sábado, 20 de julho de 2019

Comentando Satoko e Nada: Uma Ode à Amizade


Hoje, 20 de julho, é o Dia do Amigo e como terminei de ler o primeiro volume de Satoko to Nada (サトコとナダ), decidi fazer uma resenha.  Raras vezes encontrei um material que celebrasse de forma tão realista e profunda a amizade entre duas mulheres.  A leitura do mangá, que fechou com quatro volumes, foi realmente uma surpresa.  Ele é muito bom, muito sensível, muito para mulheres mesmo e, ao mesmo tempo, tem um problema que me incomodou muito, explico já, já.

Satoko e Nada são duas estudantes universitárias em Nova York, Estados Unidos.  Uma é japonesa, a outra, saudita. A série acompanha o dia-a-dia das duas moças, suas diferenças culturais e como Satoko amplia a sua percepção do que é ser mulher e muçulmana em nossos dias.  De resto, Satoko é uma moça gentil e aberta à novas experiências, ela quer aprender e compreender.  Nada, por outro lado, é decidida, fashionista e muito aferrada à religião, que ela se recusa a negociar.  Satoko é uma moça de classe média, e ela sabe que seus pais se esforçaram muito para que ela pudesse estudar fora, já Nada parece vir de uma família de posses e não está muito ciente de seus privilégios.  O mangá fala muito de culinária, também, há até receitas bem explicadinhas para quem quiser se arriscar.
Elas se tornam amigas.
Satoko to Nada começou na internet em 2017.  É um mangá 4Koma com situações que podem se encadear por duas ou mais páginas, ou se fechar em si mesmas.  A série foi escrita por duas mulheres, Marie Nishimori (*que deve ter prestado assessoria*) e Yupechika, e, bem, seria difícil imaginar um mangá como esse escrito por um homem.  Motivo?  A pessoa que escreveu tem conhecimento profundo das formas como as mulheres são socializadas para serem exatamente isso, mulheres.  

Não é algo natural, são as construções de gênero que atravessam as várias culturas em nosso mundo moderno.  Por isso, há uma certa identidade entre as experiências de Satoko e Nada, mesmo que elas estejam separadas quanto à origem, religião e mesmo certos gostos pessoais.  Ao mesmo tempo, o mangá consegue desenhar de forma precisa a personalidade de cada uma das personagens, Satoko e Nada no centro, mas, também, outras que vão se juntando à dupla: a afegã Pakeezah, o sansei Kevin-kun, e Miracle, a moça cristã que termina fazendo amizade com as duas protagonistas.


Em privado, as amigas de Nada são bem saidinhas.
Satoko e Nada fala de aceitação e sororidade.  Ambas as protagonistas são estrangeiras nos Estados Unidos e precisam se adaptar às limitações e possibilidades.  Como oriundas de culturas tão diferentes, elas tentam se ajustar e a maior virtude de Satoko é exatamente não julgar, mas tentar compreender as motivações de Nada e valorizar os bons momentos com ela.  Uma das tirinhas mais bonitas do volume é quando Nada comenta com Satoko que não sabia que ela se interessava tanto por sua cultura e a japonesa responde que não se interessa tanto pelos costumes sauditas, mas por Nada, quer saber e entender tudo sobre ela.

Em outra passagem, Satoko perde o último ônibus e pega uma carona.  Nada, que tinha acabado de tirar a licença de motorista, tem um pressentimento, pega o carro e vai atrás de Satoko usando um aplicativo de celular.  Realmente, era uma fria.  O cara pretendia fazer algo de ruim com Satoko e Nada a resgata e, já dentro do carro, chora descontroladamente.  Ela realmente pensou que o pior pudesse acontecer.  Apesar do traço ultra simples de Yupechika a sequência inteira foi fantástica, emocionante.  E, bem, poderia ter acontecido de verdade, era o que uma amiga faria por outra.  


Normalmente, é Nada que cuida
do cabelo de Satoko.
Mais tarde, Satoko, já mais confiante, salva Miracle de um assediador e as duas se tornam amigas. É Miracle quem explica para Satoko que, diferente do que ela imaginava, os motoristas de ônibus não deixavam de parar para ela por preconceito, mas porque ela não estava dando sinal.  Satoko fica envergonhada por não conhecer os costumes.  No Japão, segundo ela, basta estar no ponto para que os ônibus parem.  Enfim, normalmente, os mangás mostram mais trens e metrôs, eu nunca tinha notado isso.

Lendo Satoko e Nada, eu consigo pensar em algumas amigas queridas com quem convivi intimamente por muito, ou pouco tempo.  Algo imponte, ambas são adultas e estão por conta própria, de uma certa forma, a interação é entre elas, sem a interferência direta de parentes, ou mesmo namorados.  Já as situações são críveis, os sentimentos colocados no papel são verdadeiros e fazem sentido para mim e, acredito, para muitas mulheres que pegarem essa série para ler.


Kevin-kun é o sujeito com a câmera.
Nesse primeiro volume, só temos uma personagem masculina, Kevin-kun.  O rapaz é neto de japoneses e está em uma espécie de programa de tutoria com Satoko.  Ele quer melhorar seu japonês, seu sonho é ir para o país de seus avós lecionar inglês.  Através de Kevin-kun a série discute questões ligadas ao mercado de trabalho e, também, preconceitos.  Kevin teme não conseguir realizar seu sonho, porque não tem o estereótipo do norte-americano.  

Os japoneses querem contratar um Thor para dar aulas de inglês e, não, alguém que pareça com eles.  Kevin é muito japonês na aparência, apesar de ser um legítimo norte-americano.  Acredito que essa dimensão do mangá seja explorada mais para frente, fora que Satoko está pensando em arrumar um trabalho e se preocupa com o que colocar em um currículo.  Kevin explica as características de um currículo em seu país, Satoko fica na dúvida sobre quais são suas qualidades e Nada diz que sua maior qualidade é saber ouvir sem julgar.  
Nada é uma garota comum.
Falando nisso, vamos ao ponto realmente incômodo desse excelente mangá.  Satoko e Nada é um veículo de apresentação do Islã e da vida das mulheres muçulmanas para o japonês médio.  Marie Nishimori, filha de pai holandês e mãe japonesa, é convertida ao Islã.  Até aí, nenhum problema, a questão é que o mangá naturaliza situações de opressão, não tendo nenhum senso crítico em relação às discriminações de gênero e questões de classe.  Vou focar em alguns exemplos.

O primeiro é quando Nada explica para Satoko a diferença entre hijab, niqab, chador e burka.  Ela defende que o niqab, aquele que só deixa os olhos de fora, é libertador.  Ela se veste para si, não para o olhar masculino, pode usar pijama por baixo do niqab e sentir-se confortável e por vai.  Esse discurso não é novidade e até algumas feministas abraçam essa história, porém as próprias mulheres sauditas estão abandonando o niqab e lutando pelo direito de terem mais liberdade para escolherem o que vestir em público.  
Nada explica as diferentes vestimentas islâmicas.
Usei "escolher", porque isso é o que as mulheres sauditas não podem fazer.  Nada não comenta sobre isso.  Satoko, conforme sua personalidade e função na história, não questiona.  Segue o baile.  Na mesma linha, o mangá tem uma personagem afegã que usa a burka e Nada diz que é uma vestimenta típica daquele país.  Ora, qualquer pessoa que acompanhe as noticias do Afeganistão sabe que a burka não é típica do país, mas de região ou grupo étnico específico e que foi imposta pele Talebã a todas as afegãs.  Sem direito de escolha.  Hoje, as mulheres no Afeganistão sofrem ainda severas limitações e deixo com vocês a notícia fresquinha dos deputados homens gritando para que as mulheres no parlamento voltem para a cozinha.  Procurem na foto alguma mulher com burka.

Apesar da burka, ou do niqab, não serem proibidos nos EUA, duvido que uma afegã descolada, aluna de faculdade, como Pakeezah, fosse usar a burka.  Talvez usasse o hijab, mas burka?  Da mesma forma, a amiga iraniana, que aparece muito menos, usa chador.  De novo, trata-se de uma iraniana estudando no exterior, a maioria das iranianas arrancaria seus véus se pudesse, se não desse cadeia.  No exterior, elas raramente usam um véu simples, quanto mais, um chador, vestimenta religiosa por excelência.  Lá pelas tantas do volume #1, aparece uma muçulmana sem véu e Nada explica que, sim, elas existem.  E eu acredito que elas devem existir em proporção muito maior do que muçulmanas de burka, ou chador, ainda mais em Nova York.


Congressistas afegãs foram recebidas aos
gritos de "Voltem para a cozinha!"
A amiga afegã de Nada é casada.  Satoko se espanta dela ter a sua idade (*19?  20?  21?*) e já ter uma filha de uns dois anos.  Com quantos anos ela se casou?  O mangá não entra nessas questões, nem precisa, mas um dos problemas do Afeganistão são os casamentos infantis.  Isso é prática em todo país muçulmano?  Não, mas é no Afeganistão.  Custava não colocar essa situação, ou se colocasse discuti-la de alguma forma?  

Quando esse volume fala de casamento e namoro é, também, para mostrar como parece ser mais fácil ser muçulmana.  Seus pais escolhem um marido para você, Nada diz que basta se apaixonar pelo marido que lhe derem, que é mais fácil.  Não me surpreenderia se, no fim da série, Nada se casasse e abandonasse seu sonho de ser médica para atender as mulheres de seu país.  Aliás, uma das poucas críticas, isso se é uma crítica, é quando Nada diz que muitas mulheres sauditas não vão ao médico, porque não querem que um homem as toque (*a permissão do guardião nem é tocada aqui*), ou chegue perto delas.  Algumas, que tem condições, procuram médicas no exterior.


Moda e culinária são dois temas do mangá.
Culturalmente, está correto o que Nada coloca sobre o casamento em uma sociedade islâmica, porém, não há contraponto, Satoko acaba quase que concordando, afinal, as jovens que ela conhece perdem tempo demais pensando em rapazes e trocando de namorado.  De novo, parece uma propaganda de uma forma de ver o mundo e se comportar na qual as mulheres têm pouca autonomia e direito de escolha, não existe um equilíbrio de prós e contras.  E nem vou discutir a falsa simetria entre a questão do despir, vestir, porque em Nova York, uma mulher pode escolher, na Arábia Saudita, Irã, ou Afeganistão, não pode e não se enganem com o príncipe (pseudo) moderninho do país de Nada.[1]  Engraçado é que Satoko não parece lembrar que casamento arranjado é algo bem japonês, também.

Em outro momento, Satoko pergunta para Nada se ela tem carteira de motorista.  Nada explica que em seu país mulheres não podem dirigir.  O mangá coloca uma nota explicando que em 2018, esse direito foi concedido às mulheres.  Seria interessante se Nada falasse que as mulheres estavam lutando por esse direito, mas o que ela faz?  Usa o Corão para justificar a proibição.  Detalhe é que a Arábia Saudita foi o último país do mundo a permitir que as mulheres dirigissem, logo, todo o resto do mundo islâmico estava lendo o Corão errado, então.  Enfim, Satoko fica perplexa, mas concorda que a proibição é uma forma de proteger as mulheres.  Fiquei pensando, será que é uma forma de humor e eu não estou alcançando?  


Uma história de amizade.
Só que a tirinha termina com Nada dizendo que não se importa, porque ela tem um motorista particular.  Ela tem, a maioria das mulheres, não.  E recomendo a resenha do filme saudita O Sonho de Wadjda para entender como essa indiferença colocada em Nada é ofensiva, insensível da parte das autoras.  A maioria das mulheres sauditas não é rica como a personagem.  Já na outra página, Nada está comemorando o fato de ter tirado a carteira de motorista nos EUA.  E temos a sequência do salvamento que eu pontuei.

Por fim, alguém poderia dizer que o mangá propõe uma boa reflexão sobre as diferenças culturais.  Sim, ele faz isso, mas o seu tom neutro é problemático.  Por ouro lado, mesmo com todo o papo de niqab liberta, vemos Nada assujeitada ao padrões de beleza, mais até que Satoko em certos momentos.  No Ramadã, Nada explica o costume, mas pede que Satoko controle seu impulso de comer demais depois do pôr do sol, porque ela sempre engorda no Ramadã.  Ora, e a tal liberdade, onde está?


Novo mangá de Yupechika.
Mais adiante, Satoko é colocada contra a parede por Nada e Miracle.  Elas querem saber se Satoko é budista e a japonesa explica que, bem, ela é politeísta e cabem todos os deuses em sua vida, mas que religião não é prioridade. Ora, a sequência é muito boa para entender como o japonês médio percebe a religião e a espiritualidade, porém, a tolerância que Satoko mostra para com Nada e Miracle, elas, monoteístas, não tem para com a japonesa.  Seria uma crítica?  Seria simplesmente uma constatação de que as religiões monoteístas são, por princípio, intolerantes?  O fato é que está lá.

Concluindo, Satoko e Nada é um dos material muito bom e a forma como retrata a amizade é tão verdadeira que que consigo relevar o que me incomodou.  O capítulo bônus no final é uma preciosidade, não vou descrever.  Enfim, pelo que vi, praticamente tudo já foi traduzido e está na internet, mas vou comprar os outros volumes da Seven Seas.  Pensando na possibilidade de um lançamento em nosso país, bem, seria um material feito sob medida para a editora Nemo e, sim, valeria a pena lançar com umas notinhas críticas, de preferência.  Parece que Yupechika está fazendo outro mangá sobre amizade entre mulheres, desta vez duas colegiais, uma japonesa e outra americana.  O nome do mangá é Natsuko and Ophy's ~Daily Life~, sim, nome em inglês, suponho que seja um mangá interessante, também.  

[1] “Quando a aceitação de uma mulher por parte da comunidade, seu respeito, dignidade, empregabilidade, possibilidades de casamento, segurança física, emancipação, a mobilidade social, acesso a instituições, a liberdade, e autonomia no seu dia-a-dia depender da inabalável adesão pública ao biquíni, então nós poderemos fazer essa comparação.  Quando uma mulher não puder deixar sua casa vestindo outra coisa senão um biquíni sem ser considerada imoral e seu valor humano e honra familiar ficarem comprometidas, então nós poderemos fazer essa comparação.  Quando existirem forças legais, sociais e extrajudiciais graves ligando a segurança, bem-estar, e meios de subsistência de uma mulher a sua adesão ao biquíni, então nós poderemos fazer essa comparação.”  Esta passagem é de um texto de uma ex-muçulmana.  Está dentro de um post antigo do blog.

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1 pessoas comentaram:

Oi, Valéria, só uma curiosidade, a senhora tá lendo Boa Noite Punpun?

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