quinta-feira, 16 de abril de 2020

A masculinidade tóxica prejudica a vida dos homens comuns e, agora, pode matar milhares


Faz um bom tempo que não posto sobre discussões feministas de forma direta, mas chegou a hora.  Já passou da hora, aliás.  Para quem nunca leu nenhum dos meus posts sobre questões de gênero, ou leu sobre a questão, começo explicando que "gênero" são papéis sociais, o comportamento esperado de homens e mulheres em uma dada sociedade.  Esses papéis não são fixos, mas dinâmicos, são historicamente localizados e nada tem a ver com o exercício da sexualidade-desejo, isto é, ser hetero, bi, homo etc.  Além disso, papéis de gênero normalmente são hierarquizados.  Sendo assim, em sociedades patriarcais, ser homem é sempre mais importante do que ser mulher, ainda que tanto homens, quanto mulheres estejam pressionados a se encaixar em modelos de masculinidade e feminilidade que não escolheram, mas são produtos da sociedade na qual nasceram.

"Homem não chora!"  "Fale feito homem!" " Você parece uma menininha!" Espera-se que um homem seja forte, em muitos aspectos a violência masculina seria aceitável, porque seria expressão "natural" dessa força.  Isso pode significar falar alto e grosso, socar outros homens, abrir caminho no mundo do trabalho usando de grande agressividade e assediar mulheres, claro.  Somente assim um homem será visto como homem de verdade pelos seus pares e mesmo algumas mulheres, afinal, existe a dinâmica desses papéis e o feminino e o masculino se relacionam no mesmo sistema. Tais comportamentos seriam justificados com apelos à (*suposta*) natureza.  Testosterona, vocês sabem.  No entanto, quem nunca viu um pai, ou mãe, ou madrinha, ou avô, whatever estimulando um bebê de colo a piscar para as meninas, a namorá-las.  Ele está sendo ensinado a ser homem, porque isso, se aprende no social.  



Quando falamos em masculinidade tóxica, estamos nos remetendo a um modelo de "ser homem" que estaria ancorado na agressividade e na crença de uma superioridade dos homens sobre as mulheres e outros tipos de homem que não conseguem performar as características masculinas fundamentais.  Um homem que não atinge esse ideal de masculinidade seria menos homem, estaria se colocando no lugar que é das mulheres, se efeminando.  Ao fazer isso, ele traria vergonha para si e para todos os homens coletivamente.  A homofobia tem as suas raízes nesse sentimento de ofensa à coletividade, afinal, por qual motivo um homem se colocaria na posição de mulher?  Enfim, vamos aos dois casos reais agora.

O humorista Marcelo Adnet, e não estou perguntando se você gosta dele, ou não, falou publicamente sobre o abuso sexual que sofreu na infância.  Ele tinha sete anos quando foi violentado por um homem adulto, mais tarde, aos 11, foi abusado de novo por um garoto mais velho.  O ator comentou da dor, da vergonha, da humilhação, sobre 25 anos de silêncio.  Ter uma personalidade falando sobre o tema é importante, porque serve para que outros homens tenham coragem de comentar sobre violências sofridas e meninos tenham força para pedir ajuda.  Ao confessar publicamente o ocorrido, tocou em um tema que é muito difícil para os homens, porque, bem, as vítimas de estupro sempre são mulheres, ou homens que não foram homens o suficiente.  


Homem, que é homem, não é abusado sexualmente!
Fazia tempo, aliás, que não via um homem tocando no assunto se não fosse para justificar um abuso sexual cometido por ele mesmo, tipo "Violentei aquela mulher/criança, porque fui abusado na infância.", ou em algum testemunho de um "ex-homossexual", "Me tornei gay, porque fui abusado na infância.".  O testemunho de Adnet não tinha o intuito de justificar nada, mas de desabafar a alertar para algo que ocorre e que é silenciado, pois quando um homem fala sobre o tema, ele se arrisca a ser alvo de toda sorte de agressão, porque, bem, a classe dos homens se protege, mas é muito cruel com aqueles que se rebaixam e se colocam na posição feminina.    Nesse momento, na cabeça do sujeito que está atrelado à masculinidade tóxica, é preciso condenar a vítima para reafirmar sua própria identidade masculina.  

E foi o que aconteceu com Marcelo Adnet.  Ele recebeu uma série de agressões, provavelmente, de gente que é a favor da moral e dos bons costumes e que se diz a favor das piores penas para um estuprador.  Sabe aquele sujeito que deseja que o homem acusado de estupro vira "mulherzinha" na prisão?  Pois é... Um desses que foi para a internet agredir Adnet é um militar da Marinha, parece que será punido por ter agredido o ator nas redes sociais.  Ele não foi o único.  O caso me fez lembrar do excelente filme O Príncipe das Marés, no qual o protagonista é estuprado junto com a mãe e a irmã, quando tinha 13 anos. por bandidos que invadiram sua casa, que ficava em um local isolado.  O irmão mais velho chegou e, armado, matou os sujeitos.  Não vou dar detalhes aqui, mas focar no seguinte, a mãe exigiu o silêncio.  Vinte ou mais anos sem poder comentar, pedir ajuda.  Quando o protagonista adulto, interpretado por Nick Nolte, consegue contar para a terapeuta da irmã, que tinha histórico de tentativa de suicídios, o que tinha ocorrido, ele, que era um machão típico, desaba e só consegue repetir "Não se faz isso com um menino."  Leia nas entrelinhas e entenda que não se faz isso com meninos, mas é aceitável que se faça isso com mulheres e meninas e somente com elas.


Essa campanha ficou excelente.
O caso Adnet sinaliza algo que transcende a ele mesmo.  Não é um problema individual, na medida que ele fala da sociedade na qual vivemos.  Fosse o abusador uma mulher, e há mulheres que abusam de meninos, talvez, a vítima fosse invejada.  Volta e meia aparece um caso de professora nos Estados Unidos que abusa de aluno em algum jornal, ou portal (*Exemplo*).  A coisa lá dá cadeia.  Mas vá na seção de comentários e veja o que se passa nesse submundo da internet.  As falas de muitos homens apontam para a complacência.  Aquele menino recebeu um favor e, não, abusado.  A coisa é lida como uma iniciação sexual precoce e bem vinda, não uma violência.  Os próprios textos das matérias muitas vezes são dúbios e tratam estupro como relação sexual consensual, como se uma criança, ou adolescente, menor de 14 anos (*pela nossa legislação*) estivesse legalmente apto a consentir.  Mas e se fosse com um professor?  Ah, aí é totalmente diferente... Os comentários iriam por outro caminho.  Mas, vamos sair do micro e ir para o macro, agora.

Falei no título em milhares que podem morrer por causa da masculinidade tóxica e preciso explicar.  O professor Robin Dembroff, da Universidade de Yale, analisou a postura de Donald Trump e Bolsonaro diante da pandemia do COVID-19.  Eles resistem a admitir a necessidade do isolamento, a dar valor à ciência (*quando as conclusões os contradizem*), a mostrar empatia pelos que sofrem e estão morrendo.  Segundo o especialista, "Nos encontramos em um momento que exige traços tradicionalmente 'femininos', como empatia, solidariedade e compaixão", essas características não podem ser exercitadas pelo machista tóxico, porque bem, são coisa de mulher.    


A primeira-ministra da Nova Zelândia vem fazendo um excelente trabalho.
Nesse sentido, talvez você tenha tropeçado em matérias que enfatizam o quanto mulheres chefe de estado tem lidado com a pandemia de forma bem eficaz.  Percebem os papéis de gênero operando?  Espera-se que elas, por serem mulheres, tenham essa predisposição para cuidar das pessoas e compreender suas necessidades.  Mulheres devem cuidar da nação, do seu bem estar.  Não se trata de atributo natural, claro, é algo que a maioria das mulheres são obrigadas a aprender desde que recebem sua primeira boneca e alguém lhes diz que é seu bebê e que você precisa cuidar dele.  Uma mulher pode ser insensível, pode emular a masculinidade tóxica, mas terá que assumir as consequências psicológicas e sociais de seus atos.  No caso das mulheres à frente de Estados europeus, Taiwan e Nova Zelândia durante a pandemia, e mesmo a Rainha Elizabeth II, que fez um inédito pronunciamento de Páscoa, elas tem servido de exemplo positivo de bom exemplo quando se trata de medidas que visem a preservação de vidas.

Retornando, o machista tóxico tem muita dificuldade em romper com a ideia de que o corpo masculino é naturalmente forte, impermeável às doenças. O corpo doente é o corpo feminino, aprendemos isso desde nossa infância com as campanhas insistentes sobre toda sorte de moléstia que podem nos acometer simplesmente por sermos mulheres.  Câncer de mama e de colo de útero, osteoporosis (*só mulheres parecem ter ossos*) e outros.  Somos sempre conclamadas a nos cuidar para poder cuidar dos outros.  Enquanto isso, silêncio sobre doenças que podem acometer somente os homens, daí, quando eles procuram os cuidados médicos, não raro, é tarde demais.  Agora, tentem lembrar das diversas piadas sobre exame de próstata que você já ouviu.  Os próprios homens sexualizam um exame médico, afinal, o corpo de um homem não deve ser penetrado jamais sem que isso seja motivo de humilhação, ou riso.


É engraçado, não é?
Enfim, admitir a pandemia, segundo o artigo, seria admitir que os homens podem adoecer, assim como as mulheres, ou os homens que são menos homens. "Eu tenho histórico de atleta."  Nada mais viril do que ser atleta, não é mesmo?  Admitir-se doente, vulnerável, humano nessa leitura mais ampla, seria se emascular.   Agora, se essa postura está somente no plano individual, você só causa sofrimento a si mesmo, ou aos seus familiares e amigos, mas e quando o machista tóxico é um chefe de estado?  Exatamente por estarem à frente de dois países de proporções continentais e populosos, a atitude tóxica desses dois senhores pode conduzir à milhares de mortes.  Eles não são líderes à altura do desafio que temos hoje e já mostraram isso várias e várias vezes nas últimas semanas.

Claro, eu acrescentaria um detalhe da cultura bolsonarista, o culto à morte (*do outro, do oponente*). Isso vem de longe, mas várias falas do presidente apontam para a naturalização das  mortes dos que se contaminarem com o COVID-19.  “Alguns vão morrer, lamento, essa é a vida”, se é assim, nada precisa ser feito?  Voltem ao trabalho.  Solidariedade?  Empatia?  Nenhuma.  Em uma live na Páscoa, o presidente se comparou ao próprio Jesus, como se tivesse voltado da morte com a facada.  Alguns são especiais, se você não é, conforme-se.  Nas ruas, também no fim de semana, os seguidores do presidente simularam um funeral e desejaram a morte do governador do estado de São Paulo.  


Um dos líderes da manifestação na Paulista.  Depois, ele se desculpou.
Não vou me estender nesse ponto, porque daria outro texto, mas é a realidade que estamos enfrentando nesse momento.  Líderes formados dentro de modelos de masculinidade tóxica tendem a não ter empatia.  Se ainda temos operando o fatalismo religioso como um plano B (*"Todos morrem mesmo." "Ninguém morre, se não for vontade de Deus"*), estamos realmente enrascados.  Espero estar errada nas minhas análises, mas, infelizmente, não é o que está no horizonte neste momento.  E, terminando, recomendo um dos vídeos do Henry Bugalho sobre o tema do culto à morte:


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