terça-feira, 30 de abril de 2019

Hagio Moto: Uma Longa Entrevista - Parte 2


Na época do aniversário do Shoujo Café, mais de um mês atrás, o Luiz deu um presente para o blog e seu público.  Ele traduzir uma das maiores entrevistas já dadas por Hagio Moto, uma das grandes mangá-kas de todos os tempos, e que está no livro Bungei Bessatsu Hagio Moto~Shoujo Mangakai no Idainaru Haha (文藝別冊 萩尾望都~少女マンガ界の偉大なる母~).  Trata-se de um material que cobre desde a infância da autora até os nossos dias.  Ela discute desde sua dinâmica familiar, as dificuldades para se torna mangá-ka, especialmente, por não ter o apoio de seu pai e sua mãe.   Depois, ela fala das parcerias, das contemporâneas, da relação com as editoras, enfim, é muita coisa.

Demorei tanto a publicar, porque, bem, é muito grande mesmo e eu não sabia onde fazer os cortes.   Então, talvez tenhamos três partes, ou até cinco.  A entrevistadora se chama Yamada Tomoko e a primeira parte está aqui.  E o Luiz deu sinal de vida! Bom ter você por aqui.  Mas o Facebook, ou outra rede social ajudam a gente a ter contato. Mantenha pelo menos o Messenger.  Meu marido fez isso.  Desativou a conta do Facebook, também.


~ Por volta da época de estréia
Período de 1969-1973
Hagio Moto, de 20 a 25 anos ~

Perdida por dois anos, até perceber que só conseguia desenhar aquilo de que gostava.

Hagio: Dentre os mangakás nascidos em Ômuta, há uma chamada Hirata Makiko-san. Acho que ela estreou quando tinha mais ou menos dezesseis anos. No terceiro ano colegial, fui convidada por uma amiga para ir à casa dela e a Hirata-san me mostrou os seus manuscritos. Ela é uma pessoa que faz desenhos expressivos e belos. Perguntei como ela estava desenhando e ela me disse que trocava idéias com o editor por telefone, mandava alguns rascunhos e depois disso desenhava. Quis saber então como ela fazia quando não dava tempo e ela me disse que, como esperado, nessas horas faltava à escola para desenhar. Fiquei impressionada ao ouvir esses tipo de história penosa.

- Incrível, não é?

Hagio: Após formar-se no colégio, ela foi para a capital continuar como mangaká enquanto morava junto com sua irmã mais velha. Em uma das nossas trocas de cartas, eu disse para ela que gostaria de visitar alguma editora também quando terminasse um manuscrito. Como exatamente nessa época ela estava desenhando para a Nakayoshi, ela me disse que poderia me apresentar um editor de lá.

- Até esse momento, quantas vezes mais ou menos você tinha submetido sua obra à avaliação das editoras?

Hagio: No total, dez vezes. Para várias revistas.

- Mas o que permitiu a sua estréia foi a apresentação da Hirata-san.

Hagio: Exato. Eu peguei o manuscrito retornado das outras editoras e fui encontrar um editor da Nakayoshi. Acho que eu estava em meio às férias de inverno da escola técnica. O homem encarregado me disse “Desenhe uma história fofa porque o seu desenho é fofo. Até quando você consegue me enviar?”. Nós já estávamos no dia quinze de janeiro, mas eu disse que enviaria ainda durante aquele mês. Desenhei apressadamente.

- Em meio mês! E essa foi sua obra de estréia, Lulu to Mimi (1969).

Hagio: Isso. Como eu desenhei com muita pressa, o traço ficou ruim. Eu escrevi muitas desculpas, dizendo que da próxima vez faria direito, porque achei que talvez eles não fossem receber minha obra bem. Ele disse que iria permitir minha estréia com aquela obra, mas que um artista com uma história só não tem carreira, por isso eu deveria ir desenhando outras coisas. Então eu desenhei Suteki na Mahou (1969)...

- Você deve ter ficado feliz com sua estréia.

Hagio: Não, não houve muita felicidade. Porque estava muita insegura em relação ao futuro.

- É mesmo? Se tivesse que escolher, você diria que possui uma natureza ansiosa?

Hagio: Bem, não é como se eu tivesse arrumado trabalho assim que estreei. Porque mesmo enviando de novo e de novo, eu era rejeitada. Ficava me perguntando o que fazer, achando que talvez não conseguisse continuar como mangaká. E nesse caso, como poderia arranjar dinheiro para poder comer etc. Por dois anos após minha estréia, afligi-me bastante, sem saber se conseguiria viver como mangaká. Eu era rejeitada até mesmo no estágio do enredo. Quando eu recebia aprovação do departamento editorial e finalmente desenhava e mandava o manuscrito completo, diziam que não poderiam usar minha história.

- Nossa…

Hagio: Pediam para eu tornar as conversas mais infantis e coisas do tipo. Mas do ponto de vista de um departamento editorial, isso é algo natural. Quando esse tipo de pedido chegava, eu percebia que o mundo que eu queria desenhar e o mundo que os editores desejavam, ou melhor, o mundo que as leitoras da Nakayoshi desejavam, eram diferentes. E ficava me perguntando qual seria a melhor forma de resolvermos esse problema. Pensando com um pouco de calma, eu diria agora para mim mesma que eu deveria desenhar algo direcionado a meninas do terceiro ano primário, mas naquela época eu estava muito, muito confusa. No fim das contas, como eu me perco muito e não sou muito habilidosa, só consigo escrever aquilo de que gosto. Então eu pensei em desistir no momento em que as coisas das quais gosto não fossem aceitas. Até chegar a essa decisão, passaram-se aproximadamente dois anos.

- Você chegou a essa decisão na época de qual obra?

Hagio: Um pouco antes de desenhar Cake Cake Cake (1970). Como foi um processo rápido para eu me decidir em adotar essa postura, depois disso eu já estava fazendo apenas trabalhos dos quais gostasse (risos).

- Entendi.

Hagio: Frequentemente me perguntam se eu já fiz algum trabalho que detestasse. Mas eu digo que não. Jovens que têm a ambição de tornar-se mangakás às vezes dizem algo como “eu quero desenhar ficção científica, mas como me mandam desenhar histórias de amor, e mesmo que eu não tenha nem um pouco de interesse por mangás românticos, eu fico me perguntando se essa não é a única alternativa para poder estrear e, como não há o que fazer, desenho”, mas com esse tipo de mentalidade é difícil. É preciso desenhar com gosto, ainda que não haja o que fazer a respeito, temporariamente.

- Mesmo depois de ter tomado sua decisão, você continuou trabalhando, não é?

Hagio: Felizmente. Eu disse que só desenharia aquilo (risos).

“Eu vou comprar todos.”
Conseguiu vender os manuscritos rejeitados!

- Você desenhou por um tempo para a Nakayoshi da Kodansha, e depois mudou para a Shôjo Comic da Shogakukan. Você teve consciência de que estava mudando de ambiente?

Hagio: Tive.

- Você mudou devido a algum contrato?

Hagio: Não, não. Naquela época, não havia contrato porque eu era uma novata. A história completa é a seguinte: eu fui ser assistente por uma noite porque um editor da Kodansha havia pedido para mim. Acho que foi na época em que eu estava na dúvida se iria me formar na escola de design ou não. Eu estava em Tóquio para mostrar um manuscrito. Indo lá, era o lugar onde Aoike Yasuko-san e Takemiya Keiko-san moravam. Eu fui ser assistente da Takemiya-sensei. Foi por volta do período em que estava desenhando Cake Cake Cake.

- Essa foi a primeira vez que você encontrou com a Takemiya-san? Quando foi assistente dela?

Hagio: Não me lembro bem porque faz muito tempo. Mas talvez seja isso. Ela já tinha ido para Tóquio e estava trabalhando na Nakayoshi. Então enquanto eu estava sendo sua assistente, ela me perguntou de onde eu era e se eu também morava em Tóquio. Eu disse que era de Ômuta e que gostaria de ir para Tóquio, mas ainda não tinha condições. Quando respondi isso, ela falou que estava pensando em se mudar também, e perguntou se eu não moraria junto com ela, caso achasse uma casa apropriada. Assim o aluguel e o custo de vida ficariam mais baratos. Em resumo: viver em um lugar compartilhado. Eu também pensei que teria autorização dos meus pais caso fosse morar com outra mulher.

- Você foi para a Capital por causa dessas palavras da Takemiya-san, não é?

Hagio: Isso. As despesas para mudança foram pagas com o dinheiro dos bicos que eu tinha feito, com o dinheiro de Ano Novo e da mesada que meus pais me deram, além do pagamento pelos manuscritos. Assim como os prêmios em dinheiro que eu havia recebido e guardado. Depois disso, como eu recebi meu dinheiro pelo trabalho com Cake Cake Cake, consegui a quantia para pagar o depósito de garantia e a taxa de agradecimento pelo aluguel. Foi nessa época que encontramos um lugar bom para nos mudarmos, com três quartos, em Ôizumi, e nos mudamos (1970). Como o aluguel era por volta de vinte mil ienes, nós dividíamos pela metade e eu pagava dez mil e poucos ienes.

- Naquela época dez mil ienes era uma quantidade bastante alta, não é?

Hagio: É verdade. Mas devido a isso eu consegui ter um objetivo e fui para a capital. Meus pais acharam que eu voltaria para casa em mais ou menos um ano. Mas eu pensei que precisava me tornar uma autora capaz de se alimentar em um ano. Na época eu ainda não tinha nenhum trabalho serializado na Kodansha. Eles haviam aceitado minha obra Bianca (1970) de dezesseis páginas, mas todos os meus outros manuscritos haviam sido rejeitados. Eu estava sem saber o que fazer.

- Foi esse o período que você falou antes, quando todas as suas obras eram rejeitadas.

Hagio: Então a Takemiya-san, que na época havia começado a desenhar para a Shôjo Comic,  me perguntou se eu não gostaria que ela me apresentasse um editor da Shogakukan. Como nós ainda não estávamos morando juntas, falei que enviaria os manuscritos para ela e perguntei se ela não poderia passá-los para o responsável da Shogakukan. Eu devo ter enviado cinco ou seis obras para o endereço dela. Acho que foram Shiroki Mori Shiroki Shônen no Fue, Sara Hill no Seiya, Magdalene e mais algumas obras. Acho que também enviei Kenneth Ojisan to Futago. Esse editor foi Yamamoto Jun’ya-san, que passou a cuidar de mim desde então.

- Eu já havia ouvido falar que você tinha muitas obras publicadas em 1971 porque seus trabalhos anteriormente rejeitados foram todos lançados nesse ano. Então o Yamamoto-san já havia lido suas obras por intermédio da Takemiya-san antes mesmo de conhecer você diretamente.

Hagio: Isso. E então parece que ele falou para ela que iria comprar todos os manuscritos. Depois disso eu passei a trocar correspondência com ele.

- Quando você encontrou ele pela primeira vez, disse que queria um trabalho contínuo?

Hagio: Isso. Porque eu precisava pagar o aluguel (risos). Eu disse que não havia problema no número de páginas ser pequeno, pois eu queria ter trabalho todo mês.

- E então você perguntou ao pessoal da Kodansha se poderia desenhar na Shogakukan.

Hagio: Sim. E eles disseram que eu poderia.

- Eles devem ter ficado frustrados depois, não é?

Hagio: Não, não. Mas para mim a Shogakukan ter pego e se responsabilizado por cuidar das minhas obras foi algo importante. Além disso, no caso da Kodansha, a Nakayoshi é uma revista mais voltada para meninas pequenas e, por isso, se a história for muito difícil, esse se torna o maior empecilho para eles. Eles pediam para eu diminuir o número de falas, para aumentar o tamanho dos desenhos. Por outro lado, na Shôjo Comic da Shogakukan a abrangência de temas era grande, ou melhor, eles diziam que aceitariam qualquer tema, então era mais fácil de entrar.

- Você ficou muito entusiasmada em fazer algo novo, uma vez que estava em uma revista nova?

Hagio: Não, isso não aconteceu. Eu apenas pensei que seria bom caso conseguisse desenhar coisas das quais gosto. Apenas isso. E que seria bom se pudesse pagar meu aluguel. Como dentre as revistas para meninas a Shôjo Comic surgiu um pouco mais tarde, parece que eles estavam em uma situação de não saber qual linha editorial tomar com a revista. E eu me aproveitei bem dessa brecha (risos). Eles pegavam todas as obras que uma editora já estabelecida não publicaria.

- Naquela época, os mangás shôjo de editoras como a Kodansha já tinham seu estilo definido até certo ponto, não é? Uma coisa bem florida.

Hagio: Isso, isso.

- Suas obras não são tão chamativas assim. Por exemplo, as roupas ocidentais dos personagens são na verdade muito bonitas, mas elas não têm a suntuosidade desse tipo de mangá. Quem entende isso acha bonito. Suas obras têm isso.

Hagio: Meu traço é realmente muito simples. Eu mesma acho isso ao desenhar.

- Não, é um traço que não tem desperdícios. É um pouco diferente de ser um traço descolado. Ele é singelo.

Hagio: Obrigada.

- E como foi depois que vocês passaram a morar juntas em Ôizumi?

Hagio: Depois disso, além da Sasaya Nanae-san, que morou conosco por meio ano, várias outras pessoas vieram nos visitar em Ôizumi. Itô Aiko-san, Satô Shio-san etc. Mas eu também fiquei na casa da Sasaya-san em Hokkaido por um mês, fui assistente da Yamagishi Ryôko-san, visitei a Yamada Mineko-san; eu fui para a casa de várias pessoas. Foi interessante. Nesse meio tempo, como meu salário tinha se estabilizado, acabei deixando Ôizumi (por volta de 1972-1973). Como a Sasaya-san finalmente subiria para Tóquio, nós decidimos morar em Shimo-igusa. A Takemiya-san também iria morar perto da estação.

- Entendo.

Hagio: Quando estava em meus vinte, trinta anos, era alguém muito ativa, por isso se tivesse um pouco de tempo, iria passear, encontrar pessoas. Tinha medo das pessoas, mas meu interesse por elas era maior. Uma vez, conheci a Kihara Toshie-sensei. Ela estava morando em Meguro, mas disse que iria se mudar e pediu-me para visitá-la pois era um lugar bom, então eu fui. Chegando lá, era um lugar bem interiorano, mas tinha muito verde e um ar agradável. Ao perguntar quanto era o aluguel, ela me disse que aquela casa com um quarto de seis tatames, um de quatro e meio, com cozinha, banheiro e jardim inclusos saía por treze mil ienes. Eu decidi que iria me mudar para aquela região imediatamente. E ainda estou morando no interior. Depois disso construí uma casa na cidade e ficou por isso mesmo.

- A Kihara-sensei ainda mora próximo a você?

Hagio: Sim, a trinta minutos de caminhada. No começo eu morava a cinco minutos da casa dela e como ainda não tinha telefone, ia até lá para usar emprestado o dela.

- Vocês ainda se encontram?

Hagio: Nós não vamos muito à casa uma da outra como antigamente, mas esses tempos atrás ficou em cartaz no teatro Nichigeki, em Nagoya, a peça Yukariko, baseada em uma obra da Kihara-sensei, que me convidou para ir, então nós fomos juntas. Eu também encontro com as outras periodicamente em festas da editora.

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1 pessoas comentaram:

Eu não tinha o aplicativo do messenger no celular. Mas baixei hoje e criei uma conta. Mandei uma mensagem para você. :)

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