terça-feira, 11 de dezembro de 2018

Comentando Emma (BBC/1972) - Parte 1


Seguindo na minha proposta de resenhar todas as adaptações de Emma de Jane Austen que pudesse conseguir, comecei a assistir a versão da BBC de 1972.  Queria terminar hoje (*ontem*), mas Júlia está me interrompendo tanto que não consigo me concentrar e estou assistindo sem legendas.  Já estou no quarto capítulo, são seis no total.  Muito tempo, portanto, para adaptar de forma decente o livro.  E eu nunca tinha assistido a série com atenção, mas só meio que passado os olhos por cima mesmo.  Devo dizer que é surpreendente o quão boa e o quão problemática essa adaptação é.

Para quem não conhece o básico do livro, não leu minhas resenhas anteriores, um resumo.  Emma (Doran Godwin) é a única heroína de Jane Austen que é rica por nascimento e goza das vantagens que o dinheiro pode trazer.  Ela tem bom coração, mas é um tanto mimada e que tem como hobby arrumar casamentos para os outros, enquanto esquece de si mesma.  Ela se dispôs a cuidar do pai viúvo e idoso (Donald Eccles) e acredita que sendo rica, não tem pressa para se casar e não vê problema em ficar solteira.  George Knightley (John Carson), 16 anos mais velho que ela, é o vizinho mais próximo e visita os Woodhouse com grande frequência.  Ele é o único a apontar as falhas no comportamento da protagonista, que é poupada por todos. O irmão de Knightley, John  (Yves Tighe), é casado com a irmã mais velha de Emma, Isabella (Belinda Tighe), o que os torna parentes de certa maneira.

Emma, Knightley e Jane Fairfax.
A história começa com o casamento da governanta de Emma, arranjado pela própria, aliás.  Com a partida de Miss Taylor (Ellen Dryden), Emma sente um grande vazio e decide tomar como sua  protegida uma órfã pobre, Harriet Smith (Debbie Bowen), e arranjar-lhe um bom casamento.  A moça já tem um pretendente, mas Emma decide que Robert Martin (John Alkin), um arrendatário de terras de Mr. Knightley, não é digno de Harriet e que ela irá se casar com Mr. Elton (Timothy Peters), o pastor, que, na verdade, está em busca do dote da heroína.  A coisa não termina bem para os planos de Emma e Elton acaba se casando com uma noiva rica e esnobe (Fiona Walker).  No meio disso tudo, dois jovens se mudam para a vila de Highbury, onde se passa a história.

Jane Fairfax (Ania Marson), moça órfã, mas de boa família e muito bem educada, é tudo o que Emma deveria ser em termos de comportamento social e não é. Emma se recente disso e negligencia a moça, evitando ao máximo conviver com ela. O outro novo morador da vila é Frank Churchill (Robert East), filho de Mr. Weston (Raymond Adamson), o homem que se casou com a governanta da protagonista.  Churchill é charmoso, mas leviano, e Emma se sente atraída por ele e se comporta mal por influência do rapaz.  A situação gera atrito entre a heroína e Mr. Knightley que, em silêncio, sempre foi apaixonado pela moça e acredita tê-la perdido para o pretendente mais jovem.  De qualquer forma, Emma termina frustrada em todos os seus planos como casamenteira e se desespera ao descobrir que ama Knightley e que pode tê-lo perdido para sua amiga, Harriet Smith.

O figurino é bonito, mas a silhueta de Doran Godwin
está muito longe das das moças bonitas do início do século XIX.
Essa adaptação de Emma é a segunda produção de uma sequência que começou no ano anterior com Persuasão.  É uma produção cara para os padrões da época, com figurinos de qualidade e que serão, segundo um site que consultei, reutilizados (*algo comum*) em produções bem posteriores, como Orgulho & Preconceito de 1995.  Diferente das adaptações de nossos dias, a ênfase é em cenários internos, com poucas externas.  Há quem associe essas produções da BBC a teatro filmado e a interpretação de alguns atores e atrizes é bem teatral mesmo, em alguns casos, vide o Mr. Knightley de John Carson, menos dinâmica.

Uma das características dessa adaptação de Emma é o fato de alguns atores e atrizes terem uma idade incompatível com a dos personagens.  O já citado John Carson tem 45 anos e parece mais velho que isso.  Já Doran Godwin, bem, na Wikipedia sua data de nascimento é 1944, no IMDB, 1950.  Se ela tinha 22 anos em 1972, ela parecia bem mais velha que isso.  Se já estava com 28 anos, o mais provável, ela parece ter a idade que tem, porém, é bem mais velha que a Emma do livro.  Estou tentando assistir esta adaptação com se fosse Razão e Sensibilidade (1995), quando, efetivamente, alteraram para mais a idade de algumas personagens.  O problema é que John Carson não é Alan Rickman.  

Mr. Knightley velho e rígido demais para o meu gosto.
Falando em John Carson, ele é um Mr. Knightley bem pouco participativo, na verdade.  Em três episódios, e um pouquinho do quatro, vi muito menos dele, na média, do que nas adaptações cinematográficas.  Robert East, que só entra em cena no episódio três, parece muito mais marcante até o momento.  Ele é um Frank Churchill alegre e que parece trazer um sopro de juventude para a série.  É uma composição interessante, porque produz um equilíbrio em relação ao caráter mais contido e sério (*muito por conta da idade mesmo*) do Mr. Knightley de Carson, que passa uma imagem de rigidez, por assim dizer.  

O que incomoda Knightley parece ser a juventude do outro, o fato dele parecer agradável aos olhos de todos.  Daí, a grande cena até o momento de Knightley e Emma me pareceu ser aquela na qual o vizinho expressa o seu ciúme ao desqualificar Frank Churchill, que nem tinha dados as caras ainda.  E é curioso como se discutem papéis de gênero exatamente aí.  Mr. Knightley considera uma falha de caráter de Frank Churchill o fato dele não ter autonomia.  Um homem adulto subordinado aos ditames de uma tia, é algo absurdo.  Falta-lhe, portanto, virilidade.

Ania Marson em uma foto bonita como Jane Fairfax. 
A atriz era polonesa de nascimento e uma beldade para a época.
Na verdade, o bom senso de Knightley, que está vivo por baixo do seu ciúme, parece alertá-lo de alguma coisa mais.  Mais tarde, há a cena em que ele intervém para que Frank Churchill deixe Jane Fairfax, que diz estar com a garganta irritada, em paz.  O rapaz insiste para que a moça cante e Knightley argumenta que Miss Fairfax sabe melhor de suas próprias condições do que ele.  Começam as fofocas de Mrs. Weston sobre ele estar interessado em Jane... 

Mas antes de falar de Emma propriamente dita, vou comentar Jane Fairfax e como uma mudança inexplicável pode atrapalhar essa adaptação.  Na verdade, já está.  No livro, Jane é órfã, sua família empobrecida, e foi educada na casa do Coronel Campbell como companheira de sua filha, Miss Campbell.  Quando a moça se casa com Mr. Dixon, Jane precisa encontrar um emprego como governanta, porque não tem dote e tem que se sustentar.  Um horror para alguém de sua classe, enfim.

A Miss Bates mais inconveniente que eu já vi em tela.
Nessa adaptação de Emma, Jane Fairfax, que é interpretada por uma beldade da época, Ania Marson, parece uma estátua de cera, muito mais tímida e reservada do que em outras adaptações.  Ainda não consegui ver graça, ou simpatia nela.  Como a Miss Bates (Constance Chapman) é muito mais falastrona e inconveniente que a média, acontece algo inimaginável e bem infiel ao livro, por assim dizer.  Jane grita com a tia para que se cale na frente de Emma e isso logo na primeira cena da personagem.  Jane Fairfax não seria capaz disso.

Pior ainda é o fato de mudarem o passado de Jane Fairfax.  Nessa mesma sequência, a da explosão de Jane com a tia, Miss Bates está contando para Harriet e recontando para Emma, que sua sobrinha foi companheira de infância da protagonista, algo em discordância com o livro, e que os  Campbell não tinham filhos, daí tomarem Jane como sua protegida.  Duas mudanças, portanto.  E, nesse caso, talvez os Campbell dessem o dote para Jane, afinal, não a tomaram como filha adotiva quase?  A terceira é a pior: os Dixon são um casal com dois ou mais, sei lá filhos, sem relação com os Campbell salvo laços de amizade, e Jane tem um convite de Mr. Dixon para ser governanta de suas crianças.

Harriet Smith é uma tola completa na versão de 1972.
Vejam, aparentemente é a esposa que deveria cuidar disso.  Por que o marido?  Ainda mais um desconhecido.  Primeiro escândalo a manchar Jane e isso antes de Frank Churchill entrar em cena.  Se Jane já tinha uma ótima proposta, algo que a inconveniente Miss Bates enfatiza como se ser governanta fosse ótimo para alguém de sua classe, não uma humilhação, por qual motivo Jane precisaria da ajuda de Mrs. Elton (*que ainda não apareceu*) para conseguir um emprego?  De resto, ao entrar em cena, Frank Churchill, que é esse vento de juventude que eu descrevi, começa a semear maledicências e atiçar Emma.

Falemos de Emma, agora.  Doran Godwin interpreta uma Emma orgulhosa, com ar de senhora, aliás, esse parece ser o traço mais forte da interpretação dela.  E isso, claro, faz com que ela pareça mais velha e, não, uma filha temporã, como no livro.  Emma comanda sua casa, trata o pai como uma criança, consegue tudo o que quer.  Por qual motivo ela quereria um marido, colocar-se sob a tutela de um homem, salvo se estivesse muito apaixonada?  Por conta disso, ela enfatizar para Harriet, que nessa versão é uma tolinha completa mesmo, que se uma mulher tem dúvidas, ela não deve se casar.  É curioso que Emma, uma mulher, pareça ter mais liberdade de ação e escolha do que Frank Churchill, um homem.  Para mim é visível, e não poderia ser muito diferente, o modelo  e Emma da interpretação de Gwyneth Paltrow (*resenha*) foi Doran Godwin.  

Esse é Frank Churchill na versão. 
O ator está muito bem.
Concluindo essa parte da resenha, três atuações a comentar.  Timothy Peters faz um Mr. Elton cheio de rapapés com as damas, tal e qual no livro, mas olho para ele e imagino que deva ser um sujeito com mãos frias.  Quando ele agarra as mãos de Emma, na cena da declaração da carruagem, a melhor cena dos dois, aliás, parece isso, ela foi tocada por um anfíbio, ou um réptil.  Ele é meio repulsivo e quem nota tudo isso com antecipação avisando Emma (*seguindo o livro, de novo*) é o cunhado, John Knightley.

Yves Tighe faz um John Knightley muito marcante e divertido.  Ele tem senso de humor, ele tem presença e se impõe ao sogro, cortando suas bobagens, o velho Woodhouse parece ter medo dele.  O Knightley mais novo é reclamão, e percebe as intenções de Elton com Emma e o hostiliza.  Como eu queria que Yves Tighe fosse o Mr. Knightley!  Que diferença faria!  E é curioso como ele é um pai diferente do que é apresentado na versão da ITV (*resenha*).  Ele é autoritário com os meninos, não amoroso, ou seja, provavelmente um pai mais próximo do padrão de sua época.  As crianças também são maiores, o que, de certa forma, parece reforçar que todo mundo é efetivamente mais velho que no livro. Será que foi a intenção da adaptação.

Emma e Knightley fazem as pazes.  A cena terna com o bebê
ocorre no berçário e, não, na sala junto com a família.
Donald Eccles, que faz o pai de Emma, é um fofo.  Todas as cenas dele são uma delícia de se assistir. Hipocondríaco ao extremo.  E fica muito marcado na relação entre ele e Emma que quem manda é ela.  Uma das frases mais recorrentes dele é "Onde você vai Emma?", porque ainda que tenhamos poucas externas, Emma vive mais batendo perna fora de casa do que dentro dela.

Vou parar por aqui.  Deve ter faltado alguma coisa, mas teremos uma parte dois.  O que eu queria comentar ainda são dois detalhes do figurino.  Diferente da maioria das adaptações de época, que evitam colocar os homens de calças curtas, meia calça e sapatilha, ou sapato, porque isso parece desagradável ao gosto moderno, essa série usa e abusa desse detalhe com bos resultados.  Os homens raramente aparecem de bota, coisa comum em adaptações do século XVI até a época dos romances de Austen.  Agora, uma escolha ruim da série é colocar tanto Emma, quanto Harriet, usando toucas em muitas situações.  

Esse tipo de adereço de cabeça não era utilizado
por moças solteiras, oi, pelo menos, não muito.
Procure representações iconográficas de moças solteiras com esse adereço e encontrarão poucas, ou nenhuma.  Quem usava toucas eram as criadas (*sempre e independente de sua condição*), as mulheres casadas (*que poderiam usar outras coberturas de cabeça*) e menininhas. Resultado? Emma fica envelhecida.  Já em Harriet, talvez a ideia fosse ressaltar que ela está muito mais próxima de uma criada do que de uma dama.  Algo que Mr. Knightley diz de forma polida par a Mrs. Weston.  Harriet, afinal, era filha de pai desconhecido e educada em uma escola para meninas pobres, ou seja, casar-se com Robert Martin, algo que Emma quer evitar, era mais do que alguém como ela poderia sonhar para si.  Enfim, essa touca não ajuda muito, mas, no geral, o figurino é correto para os padrões do que era feito na época.

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