quarta-feira, 12 de agosto de 2020

Muito Além do Mangá: Comentando Grama, um quadrinho fundamental para entender a questão das "mulheres do conforto"

Segunda-feira da semana passada, terminei a leitura de Grama, quadrinho da coreana Keum Suk Gendry-Kim.  Trata-se de uma obra semi-autobiográfica construída sobre as memórias de uma sobrevivente da 2ª Guerra, a senhora Ok-sun Lee, que foi obrigada pelos japoneses à escravidão sexual.  Ela foi uma das muitas "mulheres do conforto", até hoje um dos assuntos mais melindrosos nas relações entre Coreia do Sul e Japão.  Mulheres do conforto eram mulheres e meninas utilizadas como escravas sexuais pelas tropas japonesas.  Eu já escrevi vários posts sobre a questão, então, sugiro que para um aprofundamento do tema, você leia outros posts do Shoujo Café.

Grama cobre um vasto período de tempo nas suas 480 páginas e sua narrativa não é linear, alternando eventos contemporâneos e as reminiscências de sua protagonista.  Começamos em 1996, na China, com o retorno da já idosa Ok-sun Lee para sua terra natal, a Coreia (do Sul) deixando para trás o marido idoso e o resto de sua família. Esse retorno se deu graças a um programa de TV que falou sobre as "mulheres do conforto".  55 anos depois, Ok-sun Lee voltava para a sua pátria, ela terminaria vivendo com outras sobreviventes na chamada "Casa de Partilha", foi lá que a autora de Grama a encontrou e elas passam a conversar sobre a vida, as experiências e a visão de mundo de Ok-sun Lee (*no centro na foto abaixo*).

Grama acompanha a protagonista a partir do ano de 1934, na região rural da província de Busan.  A narrativa vai entrelaçando os acontecimentos da vida da protagonista com a História da Coreia e da 2ª Guerra Mundial.  A Coreia estava ocupada pelo Japão desde 1910 e permaneceria assim até 1945.  A ocupação japonesa tinha como objetivo a colonização, não era somente a exploração da mão-de-obra coreana, mas a promoção da substituição da cultura local pela japonesa.

O sonho da protagonista era ir para a escola, algo que lhe foi negado, porque a família era paupérrima e se alguém pudesse estudar, os meninos teriam prioridade.  Mas é dito que os livros eram em japonês, as crianças eram obrigadas a falar em japonês, ou eram punidas, e até os nomes coreanos deveriam ser trocados por outros na língua do colonizador.  Nesse sentido, cito o caso do coreano Sohn Kee-chung, vencedor da maratona na Olimpíada de Berlim, correu com nome japonês e teve que ver hasteada a bandeira do Japão.  Ele foi lembrado e homenageado na Olimpíada de Seul, em 1988.  Mas, enfim,  Ok-sun nunca pode ir para a escola, mas a promessa teve papel importante na mudança sofrida na vida da menina.

Seu pai sofreu um acidente de trabalho, as condições familiares pioraram, eles passavam muita fome e a mãe de Ok-sun Lee conseguiu alguém que a "adotasse".  "Você poderá ir para a escola."   A menina aceitou, se não o fizesse, acredito que não teria escolha de qualquer jeito.  Na realidade, Ok-sun Lee se tornou criada em um restaurante.  Não havia escola, só trabalho duro.  Esse tipo de situação não é estranho ao Brasil.  Até hoje, famílias da cidade pegam meninas pobres "para criar".  A promessa é de estudo e melhores condições de vida, normalmente, é diferente, trata-se de escravidão doméstica, às vezes, combinada com abusos sexuais.

Nesse sentido, Ok-sun Lee quase foi prostituída por sua primeira família adotiva.  Ela resiste, não quer "beber" com um cliente.  Era uma menina de 12 anos, na época.  A primeira família a passa adiante, ela termina em condições ainda mais precárias em uma casa de prostituição.  Ok-sun não é prostituída, mas a possibilidade sempre está no horizonte.  Neste novo estabelecimento, ela poderia ser treinada para se tornar uma Gisaeng, isto é, "(...) mulheres coreanas de famílias de classe baixa ou escravizadas que eram treinadas para serem cortesãs, providenciando entretenimento e conversas para homens de classe alta".  

No posfácio de Grama, escrito pela pesquisadora Myung-sook Yun, há um artigo explicando como os japoneses favoreceram a expansão da exploração sexual de mulheres e como a miséria e o sistema patriarcal vigente na Coreia acabavam por normalizar a prostituição e escravização de jovens coreanas.  Sim, há vários tipos de prostitutas, historicamente e culturalmente, sua função pode variar muito, algumas chegam a exercer grande poder, PORÉM a maioria das mulheres nessa condição vive em situação miserável e de grande exploração.   Não espere de mim qualquer romantização da prática, fiquei feliz que Grama também não trata a questão de forma leviana.

Além de se posicionar criticamente em relação à prostituição, Grama parece mexer em um vespeiro que é mostrar a participação de coreanos no recrutamento das mulheres do conforto.  Segundo o posfácio, diferentemente dos lugares onde a ocupação militar japonesa era recente, na Coreia e em outras áreas colonizadas, eram os próprios habitantes que normalmente entregavam mulheres aos japoneses, eles participavam do negócio.  Havia sequestros, como no caso de Ok-sun Lee, mas, também, meninas e mulheres vendidas por famílias muito pobres, ou jovens enganadas por falsas promessas de emprego.  Ao que parece, os coreanos não gostam de comentar sobre essa parte da história, que a maioria das coreanas escravizadas não era retirada de suas casas sob mira de uma arma.  Esse detalhe sórdido, eu aprendi lendo Grama.

Segundo o posfácio, onde a ocupação japonesa era estável, caso da Coreia, o fornecimento das mulheres muitas vezes era feito pelos seus compatriotas.  Já o quadrinho mostra como é complicado para os coreanos de nossos dias compreender a pobreza extrema de gerações passadas.  Ok-sun Lee não consegue restaurar os laços com suas irmãs mais novas, porque elas não conseguem crer que a protagonista foi vendida pela mãe, porque a viram rezando para que pudesse revê-la até o último dos seus dias.  

O fato é que as mulheres do conforto coreanas são vítimas, mas houve coreanos que eram cúmplices dos japoneses.  É possível se questionar se eles e elas tinham alternativa, mas, também, é possível discutir como o tráfico de mulheres e meninas, sua objetificação, é algo normalizado em várias culturas.  O posfácio recorda, por exemplo, que casas semelhantes às das mulheres do conforto foram mantidas para atender às tropas norte americanas de ocupação entre 1945 e 1960.

Outra questão presente nessa discussão é o fato da Coreia ser um país rico e, para a maioria, esse passado de miséria e extrema exclusão social é algo muito distante, tanto que inimaginável.  Bem, Parasita, filme que arrebanhou prêmios Oscar este ano, aponta que a coisa não é bem assim, que, na verdade, os coreanos parecem não ver que os muito pobres e desesperados ainda estão entre eles.

A partir do momento em que Ok-sun Lee é sequestrada, vemos o calvário das mulheres do conforto.  Um carregamento com meninas e mulheres coreanas é levado para a China.  Primeiro, elas ficam em um aeroporto de Yanji, depois, não levadas mais para o norte, para a Mandchúria (Manchukuo).  A comida era ruim, ao chegar no aeroporto, Ok-sun Lee, então com 15 anos, e outras mulheres são colocadas para fazer trabalhos pesados junto com outros coreanos.  A comida é pouca e aparece um homem que demonstra compaixão por ela.  Esse moço era uma espécie de supervisor dos coreanos obrigados a trabalhos pesados, um colaborador, portanto.  Achei curioso, porque ele é quase tão jovem como a protagonista, no entanto, o desenho o faz parecer bem mais velho.

Não falei da arte, mas a autora tem um traço simples e usa muito bem o contraste em preto & branco.  As emoções estão retratadas nas pinceladas e em um trabalho minucioso que parece ser feito sobre fotografias.  Nunca vemos nenhuma violência de forma explícita, mas a autora usa metáforas visuais para deixar claro o que está acontecendo.  Um bom exemplo de como a arte é utilizada para ilustrar o terror sem mostrar o ato, é quando a protagonista é estuprada pela primeira vez, quando ainda era virgem.

Ok-sun Lee permaneceu como mulher do conforto entre 1942 e 1945.  Sofreu múltiplos estupros e surras, trabalhava mesmo menstruada, recebia pouca comida, tudo o que consumia era "vendido" pelo dono do bordel militar, um civil que administrava a casa e ficava com parte dos lucros, para as mulheres, somente dividas.  Ok-sun Lee contraiu sífilis, sobreviveu, mas perdeu sua capacidade de ter filhos, fato que, depois da guerra, diminuiu o seu valor como potencial esposa.  Uma das questões retratadas em Grama é como as mulheres do conforto eram humilhadas e tratadas como meros objetos.  Cabia a elas pedir que os soldados usassem preservativos, não raro, eles se negavam.  Elas apanhavam dos "clientes" e, se engravidassem, dos gerentes do "negócio".

Em dado momento, a autora do quadrinho, que faz as vezes de entrevistadora, pergunta se algum dos japoneses era diferente, se ela não se apaixonou por nenhum deles.  Ok-sun Lee diz que não, mas em suas memórias veio a recordação de um soldado que prometeu tirá-la do bordel.  Não era amor da parte dela, fica evidente que Ok-sun Lee não se permitiria amar o inimigo, mas uma questão de sobrevivência.  E Grama fala disso, da capacidade de sobreviver.  De como a grama, crescer e se levantar novamente.  Ok-sun não se tornou amarga, à despeito de tudo o que sofreu.  

Quando a guerra acaba para os japoneses, quando eles retiram as tropas da China, o sofrimento não termina para as mulheres do conforto.  Elas não tem para onde ir, elas não sabem o que está acontecendo.  O grupo de mulheres precisa buscar estratégias de sobrevivência.  Neste momento, o quadrinho conta um pouco da história de uma das companheiras de Ok-sun Lee, a quem ela reencontrou na casa de Partilha muitos anos depois.  Quantas mulheres do conforto não voltaram para seus países de origem?  Difícil saber.

Já para a população japonesa deixada para trás (*e eu esqueci o nome de um filme animado que trata disso*), e ela não era pequena, afinal, a colonização começara em 1932, o tormento estava somente começando.  Chineses e soviéticos queriam vingança e quem ficou para trás, incluindo mulheres e crianças, pagou um preço alto.  Alguém pode se perguntar por qual motivo usei a palavra vingança.  Peço que procurem saber o que foi o Estupro de Nanquim, que é citado em Grama, ou a Unidade 731.  Os crimes de guerra japoneses foram terríveis.

Enfim, a autora do mangá fala rapidamente dos estupros cometidos pelas tropas soviéticas, mas não explica algo importante.  Diferentemente do que ocorrera na Europa, em particular na Alemanha, na China o alvo era a população japonesa que ficara para trás e os atos de violência contavam com o apoio das tropas chinesas e o incentivo dos civis chineses que tinham sofrido inúmeros abusos.  Algo que ocorreu foi que japonesas se casaram com chineses (zanryu fujin) para não serem violentadas, ou mortas. Era uma situação complexa, que o quadrinho não explica.  Estou parando para comentar, porque se construiu uma narrativa de que os soviéticos estupraram, enquanto outros aliados, não.

Houve uma quantidade considerável de mulheres estupradas na Frente Ocidental e  norte americanos e os franceses cometeram muitos crimes contra as mulheres e meninas.  No caso da Itália, há registros de estupro de homens pelas tropas francesas, também, porque este tipo de crime nada tem a ver com prazer, é um ato de dominação mesmo.  E, no caso da Coreia do Sul, houve a persistência de bordéis para atender as tropas norte americanas durante um bom tempo, como comentei acima.  Sem nem entrar na discussão feminista sobre prostituição, basta escrever que muitas mulheres não estavam "servindo" as tropas de ocupação por vontade própria.  Resumindo, mulheres continuaram sendo estupradas.

Vocês sabem que Ok-sun não volta para a Coreia senão 55 anos depois do fim da 2ª Guerra.  Ela termina ficando na China, se assentando lá, casando.  Imaginem a confusão do final da guerra que já emendou com a Revolução Chinesa (1945-49).  Não vou dar detalhes dessa parte, mas muitos coreanos devem ter ficado na China, incapacitados de voltar para a Coreia, que seria partida em duas.  Em alguns casos, não se sabia o caminho de casa, em outros, não havia uma casa para voltar. Ok-sun retorna para a sua pátria por iniciativa do governo coreano, recebe de volta sua cidadania e apoio para viver no país, caso desejasse.  Ela passa a militar pelo reconhecimento do crime cometido contra ela e outras mulheres.  O que ela e suas companheiras esperam até hoje é uma compensação por parte dos japoneses.  

Houve um acordo em 2015, ano de lançamento de Grama, ele é citado no texto, o problema é que ninguém ouviu as mulheres, as sobreviventes, foi um arranjo entre estados.  O novo governo coreano decidiu rever o acordo e a questão das mulheres do conforto está de novo em evidência no momento em que escrevo.  Enquanto estava escrevendo esta resenha, tropecei em uma entrevista de Hayao Miyazaki na qual ele fala da necessidade de que o Japão assuma os crimes cometidos contra as mulheres  transformadas em escravas sexuais.  Essa posição controversa lhe rendeu algumas acusações de traidor e de agir de forma anti-patriótica.

Grama foi publicado originalmente na Coreia do Sul em 2017, já em 2019 foi publicado em várias línguas e aclamado tanto pelo público, quanto pela crítica.  Grama se enquadra no gênero autobiográfico que é muito comum entre mulheres quadrinistas na França e nos Estados Unidos.  Sim, eu sei que Keum  Suk Gendry-Kim é coreana, mas sua formação artística foi na França.  Ela segue nos passos de Persepólis, de Marjane Satrapi, Fun HomeVocê é minha mãe? de Alison Bechdel e, claro, Maus, de Art Spiegelman. O anúncio da obra no Brasil gerou grande ansiedade entre aqueles que conheciam o trabalho de Keum Suk Gendry-Kim.

Grama foi trazido para o Brasil pela Editora Pipoca & Nanquim e tem uma qualidade gráfica e de encadernação impecável.  A sobrecapa é muito bonita e escolheu um quadro impactante, a pequena Ok-sun Lee diante de seus sequestradores.  Já a capa interna é bem singela e usa o preto & branco da arte do quadrinho. E o uso do preto & branco, das linhas grossas, é uma das coisas que mais se destacam na arte, pelo menos para mim.  Como estou longe de ser especialista em quadrinhos coreanos, não vou ficar falando bobagem, mas lendo Grama me senti mais próxima de material franco-belga do que do material comercial coreano que já caiu nas minhas mãos.  E o texto flui muito bem, não tenho como comparar traduções, menos ainda o original, mas não vi defeitos na versão em nossa língua.  Grama não é barato, porém o material vale o preço cobrado.

Dada a importância do material, eu rompi um voto que tinha feito de não comprar nada que a editora lançasse em nosso país por causa da participação que o canal do Youtube da editora na campanha contra o filme da Capitã Marvel.  Sim, eu não ia deixar de falar disso, não, o Shoujo Café é um site feminista e eu não posso deixar essas coisas baratas.  No entanto, fico feliz que Grama tenha saído em nosso país.

No fim de semana, houve uma live com a autora no canal do Centro Cultural Coreano no Brasil.  O vídeo está ali embaixo, ainda não consegui assistir completo.  E está aberta uma exposição de Grama no Centro Cultural Coreano no Brasil (Av. Paulista 460 – Bela Vista), em São Paulo/SP. A mostra ficará aberta de 8 de agosto até 5 de setembro, das 13h às 17h.  Sei que em tempos de pandemia exposições desse tipo não são muito desejáveis, mas serão respeitadas regras de afastamento social.


P.S.: Gostaria de colocar legendas nas imagens, mas o novo Blogger dificultou muito esse processo.

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