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segunda-feira, 20 de julho de 2026

Pipoca & Nanquim lança manhwa sobre revolucionária coreana

Não conhecia Alexandra Kim (1885-1918), mas ela foi uma revolucionária bolchevique coreana nascida na Rússia.  Sim, o pai de Alexandra migrou para a Rússia e morava em uma vila coreana chamada Sinelnikovo, na Sibéria. Segundo a Wikipedia, porque eu tenho ZERO conhecimento sobre essa presença coreana na Rússia, essa região onde ficava a via era uma espécie de estufa de nacionalistas coreanos. Esse período da passagem do século XIX até 1910 é marcado pela disputa entre russos e japoneses pela influência sobre a Coreia e termina com a invasão japonesa da Península.   

Alexandra cresceu em um ambiente nacionalista, mudando-se com frequência, tornou-se professora e casou-se.  Como seu envolvimento político se tornou cada vez mais intenso, ela terminou se divorciando e abandonando o ensino.  Em 1916, Alexandra entrou para o Partido Bolchevique e, em 1917, Lenin a enviou de volta à Sibéria para mobilizar os coreanos contra as forças contrarrevolucionárias.  Na cidade de Khabarovsk, Alexandra era responsável pelos assuntos externos no Departamento do Extremo Oriente do Partido. Lá, ela se encontrou com outras lideranças ligadas à luta pela independência coreana. Juntos, eles fundaram o Partido Socialista Coreano em Khabarovsk em 28 de abril de 1918.   Kim foi capturada, juntamente com muitos outros comunistas coreanos, pelas forças brancas e tropas japonesas em 4 de setembro de 1918. Ela foi executada em 16 de setembro de 1918. Segundo relatos, suas últimas palavras foram "Liberdade e independência para a Coreia!"

Enfim, tudo isso é novidade para mim e o que importa é que o álbum Alexandra Kim: Filha da Sibéria está em pré-venda no Amazon.  Segundo o Amazon, o quadrinho foi adaptado da biografia escrita por Jung Cheol-Hoon e é o sexto manhwa da premiada Keum Suk Gendry-Kim (Meu Amigo Kim Jong-un, Grama) lançado no Brasil. Não sabia que tantos álbuns da autora tinham sido publicados no Brasil.  Tem resenha de Grama no blog.  Acredito que vou comprar esse álbum, é sempre importante conhecer mais mulheres que tiveram papel importante em momentos nos quais a gente é levado a acreditar que os grandes atores eram os homens. 

quinta-feira, 26 de dezembro de 2024

Shoujocast no Ar! Balanço dos MangásShoujo e Josei lançados em 2024 no Brasil

O ano de 2024 foi marcado por uma série de lançamentos de mangás que, no Japão, são voltados para o público feminino.  Neste Shoujocast de balanço do ano, listamos todos os lançamentos de shoujo e josei das editoras brasileiras e falamos um pouquinho de BL e GL, também.  A base para a lista dos lançamentos é o site Biblioteca Brasileira de Mangás.

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2024

Junji Ito vai publicar mais um capítulo de seu mangá Tomie

Tomie (富江) é um dos mangás mais importantes de Junji Ito, tem três volumes compilando histórias produzidas em momentos diferentes desde a estreia em 1987, e conta a história de uma moça que exerce estranha atração sobre os homens.  Ela sempre termina morta por eles e sempre retorna.  Pois bem, terror-horror não é um gênero que eu goste, mas estou noticiando, porque muito da carreira de Junji Ito foi construída publicando shoujo mangá.  

Obviamente, quem lança o autor no Brasil, e Tomie (*1 - 2*) saiu pela Pipoca & Nanquim, não o faz por ser shoujo e faz questão de esquecer a demografia de origem.  Muito do terror-horror em mangá tem como origem revistas shoujo, mais adiante nas josei, também, e a coisa vem desde os anos 1960, pelo menos.  O novo capítulo de Tomie sairá na revista Nemuki+, que é especializada em suspense, terror e horror, no dia 12 de abril.  O título do novo capítulo é Tomie Control.  A notinha mais completa estava no Pro Shojo Spain.

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2024

Pipoca & Nanquim surpreende e anuncia Clássico de Hideko Mizuno no Brasil

Hoje, pouco depois da meia noite, uma amiga querida me perguntou se eu estava sabendo que Fire! (ファイヤー!), de Mizuno Hideko, provavelmente seria publicado no Brasil.  Sabe quando uma notícia é muito boa para ser verdade?  Quando é tão estranha que seu cérebro fica processando a informação e parece não aceitá-la?  Mas, enfim, a editora Pipoca & Nanquim fez o anúncio oficial em sua live hoje.  O anúncio vem lá quando o vídeo está passando de 1 hora e 37 minutos:

Fire! conta a história do jovem Aaron, que é injustamente encarcerado em um reformatório, onde conhece e faz amizade com o carismático Fire Wolf, um rebelde e cantor talentoso. Após a morte de Wolf em um acidente de moto, Aaron decide seguir seus passos e se tornar um músico de rock, iniciando assim um mergulho na contracultura dos Estados Unidos do final dos anos 1960. Dedicando-se totalmente à música e atormentado pelas incessantes visões de Wolf, Aaron explora as drogas, o misticismo e o amor.

Fire!  saiu entre 1969 e 1971 na revista Seventeen, que era a antologia shoujo mais adulta, por assim dizer, da época.  Foi o primeiro shoujo a ter um protagonista masculino e a ter uma cena de sexo.  Tempos atrás, traduzi (*mal e mal*) uma entrevista da Hideko Mizuno (*a original está aqui*) e ela falava das censuras que sofreu dos editores no início de sua carreira, quando qualquer toque entre personagens femininas e masculinas nas revistas para meninas era motivo de escândalo.  Em Fire!, ela teve liberdade para trabalhar e ganhou o 15º Shogakukan Manga Award.

Mas que ninguém fique muito empolgado achando que a autora teve seu talento plenamente reconhecido em sua época, porque na mesma entrevista que citei, Hideko Mizuno comenta de como era dura a vida de mangá-ka, mais ainda se fosse mulher, e de como Fire! foi encurtado, não por não fazer sucesso, mas por uma retaliação já que ela foi parte de um grupo de mangá-kas, dentre eles Tetsuya Chiba (Ashita no Joe), que decidiram fundar um sindicato.  Depois disso, ela passou a trabalhar mais como freelancer, porque as editoras evitavam lhe dar contratos fixos.  E, para tornar as coisas mais difíceis, no meio desse turbilhão todo, ela descobriu que estava grávida, apesar de ser uma mulher solteira.

Só que Hideko Mizuno, a única mulher a residir na década de 1950 no Tokiwa-so, o lendário prédio onde Osamu Tezuka, de quem foi auxiliar, ajudou a formar uma geração de mangá-kas, nunca se intimidou e continua produzindo até hoje. Para quem está achando o traço familiar, o SBT exibiu uma série animada baseada em um mangá da autora, Honey Honey no Sutekina Bouken (ハニー・ハニーのすてきな冒険), nos anos 1980.

Enfim, Fire! terá dois volumes na edição da Pipoca & Nanquim.  Originalmente, foram quatro volumes, acho, mas já foi republicado em múltiplos formatos.  A minha edição é bunko em três volumes.  De novidade, a edição da Pipoca & Nanquim trará dois gaiden que a autora publicou anos depois do término da série.  A previsão do lançamento é em abril com pré-venda a partir do mês que vem.  Eu imagino que cada volume não saia por menos de 90 reais. Como um dos sujeitos, que esteve em Angoulême, se empolgou e começou a falar de Hagio Moto, imagino que esta autora não tarde a aparecer por aqui.

domingo, 1 de janeiro de 2023

Pipoca & Nanquim anuncia o último josei do ano de 2022

 

No dia 30 de dezembro, a editora Pipoca & Nanquim anunciou o último josei do ano.  Eu já tinha terminado de gravar a retrospectiva de 2022 e tive que fazer um adendo, porque é um anúncio muito interessante.  Yume no Hashibashi (夢の端々), de Sudou Yumi, sairá no Brasil com o nome de Confins de um Sonho.  A série foi publicada na revista Feel Young entre 2018 e 2020.

O resumo fornecido pela editora é o seguinte: "Kiyoko é uma idosa, que vem sofrendo com a memória. No entanto, um dia, alguém de quem ela se lembra perfeitamente faz uma visita. É Mitsu, com quem Kiyoko teve um caso de amor.  A tragédia e os caprichos da existência as separaram – apesar dos encontros mais episódicos –, mas a magia da história nos permitirá voltar no tempo para aqueles momentos em que elas não imaginavam viver uma sem a outra. Confins de um Sonho é uma história íntima centrada no relacionamento profundo de duas mulheres ao longo das décadas."

A publicação original foi em dois volumes, mas a Pipoca & Nanquim lançará em um tomo só.  Eu vou comprar, porque parece interessante.  É um mangá yuri, como está evidente e imagino que as memórias da protagonista sejam da década de 1940, porque em outro resumo que li, é dito que Kyoko mora com a filha, a neta e a bisneta.  A inspiração do mangá deve ser as Hana Monogatari, que mostravam esses romances entre colegiais vistos como inócuos, porque eram entre meninas.  Eles deveriam cessar com a formatura em uma escola que era sempre feminina.  Imagino que, no caso da história, as coisas devem ter saído um pouco do controle.  Para quem não viu, o Shoujocast Retrospectiva de 2022 está no ar: 

sexta-feira, 29 de janeiro de 2021

Pipoca & Nanquim anuncia o lançamento de mangá shoujo de Junji Ito


Junji Ito é um mangá-ka conhecido por seus mangás de terror, é o nome mais conhecido do gênero fora do Japão.  O que pouca gente sabe é que ele começou sua carreira profissional com um mangá de terror produzido para uma revista shoujo, a defunta Gekkan Halloween em 1987.  Tomie venceu um concurso da revista e Ito ganhou o prêmio Kazuo Umezo, também um grande autor de mangás de terror.  E, sim, há montes de revistas josei e shoujo especializada em horror/terror sendo as mais destacadas a Mystery Bonita e a Nemuki, Tomie continuou sendo publicado nesta revista, aliás.

O resumo básico da história é o seguinte: "Todo homem que encontra Tomie fica obcecado por ela e, eventualmente, a mata e desmembra. Mas Tomie não é humana, e sempre volta ..."  A série foi publicada ao longo de 13 anos, tem dois volumes originais, mais um extra, três, portanto, e é episódico.  Tomie é a série que possibilita acompanhar a evolução da arte de Junji Ito e teve dorama e livro (novel) inspirados na série.  E, bem, estou comentando, porque é um shoujo e tem uma origem bem curiosa, mas a Pipoca & Nanquim está publicando não por ser shoujo, mas por ser Junji Ito.  De qualquer forma, é interessante para que as pessoas (*sei que a maioria nem vai se improtar em saber*) poderão ter uma ideia de que shoujo é uma demografia que não é monotemática, ou presa ao gênero romance escolar.

quarta-feira, 12 de agosto de 2020

Muito Além do Mangá: Comentando Grama, um quadrinho fundamental para entender a questão das "mulheres do conforto"

Segunda-feira da semana passada, terminei a leitura de Grama, quadrinho da coreana Keum Suk Gendry-Kim.  Trata-se de uma obra semi-autobiográfica construída sobre as memórias de uma sobrevivente da 2ª Guerra, a senhora Ok-sun Lee, que foi obrigada pelos japoneses à escravidão sexual.  Ela foi uma das muitas "mulheres do conforto", até hoje um dos assuntos mais melindrosos nas relações entre Coreia do Sul e Japão.  Mulheres do conforto eram mulheres e meninas utilizadas como escravas sexuais pelas tropas japonesas.  Eu já escrevi vários posts sobre a questão, então, sugiro que para um aprofundamento do tema, você leia outros posts do Shoujo Café.

Grama cobre um vasto período de tempo nas suas 480 páginas e sua narrativa não é linear, alternando eventos contemporâneos e as reminiscências de sua protagonista.  Começamos em 1996, na China, com o retorno da já idosa Ok-sun Lee para sua terra natal, a Coreia (do Sul) deixando para trás o marido idoso e o resto de sua família. Esse retorno se deu graças a um programa de TV que falou sobre as "mulheres do conforto".  55 anos depois, Ok-sun Lee voltava para a sua pátria, ela terminaria vivendo com outras sobreviventes na chamada "Casa de Partilha", foi lá que a autora de Grama a encontrou e elas passam a conversar sobre a vida, as experiências e a visão de mundo de Ok-sun Lee (*no centro na foto abaixo*).

Grama acompanha a protagonista a partir do ano de 1934, na região rural da província de Busan.  A narrativa vai entrelaçando os acontecimentos da vida da protagonista com a História da Coreia e da 2ª Guerra Mundial.  A Coreia estava ocupada pelo Japão desde 1910 e permaneceria assim até 1945.  A ocupação japonesa tinha como objetivo a colonização, não era somente a exploração da mão-de-obra coreana, mas a promoção da substituição da cultura local pela japonesa.

O sonho da protagonista era ir para a escola, algo que lhe foi negado, porque a família era paupérrima e se alguém pudesse estudar, os meninos teriam prioridade.  Mas é dito que os livros eram em japonês, as crianças eram obrigadas a falar em japonês, ou eram punidas, e até os nomes coreanos deveriam ser trocados por outros na língua do colonizador.  Nesse sentido, cito o caso do coreano Sohn Kee-chung, vencedor da maratona na Olimpíada de Berlim, correu com nome japonês e teve que ver hasteada a bandeira do Japão.  Ele foi lembrado e homenageado na Olimpíada de Seul, em 1988.  Mas, enfim,  Ok-sun nunca pode ir para a escola, mas a promessa teve papel importante na mudança sofrida na vida da menina.

Seu pai sofreu um acidente de trabalho, as condições familiares pioraram, eles passavam muita fome e a mãe de Ok-sun Lee conseguiu alguém que a "adotasse".  "Você poderá ir para a escola."   A menina aceitou, se não o fizesse, acredito que não teria escolha de qualquer jeito.  Na realidade, Ok-sun Lee se tornou criada em um restaurante.  Não havia escola, só trabalho duro.  Esse tipo de situação não é estranho ao Brasil.  Até hoje, famílias da cidade pegam meninas pobres "para criar".  A promessa é de estudo e melhores condições de vida, normalmente, é diferente, trata-se de escravidão doméstica, às vezes, combinada com abusos sexuais.

Nesse sentido, Ok-sun Lee quase foi prostituída por sua primeira família adotiva.  Ela resiste, não quer "beber" com um cliente.  Era uma menina de 12 anos, na época.  A primeira família a passa adiante, ela termina em condições ainda mais precárias em uma casa de prostituição.  Ok-sun não é prostituída, mas a possibilidade sempre está no horizonte.  Neste novo estabelecimento, ela poderia ser treinada para se tornar uma Gisaeng, isto é, "(...) mulheres coreanas de famílias de classe baixa ou escravizadas que eram treinadas para serem cortesãs, providenciando entretenimento e conversas para homens de classe alta".  

No posfácio de Grama, escrito pela pesquisadora Myung-sook Yun, há um artigo explicando como os japoneses favoreceram a expansão da exploração sexual de mulheres e como a miséria e o sistema patriarcal vigente na Coreia acabavam por normalizar a prostituição e escravização de jovens coreanas.  Sim, há vários tipos de prostitutas, historicamente e culturalmente, sua função pode variar muito, algumas chegam a exercer grande poder, PORÉM a maioria das mulheres nessa condição vive em situação miserável e de grande exploração.   Não espere de mim qualquer romantização da prática, fiquei feliz que Grama também não trata a questão de forma leviana.

Além de se posicionar criticamente em relação à prostituição, Grama parece mexer em um vespeiro que é mostrar a participação de coreanos no recrutamento das mulheres do conforto.  Segundo o posfácio, diferentemente dos lugares onde a ocupação militar japonesa era recente, na Coreia e em outras áreas colonizadas, eram os próprios habitantes que normalmente entregavam mulheres aos japoneses, eles participavam do negócio.  Havia sequestros, como no caso de Ok-sun Lee, mas, também, meninas e mulheres vendidas por famílias muito pobres, ou jovens enganadas por falsas promessas de emprego.  Ao que parece, os coreanos não gostam de comentar sobre essa parte da história, que a maioria das coreanas escravizadas não era retirada de suas casas sob mira de uma arma.  Esse detalhe sórdido, eu aprendi lendo Grama.

Segundo o posfácio, onde a ocupação japonesa era estável, caso da Coreia, o fornecimento das mulheres muitas vezes era feito pelos seus compatriotas.  Já o quadrinho mostra como é complicado para os coreanos de nossos dias compreender a pobreza extrema de gerações passadas.  Ok-sun Lee não consegue restaurar os laços com suas irmãs mais novas, porque elas não conseguem crer que a protagonista foi vendida pela mãe, porque a viram rezando para que pudesse revê-la até o último dos seus dias.  

O fato é que as mulheres do conforto coreanas são vítimas, mas houve coreanos que eram cúmplices dos japoneses.  É possível se questionar se eles e elas tinham alternativa, mas, também, é possível discutir como o tráfico de mulheres e meninas, sua objetificação, é algo normalizado em várias culturas.  O posfácio recorda, por exemplo, que casas semelhantes às das mulheres do conforto foram mantidas para atender às tropas norte americanas de ocupação entre 1945 e 1960.

Outra questão presente nessa discussão é o fato da Coreia ser um país rico e, para a maioria, esse passado de miséria e extrema exclusão social é algo muito distante, tanto que inimaginável.  Bem, Parasita, filme que arrebanhou prêmios Oscar este ano, aponta que a coisa não é bem assim, que, na verdade, os coreanos parecem não ver que os muito pobres e desesperados ainda estão entre eles.

A partir do momento em que Ok-sun Lee é sequestrada, vemos o calvário das mulheres do conforto.  Um carregamento com meninas e mulheres coreanas é levado para a China.  Primeiro, elas ficam em um aeroporto de Yanji, depois, não levadas mais para o norte, para a Mandchúria (Manchukuo).  A comida era ruim, ao chegar no aeroporto, Ok-sun Lee, então com 15 anos, e outras mulheres são colocadas para fazer trabalhos pesados junto com outros coreanos.  A comida é pouca e aparece um homem que demonstra compaixão por ela.  Esse moço era uma espécie de supervisor dos coreanos obrigados a trabalhos pesados, um colaborador, portanto.  Achei curioso, porque ele é quase tão jovem como a protagonista, no entanto, o desenho o faz parecer bem mais velho.

Não falei da arte, mas a autora tem um traço simples e usa muito bem o contraste em preto & branco.  As emoções estão retratadas nas pinceladas e em um trabalho minucioso que parece ser feito sobre fotografias.  Nunca vemos nenhuma violência de forma explícita, mas a autora usa metáforas visuais para deixar claro o que está acontecendo.  Um bom exemplo de como a arte é utilizada para ilustrar o terror sem mostrar o ato, é quando a protagonista é estuprada pela primeira vez, quando ainda era virgem.

Ok-sun Lee permaneceu como mulher do conforto entre 1942 e 1945.  Sofreu múltiplos estupros e surras, trabalhava mesmo menstruada, recebia pouca comida, tudo o que consumia era "vendido" pelo dono do bordel militar, um civil que administrava a casa e ficava com parte dos lucros, para as mulheres, somente dividas.  Ok-sun Lee contraiu sífilis, sobreviveu, mas perdeu sua capacidade de ter filhos, fato que, depois da guerra, diminuiu o seu valor como potencial esposa.  Uma das questões retratadas em Grama é como as mulheres do conforto eram humilhadas e tratadas como meros objetos.  Cabia a elas pedir que os soldados usassem preservativos, não raro, eles se negavam.  Elas apanhavam dos "clientes" e, se engravidassem, dos gerentes do "negócio".

Em dado momento, a autora do quadrinho, que faz as vezes de entrevistadora, pergunta se algum dos japoneses era diferente, se ela não se apaixonou por nenhum deles.  Ok-sun Lee diz que não, mas em suas memórias veio a recordação de um soldado que prometeu tirá-la do bordel.  Não era amor da parte dela, fica evidente que Ok-sun Lee não se permitiria amar o inimigo, mas uma questão de sobrevivência.  E Grama fala disso, da capacidade de sobreviver.  De como a grama, crescer e se levantar novamente.  Ok-sun não se tornou amarga, à despeito de tudo o que sofreu.  

Quando a guerra acaba para os japoneses, quando eles retiram as tropas da China, o sofrimento não termina para as mulheres do conforto.  Elas não tem para onde ir, elas não sabem o que está acontecendo.  O grupo de mulheres precisa buscar estratégias de sobrevivência.  Neste momento, o quadrinho conta um pouco da história de uma das companheiras de Ok-sun Lee, a quem ela reencontrou na casa de Partilha muitos anos depois.  Quantas mulheres do conforto não voltaram para seus países de origem?  Difícil saber.

Já para a população japonesa deixada para trás (*e eu esqueci o nome de um filme animado que trata disso*), e ela não era pequena, afinal, a colonização começara em 1932, o tormento estava somente começando.  Chineses e soviéticos queriam vingança e quem ficou para trás, incluindo mulheres e crianças, pagou um preço alto.  Alguém pode se perguntar por qual motivo usei a palavra vingança.  Peço que procurem saber o que foi o Estupro de Nanquim, que é citado em Grama, ou a Unidade 731.  Os crimes de guerra japoneses foram terríveis.

Enfim, a autora do mangá fala rapidamente dos estupros cometidos pelas tropas soviéticas, mas não explica algo importante.  Diferentemente do que ocorrera na Europa, em particular na Alemanha, na China o alvo era a população japonesa que ficara para trás e os atos de violência contavam com o apoio das tropas chinesas e o incentivo dos civis chineses que tinham sofrido inúmeros abusos.  Algo que ocorreu foi que japonesas se casaram com chineses (zanryu fujin) para não serem violentadas, ou mortas. Era uma situação complexa, que o quadrinho não explica.  Estou parando para comentar, porque se construiu uma narrativa de que os soviéticos estupraram, enquanto outros aliados, não.

Houve uma quantidade considerável de mulheres estupradas na Frente Ocidental e  norte americanos e os franceses cometeram muitos crimes contra as mulheres e meninas.  No caso da Itália, há registros de estupro de homens pelas tropas francesas, também, porque este tipo de crime nada tem a ver com prazer, é um ato de dominação mesmo.  E, no caso da Coreia do Sul, houve a persistência de bordéis para atender as tropas norte americanas durante um bom tempo, como comentei acima.  Sem nem entrar na discussão feminista sobre prostituição, basta escrever que muitas mulheres não estavam "servindo" as tropas de ocupação por vontade própria.  Resumindo, mulheres continuaram sendo estupradas.

Vocês sabem que Ok-sun não volta para a Coreia senão 55 anos depois do fim da 2ª Guerra.  Ela termina ficando na China, se assentando lá, casando.  Imaginem a confusão do final da guerra que já emendou com a Revolução Chinesa (1945-49).  Não vou dar detalhes dessa parte, mas muitos coreanos devem ter ficado na China, incapacitados de voltar para a Coreia, que seria partida em duas.  Em alguns casos, não se sabia o caminho de casa, em outros, não havia uma casa para voltar. Ok-sun retorna para a sua pátria por iniciativa do governo coreano, recebe de volta sua cidadania e apoio para viver no país, caso desejasse.  Ela passa a militar pelo reconhecimento do crime cometido contra ela e outras mulheres.  O que ela e suas companheiras esperam até hoje é uma compensação por parte dos japoneses.  

Houve um acordo em 2015, ano de lançamento de Grama, ele é citado no texto, o problema é que ninguém ouviu as mulheres, as sobreviventes, foi um arranjo entre estados.  O novo governo coreano decidiu rever o acordo e a questão das mulheres do conforto está de novo em evidência no momento em que escrevo.  Enquanto estava escrevendo esta resenha, tropecei em uma entrevista de Hayao Miyazaki na qual ele fala da necessidade de que o Japão assuma os crimes cometidos contra as mulheres  transformadas em escravas sexuais.  Essa posição controversa lhe rendeu algumas acusações de traidor e de agir de forma anti-patriótica.

Grama foi publicado originalmente na Coreia do Sul em 2017, já em 2019 foi publicado em várias línguas e aclamado tanto pelo público, quanto pela crítica.  Grama se enquadra no gênero autobiográfico que é muito comum entre mulheres quadrinistas na França e nos Estados Unidos.  Sim, eu sei que Keum  Suk Gendry-Kim é coreana, mas sua formação artística foi na França.  Ela segue nos passos de Persepólis, de Marjane Satrapi, Fun HomeVocê é minha mãe? de Alison Bechdel e, claro, Maus, de Art Spiegelman. O anúncio da obra no Brasil gerou grande ansiedade entre aqueles que conheciam o trabalho de Keum Suk Gendry-Kim.

Grama foi trazido para o Brasil pela Editora Pipoca & Nanquim e tem uma qualidade gráfica e de encadernação impecável.  A sobrecapa é muito bonita e escolheu um quadro impactante, a pequena Ok-sun Lee diante de seus sequestradores.  Já a capa interna é bem singela e usa o preto & branco da arte do quadrinho. E o uso do preto & branco, das linhas grossas, é uma das coisas que mais se destacam na arte, pelo menos para mim.  Como estou longe de ser especialista em quadrinhos coreanos, não vou ficar falando bobagem, mas lendo Grama me senti mais próxima de material franco-belga do que do material comercial coreano que já caiu nas minhas mãos.  E o texto flui muito bem, não tenho como comparar traduções, menos ainda o original, mas não vi defeitos na versão em nossa língua.  Grama não é barato, porém o material vale o preço cobrado.

Dada a importância do material, eu rompi um voto que tinha feito de não comprar nada que a editora lançasse em nosso país por causa da participação que o canal do Youtube da editora na campanha contra o filme da Capitã Marvel.  Sim, eu não ia deixar de falar disso, não, o Shoujo Café é um site feminista e eu não posso deixar essas coisas baratas.  No entanto, fico feliz que Grama tenha saído em nosso país.

No fim de semana, houve uma live com a autora no canal do Centro Cultural Coreano no Brasil.  O vídeo está ali embaixo, ainda não consegui assistir completo.  E está aberta uma exposição de Grama no Centro Cultural Coreano no Brasil (Av. Paulista 460 – Bela Vista), em São Paulo/SP. A mostra ficará aberta de 8 de agosto até 5 de setembro, das 13h às 17h.  Sei que em tempos de pandemia exposições desse tipo não são muito desejáveis, mas serão respeitadas regras de afastamento social.


P.S.: Gostaria de colocar legendas nas imagens, mas o novo Blogger dificultou muito esse processo.

terça-feira, 28 de julho de 2020

Nova estátua em Memória das "Mulheres do Conforto" gera conflito entre Japão e Coreia do Sul


Recentemente, duas estátuas foram erigidas no  jardim botânico em Pyeongchang, na Coréia do Sul, uma menina representando as mulheres e meninas coreanas sexualmente escravizadas pelos japoneses durante a ocupação  do país e a Segunda Guerra, e outra de um homem curvando-se em sinal de desculpas.  O porta-voz do governo japonês, Yoshihide Suga, se pronunciou indignado e argumentando que se as tais estátuas forem verdadeiras, elas irão impactar as relações entre os dois países.  Segundo o Japan Times, um ponto importante da questão é que o "homem genérico" seria muito parecido com o primeiro-ministro Shinzo Abe.

O governo japonês urge que a Coreia do Sul cumpra um acordo firmado em 2015 e que criou uma organização que desse suporte às mulheres sobreviventes.  O governo coreano atual dissolveu a organização que era criticada por ter sido criada sem ouvir as principais interessadas, as mulheres. Kim Chang-ryeol, chefe do jardim botânico, defendeu a obra argumentando que se trata de um homem genérico, pode ser tanto o agressor, quanto o pai da menina que não pode protegê-la do pior.  Ele também argumentou que cabe ao Japão se desculpar até que a Coreia aceite, afinal, isso seria uma demonstração de arrependimento.  Eu digo que arrependimento é algo que a gerontocracia japonesa não parece demonstrar mesmo.


As opiniões na Coreia do Sul estão divididas.  Alguns defendem a obra e outros argumentam que o homem parece com Shinzo Abe (*eu concordo*) e que é uma descortesia com o país vizinho.  Enfim, eu já escrevi várias vezes sobre as mulheres do conforto, da última vez quando foi anunciado que a editora Pipoca & Nanquim lançaria Grama, uma graphic novel autobiográfica narrando a experiência de uma dessas mulheres. Visite o post, por favor! Outra coisa importante, não foram somente coreanas as escravizadas, mas filipinas, chinesas, indonésias, malaias e até algumas ocidentais em menor número.

domingo, 21 de junho de 2020

Quadrinho coreano sobre as Mulheres do Conforto entra em Pré-Venda no Brasil


Grama da coreana Keum Suk Gendry-Kim é um quadrinho que conta a história de uma mulher do conforto, já falei muito disso no Shoujo Café (*Ex.: 1 e 2), mas são meninas e mulheres transformadas em escrevas sexuais para atender às tropas japonesas.  Boa parte delas era coreana e até hoje o Japão não se desculpou adequadamente por esse crime.  Encontrei um artigo no site Hyperallergic sobre o quadrinho de Keum Suk Gendry-Kim que explica que a palavra "mulheres do conforto", tradução da língua inglesa "comfort women", não tem o peso da expressão original que é  ianfu (慰安婦,いあんふ), uma variação de prostituta e que se aplica tanto para a mulher que era escrava sexual na 2ª Guerra e durante a ocupação japonesa de várias regiões asiáticas.


Grama tem como protagonista a menina Lee Ok-sun.  Muito pobre, ela foi vendida por sua família para trabalhar em um restaurante em Busan, em 1942.  Depois disso, seu primeiro dono-patrão a vendeu para uma taverna que servia, também, de prostíbulo.  Lá, ela trabalhava na cozinha e limpeza.  Um dia, voltando de uma missão fora do estabelecimento, Lee Ok-sun foi sequestrada e sua vida como "mulher do conforto" começou pouco depois, ela tinha 15 anos.


Segundo o BBM, Grama "Venceu o Prêmio Especial Bulles d’Humanité, do tradicional diário francês L’Humanité; entrou para as listas de melhores histórias em quadrinhos de 2019 dos jornais The New York Times e The Guardian; venceu os prêmios The Cartoonist Studio Prize, Big Other Book Award e VLA Graphic Novel Diversity Award".  É bastante coisa mesmo.


A graphic novel entrou em pré-venda hoje no Amazon com preço promocional de R$55,90.  O volume tem 492 página.  Seu lançamento oficial será em 21 de julho.  Eu tinha me proposto a nunca mais dar espaço para produtos lançados pelo Pipoca & Nanquim.  Motivo?  Eles participaram da campanha misógina contra o filme da Capitã Marvel.  No entanto, é um material muito importante para não comentar.  É isso.

domingo, 24 de março de 2019

Ainda a Capitã Marvel: Recomendação de Vídeo e Canal


Estava passando pelo Youtube e apareceu um vídeo nas minhas recomendações "Vídeo resposta: Pipoca & Nanquim e Capitã Marvel (Spoilers!)".  Parei para assistir e se você não sabia ainda qual canal eu critiquei em um texto meu (*está no final do Jornal*), agora, já sabe.  A crítica do Nebulla é ao segundo vídeo que o Pipoca & Nanquim fez esmiuçando a "ruindade" de Capitã Marvel e só para reforçar que o filme, que mereceu dois programas, seria mais um filme esquecível da Marvel.  OK, para vocês?  O canal Nebulla, que produziu o vídeo, é feito por feministas que entendem de cultura pop, Clarice França e Rebeca Puig.  Elas têm um site, também, anteriormente, elas faziam parte do Collant sem Decote.  O vídeo  da Capitã Marvel feito por elas vai além do filme ao tocar em questões que são muito importantes, como reduzir as mulheres à maternidade, criticar personagens femininas por serem fortes, ou serem idosas.  São muitos temas relevantes que justificam o tamanho do programa, são apresentados de forma didática e não agressiva (*para um misógino, o fato de uma mulher abrir a boca já é agressivo*) e vão além da simples resposta ao Pipoca & Nanquim.


O que eu peço para vocês é que ajudem a divulgar o canal.  Vozes femininas e feministas falando de cultura pop são importantes, mesmo que necessariamente a gente não concorde sempre com elas.  E mais uma coisa, Capitã Marvel não precisa de apoio de canal algum para ser um sucesso, nem será arranhado por críticas machistas, como já ficou comprovado em números.  O filme já está perto do 1 bilhão de dólares de bilheteria mundial, já é o filme mais assistido no Brasil este ano.  Sim, ainda estamos em março, Vingadores, com certeza irá ultrapassar Capitã Marvel com facilidade, talvez outros filmes o façam, também.  Normal.  Esse não é meu ponto.


De resto, Capitã Marvel ultrapassou Mulher Maravilha, que é um filme melhor aos meus olhos pela direção mais arrojada e por montar um universo, o mundo das amazonas, com minúcias, mas Capitã Marvel é bem mais feminista e ter vilões discretos e convincentes.  De qualquer forma, Aquaman, que eu considero inferior à Mulher Maravilha, superou o filme da Princesa Amazona nas bilheterias, também.  É isso!  Prestigiem o Nebulla, o material que elas produzem é muito bom e o youtube está precisando.  E se quiserem ler minhas resenhas dos filmes que citei é só clicar: Capitã Marvel, Aquaman e Mulher Maravilha.