quarta-feira, 6 de março de 2019

Comentando Se a Rua Beale Falasse (EUA, 2018)


Assisti If Beale Street Could Talk na véspera da cerimônia do Oscar, que não comentei ainda, nem sei se farei.  Queria ter assistido no cinema, mas os horários eram ruins e um amigo me instigou dizendo maravilhas sobre o filme.  Enfim, acabei fazendo com Beale Street o que fiz com Moonlight, que é do mesmo diretor, Barry Jenkins, baixei e assisti em casa.  Só tenho a dizer, que é um filme muito bonito, sensível, com interpretações marcantes e que merece ser visto no cinema.  Em casa, tendo que parar para várias vezes, acabei quebrando o clima, mas se estivesse na sala de cinema, é certeza que eu teria me debulhado em lágrimas.  Se a Rua Beale Falasse merecia indicação para melhor filme, infelizmente, terminou recebendo menos atenção do que deveria.

O filme é uma adaptação do livro homônimo de James Baldwin e conta a história de duas pessoas que se amam, mas se veem separadas por circunstâncias injustas, mas  Alonzo "Fonny" Hunt (Stephan James) e Clementine "Tish" Rivers (Kiki Layne) não são um casal comum, eles são negros e pobres em uma sociedade profundamente racista que faz de tudo para obstruir a sua felicidade. O filme, que não tem uma narrativa linear, começa em 1974, o casal de apaixonados está planejando seu casamento, procurando um apartamento, mas terminam sofrendo um duro golpe, pois Fonny é preso injustamente, acusado de ter cometido um estupro.  A vítima some, seu álibi é desconsiderado, e ele pode ficar na cadeia indefinidamente, sem perspectiva nem de julgamento, nem de soltura. Tish fse descobre grávida e ela, sua família e o pai de Fonny farão de tudo para que o rapaz possa ter um julgamento justo e possa ser libertado.

A fotografia do filme é muito bonita, também.
 If Beale Street Could Talk foi um dos melhores filmes da safra do Oscar que eu assisti.  Não vi todos, claro, não assisti sequer o vencedor da noite, The Green Book, mas fiquei com a impressão de que Beale Street, grande vencedor do The Independent Spirit Awards, merecia ter ido para a seleção final do Oscar.  Foi ignorado em melhor filme e melhor diretor.  Já escrevi, aliás, que Spike Lee cumpriu a cota de negros na indicação e não iriam colocar outro diretor negro, mesmo que merecendo muito.  Na verdade, e se comentar a cerimônia do Oscar voltarei a isso, as indicações foram, na média, bem plurais.  Havia três estrangeiros entre os selecionados como melhor diretor do ano e um deles venceu.  De qualquer forma, Barry Jenkins fez outro esplendido trabalho com Beale Street.

O filme começa com um trecho do livro, dizendo que em toda grande cidade dos EUA, existe uma Beale Street, isto é, trata-se de um país racista no qual um jovem negro pode ser acusado de um crime sem realmente ser culpado e passar a vida na cadeia, ou ser morto por um motivo banal.  O filme também é enfático em apontar, e nisso o Brasil se parece muito, que a própria vizinhança onde as crianças negras nascem e crescem é um estímulo para que caiam na criminalidade, ou não consigam desenvolver suas aptidões, rompendo o ciclo de pobreza e exclusão.  

Daniel, amigo de Fonny, era seu álibi, mas a polícia o desconsidera.
Fonny, o protagonista, poderia ter se tornado um marginal, mas a arte e o amor de Tish o salvaram.  De qualquer forma, quando procura um apartamento para morar com a noiva, mesmo tendo como pagar, ele é rejeitado seguidamente por sua cor de pele.  Já a moça, recebe até sinais de aceitação, mas não raro descobre que o interesse do locatário era assediá-la e, não, alugar o imóvel.  Repete-se ao longo da película, várias vezes e de múltiplas formas, o quanto é difícil ser negro nos EUA.  Curiosamente, e acredito que não esteja enganada, Beale Street e Infiltrado na Klan escolheram o mesmo ano para colocar sua história, 1974.

O que dá esperança para Fonny é o apoio de Tish, especialmente, quando ele é acusado de um estupro que não cometeu e, vejam bem, a mulher, Victoria Rogers (Emily Rios), realmente sofreu a violência, mas o criminoso era outro.  A preguiça da polícia, a vingança de um oficial específico que tinha tido uma altercação com Fonny, é que fazem com que o rapaz seja incriminado.  Qualquer negro serviria, talvez.  Uma das personagens trágicas do filme é exatamente um amigo de Fonny, Daniel (Brian Tyree Henry), que está em condicional, mas emocionalmente destroçado pelo tempo que passou na prisão.  Preso com maconha, ele é pressionado pela polícia, em troca de uma pena menor, ou de um julgamento, talvez, a assumir um roubo de carro.  

O pai de Tish e o de Fonny cometem pequenos
 crimes para ajudar o casal.
O filme é um grande alerta em relação a um instituto jurídico norte-americano, o "plea deal" ou "plea bargain".  Basicamente trata-se de "(...) um acordo entre a acusação e o réu, através do qual o acusado se declara culpado de algumas, ou todas, acusações, em troca de uma atenuação no número de acusações, na gravidade das mesmas, ou, ainda, na redução da pena recomendada.".  (Fonte)  Normalmente, acusados pobres, sem recursos para pagar advogados próprios, são pressionados a aceitar tais acordos.  No filme, a cada visita de Tish vemos Fonny definhar, o rapaz cheio de alegria, orgulhoso, perde o brilho no olhar, se apequena.  Sem um acordo, ele poderia ficar para sempre naquela situação, sem julgamento e sem possibilidade de ser libertado.

Tal instituto faz parte do pacote de medidas que o atual ministro da justiça de nosso país deseja que seja incorporado a nossa legislação.  Enfim, em um país no qual as investigações resultam em tão pouco sucesso, no qual há tanto racismo, seria uma tragédia.  Nos EUA, há quem questione esse procedimento, porque percebe como seu uso tem sido daninho, especialmente, para os mais pobres e negros.  Depois de solto, tendo admitido a culpa para conseguir uma pena menor, o sujeito deixa de ser réu primário, assim como Daniel, o amigo de Fonny, suas chances de voltar para a cadeia por alguma questão banal são grandes.

Tish é apoiada pela mãe e pela irmã.
O drama de Fonny e se ele conseguirá ter sua liberdade de volta é entrecortado por flashbacks.  A narrativa de Beale Street é entrecortada por momentos ternos e angustiantes, que ajuda a construir na audiência a empatia ou repulsa pelas personagens. Fonny e e Tish se conhecem desde a infância, como começaram a namorar, como Fonny abandonou o colegial, uma espécie de curso técnico para jovens pobres, ao que parece, a descoberta da gravidez.  A família é algo muito importante no filme e o quanto ela pode ser fundamental para que você nãos e perca na vida.  

Tish tem pai (Colman Domingo) e mãe (Regina King) amorosos e uma irmã, Ernestine (Teyonah Parris), que tem uma atitude que me lembrou as Dora Milaje de Pantera Negra.  Eles apoiam a filha, uma boa moça, trabalhadora e responsável, quando ela comunica que está grávida do noivo preso.  Ao invés de discutirem culpas, eles se unem em torno da filha e do neto, ou neta, que está por vir.  Eles conhecem o caráter de Fonny e se desdobram para conseguir fazer o máximo pelo rapaz, com o mínimo que tem.  O advogado é caro e todos precisam trabalhar o máximo possível para que o rapaz tenha alguma chance de provar sua inocência.

Tish se torna expositora de perfumes.
Já a família de Fonny é bem complicada.  O pai, Frank (Michael Beach), apóia o filho e acolhe Tisha grávida.  A mãe do moço (Aunjanue Ellis) e suas irmãs, Adrienne (Ebony Obsidian) e Sheila (Dominique Thorne), não oferecem qualquer suporte.  A mãe, uma fanática religiosa, amaldiçoa o neto que está por nascer.  Ele foi gerado fora do casamento, por um filho desviado do evangelho e com uma moça que, se se deitou com ele sem casar, é uma perdida.  Talvez, a prisão fizesse bem para Fonny permitindo que ele encontrasse com Cristo.

O embate entre as famílias é uma das grandes do filme, no sentido explosivo da coisa.  A mãe de Fonny é detestável e termina sendo esbofeteada pelo marido. Depois é escorraçada por Sharon, a mãe de Tish.  Trata-se de uma cena violenta e, o pior, e eu me sinto mal por isso, não consegui ter pena de uma mulher tão detestável.  Conheço gente como a Sr.ª Hunt, de altos princípios morais, cheia de amor pelos preceitos religiosos e nenhum pelo próximo, mas é uma cena de violência contra uma mulher em um filme que não discute machismo, mas o mostra em minúcias.

As hierarquais de gênero não são questionadas no filme,
o romance é bonito, mas havia muito a se falar sobre machismo.
Há uma cena específica, que tem a ver com a acusação de Fonny pelo policial, na qual o rapaz é protegido pela namorada. Tish se interpõe entre ele e o agente racista da lei.  Não vou detalhar para não tirar a graça, porque é a outra sequência explosiva do filme.  Passado o perigo, no entanto, o gentil Fonny grita com Tish, que ela nunca mais ousasse envergonhá-lo, fazendo com que ele se sentisse menos homem.  E sentir-se homem siante dos olhos de sua mulher, sim, existe a relação de posse aqui, quando já se é humilhado constantemente dentro da sociedade.  Se você assistiu Moonlight deve lembrar da questão da construção das masculinidades.  Ser homem de verdade é ser violento, ainda mais em um ambiente como o do filme.

O filme não discute machismo como faz com o racismo.  Tish é a moça submissa, por assim dizer, sua irmã passa uma outra imagem.  O filme simplesmente mostra as situações.  A primeira vez da moça com o homem que ama é terna, mas é, também, um momento em que ele toma posse de seu corpo "você vai se acostumar comigo" lhe diz Fonny.  Mais tarde,Tish sofre assédio de homens brancos.  Eles a desprezam por ser negra, mas desejam seu corpo.  Linda e com a aparência doce, ela é contratada como expositora de perfumes em uma loja de departamentos.  Algo raro, afinal, ela tem a cor errada de pele.  O filme se esmera em mostrar os olhares de desprezo, o comportamento diferente dos clientes negros e brancos, homens e mulheres, para com a moça.  Mas, novamente, o racismo é discutido, machismo é somente mostrado.  

Ao proteger o namorado, Tish comete uma ofensa.  
O filme, no entanto, mostra mulheres fortes, cada um do seu jeito.  Tish é uma leoa por ser amado e por seu filho que ainda não nasceu.  Sharon, sua mãe, se agiganta para tentar garantir que sua filha tenha o noivo libertado e seu neto um pai sempre presente.  O filme cumpre a Bechdel Rule sem problemas, aliás.  Falando em Sharon, duas cenas específicas, a do embate com a mãe de Fonny e a em Porto Rico, devem ter-lhe garantido a indicação ao Oscar de coadjuvante para Regina King.  Sharon vai até Porto Rico e tenta encontrar a vítima de estupro que fugira para junto dos seus.  Encontra uma mulher destruída pela violência que sofreu, há empatia, solidariedade, mas, também, muito desespero nessa sequência do filme.

Regina King terminou saindo com o prêmio de melhor atriz coadjuvante.  Foi inesperado e não foi.  As atrizes de A Favorita devem ter dividido os votos, a indicada por Roma (*minha próxima resenha*) nunca esteve na frente nas apostas.  Já Amy Adams, bem, ela é a sempre indicada e nunca premiada.  Regina King mereceu sem dúvida.  If Beale Street Could Talk recebeu mais duas indicações ao Oscar, Melhor roteiro adaptado e Melhor Trilha Sonora.  A música no filme tem uma importância muito grande, ajuda a construir o cenário e criar um clima de intimidade fundamental para a trama.  Outra coisa a se destacar é o figurino, ele não se destaca, não é glamourosos, trata-se de uma produção barata, afinal, mas tem função semelhante a da trilha, ajuda a construir o clima da época, a personalidade de cada um dos personagens da história, enfim, é um trabalho bem meticuloso.

Regina King faz uma mãe capaz de tudo por sua família.
Recomendo muito If Beale Street Could Talk, o filme deve estar para sair de cartaz, estreou em poucas salas e a disponibilidade de horários já tinha sido encolhida.  Merecia mais, especialmente, porque veio credenciado pela crítica internacional, pelas indicações e pela direção de Barry Jenkins.  Não quero tecer críticas a um filme que não assisti ainda, Green Book, mas duvido muito mesmo que como película o grande vencedor do Oscar supere If Beale Street Could Talk.  De qualquer forma, If Beale Street Could Talk terá muito mais importância à médio e longo prazo pela discussão que faz de algumas minúcias do sistema pena norte-americano, problemas que persistem até nossos dias, e por ser um belo retrato de uma época na qual dificilmente meninos e meninas negras sonhariam que, um dia, um negro seria eleito presidente dos Estados Unidos.

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