sexta-feira, 21 de junho de 2019

Já que me pediram, vamos falar um tiquinho dos problemas de Karekano


Ontem, recomendei o vídeo do Meteoro sobre Karekano e Metapercepção.  Algo que, talvez, alguns não tenham entendido é que o anime, não o mangá, foi usado para discutir um conceito da psicologia.  Visivelmente, o objetivo do vídeo não era discutir a série e suas nuances, ou comparar mangá e anime.  O que pontuei de problemas foi tendo isso em mente, quais sejam, a omissão da autoria original feminina e certas características da personalidade de Arima e Miyazawa.  Mas, nos comentários, pediram-me opinião sobre o vídeo do Meteoro, coisa que eu já tinha feito no post curto e sobre o que eu acho de Karekano.  

Olha, falei de Karekano em vários momentos do Shoujo Café, só que Karekano terminou faz muito tempo e o site tem 14 anos de posts.  Resultado, daria um trabalho monstruoso tentar localizar tudo.  Achei alguma coisa.  Só que vou resumir basicamente os problemas que vi no mangá, porque o anime, que tem problemas que são seus, termina no volume #8 e muito mal, porque faltou dinheiro para garantir a qualidade da animação.  Vou escrever de memória, principalmente, não vou pegar na estante o mangá para rever tudo agora.  E, bem, esse post tem spoilers, mas o mangá terminou em 2005, no Japão, com 21 volumes e em 2008, no Brasil, onde foi publicado pela Panini.  Muito tempo, portanto, não aceito reclamação.

Arima foi uma criança abusada pela mãe
 e abandonada pelo pai.
Para quem não lembra do plot básico de Karekano, a série segue o relacionamento de dois adolescentes, Miyazawa, que vem de uma família de classe média muito amorosa e tem duas irmãs, e Arima, filho único de um casal de meia idade e membro de uma família muito rica e dona de empreendimentos médicos.  Ambos são alunos excepcionais, Miyazawa é muito competitiva e não quer que Arima a supere em notas.  A garota não tem amigos e finge perfeição para todo mundo, já Arima é, aparentemente, perfeito, mas carrega um peso enorme: ele é filho bastardo, rejeitado pelos parentes e se sente em débito com os tios que o acolheram, adotaram e lhe dão muito mais amor do que ele acredita merecer.  Ele acredita ter uma dívida com os seus pais adotivos, é assim que ele se sente, é algo cultural, por isso, ele se esforça tanto e pretende seguir a carreira do tio-pai e se tornar médico.

Claro, há muitas mais personagens em Karekano, adolescentes que se tornam amigos de Arima e Miyazawa.  Há toda a questão da felicidade da menina em finalmente ter amigas e amigos.  Karekano trata com muita delicadeza da questão da iniciação sexual de dois adolescentes, aborda as pressões por desempenho acadêmico e tudo mais de forma bem precisa.  Mostra famílias amorosas e atentas.  Os pais de Arima e Miyazawa não são ausentes, eles são parte da história.  Há alguns temas que podem ser complicados, mas são realistas, como o romance de Maho, uma das amigas de Miyazawa, uma adolescente, com um homem mais velho.

Da parte "ruim" do mangá, essa cena, não o tapa
em si, mas toda ela, foi a melhor.
Agora, os problemas estão lá, também, e não são poucos.  Até o volume #11, essa faceta triste do Arima não causa problemas à história.  Eu uso o volume #11 como marco, porque é quando existe a viagem da escola até Kyoto e temos o gaiden falando dos exames de admissão no colegial, outro capítulo muito bom. O volume #12 praticamente não traz Miyazawa e Arima, é centrado em outras personagens e, a partir do #13 começamos a ter as questões barra pesada.

A mãe abusadora de Arima retorna à história.  Uma mulher cruel e a autora, Masami Tsuda, a coloca inclusive estuprando (*porque é isso que acontece*) o pai de Arima.  É assim que ela engravida.  Não há nenhuma questão a respeito da adolescente grávida e sem suporte, mas há todo o foco na mãe abusadora e cruel com seu filho.  Arima era torturado pela mãe e acaba sendo acolhido pelos tios.  Uma das melhores cenas do mangá é quando a mãe-tia super dócil de de Arima confronta a mãe abusadora.  Eu gosto muito dessa cena.  O mangá trata de forma diferente o pai de Arima, há grande complacência com um sujeito que é bem traste e abandonou o filho.  Basta buscar o mangá e confirmar.  Ambos os pais biológicos de Arima são horrorosos, cada um a sua maneira.

Arima se sentia nada, se sentia um lixo.
O problema é que Arima surta com o retorno da mãe.  As memórias dos abusos voltam, ele se sente um lixo e culpado, afinal, ele não deveria ter nascido.  Ele passa a tratar mal Miyazawa, ela tenta ajudá-lo, ela não o abandona.  E ele termina por estuprá-la para fazê-la se afastar dele.  Não importa a simpatia que eu tenha pelas personagens, e eu tenho e muita, houve um estupro.  A sequência fatídica acontece no vol. 15, cap. 72. Arima tenta o suicídio ciente do que fez.  Miyazawa vai até o hospital, consola o moço, diz que não houve estupro, o perdoa e isso o salva.

Quem lê o que eu escrevo no blog, sabe que eu acredito em perdão e mudança de vida.  Adoro tramas que trabalham com a ideia de redenção.  Eu sou cristã, preciso acreditar nessas coisas, afinal.  E eu sei que se Miyazawa virasse as costas para Arima naquele momento, ele morreria.  Não haveria escapatória para ele.  O problema é como a autora, não as personagens, porque elas não em autonomia, constrói a trama.  Ela ignora a dor da menina em absoluto e foca em Arima.  Resultado?  É como se efetivamente NADA tivesse sido feito contra Miyazawa e isso é um desserviço para com as leitoras, adolescentes, em sua maioria.  Não é uma celebração da cultura do estupro, mas não rompe com ela, não a confronta.

Sim, foi estupro.
O seguir da história não torna as coisas melhores. Miyazawa engravida DESSE ESTUPRO.  Ela está no último ano do colegial.  Não há discussões sobre a questão e não pensem que eu estou defendendo que ela deveria ter abortado.  Mais uma vez, havia vários caminhos possíveis.  O que a autora faz?  Miyazawa perde o foco nos estudos, deixa de pensar em sua carreira, deixa de ser a garota que sonhava em fazer Direito em uma boa universidade.  Ela esquece.  É acolhida por sua família, sua própria mãe seguiu um caminho parecido, e pela família de Arima, mas isso não é o bastante, não serve para empoderar a protagonista.

Todos se formam, para Miyazawa resta a maternidade.  Temos um salto de tempo.  15 anos.  Arima se tornou policial, algo que foi apresentado antes como seu sonho.  Ele nunca quis ser médico, ele queria compensar seus pais adotivos e não pensava em si mesmo.  E Miyazawa?  Ela se tornou médica, ocupou o lugar que Arima deveria (*pela lógica cultural japonesa*) ocupar.  Ela parece feliz?  Não.  Ela chega a dizer que nem é uma médica tão boa assim.  Ou seja, ela não pode escolher, ainda que tenha uma carreira.

Miyazawa engravida.
Mas há o derradeiro capítulo e temos o fantasma da pedofilia rondando.  Asaba, o melhor amigo de Arima e que Miyazawa via como um competidor pelo coração do rapaz, é uma personagem importante.  Popular com as garotas, lá no início do mangá ele chega a dizer que se casaria com Arima se ele não fosse um rapaz.  Ele é um solteirão no final do mangá, tornou-se escritor.  Já a criança que nasceu do estupro, uma menina, é IDÊNTICA ao pai quando jovem.  A menina é apaixonada pelo "tio" e, sim, ele termina aceitando o amor da garota apensar de sentir muita culpa por isso.  

É o fim de Karekano com uma menina adolescente tomando a iniciativa e conseguindo seduzir um adulto.  Não há sexo explícito, não há nada de gráfico em Karekano, as imagens são até poéticas, mas é isso.  Tsuda foi competente em retomar algo que tinha sido dito lá no início da série, mas precisava?  Acredito que não.  Me fez mal ler esse desenlace.

O pai de Arima é  tão desgraçado quanto a mãe dele.
Enfim, Karekano é um ótimo mangá.  Não estou dizendo que não seja, mas ele tem problemas e não posso fechar os olhos para eles.  Era isso que as pessoas queriam?  De novo, reforço que o Meteoro não estava falando de Karekano, mas usando a série para explicar um conceito.  E só.

P.S.: Como estou bloqueada no Facebook, trouxe o comentário da moça para cá e vou respondê-lo aqui:



- Comentei no texto que não ia pegar o mangá para confirmar as coisas e não vou mesmo, mas vamos lá!  Logo no início da série, Miyazawa fala do seu sonho de se tornar advogada e ficar muito rica.  Isso está no anime também.  Depois do incidente do estupro, ou pouco antes dele, quando Arima já estava surtando e ela em profunda angústia, Miyazawa esquece de entregar o próprio formulário de escolha profissional.  Ela era a responsável por entregar o de todo mundo e esquece o seu.  Isso me marcou muito durante a leitura, porque, bem, Miyazawa, super focada em questões como essa, nunca esqueceria, não é mesmo?  A situação vivida justifica, claro.  E, bem, volume #20 é o penúltimo volume.  Miyazawa está grávida, escolhendo enxoval, prestes a casar e parir, sem grande perspectiva de futuro fora do círculo doméstico e, de repente, descobre que o sonho de sua vida SEMPRE foi ser médica.  Qual é o negócio da família dele mesmo?  E Arima, que era o herdeiro do hospital tinha decidido ser policial, não é?  Pois bem, ficou parecendo o quê?  Na falta de alternativa, agarre-se ao que tem e, claro, transforme seus limões em uma limonada.

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5 pessoas comentaram:

Achei bem bacana o texto.
Eu li Karekano há muito tempo e confesso que não lembrava de nadica da história e, com isso, fiquei com vontade de reler, ver com eu, hoje, me relacionaria com a história, sendo que li quando ela foi lançada pela panini e, bom, muita água rolou desde então.
Mas mesmo sem ter relido, só de ler esse post já consigo perceber N questões que fazem parte da cultura japonesa como mulheres serem relegadas ao papel de mãe e homens machistas serem vistos como "tadinhos"... Enfim, histórias que são bacanas mas que PRECISAM desse recorte porque não devem serem vistas como uma idealização de relacionamento.

Eu assisti o anime na época e fiquei muito interessada, acho a protagonista muito parecida comigo. Infelizmente o anime não tem final, aí estava completando a coleção atualmente para tenar lê-lo. Confeço que me assustei com o rumo da história, não sei mais se quero retomá-la!

Muito obrigada pelo texto de coração. Eu sempre vi Karekano como o melhor mangá shojo que eu já li, mas nunca tinha notado essas coisas e esses "defeitos". Parece estranho, mas gosto quando me mostram o que tem de errado com as obras que eu gosto. Mais uma vez, obrigada.

Eu discordo da questão do Asaba. Também não vou tirar o mangá da estante pra ver, mas a impressão que eu tive é que ele "aceita o amor" da menina e reconhece o dele quando ela se declara, mas ainda vai esperá-la crescer pra ter um relacionamento. Que eu saiba, isso é um tópos na literatura japonesa - escolher/amar uma menina e se casar com ela quando ela for adulta. Não que isso não seja estranho e potencialmente danoso, mas não chega a contar como pedofilia.

Sobre a Miyazawa ser médica, acho que o problema mesmo foi a Tsuda não ter construído o final direito. Simplesmente tivemos que engolir que o Arima queria ser policial e ela médica, provavelmente por ordens do editor - ou incompetência narrativa mesmo. Quando eu li, com os meus 13 anos, não achei que a Miyazawa estava infeliz, afinal ela era uma médica bem sucedida, possivelmente a herdeira do hospital, e como sempre foi ambiciosa... Mas também não tinha entendido que a cena na biblioteca foi um estupro, então li com as lentes da ignorância rs

Nossa, outro dia eu tava olhando minhas coleções de mangá e fiquei pensando em quanto kare kano era legal, mas ainda assim tinha um sentimento ruim guardado em mim em relação a ele. Essa cena do estupro me deixou muito chateada na época e deixou uma marca negativa no mangá. Sobre o Asaba, essa foi outra questão que não gostei muito. Não importa se ele vai ou não esperar a menina crescer, achei péssimo ele ter um sentimento assim por uma criança.
No mais, a história é bem legal e penso em reler um dia, apesar dessa cena...

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