sábado, 10 de agosto de 2019

Comentando Não Mexa com Ela (Israel/2018): Um Caso que Poderia Acontecer em Qualquer Metrópole do Mundo


Quinta-feira, depois de muito tempo sem ir ao cinema (*para os meus padrões, claro*), fui assistir ao filme israelense Não Mexa com Ela.  dirigido por uma mulher, Michal Aviad, ele trata de um tema muito delicado, o assédio sexual no trabalho.  O filme, que poderia ser um tiquinho mais longo, é bem discreto e se ancora na interpretação convincente da protagonista, Liron Ben-Shlush, uma mulher competente, mas que termina sofrendo pressões do chefe assediador e do marido ambicioso.  É um bom filme, mas eu terminei um tanto frustrada, porque, acredito, estava desejando uma virada de mesa mais espetacular no final.  Vamos ao resumo do filme:

Orna (Liron Ben-Shlush) é mãe de três filhos pequenos e está passando por dificuldades financeiras.  Ela tem um emprego que não lhe paga bem e seu marido (Oshri Cohen) decidiu se aventurar e abrir um restaurante, que ainda não dá lucro nenhum. Ela reencontra um antigo comandante dos tempos do exército, Benny (Menashe Noy), que lhe oferece um emprego em uma luxuosa imobiliária.  O salário é ótimo, Orna é competente e consegue mostrar isso conseguindo vender mais do que outros corretores, mas começa a ser assediada pelo chefe, que faz desde comentários sobre sua roupa e cabelo até brincadeiras maldosas.  Só que Orna, que cada vez tem menos tempo para seus filhos, tenta se esquivar e continuar no emprego, afinal, é ela quem sustenta a casa.  O problema é que chega um momento em que ela não tem mais como suportar a situação.

Uma família feliz.
O filme Não Mexa com Ela poderia se passar em qualquer grande cidade. Isha Ovedet, literalmente "mulher que trabalha", "mulher trabalhadora".  O título em inglês, diferente do nosso, acompanhou e se chama Working Woman.  Sim, trata-se de um drama centrado em uma mulher de classe média baixa, que precisa do emprego, que lhe paga muito bem, mas está sofrendo um assédio nem sempre sutil do chefe.  Um homem rico e poderoso.  Quando Orna, depois de ter sido estuprada (*tinha que dar o spoiler*) decide abandonar o emprego, ela fica na dependência de uma carta de recomendação do cara.  Ele conhece todo mundo.  Ele é rico.  Qualquer corretor de imóveis iria querer trabalhar com ele, logo, por qual motivo Orna abandonou um emprego tão vantajoso?

Escolheram Tel-Aviv, mas se fosse São Paulo, Rio, Tokyo, Nova York, ou Paris, acredito que faria sentido do mesmo jeito.  Diferente de outros filmes israelenses que assisti recentemente e resenhei para o blog, este não tem nada de efetivamente judaico marcando as protagonistas e algo da trama de fundo poderia ser facilmente adaptável para outro lugar.  Explicando, Orna, que fala francês e inglês fluentemente, consegue atrair compradores franceses para os apartamentos do tal empreendimento imobiliário, um grande prédio à beira mar.  Eu acompanho jornais franceses me está acontecendo uma espécie de êxodo de judeus para Israel motivado por ataques antissemitas tanto da extrema-direita, quanto dos extremistas islâmicos.  

Ela trabalha como auxiliar de Benny no início.
No filme, é explicado que os franceses ricos preferem a cidade de Netanya, próxima de Tel-Aviv, e, não, a capital.  Orna usa seus contatos e habilidades para convencer os endinheirados a comprarem apartamentos no Lily Beach.  É importante frisar que ela é competente, porque desde o início (*a sinopse nos conta esse detalhe, aliás*), sabemos que o chefe quer transar com ela.  O que ele parecia não saber é que ela poderia lhe trazer lucros concreto.  Enquanto isso, o marido, a quem Orna ama muito, acaba assumindo maiores responsabilidades com os filhos, ele é de fato um bom pai, mas se sente incomodado com a ausência da esposa, com as horas extras, com o fato de ter assumido a maior parte das tarefas domésticas.

Por outro lado, ele não se importa com o fato dela trazer boa parte do dinheiro para casa, desde que não fale sobre o assunto.  É uma situação extremamente injusta e, ao mesmo tempo, comum.  Homens são educados para acreditarem-se provedores, o detalhe perverso é que alguns não se importam de não cumprirem essa função, desde que a esposa silencie sobre isso.  Ofer, esse é o nome do marido, chega a pressionar Orna a pedir dinheiro para o chefe, um empréstimo, mas fica realmente furioso quando ela consegue que o sujeito adiante algo que era importante para o restaurante, uma licença do governo.  

Ofer se sente humilhado quando Orna e
o chefe vão almoçar em seu restaurante.
Imagino que era uma licença semelhante a que é discutida no filme O Confeiteiro, algo ligado a algum selo kosher (*seguimento de regras de pureza judaicas em relação ao alimento*).  Ele se sente inferiorizado quando o chefe de Orna mostra o poder que tem, mas, não, dispensaria seu dinheiro vindo pelas mãos da esposa.  Fiquei pensando se o sujeito era tão inocente assim a respeito da pressão que Orna estava sofrendo, ou só cara de pau mesmo.  Aliás, a coisa que mais me deixou desanimada com o filme foi de Orna ter conseguido acertar as contas com o chefe, mas ter engolido o marido.  Ele poderia ser bom pai, mas bom marido não foi.  Quando descobre a violência que a esposa sofreu, ele a culpa.

Liron Ben-Shlush, a protagonista, carrega o filme nas costas.  Ela tem uma interpretação contida, afinal, precisa estar sempre em guarda contra o chefe e para que a tensão sofrida no trabalho não atrapalhe sua frágil dinâmica familiar.  Ela consegue passar toda a angústia e, mais tarde, pós estupro, o trauma.  Muito bonita e elegante, ela aparenta menos idade do que tem.  Fiquei imaginando se ela não seria muito jovem para os três filhos, mas, olhando a sua idade, vi que não, dava tempo.

Na comemoração da venda de vários apartamentos,
eles bebem demais.  Orna se sente culpada.
Além de Liron Ben-Shlush, temos outras personagens femininas.  Sim, o filme cumpre a Bechdel Rule com folga.  Há uma funcionária no escritório de Benny, uma mulher religiosa (*ela usa turbante e roupas modestas*), que é só elogios para o chefe.  Temos a esposa do chefe, que é fundamental para a virada final do filme.  A atriz, e não consegui o seu nome, mesmo no IMDB a ficha do filme é incompleta, oferece na sequência final uma daquelas interpretações dignas de indicação ao Oscar de Melhor Coadjuvante.  Ela sabe o marido que tem, ela sabe que não pode largá-lo, ou não deve fazer isso, mas ela ajuda Orna, se solidariza com ela sem necessariamente romper com o canalha.  

Sororidade é o nome disso, mesmo que você não possa sair quebrando tudo.  E há a mãe de Orna, uma professora que não entende o motivo da filha querer mudar de emprego, afinal, ela trabalha na mesma profissão e no mesmo lugar por mais de vinte anos.  A filha deseja crescer e oferecer melhores condições aos filhos.  A mãe a ajuda, compra as roupas elegantes que ela precisa para começar no emprego.  Imagino que os salários de professores em Israel sejam muito melhores que os nossos. Também nesse momento, o marido não se indigna.  A sogra pode pagar as contas sem problema.  
A esposa de Benny é fundamental para a resolução do impasse.
É a mãe de Orna a primeira a apoiá-la depois do estupro, mas ela não sabe o que aconteceu, acredita que a filha cometeu um deslize e se sente culpada, quando, na verdade, Orna se sente suja.  Foi abusada e humilhada.  Atrás de mim, havia um casal de idosos, era primeira sessão do Liberty e é a sessão dos velhinhos e da Valéria.  A esposa dizendo que nem tinha sido um "estupro de verdade" (*não tinha acontecido uma penetração*), o marido insistindo que tinha sido estupro, sim.  Ambos concordavam, porém, que Orna era a vítima e que Benny era um canalha.

Concluindo, acredito que Não Mexa com Ela poderia ser um filme esquecível se não fosse dirigido e roteirizado por uma mulher, é um filme feminino e que não deixa de ser feminista.  O tratamento dado ao tema, às interações entre as mulheres e a forma como a atriz protagonista interpreta a situação complicada de Orna.  Ela precisa do emprego, ela tem que pensar nos filhos, ela tem um marido avoado (*e egoísta*) que ela ama.  O que fazer?  O final foi digno, mas, depois do que o marido fez, ou não fez, eu queria que não fosse somente o chefe a tomar uma invertida, pelo menos um tabefe o marido, que parece uma versão brega e atarracada do Bruno Cabrerizo, deveria tomar.


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1 pessoas comentaram:

Amo suas resenhas de filmes não Hollywood :) Vou correndo procurar!

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