quarta-feira, 10 de julho de 2019

Comentando o segundo volume da Rosa de Versalhes: Arte e História em todo o seu esplendor


Ontem, terminei de ler o segundo volume da Rosa de Versalhes (ベルサイユのばら), clássico de Riyoko Ikeda publicado no Brasil pela JBC.  Como comentei no texto sobre o volume #1, sei da importância desse modelo de edição que compila dois volumes em um só, mas considero difícil resenhar um volume tão extenso.  Esse segundo volume, em especial, é tão rico de acontecimentos e desenvolvimento de personagens que torna-se um desafio não escrever um texto quilométrico.  Vamos ver como me viro.

Para quem caiu de pára-quedas, A Rosa de Versalhes conta a história dos últimos anos do Antigo Regime na França culminando com a Revolução Francesa.  A série tem mais de uma protagonista, mas destacam-se a rainha Maria Antonieta, que perdeu a vida na guilhotina, e uma personagem criada por Ikeda, Oscar François de Jarjayes.  Filha caçula de um general, seu pai, sem esperanças de ter um filho varão, decide educá-la como um homem para que ela ocupe na corte francesa o espaço que seria de seu herdeiro.  Oscar e Antonieta terminam por amar o mesmo homem, o conde sueco Hans Axel von Fersen e, claro, nenhuma das duas consegue concretizar o seu amor.  

Nesse segundo volume, temos o reencontro de Maria Antonieta e Fersen, depois de uma ausência de quatro anos do jovem sueco.  Ele se afastara para evitar um escândalo, já que a rainha e ele estavam irremediavelmente apaixonados.  A confissão de amor dos dois é uma das grandes sequências da Rosa de Versalhes, quando Ikeda mostra todo o seu talento em converter emoções em arte gráfica.  Eu realmente adoro.  É nesse volume, também, que Oscar começa a compreender seus sentimentos por Fersen e sofre com isso por vários motivos.  Uma das grandes sequências do volume é a cavalgada enlouquecida de Oscar.  O cavalo em galope é uma metáfora para o próprio coração atormentado da heroína.

Para quem não entende o que a distinção entre gênero, sexo biológico e sexualidade, A Rosa de Versalhes é uma grande aula.  O que a gente aprende lendo vários textos de teoria feminista, Ikeda consegue sintetizar em Oscar.  Ela nasceu mulher, seu sexo biológico é sabido por todos.  No entanto, ela ama o que faz, ser um militar com tudo o que vem no pacote, hierarquia, roupas, armas etc.  Ela assume papéis de gênero que são masculinos e ainda que possa ceder em um dado momento e vestir roupas femininas, ela sofre com o espartilho e tudo mais, porque nada há de natural nisso e ela nunca foi ensinada a agir como uma dama.

Agora, quando se trata de desejo, ela é heterossexual, irremediavelmente, atraída por homens.  No início do mangá, e ainda estamos nele, por Fersen, esse homem perfeito a seus olhos, mas absolutamente inacessível.  Atraída por homens, mas ciente do apelo que tem para as mulheres, que a idolatram (*akogare*), Oscar chega a lamentar sinceramente não ser um homem, porque somente assim (*e aí temos o conservadorismo de Ikeda nessa fase de seu trabalho*) ela poderia amar uma mulher. Dentro da lógica da Rosa de Versalhes, papéis sociais (*gênero*) nada tem de naturais, mas a sexualidade, sim, seria binária e incontornável.

Já falei bastante de Oscar, porque se no primeiro volume, Maria Antonieta ocupa o centro da narrativa, agora, Oscar divide com ela os holofotes quase que por igual.  A popularidade de Oscar começa a transformá-la na Rosa de Versalhes, protagonista da série.  Basta pegar as capas originais e conferir que Antonieta está sozinha da capa #1 e com Oscar em detalhe na #2, a partir daí, Todas as capas são Oscar, menos a do volume #9 (*quando resenhar o volume #5, vocês entenderão o motivo*).  Para quem já leu sobre a construção do mangá, é fácil compreender, as leitoras se apaixonaram por Oscar, ela recebe cada vez mais atenção da autora.  

A promoção de Oscar, começa a dar maior visibilidade para André e há Fersen, claro, no entanto, o mangá é das mulheres e elas brilham, sejam elas as mocinhas (*Oscar, Antonieta, Rosalie*), ou as vilãs (*Polignac e Jeanne*).  Polignac é uma vilã mais convencional e os detalhes de sua vida são invenção quase completa de Riyoko Ikeda.  Ela está na corte, ela tem influência sobre Maria Antonieta e a estimula a cometer uma série de erros, ela hostiliza Oscar (*que reage sempre*), porque se sente ameaçada pela heroína.  É nesse volume que Maria Antonieta passa a se ausentar da corte para passar praticamente todo o seu tempo no Petit Trainon, um palacete dentro do complexo de Versalhes.  Alienando boa parte da nobreza, cercando-se de favoritos, gastando sem se importar a origem dos recursos, ela perde o apoio do povo e de boa parte da Corte.  Tudo isso é muito bem desenhado por Riyoko Ikeda.

É a volta de Fersen da guerra de independência dos Estados  Unidos (*Ikeda usa Estados Unidos mesmo antes do país existir*) que reequilibra as coisas.  Ele aconselha a rainha que passa a agir de forma mais modesta, retorna para Versalhes e passa a ouvir mais Oscar.  Uma curiosidade é que Oscar, personagem fictícia, acaba tomando o espaço de uma personagem real, a Princesa de Lamballe.  Esta amiga íntima de Maria Antonieta, aparece muito pouco na Rosa de Versalhes, mas, assim como Oscar, foi acusada de ser amante da Rainha.  E chegamos até Jeanne de La Motte.

Se Polignac é a vilã tradicional, mesquinha, intriguista, vaidosa, disposta a fazer armadilhas contra Oscar, Jeanne é diferente.  Difícil acreditar que ela tenha realmente feito tudo o que fez.  Mentiu que era íntima da rainha, que pertencia a nobreza, enganou um cardeal membro de uma das famílias mais poderosas da França, usou uma prostituta sósia da rainha em seus planos, fraudou cartas e roubou um colar valiosíssimo usando o nome da soberana.  Pior, apesar de descoberta, tornou-se vítima aos olhos do povo.

A trama do colar, que Ikeda apresenta como início do fim para a rainha da França. é tão mirabolante que é difícil de acreditar, mas se não é tudo verdade, o que é já representa um assombro.  Ikeda não poupa Antonieta, que tinha recusado comprar o tal colar super valioso, mas, por orgulho, transforma o caso em um julgamento público.  Contra o bom conselho do rei, ela quer que o cardeal seja punido.  Ele termina absolvido pelo tribunal, o povo fica contra ela, afinal, Jeanne sustenta  sua versão até o fim com a maior desfaçatez do mundo, e ainda perde o apoio de boa parte da grande nobreza.  Como a rainha, essa mulher austríaca, ousou expôr um deles de forma tão acintosa.  Uma decisão à portas fechadas seria menos danosa à imagem da rainha.

O volume mostra Jeanne assumindo no tribunal que era amante de Antonieta, que ela nunca encontrara na vida, e acusando Oscar do mesmo "crime".  Quais as duas coisas que poderiam manchar a honra de uma rainha?  Ser adúltera, e Antonieta já estava aparecendo em panfletos como a mulher lasciva com vários amantes (*não somente Fersen*), e lésbica.  Por isso mesmo, fiz questão de defender na minha resenha de A Favorita que dar crédito as acusações de lesbianismo contra a Rainha Ana era uma opção de roteiro muito ruim.  E o mesmo acontece em Troca de Rainhas, o filme compra a acusação de lesbianismo como verdadeira, sem observar que, não raro, era um dos recursos utilizados para desqualificar uma rainha.  Mas leiam o volume, Ikeda não cai nessa armadilha.  A trama do colar é um de seus pontos altos.

Neste volume, temos, também, a evolução do traço de Ikeda acompanhando o amadurecimento das personagens.  Os adolescentes cedem lugar para os jovens adultos e é nesse volume que começamos a ver como essa transição afeta a personalidade de alguns deles.  André, por exemplo, passa a aparecer menos em cenas de humor e tem um dos seus primeiros grandes momentos (*ele tem pelo menos dois nesse volume*), ao confessar seu amor por Oscar para Rosalie.  Ele ama, mas sabe que seu amor é impossível, a barreira social é intransponível.  Mais adiante, na cena do baile, ele acha um absurdo que sua Oscar use um vestido para se tornar atraente para outros homens (*na verdade, um só, Fersen*), porque ele a ama como ela é.

Falando nisso, e sei que esse texto caminha para se tornar uma grande bagunça, convém pontuar que Rosalie é a personagem mais irritante do mangá até o momento. Ela ama Oscar e a temática yuri (*do amor entre mulheres*) é explorada pela autora usando especialmente Rosalie, só que de forma convencional.  Ela ama Oscar como um rito de passagem para a vida adulta.  Daí, André aparecer dizendo que ele sempre amará Oscar em vão, mas Rosalie poderá ter outra chance, pois, um dia, ela superaria sua paixão pela protagonista e amaria um homem, se casaria com ele, teria filhos. Ikeda está dialogando com um aspecto da cultura feminina japonesa conhecido de suas leitoras e das mães delas, talvez, também, consumidoras da Rosa de Versalhes.  Amar Oscar é seguro, desde que não se tenha esperança de concretizar essa relação.   

Para Charlotte, a filha de Madame Polignac, esse amor por Oscar terminará em tragédia.  Ela não consegue superar o que sente e pressionada a se casar com um homem mais velho, termina tirando a própria vida.  Spoiler, eu sei, mas não tenho como fugir dele.  A morte de Charlotte é um dos momentos mais dramáticos do mangá e, no anime, uma releitura masculina da obra, joga-se muito mais importância no aspecto repulsivo do noivo, um pedófilo, do que na devoção de Charlotte por Oscar, um desafeto de sua mãe.  No mangá, o noivo é só mencionado, não aparece em nenhum momento.

Rosalie, assim como Charlotte, filha de Polignac, é apaixonada pela coronel (*esta é a patente de Oscar no início desse volume*).  Só que ela sente ciúmes de todas as mulheres, até da rainha, se torna possessiva e Oscar é extremamente paciente e tolerante com ela.  Não vou dar mais detalhes aqui, pois terminaria tendo que dar muitos spoilers.  Enfim, lembro de muitos anos atrás, em um fórum, ou página italiana sobre Berubara, de alguém dizer que Rosalie era tão chata que Bernard (*que se casará com ela*) preferiu se alistar no exército de Napoleão por causa disso.  É que algumas personagens da Rosa de Versalhes aparecem em uma obra posterior de Ikeda (栄光のナポレオン - エロイカ/Eikou no Naporeon – Eroika), uma biografia de Napoleão Bonaparte.

Quem mais posso falar?  Robespierre reaparece e temos a cena da taverna, que eu adoro por vários motivos.  Nessa sequência, talvez por erro de tradução, Robespierre se refere à Oscar no feminino, afinal, ele já a havia encontrado no volume anterior, em Arras, mas na sequência, parece que nenhum dos homens no bar sabe que ela não é "ele".  Aliás, um sujeito assedia Oscar pensando que é um adolescente do sexa masculino.  Obviamente, a reação dela não vai ser das melhores.

Também, nesse volume, o terrível Saint-Just faz sua estreia no julgamento de Jeanne e do Cardeal Rohan.  Aliás, é nesse volume que começam a ser introduzidos os homens em posição vilanesca.  Não um Duque de Guemene, criatura episódica, mas o terrível Duque d'Orleans.  Ele estará por trás de várias armações para derrubar seu primo do trono possibilitando sua ascensão.  De novo, se não é tudo verdade o mangá, passaremos perto.  No anime, o duque é introduzido como vilão de capa e espada logo no primeiro episódio, aqui, ele entra da forma correta.  Um nobre poderoso e intriguista, talvez por trás da fuga de Jeanne e da distribuição dos livros de memórias (*inventadas*) que ela escreve.  

Em um quadrinho, Ikeda apresenta duas ameaças, o Duque d'Orleans (*claro*) e o Conde de Provence.  Só que está dito que Provence é o irmão mais novo de Luís XVI, mas não é, ele é o irmão do meio.  O mais jovem, que pouco aparece na Rosa de Versalhes, é o Conde d'Artois, ele era companheiro de farra de Maria Antonieta no Petit Trianon, os panfletos o apontavam como amante da rainha.  Artois foi um dos primeiros a fugir da França no início da Revolução, porque era um dos nobres mais odiados.  Ele também foi acusado de estimular as revoltas por causa do preço do pão.

Falando nisso, é nesse volume que Oscar começa a ser contaminada, e uso esse verbo, porque ela irá trair sua classe, pela consciência social.  Ele vê de mais perto a miséria, a dor do povo e percebe o quanto é privilegiada e quão pouco pode fazer exatamente por estar amarrada pelas hierarquias.  É nesse volume que temos a introdução da trama rocambolesca do Cavaleiro Negro, uma criatura misto de Zorro e Robin Hood que rouba dos ricos para fazer a revolução.  Saberemos quem ele é no volume #3 e André terá que se sacrificar para ajudar Oscar a capturá-lo.

Ah, sim!  Outra personagem introduzida nesse volume, mas muito rapidamente é Gerodelle, o homem favorito de Ikeda.  Ele terá papel importante nos próximos volumes, mas entra na guarda real exatamente no lugar do marido de Jeanne.  Para quem assistiu o anime, tente lembrar quando aparece Gerodelle no desenho para TV.  Enfim, gosto bastante de Gerodelle, mesmo ele sendo mau com André.  

Omissões de Ikeda?  Ela não fala da visita do irmão de Maria Antonieta à França em 1777.  José II (1741-1790), co-imperador da Áustria com a mãe da protagonista, vai até Versalhes principalmente para pressionar Antonieta se comportar, e ela e o marido a consumarem seu casamento.  Eles estavam juntos fazia sete anos e nada.  No mangá, é a ausência de Fersen que faz com que essa parte do casamento deslanche.  Ikeda faz somente uma rápida menção, isso está no volume #1, a um suposto problema de saúde de Luís XVI.

Riyoko Ikeda compra sem questionar a ideia de que Luís XVI era modesto e amado pelo povo, enquanto Antonieta era uma esbanjadora e, por isso, odiada.  A questão da xenofobia e da misoginia não entra em discussão, tampouco o fato de toda a corte gastar exageradamente.  Antonia Fraser, cuja biografia citei na resenha passada, dá os dados dos gastos e Antonieta nem era quem gastava mais dentro da família real, mas ela era estrangeira e a rainha de um rei que não tinha amantes.  Rainhas anteriores, as esposas de Luís XIV e Luís XV, viveram nas sombras e isso significava que pouco, ou nada, delas era falado, nem para o bem, nem para o mal.  Outra questão que Ikeda insere no seu mangá é a culpabilização de Antonieta pela morte da mãe, Maria Teresa.  Injusto, muito mesmo.

Concluindo, porque já escrevi muito mesmo (*e poderia escrever mais*), lamento certas escolhas da JBC na adaptação do texto.  André falando "relaxa" para Oscar.  A heroína usando uma linguagem informal demais, quando ela usa no mangá um registro neutro e formal, me doem.  Oscar não falaria "tá", ou coisas como "guardei ele no meu coração".  Na cena da taverna, certamente os sujeitos estavam usando um linguajar vulgar, mas as escolhas da tradução foram infelizes, ainda mais levando em conta a confusão sobre Oscar ser homem, ou mulher.  Agora, se na taverna cabe vulgaridade, na conversa de dois nobres velhos, não faz sentido.  

Pelo preço do mangá, essa parte precisaria ser impecável.  Nesse quesito, a Panini é superior.  Uma obra como A Rosa de Versalhes sempre será grandiosa, mas uma tradução preguiçosa, ou uma adaptação inexistente, depreciam o mangá, sim.  O texto precisaria estar à altura.  Não tenho nem minha edição japonesa, nem a italiana em mãos, estou fora de casa, mas vou comparar os textos quando voltar e devo retornar a essa discussão no futuro.

Terminando mesmo, não deixem de ler os comentários de Machiko Uchidate no final.  Eu terminei chorando por causa dele.  É um relato realmente muito bonito sobre a importância da Rosa de Versalhes.  De resto, poucos mangás conseguem ser tão emocionantes, trágicos, românticos, bonitos e cafonas ao mesmo tempo.  Tudo isso e muito mais é A Rosa de Versalhes e não é à toa que a obra se tornou uma instituição no Japão.  E, sim, estava sob medida para virar peça do Takarazuka, como virou, mas isso é assunto para outro texto. Para quem quiser comprar os volumes da Rosa de Versalhes, é só clicar nos links: 1 – 2  – 3  – 4  – 5.

P.S.: Depois, coloco mais imagens.  A conexão está muito ruim, muito mesmo.

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2 pessoas comentaram:

Fiquei muito triste em saber que foram negligentes com a tradução e usaram linguagem coloquial demais na fala dos personagens. Com certeza A Rosa de Versalhes merecia um tratamento impecável. Tanto mais porque é uma obra de época. As pessoas envolvidas precisam ser mais atentas e cuidadosas e ter noção da importância do material com o qual estão lidando.

Oi Valéria. Eu ainda tô no começo do volume 2 e não li o post inteiro pra evitar os spoilers. Fico surpreso como é um mangá que prende a gente pelo enredo. Mas na verdade queria saber é sobre a violência em Rosa de Versalhes. Logo no começo do volume 2 vemos cenas de assassino que poderiam ser consideradas muito gráficas pra época da publicação e pra demografia shoujo? Ou seja, a autora foi ousada até nesta parte, ou já houve antecessores neste tipo de abordagem na demografia? E ainda sobre isso, o ponto que eu queria chegar é, Rosa de Versalhes é transgressor até para os dias de hoje?

Enfim tô adorando as tuas resenhas e a leitura do mangá. Eu aproveitei que tava na Amazon e comprei o In the Clothes Called Fat, e também estou adorando.

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