quinta-feira, 23 de maio de 2019

Comentando o primeiro capítulo de Topíssima (Record, 2019)


Por culpa do vídeo do pessoal do Coisas de TV, fui lá e assisti ao primeiro capítulo de Topíssima, a nova novela da Record, uma tentativa de retorno às tramas contemporâneas por parte da emissora.  O que me motivou a me torturar foi a frase que o Fábio disse no vídeo "Sofia é uma mulher feminista, nos padrões Record".  Sofia é a protagonista da novela, uma dondoca interpretada por Camila Rodrigues e que parece uma cruza piorada da Jô Penteado no início de A Gata Comeu e a Catarina de O Cravo e a Rosa, com um detalhe curioso, ela ficou meses, imagino, observando o mocinho de uma luneta.  Sério.  Enfim, segue o vídeo do Coisas de TV:


Enfim, a trama da novela é simples, mas se vende complexa: Topíssima (*esse nome... esse nome...*) conta a história de Sofia, a herdeira do grupo Alencar que controla uma quantidade indefinida de universidades privadas no Brasil, e seu romance acidentado com o taxista Antônio (Felipe Cunha), um moço bom, trabalhador, chefe de família, líder comunitário, e com tendências masculinistas explícitas depois que foi abandonado pela noiva no dia do casamento.  Eu entendo o choque, sou até solidária,  porque é mais fácil ter empatia por ele do que por ela.  O que une os dois, além de acidentes de trânsito, é uma droga sintética chamada veludo azul.  Os malvados querem eliminar a mocinha e culpar o herói pela droga e pelos assassinatos, já que a noiva que o largou no dia do casamento morre no primeiro capítulo.

O grande vilão, Paulo Roberto (Floriano Peixoto), tio da mocinha, é responsável por colocar para circular a tal droga dentro das universidades da família.  Ele comandava o grupo Alencar, mas por algum motivo não explicado, e o fato dele ser bastardo (*o termo foi usado*), não é justificativa, ele é tirado da presidência do grupo pela irmã Lara  (Cristiana Oliveira).  A eterna Juma Maruá, uma perua enlouquecida, obriga a filha a assinar um documento logo nas primeiras cenas, o papel diz que ela pode ser a presidente do grupo, desde que se case em um ano.  Sim, desse jeito é estamos no Brasil é em 2019, ou 2018, porque a novela abre com uma cena de impacto seguida do letreiro "6 meses antes".

A noiva do mocinho roda no primeiro capítulo.
Enfim, a novela se passa na Zona Sul do Rio e para conseguir que super ricos e pobres se encontrem, o mocinho deve morar na favela, no caso, o Vidigal.  E fazia tempo que eu não via uma elenco tão branco em uma novela qualquer.  Todos parecem suburbanos de classe média baixa e, não,  moradores de comunidade. Todos os residentes do Vidigal que apareceram no primeiro capítulo e tinham falas eram brancos, figurantes negros, não vi nenhum.  Na mesma favela, está o braço direito do chefe do tráfico, Pedro (Felipe Cardoso), na sinopse está dito que é policial, mas me apareceu ser dono da peixaria que é fachada para o escritório dos criminosos.  Logo de cara, Felipe mata a noiva do mocinho, que era sua amante, para culpar o sujeito.  

No segundo capítulo, aparecem Felipe, Paulo Roberto e o químico responsável pela droga, Taylor (Emílio Orciollo Netto), ainda jovens.  Olha, Floriano Peixoto é mais de 15 anos mais velho que os outros dois e isso é visível, não dá para empurrar que eles tem a mesma idade, da mesma forma que não dá para empurrar Juliana Paes e Marcos Palmeira interpretando adolescentes em A Dona do Pedaço, mas deixa quieto... Também no segundo capítulo, que eu vi só pedacinhos, é introduzido o núcleo Malhação + Armação Ilimitada da trama liderado por Kadu Moliterno, que interpreta um policial aposentado que tem uma república de estudantes super-transada.  

Abandonado no altar.
Uma das marcas da trama é a repetição eterna da palavra "universidade". Olha, universidade é algo grande, no Brasil, há mais faculdades e centros universitários do que universidades.  Bem, a minha impressão é que quem escreveu a trama (Cristianne Fridman), ou quem a supervisiona, a filha do bispo Macedo, não sabe o que é universidade ou como gente que já frequentou uma, fala dela.  Pois bem, no início dos ano letivo, a gente fala em "hoje começam as aulas", como qualquer estudante e, não, "hoje começa a universidade".  A gente normalmente fala "eu estou na faculdade XXX" ou "Eu estou fazendo faculdade de XXX não sei onde" e, não, repetidamente "estou na universidade" ou "estou fazendo universidade".  

Ontem mesmo, no tal capítulo 2, o mocinho vai deixar a irmã caçula, Gabriela (Rafaela Sampaio, uma moça pura e comportada, na universidade em seu primeiro dia de aula.  Ele diz algo como "Nossa, como é grande!", mas só vemos uma estrutura genérica, poderia ser um aeroporto, por exemplo, e meia dúzia de gatos pingados de alunos.  Daí, há todo um zum-zum-zum em torno de uma cerimônia de abertura do semestre e a coisa é feita em um pátio qualquer com um tablado e os donos do negócio falando ao público.  Não há professores, não há nada, é constrangedor.  Aliás,  não sei até agora as qualificações da mocinha, ou do vilão. Ser dono deve bastar.   Uma amiga me lembrou que, nas primeiras sinopses, o ramo da mocinha seria o da moda, daí, o nome da novela.  

O vilão.
Não sei o motivo da mudança, nem quero crer que ela tenha a ver com o momento em que vivemos de desqualificação das universidades.  Primeiro, porque não daria tempo para fazer uma mudança tão radical.  Segundo, porque a perseguição é à universidade pública.  De qualquer forma, quem escreveu o roteiro e faz questão de repetir insistentemente a palavra universidade não sabe que esse tipo de instituição tem salões nobres, ou auditórios grandes, nos quais os alunos sentam e as pessoas falam ao público de maneira formal, não em algo que parece ser uma quadra esportiva 

Mas, enfim, vamos ao mocinho e à mocinha.  No primeiro capítulo, a personagem de Camila Rodrigues não se declarou feminista, mas está na sinopse que ela é.  De qualquer forma, Sofia é irritante, metida, grosseira, agressiva e pisa em todo mundo.  Sim, todo mundo.  Visão de feminista da Christiane Cardoso, talvez.  Ela vem estragando os textos das novelas da Record faz tempo e é responsável, junto com o marido pelo programa Escola do Amor, que ensina, entre outras coisas, que as esposas que apanham dos maridos podem estar fazendo algo errado e que com um pouco de paciência e oração, talvez, Deus restaure a relação.  Sim, estava em um restaurante e vi um programa nessa linha.  A esposa se culpando, inclusive, por apanhar.  Ela deveria ser mais doce e paciente com o marido.

A mocinha causa o acidente e o mocinho abre seu coração
 e despeja suas frustrações em relação às mulheres sobre ela.
Não se trata de uma Megera Domada, não acredito que vá nessa linha.  Como pontuei lá no começo, a Sofia de Topíssima, esse nome horrível, me lembra a Jô Penteado de A Gata Comeu antes de se humanizar.  Ela vai aprender a ser gente, mas que tipo de gente, não faço ideia.  Em nossos dias, claro que não teremos o herói batendo na mocinha, não acredito nem em um revide caso ela lhe dê uma bofetada, coisa que eu acredito que ela deva fazer em algum momento, porque, bem, ele é um sujeito bom e equilibrado e a tolerância com esse tipo de coisa tende a ser baixa em nossos dias.  Enfim, a melhor cena da mocinha no capítulo de estreia, foi quando ela tentou jogar spray de pimenta no taxista-mocinho e acertou seus próprios olhos.  Sério, foi, sim.

Já o mocinho é o modelo de homem de bem.  Ele fez um discurso contra as mulheres empoderadas, que querem ser livres e não respeitam os sentimentos de ninguém, nem os delas mesmas, para a mocinha, mas ele tem bom coração.  Antônio cuida de todos, da mãe, uma Sílvia Pfeifer fazendo uma mulher pobre (*minha maior curiosidade na novela era essa*) e trabalhadora, da irmã, que os vilões irão querer viciar na tal droga veludo azul, e da comunidade inteira.  Ele é super centrado, enquanto a mocinha deveria fazer terapia.  

A cena mais engraçada do capítulo.
Desde o início, portanto, somos conduzidos a pensar no mocinho como alguém bom, e na mocinha como alguém que precisa de conserto.  Quem sabe uma mão firme, um macho de verdade, não resolva o problema dela?  Tudo, claro, com toques de humor.  Mas não tenham dúvidas que o feminismo será apresentado como o oposto do machismo, já o mocinho, mesmo na sinopse, não é apresentado como machista, mas como um "homem rústico".  Então, ele está bom do jeito que é, ela, Sofia, é que precisa mudar para depois ir ao programa da filha do Macedão dizer como conseguiu um casamento blindado.

Terminando, temos uma figura curiosa na novela, Eri Johnson como um policial infiltrado na casa da mocinha com o objetivo de descobrir a ligação entre a droga veludo azul e as universidades do grupo Alencar.  Ele é seu personal stylist, Pierre, e lembra o Crô, mas em versão mais velha e compacta.  Como bem pontuaram no vídeo do Coisas de TV, esta é a única representação de homossexualidade possível em uma novela da Record em nossos dias.

Infiltrado.
Que dizer mais?  A novela não é ruim, especialmente, se levarmos em conta que as novelas perderam muito de sua qualidade.  Ela é dinâmica, tem humor, usa de recursos interessantes, mas é isso aí, favela branca, feministas como histéricas e a repetição de termos-chave (*universidade e veludo azul, em especial*) para que o público não se esqueça deles.  Acredito que será bem sucedida e esquecida logo depois.  

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