles, eles são diferentes e isto se manifesta em roupas a acessórios.  No primeiro Animais Fantásticos, Colleen Atwood fez um trabalho excepcional.  Pegou as referências da moda da década de 1920 e deu uma roupagem ao estilo Harry Potter.  Neste filme, apesar dos homens em ternos elegantes, achei o trabalho preguiçoso realmente.  Aquém do que deveria ser.


Tinha que colocar esse meme.
Já caminhando para o final, J. K. Rowling escreveu o roteiro sozinha.  Talvez, devesse ter pedido ajuda, sabe?  O filme, como pontuei logo no começo, tem muitas personagens e detalhes que seriam melhor trabalhados em um livro.  E de livro, a autora entende.  Ela deveria ter tido ajuda, também, para evitar incongruências, como a aparição da Prof.ª Minerva em Hogwarts da década de 1910. Ela sequer tinha nascido, segundo o cânon.  Sim, eu sei que a obra é de Rowling, mas como ela criou um universo complexo, ela precisa saber lidar com ele, especialmente, quando se propõe a roteirizar um filme.  

E, aqui, repito o que escrevi sobre os livros de Charlaine Harris, que inspiraram a série True Blood, quando a autora começa a enfiar detalhes demais, seres fantásticos demais, ela meio que perde o controle de sua própria história, que fica saturada em muitos momentos.  Às vezes, é melhor optar pelo simples, a gente erra menos. Fora isso, acredito que cinco filmes é demais, ainda que eu saiba que isso é irrelevante, afinal, está dando dinheiro, o universo criado por Rowling é imenso e a gente quer ver como funciona a vida dos bruxos em diferentes países.  Claro, que pouco apareceu do dia-a-dia dos bruxos franceses, mas, enfim... 


O figurino dos americanos continua estiloso.
Concluindo, achei o filme interessante e divertido.  Tinha meio que me preparado revendo os três primeiros Harry Potter com Júlia para reentrar no universo de Rowling.  Talvez, até rendesse um post, porque realmente foi uma sensação curiosa.  Enfim, esse novo Animais Fantásticos cumpre a Bechdel Rule, acredito, ainda que seja por pouco, acho que na sequência de Hogwarts na qual as meninas dão queixa de Leta para a Prof.ª  McGonagall.  Mesmo assim, temos personagens femininas de destaque e com papel importante na história, apesar de ser um filme com homens protagonistas, começando pelo título.  Destaque para Tina e Leta, claro.  Devo comentar, também, que está cada vez mais difícil conseguir uma sessão legendada em horário favorável.  Parece que vou acabar tendo que assistir os blockbusters em casa.  Dou três estrelinhas e meia em cinco para o filme.  Vale a pena, nem que seja para admirar o Jude Law em suas poucas cenas.



Se você está aqui, não se importa com spoilers.  Enfim, uma das questões chave no filme é a família de Credence.  Durante um bom tempo somos levados a acreditar que ele seria o irmão perdido de Leta.  Só que a moça termina confessando que seu irmão está morto e foi por sua culpa.  Leta, aliás, se sacrifica no final do filme, é a sua redenção, por assim dizer, enfrentando Grindelwald.

Daí, temos uma revelação no final, Credence seria, na verdade, irmão de Dumbledore e se chamaria Aurelius.  Caímos de novo nos problemas de cânon.  Dumblerore tinha somente um irmão,  Aberforth, e uma irmã, Ariana.  Aliás, a irmã de Dumbledore foi o pivô do rompimento com Grindelwald.  Seria uma mentira do vilão e Credence não seria irmão do grande bruxo?  Se ele realmente é parente de Dumbledore, porque sua existência foi escondida?


Tina e Newt estão atrás de Credence e tentando evitar o pior.
Achei uma página que teoriza a respeito do caso e levanta uma série de hipóteses.  A da mentira é a primeira.  Eles discutem, também, se Credence não seria filho de Ariana, fruto da violência que ela sofreu.  Daí, ter sido escondido, e o próprio obscuros poderia ser uma herança materna.  O site levanta, também, que obscuros poderia ser produto de Ariana e ter se incorporado ao bebê, daí, Grindelwald chamá-lo de irmão de Dumbledore. Enfim, a revelação no último momento fez com que eu tivesse vontade de ver o próximo filme de enfiada e reforço que três filmes já seria mais que suficiente.  E chega de spoilers, porque eu realmente cansei escrevendo essa resenha.

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