quarta-feira, 28 de agosto de 2019

Comentando Retrato de Amor (Índia/2019): Um Filme que mostra que é Possível ser Crítico e Poético ao mesmo Tempo


Ontem, assisti meu primeiro filme indiano no cinema.  Antes, só tinha visto filmes desse país em casa.  Tinha gostado do trailer de Retrato de Amor, até esperava um desenvolvimento diferente da película, mas não um final feliz ao estilo ocidental, mas foi um filme muito diferente das produções indianas que já tinha assistido, não era colorido, não apareciam dançarinos, ou cantores do nada para atravessar a cena, a ambientação era bem naturalista, crua e o recorte intimista.  E, sim, há muito de Brasil em comum com a Índia, mas a grandeza do país asiático supera o nosso, seja em riqueza, seja em seus grandes dramas de miséria.  Mas vamos para o básico da história!

Pressionado por sua avó (Farrukh Jaffar) já idosa para se casar, um humilde fotógrafo de rua chamado Rafi (Nawazuddin Siddiqui) decide inventar uma noiva para convencer a família a deixá-lo em paz.  Ele usa o retrato de uma moça tímida que ele havia fotografado no Portão da Índia, em Mumbai, como se fosse a de sua noiva, inventa-lhe um nome, e envia para a avó no interior.  A velha, como não podia deixar de ser, avisa que está indo para Mumbai conhecer a jovem.  Rafi precisa, então, encontrar Miloni (Sanya Malhotra), a tal moça.  E nem é tão difícil (*levando-se em consideração o tamanho de Mumbai*), pois ela é uma aluna-celebridade, primeira colocada em um vestibular dificílimo, e sua foto está em outdoors em vários bairros da cidade.  Agora, resta convencer a moça a aceitar fingir ser sua noiva e tentar conviver com uma situação limite: os dois terminam se apaixonando.


A vida de Rafi é trabalhar e ele é um excelente fotógrafo.
Photograph, este é o nome do filme em inglês, é falado em hindi e inglês e é descrito na Wikipedia como uma declaração de amor a Mumbai.  São mostrados vários pontos turísticos da cidade, começando pelo tal portal onde Rafi e Miloni se conhecem.  A primeira cena do filme, nem é dos protagonistas, mas do pai de Miloni falando com um sócio sobre sua filha brilhante, primeira colocada em um vestibular para Contabilidade, enquanto fotografa um prédio alto, uma torre empresarial, eu imagino, local onde ele sonha que sua filha prodígio e esforçada (*em casa, ela sempre aparece estudando até muito tarde da noite*)  possa vir a trabalhar.

Retrato de Amor é um filme muito rico, ele trafega entre duas classes sociais principalmente, a dos muito pobres (Rafi, sua avó, seus amigos e parentes) e a da classe média que luta para melhorar de vida e acender socialmente.  A chave?  Há duas estudo (*e o sistema de educação da Índia tem muitos problemas*) e casamento, quando se trata de uma mulher, os dois podem se complementar.  Miloni está no meio de um drama, seu pai lamenta ter tido duas filhas, mas acredita que ela pode ser tão boa quanto um filho homem seria, puxando sua família para cima.  Já sua mãe, ela vê os diplomas da filha como credenciais para um casamento vantajoso, ela tenta, aliás, empurrar a garota, que deve ter uns 19, no máximo 20 anos, no filme, para um casamento precoce com um dos filhos de um parceiro de negócio do marido.  


Miloni não consegue discordar da mãe nem
em relação a qual roupa usar.
O rapaz vai fazer MBA nos EUA, ele tem um bom futuro garantido, a família de Miloni, que vive em um apartamento pequeno, nunca poderia enviar a jovem para estudar fora.  Casada, ela estaria segura e, bem, talvez pudesse continuar seus estudos nos EUA.  A mãe de Miloni lamenta com o marido o investimento feito na filha mais velha e como ela não conseguiu fazer um casamento tão bom.  Aliás, a mãe vê os diplomas como um plus do dote, não necessariamente a moça vai usá-los para conseguir um emprego.

E isso é totalmente cultural.  Há um esforço enorme para conseguir ascender através da educação, e recentemente um erro no computo das notas de um vestibular em um dos estados da Índia provocou uma onda de suicídio entre adolescentes, é uma característica do país.  As famílias, especialmente, as como as de Miloni, fazem das tripas coração para garantir o melhor ensino para os filhos, ou, pelo menos, para o mais velho deles e recomendo um dos vídeos do canal Sobrevivendo na Turquia que fala sobre a questão.  Agora, uma filha das camadas médias e além precisa de bons diplomas, porque eles servem como fator de honra para seu marido.


Miloni fala do que sentiu quando viu o retrato que Rafi tirou. 
É uma linda declaração de amor.
Miloni vive sendo empurrada pelos parentes.  A sua primeira cena é escolhendo uma bela roupa como presente pelo seu primeiro lugar no vestibular.  Ela visivelmente gosta da roupa amarela, mas a mãe decide que a melhor é a rosa.  Em uma cena em que a família está almoçando junta, o sobrinho de Miloni diz que quer ser ator.  Os avós discordam, isso não é carreira.  A irmã de Miloni diz que ela queria ser atriz,  que ganhava várias medalhas na escola, sua mãe intervém e diz que pediu para a escola parar de lhe dar medalhas, porque poderia tirar o foco do que realmente era importante, estudar para passar no vestibular.  

Miloni não escolheu sua roupa, nem sua carreira e sabe que não escolherá seu marido.  A moça, no entanto, fica encantada com a foto que Rafi tirou, ela nunca pareceu tão bonita e tão feliz.  Rafi termina se encantando pelo retrato e por ela, ao conhecê-la.  A moça aceita fingir que é a noiva e passa a circular pela favela na qual o fotógrafo mora, assim como por outros pontos turísticos baratos, mas divertidos, simpáticos, para onde ele leva a avó.  A velha é desconfiada, acha Miloni muito delicada, não come isso, não come aquilo, mas termina por acolhê-la, afinal, se seu neto aceitou uma noiva, ela deve ter qualidades.


A avó obriga s dois a tirarem uma foto e se tocarem.
A partir da relação entre a avó de Rafi e Miloni, outras questões típicas da cultura local são desveladas.  Rafi trabalha faz anos para pagar uma dívida do pai falecido há muito tempo.  A avó diz que ele não deve exibir suas lágrimas como um troféu, mas ele acredita que é seu dever recuperar a casa da avó.  A velha o coloca contra a parede dizendo que ele trabalha demais e ganha pouco, que seria uma vergonha casar com uma mulher e ela ganhar mais que ele, seria uma humilhação para a família e para os filhos que iriam nascer.  Pensamento tipicamente patriarcal, vale na Índia, mas em muitos outros lugares do mundo não seria estranho ouvir coisas semelhantes.  

Uma mulher deve fingir-se menos capaz para não envergonhar o homem ao seu lado, um homem deve se sentir humilhado se não conseguir ser o provedor da família e todos seguem infelizes.  Conheço gente que pensa assim, no Brasil, porque o patriarcado, com suas diferenças regionais, ele está presente em praticamente todo o mundo e as relações desiguais de gênero atravessam todas as sociedades modernas.  Mas há uma coisa curiosa nesse filme, a questão dos padrões de beleza.  


Dadi não é trouxa e percebe que há algo de erado.
É algo sabido e estudado, e vale para várias culturas, que pele queimada de sol desqualifica uma mulher, peque o livro de Cantares de Salomão, a Atenas clássica, ou a Índia, porque é indicativo de que ela precisa trabalhar debaixo do sol quente.  Agora, quem se sente envergonhado em relação a isso no filme é Rafi. A avó diz que a pele dele está curtida de sol, que antes sua pele era dourada e bonita.  O sujeito começa a usar um creme para clarear a pele e se tornar mais atraente.  Quando Rafi confronta o professor que está assediando Miloni (*ele tinha confiscado a foto da moça que Rafi tirou durante uma aula*), é visível a diferença de cor de pele entre os dois e, claro, o professor, que tem um carrão, se sente muito superior ao trabalhador braçal.

Sim, os homens indianos também são discriminados por causa do tom de pele, mas o filme só trata de padrões de beleza quando se referem a eles.  Na época de Quem Quer Ser um Milionário, uma amiga que entende bastante de cinema indiano, comentou que Dev Patel nunca seria um galã de cinema na Índia, porque ele era escuro demais.  Essas questões ficam evidentes no filme.  Uma outra coisa curiosa é a questão da gordofobia, porque aprece que há uma epidemia de obesidade no país e grande campanha em relação a isso no país.  O noivo que querem arranjar para Miloni foi obeso e emagreceu.  Todos que falam do rapaz comentam que ele pode voltar a ser gordo, inclusive a empregada.  O moço mesmo recusa um pedacinho de bolo, porque precisa se cuidar e não engordar novamente.


Miloni se sente infeliz e é muito solitária.
Quando o projeto de casamento dá em nada, o pai, que não queria casar a filha tão cedo, comenta que foi com o que aconteceu "vai que ele volta a engordar?".  Não sabia que essas questões estéticas, porque a coisa é tratada como estética mesmo, não um problema de saúde, eram tão importantes na Índia, porque minhas leituras lá de trás apontavam que gordura era algo positivo, porque era uma informação de que a família não passava fome, vivia bem.

Falando da empregada, ela é a única que conversa com Miloni, porque a moça vai em busca de conversa, claro.  E as condições em que vive são bem terríveis.  Ela dorme em um colchão em um corredor muito apertado.  A família de Miloni pode ter uma criada, porque é muito barato.  Essa já foi a realidade do Brasil e há muita gente se esforçando para que assim seja.  Lembro de uma capa da Veja de  vários anos atrás falando das vantagens de nosso país, uma delas, é que era muito barato ter empregados domésticos... A empregada, aliás, torna-se confidente de Miloni, porque ela vê a moça com Rafi e a avó dele, é ela que alerta a jovem que seus pais estão lhe arranjando um marido.


Ele tanto insiste que ela decide tirar uma foto.
A resenha está bem desorganizada, porque, bem, é muita coisa que eu gostaria de falar, mas, enfim... O filme todo é muito contido, mais de olhares do que de palavras.  Mas mesmo sem falar, ou se tocar, Rafi e Miloni são muçulmanos (*ele é, com certeza, a moça acredito que também seja*), mas mesmo que fossem hindus, acredito que daria na mesma.  De qualquer forma, estava mais que evidente o sentimento entre os dois.  E, bem, eles mesmos sabem que é um amor impossível, mais que o de Romeu e Julieta, porque não é briga de família, seria comprar briga com toda a sociedade.  Rafi vê Miloni como uma moça rica, o abismo entre os dois é enorme, mas ela não é rica, muitas de suas cenas, aliás, são andando em ônibus comuns. É em um ônibus que Rafi se aproxima dela.

Ele é bem mais velho que ela e muito pobre, não teve como estudar para além do mínimo; ela não é e pode ascender socialmente. Ele precisaria ser rico e, ainda assim, acredito que enfrentaria resistência da família dela.  Quando ele a salva do assédio do professor, que chegou a tocar nela, pegá-la pelo braço no meio da rua, e Miloni finalmente toca na mão da Rafi dentro do táxi para agradecê-lo e acalmá-lo, aquilo vale mais que um beijo.  Acreditem!  E há uma das cenas mais ternas, quando a avó de Rafi pergunta para Miloni por qual motivo gosta de seu neto e ela fala da fotografia.  Toda a situação é mentirosa, mas a declaração de amor, uma das mais bonitas que eu já vi em um filme, é verdadeira.


O filme não é muito elogioso em relação à comida de rua indiana.
E quem mais fala, mesmo com bem menos tempo em tela é a dadi, a avó, e eu gastei todo o meu hindi de Caminho da Índias com o filme.  Reconheci várias palavras. Obrigada, Gloria Perez!  Assim como os tiques culturais.  Indianos dizem sim e balançam a cabeça como se dissessem não.  As cenas engraçadas, e são poucas, estão todas ligadas à velha.  A quantidade absurda de bagagem que traz do interior, as reclamações sobre o neto, a tentativa de fazer Miloni aderir a certas práticas das camadas sociais mais pobres.   

Ela faz a moça tomar raspadinha de rua.  Rafi tenta impedi-la e a velha o chama de pão duro.  Ele diz que a noiva vai fazer uma prova e que pode passar mal.  Não dá outra.  Ela fica doente e leva uma bronca do pai "Como você foi comer comida de rua?  Você é crescida para saber que poderia morrer.".  Já no cubículo que divide com seus colegas e com a avó, eles todos concordam que se a moça comesse comida de rua todos os dias, acabaria ganhando resistência.  E começam a contar histórias sobre moças delicadas que se acostumaram.  E no cinema?  Bem, Rafi e Miloni vão juntos duas vezes (*o que já aponta a intimidade dos dois*), me ela sente alguma coisa no seu pé.  "Não se preocupe, é um rato, já foi embora.",  Só imagine isso.


Eles abandonam a sessão de cinema.  Ele diz já conhecer a história,
a moça rica se apaixona pelo homem pobre e sua família não aceita.  
Enfim, já concluindo.  A única sequência mais sobrenatural do filme é o encontro de Rafi com o fantasma de um de seus colegas, Tiwari (Vijay Raaz), que tinha se suicidado por amor.  Ele o estimula a abraçar o sonho que sua avó tinha plantado nele, ter um negócio.  Ele decide então ir atrás da receita da Campa Cole, um genérico da Coca-Cola, que tinha sido o refrigerante mais amado por Miloni.  Ela o associa a seu avô, já falecido, mas a fábrica tinha falido.  Não vou contar a aventura até conseguir uma garrafa, mas não perdoo o diretor, Ritesh Batra, por não ter colocado a cena dele lhe entregando a Campa Cola.  O homem moveu céus e terra para conseguir o refrigerante e o filme termina sem que ele entregue?

Se puder, assista Retrato do Amor.  Não vai ter gente colorida, nem dança, nem cantoria, nem nada que a gente normalmente associa ao cinema indiano.  A história, no entanto, é encantadora, delicada e sofrida.  Não espere um final feliz, observe o romance improvável e as questões culturais e você vai se sentir compensado.   E considerei o filme muito critico ao país, também, às suas desigualdades sociais, à forma burocrática como a educação é tratada, às convenções a respeito do amor e do casamento.  Lembrei-me um pouco da forma como o diretor israelense Amos Gitai olha para seu país, mas sem tanto amargor.  E, sim, o filme cumpre a Bechdel Rule e acredito que o que o credencia são as conversas entre Miloni e a empregada.  Infelizmente, não achei nenhuma página com as personagens e atores organizados.  Tenho elenco, mas na o papel no filme.


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