segunda-feira, 24 de junho de 2019

Meio Off-topic, mas vamos falar de Celibato Clerical


Ontem, falei de duas produções televisivas que tratam do celibato como ponto de partida para uma um drama amoroso.  Poderia listar de cabeça outras tantas novelas que criam um drama em torno do padre apaixonado e que está preso por seus votos. Pois, bem, hoje, vários jornais e portais davam destaque à possibilidade do Vaticano flexibilizar (*não abolir, não é disso que se fala*), o celibato.  Que isso seria um risco para o Papa Francisco.  Não acho que vá acontecer, mas como me meti em uma discussão no Facebook e não queria desperdiçar ideias, vamos fazer a história dessa imposição disciplinar, porque não é dogma, nem algo fundamental à fé. 

Desde o século IV, pelo menos, havia gente que propunha a proibição do casamento dos padres (clero secular).  Essas proposições foram rejeitadas várias vezes e tivemos, inclusive, vários papas casados.  E falo de casados mesmo, não amigados, não estou pensando em gente tipo Alexandre VI (Rodrigo Bórgia).  Quem não se casava de jeito nenhum?  Clero regular, os monges e as monjas.  Eis que no século XI, os monges chegaram ao poder na Igreja Católica, vários papas eram monges e a moral deste grupo passou a ser imposta ao resto do clero.  Por fim, o Primeiro Concílio de Latrão (1123) e o Segundo Concílio de Latrão (1139) determinaram que era proibido para os padres viverem em concubinato, ou serem casados.  

O ex-padre anglicano Robin Farrow (de óculos)
 é casado e tem quatro filhas.
A partir daí, toda uma série de discursos foram construídos para justificar o celibato para todo o clero, desde repulsa ao sexo, às mulheres, até o elogio ao altruísmo, sacrifício e abnegação.  Enfim, todos os padres eram celibatários, mas castidade, bem, alguns não mantinham, não.  São coisas diferentes.  Mula Sem Cabeça, vocês sabem, é amante de padre.  Há quem não entenda, mas casamento não é somente sexo.  Aliás, mesmo com a proibição do casamento, a questão da moral dos padres continuou sendo um problema para a ICAR.  Impedir o casamento é tirar a possibilidade do sujeito de ter uma família, filhos, um tipo de conforto que vai além de ter alguém na sua cama.  No século XVI, através do Imperador Carlos V, se fez a proposta de reforma da Igreja Católica, com o intuito de reintegrar os protestantes, um dos itens era colocar fim ao celibato do clero secular.  A Igreja rejeitou, e o Concílio de Trento (1545-1563) confirmou o celibato.  A Igreja Ortodoxa lida com a coisa de outra forma.  Padre que não quer ascender na hierarquia da igreja, pode casar, se você é monge, ou almeja se tornar bispo e além, não pode.  

Como o próprio texto que eu linkei pontua, a própria ICAR abre exceções.  Igrejas do rito oriental que permaneceram com Roma permitem o casamento dos padres, o que gera tensões.  Padres anglicanos que decidem se tornar católicos, podem vir com suas famílias.  O que eu quero dizer, o celibato não é absoluto e o que o Sínodo amazônico irá discutir é a possibilidade de abrir outras exceções, como a admissão de homens casados ao sacerdócio em lugares isolados.  Abrirá?  Não sei.  Abrindo, haverá pressão para a abolição total e a ICAR poderá ter que lidar com questões novas, separações, brigas por herança e outras coisas que, bem, não fazem parte do dia-a-dia da igreja.   E os padres católicos que largaram a igreja para terem uma família?  Poderão ser reintegrados?  Afinal, muitos continuam bons católicos (*mesmo sem que possam se casar no religioso*), amavam o sacerdócio, fora que a instituição investiu muito neles.  De qualquer forma, garanto a vocês, que ela se adaptaria sem problema, não sobreviveu tanto tempo por ser intransigente, ou agir de forma pouco inteligente, ainda que possa ter tropeçado aqui e ali.

A ICAR perde cerca de mil padres por ano,
por  causa do celibato.  Dados do ano passado.

O celibato é um problema?  Bem, minha opinião pessoal é a seguinte: não é.  O problema é o celibato compulsório, isto é, obrigar os sujeitos, porque estamos falando de homens, aqui, a escolher entre o sacerdócio e o casamento.  Nesse sentido, o casamento compulsório, algo que muitas vezes é exigido dos pastores evangélicos e protestantes, também é.  Conheço mais de um pastor que se casou para poder assumir uma igreja, que não foi escolhido, porque era solteiro.  Esses casamentos às pressas, com a única função de conseguir exercer o sacerdócio, são tão ruins como se forçar ao celibato.  Enfim, deveriam deixar as pessoas livres nesse aspecto.  E, não, sexo não é fundamental para a vida.  Há quem precise mais, há quem precise menos, há quem não sinta falta.  Assexualidade não é doença.  O problema é que o dispositivo da sexualidade faz com que fiquemos tal e qual insetos em volta da lâmpada, obcecados pela ideia do sexo.  

No mais, o fim do celibato (*que o próprio Papa negou em janeiro desta ano*) poderia ajudar a aumentar candidatos ao ao sacerdócio, mas digo e lembro para quem não sabe que formar um padre dá muito mais trabalho que formar um pastor.  Oito anos, no mínimo. Tempo suficiente para o sujeito mudar de ideia e ainda sair com uma boa base intelectual.  Fora que é um processo caro, muito caro.  Já um pastor, ele pode ser autodidata.  Temos milhares, ou até mais, de "iluminados" por aí.  Para o ara os que querem estudar, há faculdades de teologia de três anos.  São raras as denominações protestantes e/ou evangélicas que exigem muito mais que isso.  Vai continuar faltando padres.  Havia outra solução, mas essa nem Francisco iria externar: ordenar mulheres.  Isso não está mesmo no horizonte.

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