domingo, 17 de maio de 2020

Comentando o Primeiro Episódio de O Nome da Rosa (Itália/2019): Revisitando o Clássico de Umberto Eco


Parei a correção das provas para dar uma olhada no primeiro episódio da série da RAI (emissora italiana) de O Nome da Rosa (Il Nome Della Rosa).  Baixei da internet, veio com legendas acopladas que não batiam em vários momentos com o áudio em inglês.  Como elas eram da própria RAI, suponho que fossem do áudio italiano.  Lembrando que como o elenco é multinacional, todos foram dublados, seja para o italiano, seja para o inglês, ou o que seja.  Sabia da minissérie desde o ano passado, mas como as críticas não foram positivas, acabei perdendo o interesse e largando para lá.  Fiz post no Shoujo Café quando a série foi anunciada, inclusive.

Para quem não conhece a história do Nome da Rosa, trata-se de um romance medieval de mistério mesclado com intriga política.  Estamos em 1327, o franciscano William de Baskerville (John Turturro) chega a um mosteiro beneditino italiano em missão dada pelo imperador.  Junto com ele está o jovem e nobre Adso de Melk (Damian Hardung), filho de um poderoso nobre alemão, e noviço beneditino.  Um Adso idoso é o narrador de nossa história. Logo que William chega, toma conhecimento que um irmão morreu em condições misteriosas e o abade (Michael Emerson), sabendo das capacidades do franciscano, lhe incumbe de investigar.  De cara, sabemos que não foi um suicídio, mas um assassinato.

William de Baskerville, frade detetive,
intelectual, debatedor e diplomata.
William quer livre acesso ao mosteiro, mas o abade diz que a biblioteca, construída em forma de labirinto, lhe é proibida.  Todo mundo é suspeito e ninguém é suspeito, mas começa a ficar claro que os debates intelectuais dentro do mosteiro não eram tão tranquilos como deveriam ser, em especial por causa da presença de um velho monge cego chamado Jorge de Burgos (James Cosmo).  No final do primeiro capítulo, um segundo monge aparece morto, afogado em uma tina cheia com o sangue de um porco que tinha sido morto na véspera.

Saindo do mosteiro, a série nos apresenta também a corte papal em Avignon.  Se você leu meu post sobre os 100 anos da canonização de Joana D'Arc, deve lembrar que durante setenta anos, a sede da Igreja Católica não era Roma, mas Avinhão (1309-1377).  O papa da época, João XXII (Tchéky Karyo), foi eleito de uma forma bem divertida (*comento isso depois*) e um dos mais teologicamente controversos da Idade Média.  Ele estava em guerra aberta contra a Ordem Franciscana e em disputa com o Imperador do Sacro Império Romano Germânico. 

Adso é o narrador da história.
A briga girava em torno do conceito de pobreza para a Ordem Franciscana que conflitava com aquilo que o Papa defendia, havia mais coisa, mas fiquemos com isso, porque nem sei se a série vai discutir outra das propostas de João XXII que deixou boa parte dos teólogos e até fiéis comuns da época em polvorosa.  Enfim, o tal mosteiro beneditino iria abrigar um debate entre emissários do papa e os representantes da Ordem Franciscana, que corria o risco de ser banida por acusação de heresia. Sim, durante a Idade Média, você discutia as coisas, não bastava, na maioria dos casos, que o papa mandasse, pois a galera nem sempre obedecia, ainda mais quando havia alguma outra autoridade poderosa envolvida, neste caso, o imperador. 

Daí, temos o abade desesperado para resolver o problema dos assassinatos, outros ainda viriam.  William de Baskerville tentando resolver o mistério, mas doido para entrar na tal biblioteca magnífica.  O papa, para piorar, envia o seu mais habilidoso inquisidor e inimigo pessoal de William, Bernardo Gui (Rupert Everett) para participar do tal debate e vencê-lo para o papado, nem que fosse ameaçando uns e outros com a fogueira.  E Adso acompanha tudo, enquanto tenta fugir das tentações da carne, porque se apaixonou por uma camponesa (Antonia Fotaras) que vive rondando o mosteiro.

O filme de Jean-Jacques Annaud se tornou um clássico.
Antes que alguém pense em remake do filme de 1986, lembro que O Nome da Rosa é um livro de Umberto Eco publicado em 1980 e que contou com a assessoria de um dos maiores medievalistas de todos os tempos e um dos  grandes historiadores de sua época, Jacques Le Goff.  Sim, eu sou fã de Le Goff e recomendo a leitura dele, porque ele tem desde livros bem complexos até material muito acessível para o leitor comum.  Então, se algum cretino vier pontuar que o livro difama a Idade Média, mande o cabra estudar, porque não sabe do que está falando mesmo. 

Em O Nome da Rosa, misturam-se personagens históricas, Bernardo Gui, por exemplo, e outras criadas para o romance.  William de Baskerville, o intelectual franciscano que havia sido inquisidor, é um deles.  Aliás, acredito que muita gente tenha sacado que o franciscano é uma homenagem ao famoso detetive Sherlock Holmes. O "Baskerville" é por causa do famoso cão do título de um dos romances do detetive. Lembro bem do livro nesse aspecto, porque Umberto Eco pegou a exata descrição de Holmes e a deu para a sua personagem, com o acréscimo dos cabelos louros.  E, aqui, já coloco uma decepção com a série, pode ser corrigida nos outros sete capítulos, há tempo.  

Não sei se John Turturro vai aparecer cheirando umas ervinhas.
No livro, William faz umas fogueiras e cheira umas ervinhas que abririam a sua mente.  É outra referência à Holmes e seu hábito de fumar para estimular seu raciocínio.  Não, não é uma referência à cocaína, porque essa droga o detetive só consumia quando estava entediado.  Já Adso é Watson.  E aquele Watson estereotipado que imperou nas representações do cinema, TV e mesmo livros que usam a personagem Sherlock Holmes, isto é, com um raciocínio um pouco lento, meio assustado e sempre muitos passos atrás do grande detetive.

Só que em O Nome da Rosa, Adso tem uma desculpa.  Ele era pouco mais que um menino, tinha passado boa parte de sua vida em um mosteiro.  A gente no livro não sabe com quantos anos Adso foi enviado para a vida religiosa, mas tomando pelo padrão da época, eu apostaria entre 3 e 6 anos de idade.  No livro, Adso não tem qualquer experiência ou lembrança das mulheres de carne e osso, nem da própria mãe.   Então, ele deve ter ido para lá muito jovem.  E o pai o retirou do mosteiro para que ele fosse aluno do sábio William de Baskerville, melhorando sua educação e, provavelmente, suas possibilidades de ascensão na Igreja Católica ou na corte do Imperador.  Nesse ponto, a série de TV diverge bastante do livro.

A série abre com uma sequência de batalha. 
Exércitos do papa contra os do imperador.
Seguindo o que tem acontecido com Watson nas últimas séries e filmes sobre Sherlock Holmes, decidiram alterar o adolescente Adso e ele ficou mais corajoso, menos inocente, mais espertinho.  E não foi somente isso, a primeira sequência desse novo O Nome da Rosa é no campo de batalha, com o jovem Adso sendo obrigado pelo pai a se tornar um cavaleiro, depois de ter sido educado em um mosteiro.  O jovem não quer ser cavaleiro, abomina o derramamento de sangue e enfrenta o pai que é violento, devasso e todo o pacote do nobre medieval estereotipado.

Qual o problema disso, problemas, aliás?  O Adso dessa adaptação foi transformado em herdeiro desse barão.  Só que se ele fosse o herdeiro, o único filho homem, JAMAIS ele seria mandado para a vida religiosa.  Um segundo filho homem, um caçula de muitos filhos (*caso do livro*), a criança fruto de uma promessa dos pais, OK, o herdeiro, não.  E qual o sentido em enviar seu filho e herdeiro para ser educado em um mosteiro se o destino do moço era ser o próximo barão de sei lá o quê?  Ele deveria ser treinado para comandar, para ser um cavaleiro e receberia uma formação intelectual mais ou menos elaborada a depender do interesse do pai e/ou da mãe pela cultura.  

Damian Hardung é um moço bonitinho.
Pior ainda, esse moço herdeiro não teria escolha.  Ele não poderia decidir por si, como é mostrado no seriado.  Ele não é um Francisco de Assis, filho de um comerciante que confronta o pai e vai se abrigar debaixo da capa do bispo (*Quem tinha mais poder aí?  Vai brigar com a Igreja?*), Adso é o filho de um nobre poderoso e iria se submeter nem que fosse à base de pancadas.  Depois que o pai morresse, quem sabe... E o pai do Adso, que é somente citado no livro, é colocado como um sujeito moralmente pervertido para se introduzir uma discussão muito forçada sobre questões de gênero, nesse caso construção das masculinidades.  O que é ser homem dentro desse mundo de cavaleiros?  Para mim, é meio que o efeito Game of Thrones.

Por conta disso, nesse início do capítulo 1, o pai de Adso está com uma mulher na cama.  Como virou moda nesses seriados de TV, a mulher aparece nua gratuitamente.  Por que não, não é mesmo? Seria mais fácil imaginar que ela se enrolasse nos lençóis quando o jovem entrasse na tenda do pai do que se exibisse sua nudez para o moço.  E o barão oferece a mulher, com quem acabou de fazer sexo, ao filho.  Enfim, um devasso.  Mas que pai moralmente corrompido desse jeito mandaria seu filho único ser criado em um mosteiro?  Entendem que não encaixa.  

Adso, na série, não tem tonsura, o que não faz sentido,
seu cabelo está íntegro, mas ele é cluniacense, como no livro.
Outra coisa, o fato de Adso ter sido exposto à nudez da moça vai tirar parte do impacto e até da beleza da cena de sexo dele com a camponesa que deve ocorrer mais lá na metade da série.  Ele era absolutamente inocente quando a coisa aconteceu, virgem em todos os sentidos.  No livro, ele fica lembrando de ter lido escondido romances de cavalaria, quando estava no mosteiro e ter sonhado com o amor.  Quem é a rosa do título?  A camponesa sem nome, a única mulher que Adso amou e com quem fez amor.

Enfim, o moço rejeita a oferta, tira toda a roupa indignado (*referência à Francisco de Assis*), coloca o hábito de monge beneditino, e sai.  A partir daí, passa a ficar vagando pelos arredores do castelo fortificado do pai, como se um dos inimigos não pudesse capturá-lo e usá-lo para pedir resgate.  É nessas andanças que ele encontra William de Baskerville.  E, depois que o franciscano conversa sobre questões jurídicas e diplomáticas com o barão, ele passa a segui-lo.  De novo, imaginem o filho e herdeiro de um poderoso barão saindo por aí com um franciscano sem autorização do pai.  Pensem, também, se o experiente William, um sujeito que conhecia bem os jogos de poder e as hierarquias, iria levar o moleque com ele.  Não iria.  Essa problemática parte ocupa os quinze minutos iniciais do episódio, deveria não estar lá.

A bela camponesa.  Suspeito que vão
meter outras mulheres na história.
Então, temos um Adso muito mais seguro do que o do livro, ou do filme de 1986.  O que corrigiram em relação ao filme com  Sean Connery e  Christian Slater é que Adso é beneditino, como no livro, e, não, franciscano.  E Adso de Melk é da mesma ordem do mosteiro onde acontece a confusão toda.  Hábito negro, cluniacense.  Ele não poderia ser de Cister, a outra ordem religiosa beneditina da época, porque o hábito era branco e os cistercienses inovaram no século XII ao estabelecer que só aceitariam noviços considerados adultos pela lei.  Enfim, esse Adso é diferente do livro e do filme de 1986, também.

Falando do mosteiro, esperava um ator mais pomposo e com uma aparência mais impressionante como o abade, porque espero que a cena em que ele apresenta as riquezas do mosteiro para o Adso, esteja na série.  O ator tem olhinhos assustados.  Também esperava que Jorge de Burgos fosse uma tor mais velho, ou de aparência mais frágil.  James Cosmo me passa uma impressão de força que não é do mesmo tipo que a da personagem no livro.  Aliás, em ambos os casos e, também, em relação à Salvatore (Stefano Fresi), o corcunda, o filme de 1986 vai se sair muito melhor. Para quem não lembra, ou não viu o filme, Ron Perlman fez o Salvatore.

Bencio de Uppsala sabe mais do que disse.
Algo que foi introduzido nessa série foi um diálogo entre um dos monges que vai ser assassinado, e que faz o meu gaydar apitar toda vez que aparece, e Adso.  O monge especialista em retórica, Bencio de Uppsala (Benjamin Stender), insinua que Adso pode ser amante de William de Baskerville.  Qual motivo teria o franciscano para tomá-lo como discípulo?  É do nada que ele tira isso e fica comendo o rapaz com os olhos.  Só não tomou uns sopapos, porque, bem, Adso se segura.  Precisava?  Não.  No livro o rapaz é homossexual, a questão da homoafetividade aparece na obra de Umberto Eco, mas de outra forma.

Mais adiante, quando estão matando o porco, e, no filme de 1986, mostraram para a gente o abate do animal, na série só temos os gritos, ainda bem, voltamos para a tal história de construção de masculinidades.  Adso diz que o pai o obrigava a participar do abate dos porcos quando criança para ensiná-lo a ser homem. Por qual motivo um poderoso barão, já no século XIV, iria matar porcos domésticos?  Hobby?  Seria mais coerente que o pai obrigasse o menino a caçar e matar os animais, ou maltratar os bichos.  Sei lá... 

William e seus óculos.
Que mais preciso falar desse primeiro capítulo?  John Turturro é um William de Baskerville convincente e Rupert Everett, também, parece bem como o inquisidor.  Na época que anunciaram, eu escrevi que preferia Everett como William, porque, bem, ele é inglês e já foi Sherlock Holmes em um filme.  Outra coisa, os dominicanos, e Gui é dessa ordem, vão assumir o comando da Inquisição.  As duas ordens, a Franciscana e a Dominicana, surgiram na mesma época, bem no início do século XIII, foram ambas reconhecidas no IV concílio de Latrão, mas sua trajetória é muito diferente.

Francisco era não era um sacerdote, tem sentimentos dúbios a respeito da criação da uma ordem, se recusa a receber intelectuais (*porque saber para ele é uma forma de propriedade, depois, ele muda de ideia*), atraía mulheres com sua pregação, mas não sabe o que fazer com elas.  Viveriam em comunidades mistas?  Seriam pregadoras, também?  Seriam mandadas para conventos?  Francisco caba meio que sendo destituído do grupo que iniciou e, bem, logo os franciscanos começam a brigar entre si sobre o conceito de pobreza.  Francisco queria o direito de ser pobre, algo que o papa da época, Inocência III, concede, mas não que a Igreja precisava ser pobre, questão que é foco da discussão na época do livro.  

Rupert Everett vai ser um vilão muito mau.
Para se ter uma ideia, por conta dessas controvérsias sobre a pobreza, em 1266 veio a ordem de destruição de todas as biografias de Francisco de Assis, menos a escrita por Boaventura, então geral da ordem.  Essa versão oficial, escrita por alguém que não conheceu o santo, era bem chapa branca e tentava evitar as controvérsias que agitavam o grupo.  Muita coisa se perdeu, muita coisa foi escondida e só começou a reaparecer no século XVIII.  

Aqui, faço a ponte com a biblioteca do Nome da Rosa.  Muitas fontes franciscanas que deveriam ser destruídas, sobreviveram porque foram escondidas por outras ordens, como a dos beneditinos, em suas bibliotecas.  Uma biblioteca poderia esconder tesouros e livros proibidos, seja porque a Igreja os condenou mesmo, seja porque traziam conhecimentos que os teólogos consideravam controversos.  De resto, não havia proibição da leitura de nada, porque o que era proibido deveria ser destruído mesmo, mas nem sempre eram.  Percebem que o cuidado com a biblioteca, quem entra e quem sai, é necessário?  
Eles usaram o scriptorium do  monastério dominicano de
Gaita di San Pietro nas filmagens.  Queria imagens melhores.
Vocês viram a sequência belíssima so scriptorium?  Achei uma das melhores partes desse capítulo.  Copistas, miniaturistas e outros, trabalhando?  Pois bem, primeiro ponto, livros são muito caros durante a Idade Média, pois eram feitos à mão e a matéria-prima também não era barata. Por conta disso, muitas vezes tornavam os livros ainda mais valiosos por usarem neles materiais nobres como ouro e pedrarias.  Esses livros eram duplo tesouro, do conhecimento e econômico mesmo. 

Manuscritos e livros eram emprestados entre os mosteiros, mas havia obras que só podiam ser consultadas in locu.   Monges e outros estudiosos vinham de lugares distantes para estudar em mosteiros, especialmente, antes das universidades.  Agora, você iria emprestar um livro cujo exemplar era único, tinha trechos escritos com tinta de ouro e pedrarias na capa?  Não.  Ele poderia, inclusive, ficar acorrentado à prateleira, porque ladrões de livro não surgiram nos nossos dias.  Aquela biblioteca de O Nome da Rosa era uma fonte inesgotável de riquezas.    

O abade parece tão tranquilo.  Aliás, não lembro de,
 no livro, o abade sempre ter sido o bibliotecário
do mosteiro.  Não lembro mesmo.
Voltando aos dominicanos, seu fundados, Domingos de Gusmão, era padre, entendia dos meandros eclesiásticos.  Escolhe uma regra que já existia (*a de santo Agostinho*) acrescida de institutos que atendessem aos seus grupos.  Estabelece que seus seguidores teriam como função lutar contra a heresia (*a dos cátaros era central na época, isso já é tocado nesse primeiro capítulo da série através da moça camponesa*), as mulheres ficaram em clausura, os homens serão professores e pregadores.  Intelectuais eram bem-vindos, aliás, necessários.  O hábito dos dominicanos é preto e branco.

Não sou especialista em Ordem Dominicana, eles certamente tiveram seus barracos internos, mas eles permaneceram assim, internos.  Tudo tratado de forma pragmática.  Já no caso dos franciscanos, a coisa virava questão de toda a igreja.  Escândalo, gritaria, cisões, condenações por heresia.  No início da Inquisição controlada direto de Roma, século XIII, dominicanos e franciscanos trabalharam juntos como juízes.  Com o tempo, as confusões dentro da Ordem Franciscana tornaram seus frades suspeitos de heresia e os dominicanos assumiram e ficaram até o século XIX.  E olha que nem os jesuítas tomaram deles o controle da instituição.

Bernardo de Gui e o papa.
O papa João XXII parece muito novinho para alguém que já estava lá perto dos oitenta anos.  E só explicando, João XXII, antigo cardeal Jacques Duèze foi eleito papa em 1316, depois de um período muito conturbado ligado ao sequestro da Cúria.  Segundo consta, ele era o mais velho dos cardeais, parecia ter uma saúde frágil (*estava com o pé na cova*) e foi eleito, porque, bem, o irmão do Rei da França tinha aprisionado os cardeais (*o primeiro conclave*) e ameaçado que eles só iriam comer, ou beber, ou sair, depois de elegerem um novo papa.  Escolheram Duèze, porque achavam que o velho iria morrer logo e haveria tempo para escolherem um papa que fosse consenso.  Sempre que isso acontece na história da Igreja Católica, aguarde surpresas e fortes emoções.

O velho viveu até 1334, morreu com 89 ou 90 anos e quase fez a Igreja Católica se fragmentar.  Mas se quiserem mais detalhes, recomendo a série Os Reis Malditos.  Esse barraco da eleição está no livro A Lei dos Varões que, infelizmente, é o mais sacrificado nas adaptações da série de Maurice Druon.  Mesmo a de 1972, que eu amo muito, deu uma derrapada aí, mas não nos eventos do conclave que estão lá em detalhes, minúcias e interpretações deliciosas.

William usa do método dedutivo de
Holmes para resolver vários mistérios.
Enfim, que texto longo para um primeiro capítulo, mas adiantei coisas, sabe-se lá se vou assistir tudo, ou não.  Achei muito boa a forma como explicaram objetivamente as diferenças de concepção sobre a pobreza para a média dos franciscanos e para o papa e seus aliados.  A Ordem Franciscana quase foi extinta por causa dessa confusão.  outra coisa, o imperador só está protegendo os franciscanos, e particularmente William de Baskerville para antagonizar o papa e porque muita gente estava já se insurgindo contra o fato da sede da Igreja estar na França, não onde deveria estar, Roma.

Se eu continuar a assistir a série, como eles terão muito tempo, oito capítulos, espero ter a sequência do abade com as riquezas, que citei acima, e a discussão de Adso com William sobre as relíquias.  É uma delícia.  Espero, também, que eles coloquem o mistério da biblioteca igual ao livro.  O filme de 1986, meio que inverteu a resolução oferecida pelo livro.  Ficou bom, o filme é muito bom, mas é totalmente diferente o final.  

O passado de William como inquisidor
é mostrado no primeiro episódio.
Terminando, desculpem se minha memória sobre o livro deslizou em algum momento, nem sei onde coloquei a minha edição.  Li o livro integralmente com 17 anos, reli algumas partes depois, mas tenho certeza que nunca integralmente de novo.  Tenho 44 anos, veja quanto tempo faz.  Já o filme, assisti a primeira vez com 14 anos, foi um dos primeiros que eu aluguei quando meus pais compraram o nosso primeiro video cassete.  Ele me causou forte impressão, a censura era 16 anos e o filme é pesado em muitos momentos.  Revi o filme outras vezes, a faculdade, ou como parte o projeto História & Cinema do PEM (Programa de Estudos Medievais) do IFCS/UFRJ.  De qualquer forma, faz usn vinte anos que não assisto ao filme.  Tenho ele aqui em casa.

Sou medievalista de formação, então, acabo me empolgando com esse tipo de material e escrevendo demais.  Esse primeiro capítulo foi bom, mas é preciso, como pontuei, ter em mente que é outro Adso e isso ode fazer total diferença no desenrolar da história. Assistiria tudo de enfiada, se não tivesse que corrigir provas e cuidar da Júlia.  Para quem quiser comprar o livro, O Nome da Rosa, ele é muito bom.  Do Le Goff, como rasguei-me em elogios, recomendo alguns livros acessíveis ao público geral: Uma breve história da Europa, a biografia de Francisco de AssisHeróis e maravilhas da Idade MédiaRaízes medievais da Europa e Homens e mulheres da Idade Média.  Todos os links são do amazon, mas você encontra em sebo, tente o Estante Virtual, por melhor preço, ou até em pdf para download na internet.

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