sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

Sororidade não é complacência: O Caso Damares


No post de segunda-feira, falei sobre a nova ministra dos das Mulheres, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves.  Poderia empilhar falas despropositadas dessa senhora sobre as mulheres, homossexualidade, sexualidade humana em geral, educação, a questão dos indígenas, o desprezo pela laicidade do Estado etc. mas não vou fazer isso, basca buscar na internet as entrevistas, pregações e palestras dessa senhora.  Enfim, no dia seguinte começaram a circular duas outras notícias relacionadas a ela, uma a criação de uma "bolsa estupro", ligada ao famigerado estatuto do nascituro, para estimular mulheres violentadas a levarem adiante a gestação e, a outra, o relato da visão que ela teria tido de Jesus Cristo em uma goiabeira.



Evitei assistir ao vídeo por algum tempo, vi os memes e piadas, uma amiga me postou o link para comprar o livro que contava o testemunho de conversão de Damares e sua trajetória a partir da visão de Cristo subindo na goiabeira.  Eu que estudei durante muito tempo vidas de santo (hagiografia) sei da diversidade e criatividade do testemunho desse tipo de visão, porém, nenhum de meus santos e santas medievais costumavam fazer dinheiro com suas visões e mudanças de vida.  Mas eu estudei franciscanos e Francisco e Clara certamente não tinham apreço à joias nem queriam ser associados a príncipes ou princesas.  

Qual o problema com a visão de Damares?  Nenhum por princípio, é um relato pessoal de fé, uma pregação, enfim, o que não impede ninguém de ver humor envolvido em todo o episódio.  Aliás, nem todo mundo é susceptível a se comover com esse estilo estridente de pregação, ou a se sentir tocado com os apelos feitos pela preletora, agora, ministra.  O problema é que apareceram várias mulheres clamando por sororidade, isto é, solidariedade que nós mulheres devemos ter umas com as outras, para cercear o deboche contra a futura ministra.  O argumento?  Ela teria sido abusada na infância, quando era pouco mais velha que minha filha (*algo que eu já sabia pelos sites evangélicos antes do vídeo da goiabeira*), e, por isso, não deveríamos rir de seus absurdos, ou desse absurdo em particular.
O resultado da tal bolsa estupro seria esse aqui.
Vejam bem, não vi nenhuma de minhas amigas mulheres, tampouco os sites que fizeram humor da experiência, rindo da futura ministra por ela pensar em cometer suicídio aos dez anos de idade, ou por ela ser mulher (*logo, histérica e coisas do gênero*), ou do abuso que ela sofreu na infância etc.  Riam do fanatismo religioso e do cômico do incidente que, repito, gera DINHEIRO para a mesma.  Jesus andou sobre as águas e ressuscitou, subir em um pé de goiaba seria fácil, fácil. "Ah, mas, na época, ela tinha 10 anos!" OK, mas, agora, não é mais, é uma adulta que continua contando o relato em um tom infantilizado e sentimentaloide.  

Pessoas que passaram por violências, como as mulheres que Damares quer obrigar e/ou induzir a gestar o fruto de um estupro, ou por algum trauma, devem ser acolhidas e receber assistência profissional de psicólogos, psiquiatras e outros profissionais da área médica, fazer terapia; seus agressores, quando for o caso, devem ser punidos de acordo com a lei (*independentemente do perdão que possam receber da vítima*).  Mas o que temos agora?  Uma pessoa que carrega uma série de traumas e problemas, fanatizada religiosamente, sendo colocada em uma posição de poder e com capacidade de causar muito estrago e que ao ser chamada de "opressora das mulheres", vai reclamar com pastores sem buscar nenhum diálogo com as "supostas" agressoras.  Mas talvez não devêssemos mesmo rir, mas porque o momento é de fato muito sério.
Querer obrigar uma menina, ou mulher, estuprada a
conviver com seu agressor é submetê-la a outra violência.
O que eu quero dizer é que em  nome do respeito e da empatia, algo fundamental para construirmos uma sociedade melhor, não podemos deixar de apontar problemas e de rir, também.  "Rindo, castigam-se os costumes."  É necessário apontar os absurdos e o riso pode ter um papel fundamental nessa tarefa.  E é preciso rir enquanto podemos, porque, talvez, em breve não possamos mais fazê-lo.  Há tempo de sorrir e tempo de chorar (Eclesiastes 3:4), também.  E desde que se ria pelo motivo certo e se chore quando necessário, está tudo bem.

Damares, assim como todas as vítimas de abuso sexual, merece nossa empatia.  A Damares que se expõe, e como pessoa pública e futura ministra nos expõe todos ao ridículo, não deve ser poupada.  Em uma democracia, há liberdade de expressão que deve conviver com o respeito às leis; a boa conduta social, exige, também, o respeito ao próximo.  Tenham certeza de que se a futura ministra tivesse sido alvo de chacota por sua condição de menina abusada, ou de mulher, eu escreveria um texto em sua defesa, como o fiz para Marcela Temer, agora, não peçam que eu caia nessa lorota de que rir da visão do Jesus na goiabeira é o mesmo que rir do abuso sofrido na infância pela futura ministra que, repito, faz dinheiro com seu testemunho.  De resto, sugiro o vídeo do canal Meteoro.  Ele está aí embaixo e e muito ilustrativo:



Terminando, tenho 43 anos de igreja, estou contando com o tempo na barriga de minha mãe.  Já vi gente inventando passado tenebroso, currículo lamentável, porque isso dá IBOPE no culto.  Ter um testemunho a contar é fundamental em alguns círculos evangélicos.  Dizer "Antes eu era feliz, mas, agora, sou mais feliz com Jesus!", normalmente, não orna.  Tem que ter experiência de drogas, prostituição e toda sorte de coisas "ruins" tipo o relato do Filho Pródigo (Lucas 15:11-32) para valorizar sua conversão e, claro, ganhar status dentro do grupo religioso.  E não estou colocando em questão o testemunho da futura ministra em dúvida, mas deixando claro que tem gente sendo muito inocente ao embarcar em certas histórias tristes contadas diante de templos lotados.  

De resto, sororidade não significa fechar os olhos para os erros de outras mulheres simplesmente, porque elas são mulheres e como tantas outras, aliás, passaram por situações terríveis na vida.  Sororidade significa não apoiar a discriminação contra as mulheres, o machismo e mesmo a misoginia.  Sororidade não é vetar o riso contra uma mulher patriarcal que estará no futuro governo para erodir os nossos direitos e de outras minorias.  Aliás, é sempre melhor ter uma mulher nesse papel, como as tias de The Handmaid's Tale, ainda mais com essa convocação ao silêncio feita por algumas mulheres no campo progressista, porque bem, a protagonista dessa história sofreu violências na infância e é mulher como as que ela irá prejudicar se tiver chance.

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2 pessoas comentaram:

Partilhamos da mesma ideia. Conheço a triste história da pastora, mas acho importante separar as questões, em que numa ela é a vítima e na outra ela é a pessoa que representa os interesses não apenas das vítimas de estupro, mas também dos seres humanos...afinal, sua pasta é a de Direitos Humanos. A questão é que embora o fenômeno seja o mesmo, o modo como ele repercute na vida de cada indivíduo é diferente. Meninas são vendidas pelos pais no interior do Brasil até hoje.Meninas são obrigadas a casar com seus algozes, ou se amigar...porque, uma vez que o abusador decide assumir, a vontade da outra parte não conta. É satírico o modo como ela conta seu momento de conversão, porém não entendo como alguém em sã consciência tenta imputar a todas a sua perspectiva. Como conselheira pessoal ela pode dar-se ao luxo, como uma figura pública ela esbarra nos interesses do grupo. Sou contra o aborto, mas não sou demagoga ao ponto de obrigar que outras pessoas sejam, no final, a subjetividade prevalece. A famosa ajuda de custo para as vítimas que desejem manter uma gravidez advinda de um estupro...se houver carater retroativo, as mulheres de minha familia seriam as primeiras beneficiadas, uma vez que engravidaram com 12,13 anos de idade. De acordo com o ECA, isso é crime...crime de estupro. Vamos aguardar os próximos acontecimentos. Sobre o pé de goiaba...explorar sua própria desgraça e obter dinheiro a partir disso...não é a toa que ela ache que uma ajuda de custo resolve o problema

Muito bem separadas as situações onde cabem sororidade,daquelas onde tal acolhida é injustificável! Parabéns!

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