segunda-feira, 1 de abril de 2019

Comentando Harem no Muku na Bara - Parte 1 e 2


Estou com uma série de mangás Harlequin para resenhar e há pelo menos uns três filmes, também.  É muita coisa e muito trabalho, nem sempre consigo colocar as coisas em dia.  Enfim, já que a Globo vai estrear Órfãos da Terra amanhã, uma novela com sheik passada no século XXI, decidi começar minhas resenhas de Harlequin com um mangá de sheik.  Sim, eu comprei, mas tenho duas desculpas, se passa no período Regencial britânico e eu fiquei curiosa, e a desenhista, Karin Miyamoto, tem um traço muito agradável.  Desculpas, enfim... 


Dois volumes com uma capa muito bonita.
O resumo da história é mais ou menos o seguinte: Lady Celia, uma jovem culta e que, na falta da mãe, ajudou na educação de suas irmãs, foi casada pelo pai diplomata, com um colega de carreira, um jovem muito promissor.  Recém-casada, Celia é tratada com frieza pelo marido, que se recusa a consumar o casamento.  Enviado em uma missão ao Oriente Médio, ele leva a esposa consigo, afinal, ela é filha de um diplomata importante e era uma espécie de secretária do pai.  


Casada e indo para o Oriente.
Apesar de aconselhado a deixar a esposa em segurança no Egito, ele decide levá-la para sua missão em A'Qadiz. No caminho, mesmo com uma escolta de soldados de A'Qadiz, eles são atacados por rebeldes e Celia termina viúva. Ela poderia ter perdido sua vida, não fosse a intervenção de um dos soldados de A'Qadiz. Acontece que o homem que apareceu não era outro senão o xeque Ramiz, o próprio governante, que viajava incógnito e já tinha sido gentil com Celia quando de seu desembarque no Egito. Ramiz oferece sua proteção para Celia, enquanto ela não volta para o Cairo, ele sugere que ela fique no seu harém.


Celia começa a comparar o marido desinteressante com o árabe gentil. 
Viúva, ela descobre que se trata do sheik de A'Qadiz.
Harem no Muku na Bara (ハーレムの無垢な薔薇) - Parte 1 e Parte 2 - é baseado no livro Innocent in the Sheikh’s Harem de Marguerite Kaye, lançado em 2011.  Trata-de do primeiro de uma série de quatro, ou cinco, afinal, a mocinha tem outras irmãs e todas terminam se envolvendo com sheiks, imagino.  Talvez tenha sido lançado no Brasil, mas não consegui confirmar a informação.  Dei uma olhada em reviews e resumos do livro, inclusive no site da autora, e o mangá omite a idade de Celia, ela não não era muito novinha ao casar, tinha 25 anos.  Isso é coerente com a ideia de que ela cuidou da educação das irmãs e auxiliava o pai.  


Celia começa a se vestir e se comportar
como as mulheres do harém.
Faz sentido, também, que Celia deseje tanto que seu casamento seja consumado, para que possa ter os seus próprios filhos.  O fato é que o livro deve diferir em vários pontos do mangá.  Diferente do que acontece no Harlequin do visigodo e da romana que comentei, o desenvolvimento das personagens secundárias é mínimo.  Temos o casal principal e ele dá sustentação aos dois volumes.  O pai, a tia e uma irmã de Celia só aparecem no final.  O diplomata que quer que Celia espione para a Inglaterra é um alívio cômico.  O secretário de Ramiz tem poucas cenas.  Nesse aspecto, o mangá Torawareta Otome (とらわれた乙女) era muito mais estruturado.


 
A atitude de Ramiz é bem agressiva desde o primeiro momento.
 Desde o primeiro momento, a tensão sexual entre Ramiz e Celia é instantânea.  A moça se sente fascinada pelo sheik, que parece ser tudo o que seu finado marido não era.  Não sei o livro, ele até está baratinho e eu poderia comprar, mas a autora pinta o marido de Celia como um sujeito detestável.  Ele repreende a esposa, quer ser mimado por ela, mas não mostra nenhum interesse sexual pela moça.  Pergunto-me se ele não era um homossexual no armário, casou, porque tinha que casar para ascender na carreira e ser respeitado socialmente.  


O secretário lembra Ramiz de suas obrigações.
Enfim, o pouco do casamento deles que o mangá mostra, é miserável.  Na noite em que ele foi morto, colocou a esposa para fora da tenda.  Não é surpresa ela ficar fascinada pelo sheik.  Falando nele, Ramiz deseja a moça desde o primeiro momento que a vê e acredita que poderá manter relações sexuais com ela sem maiores consequências, afinal, Celia não é mais uma moça virgem.  Pelo pedacinho disponível do livro no Amazon, Celia tem uma reação um tanto irada quando ele fala em alojá-la no harém.  Ela protesta e diz que não será sua esposa.  Ele a esnoba e diz que uma ocidental (*e viúva*) seria no máximo uma concubina.  Ela protesta de novo e ele a beija.  


A esposa do secretário fala para Celia que ela não é a mulher certa para o sheik. 
Não pode ser.  Nessa cena interna, Celia deveria estar sem o seu chapéu.
No mangá, ele tenta seduzi-la, mas não age de forma grosseira nesse aspecto.  Como já comentei antes, as autoras de mangá Harlequin parecem ter grande autonomia para mudar certas coisas, porém, estão amarradas a um número específico de páginas.  Quem vai lembrar Ramiz de que ele está passando dos limites com Celia é seu secretário.  É engraçado que a autora reclama que ela queria ter posto todas as conversas de Ramiz com o secretário, que são ótimas, mas não pode por causa do número de páginas.  O que eu senti é que ela queria fazer um BL e, não, um mangá Harlequin, mas não dava. 😄


A mangá-ka queria desenhar as conversas
do sheik com seu secretário.  Sei... 
O secretário do príncipe observa a mudança de comportamento do soberano e o adverte que ele precisa se casar, que há uma lista de princesas e que os anciões estão perdendo a paciência.  Já Celia recebe a visita da esposa do secretário no harém.  A mulher lhe informa que ela não deve alimentar esperanças, pois o príncipe só pode se casar com uma virgem.  Enfim, toda essa situação faz sentido e o comportamento cafajeste de Ramiz, porque ele é meio assim, flertando com Celia, porque, bem, ela é uma ocidental e ele pode fazer isso, já que ela tem menos valor que as mulheres de seu povo, é coerente.


O chilique depois da primeira vez.
  Estou dizendo o quê, o normal é que esses mangás criem sujeitos perfeitos, ainda que sexualmente agressivos, cheios de bons modos, boas intenções e recato.  Ramiz deseja Celia e não se importa em se aproveitar da sua vulnerabilidade.  Ele se ressente quando ela não adota trajes orientais e se delicia quando ela o faz.  Se apaixona por ela, mas sabe que tem um dever a cumprir.  A graça toda é que ele e o secretário falam o tempo inteiro que ele deve casar por amor, uma insanidade, seja para um príncipe ocidental, seja para um príncipe oriental, e muito improvável até hoje no mundo árabe.


A noiva perfeita.
Os dias passam e ele confia segredos a Celia, levando-a para passear em ruínas que ele deseja proteger dos ocidentais cobiçosos de segredos.  Depois disso, eles terminam fazendo sexo e o sujeito tem uma surpresa que o deixa profundamente irado.  A moça, que ele amava, mas pretendia que fosse somente um passatempo antes do casamento é uma donzela.  Ele a acusa de fazê-lo cometer um crime de honra (*está corretíssimo isso aqui*), já que desvirginou uma moça e não pode se casar com ela.  Não pode, porque ela é ocidental, não pode, porque ela é uma viúva.  E, bem, leiam a história para saberem mais se desejarem.


Não posso lhe prometer nada...
É isso!  Harem no Muku na Bara ganha pontos por não criar um sujeito perfeito, vou resenhar o outro mangá de sheik da Yoko Iwasaki e vocês vão ver que peça... Agora, toda a estruturação é bem machista.  Ramiz é possessivo e pensava em usar Celia como um prazer temporário.  Ela abre mão de muito de sua identidade britânica para satisfazer ao príncipe, veste-se como ele quer, aprende a tocar instrumentos musicais árabes, falar a língua.  É indício de inteligência?  Sim, mas de assujeitamento, também, mas, repito, pelo menos faz sentido, nem sempre isso acontece.  Para quem quiser olhar mais imagens do mangá, coloquei em um álbum aqui.

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