quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

Com licença, mas precisamos falar de racismo


Estou devendo o Jornal do Shoujo Café desta semana.  Peço que relevem, porque estou de férias e, bem, às vezes a gente não consegue fazer as coisas funcionarem como um relógio. Queria trazer um caso de racismo inegável, incontornável, ocorrido no Rio de Janeiro nesse início de ano em um país no qual muita gente se nega a reconhecer que o racismo exista e, pior, que é racista, porque, afinal, somos todos socialmente construídos para sermos racistas.

 Matheus Lessa, jovem psicólogo de 22 anos, foi morto de forma covarde ao proteger a mãe com seu próprio corpo.  O mercadinho da família, que fica na Zona Oeste do Rio, em Barra de Guaratiba, estava sendo assaltado, não era a primeira, nem a segunda vez.  Não havia dinheiro suficiente, vendo que sua mãe seria morta, o rapaz se sacrificou.  Isso foi no dia 15.  O clamor popular, as matérias sensacionalistas.  Um repórter da Record, inclusive, soltou o "se ele tivesse uma arma", quando deveria estar clamando por segurança pública, entre outras coisas.  Pois bem, rapidamente a polícia apresentou um culpado, Leonardo Nascimento, de 26 anos.  Eletricista desempregado, ele nasceu com a cor errada de pele.

Leonardo abraça a irmã gêmea.
Estou no Rio, estou acompanhando o caso, desde o início, a impressão que tive foi a de que o bandido era negro, o Leonardo é negro, logo, ele deveria ser o bandido. Foi preso, foi exposto, "o suspeito era velho conhecido, já tinha assaltado o mercadinho outras vezes", assisti na Record.  Agora, lendo o texto do Jornal O Globo, vemos que as quatro testemunhas o reconheceram SIMPLESMENTE por ser NEGRO.

Para sorte do Leonardo, os familiares, especialmente, o pai, foram atrás, fizeram escândalo, o pai ficou na frente da prisão em Benfica, tiveram algum apoio. Em uma outra reportagem da Record, dias atrás, o âncora, um mais cuidadoso e menos beligerante, pisava em ovos ao entrevistar o pai do rapaz.  "É preciso ter cuidado com as acusações." Mas duvido que alguém não deve ter dito ao pai algo assim "Ah, quer direitos humanos? Para bandido tem, né?". Eles provaram a inocência do moço, que passou o aniversário na cadeia, longe da irmã gêmea pela primeira vez nessa data, ele foi solto ontem. Ele foi solto sem maiores danos aparentes, mas sua imagem circulou na TV e jornais, ele está marcado, provavelmente, será questionado, talvez sua imagem circule por aí como criminoso em redes sociais e no Whatsapp.  Talvez com montagens associando Leonardo ao mundo do crime.

Doutorando acusado de roubar o próprio carro.
Enfim, vivemos em um país racista que faz questão de negar que é. Racista é sempre o outro.  Falar de racismo é vitimismo.  O racista de novela é sempre o vilão,  sua atitude é sempre individual e nada tema  ver com a sociedade como um todo.  Não sei se nos próximos anos teremos avanços na discussão e no combate ao racismo, estou pessimista, mas queria, pelo menos, ver o Estado sendo obrigado a indenizar as vítimas, como Leonardo.  Esse problema não é exclusivamente brasileiro.  Esta semana circulou a notícia de que um estudante de doutorado negro foi perseguido pela polícia.  Motivo?  Ele teria roubado seu próprio carro.  Veja a história da cor de pele errada de novo. Só que lá, a indenização que o Estado terá que pagar é milionária.  Aqui, a tendência é ficar por isso mesmo.

É isso, que fique claro, nada tem a ver com negar Justiça e apoio à família de Matheus.  Em uma sociedade mais justa, não teríamos que chorar Matheus, nem que lutar por Leonardo.m uma sociedade mais justa, teríamos menor desigualdade social, políticas públicas de inclusão (*educação, esporte, trabalho*), reabilitação daqueles que podem ser reabilitados e punições bem mais duras para os crimes.  Infelizmente, acredito que não tenhamos nada disso no horizonte. Espero, somente, que menos Matheus sejam mortos e menos Leonardos presos e expostos simplesmente por terem nascido com a cor errada de pele.  

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