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sábado, 11 de julho de 2026

Machiko Satonaka recebe a Ordem do Sol Nascente (Notícia velha) + Entrevista Traduzida de Machiko Satonaka

Está cheio de notícia velha aberta no meu navegador, porque eu tenho atrasado muita coisa.  Muito bem, uma delas, que eu preciso registrar, afinal, posso precisar dela no futuro, é que Machiko Satonaka, artista cuja entrada no mercado de mangá é considerado um divisor de águas da presença feminina na indústria, e Yoshiyuki Tomino, criador de Gundam  (機動戦士ガンダム/Kidou Senshi Gundam), receberam EM MAIO a Ordem do Sol Nascente, classe Raios de Ouro com Fita no Pescoço.  É a segunda maior comenda dada pelo governo japonês.  A Ordem do Sol Nascente foi criada em 1875.  Obviamente, foram vários agraciados, mas eles recebem destaque aqui por serem da indústria de anime e mangá.

Machiko Satonaka estreou em 1964, aos 16 anos, com Pia no Shouzou (ピアの肖像) e foi autora de inúmeras obras.  O ANN fez um histórico da carreira de Satonaka: "Ela atuou como professora na Universidade de Artes de Osaka, diretora da Associação de Cartunistas do Japão, diretora da Fundação Manga Japan , presidente da Associação de Mangá Digital e membro do Conselho de Promoção de Políticas Culturais e da Agência de Assuntos Culturais , entre outros cargos. Também recebeu prêmios por suas obras e serviços, como o Prêmio de Mangá da Kodansha e o Prêmio de Conjunto da Obra e Atividades Culturais do Ministério da Cultura e Ciência do Japão. Satonaka foi uma das homenageadas com o título de Pessoa de Mérito Cultural em 2023.".  Ufa!  Fechei uma das mais de quarenta abas por aqui. 🤗

Procurando fotos de Machiko Satonaka encontrei uma entrevista com ela de 2024 dada ao Departamento de Relações Públicas do Governo Japonês.  A entrevista original, em inglês, está aqui.  As notas do texto são do original.

VOL. 195 AGOSTO DE 2024.  EXPLORE O CHARME ÚNICO DO MANGÁ NO JAPÃO

A originalidade da produção de mangás japoneses cativa o mundo.


Artista de mangá SATONAKA Machiko . Estreou profissionalmente em 1964, ainda no ensino médio, com Pia no Shouzou (“O Retrato de Pia”). Ganhou o Prêmio Kodansha Publishing Culture por Ashita Kagayaku (“Tomorrow Will Shine”) e Hime ga Yuku! (“There Goes the Princess”). Seu mangá Kariudo no Seiza (“Constellation of the Hunter”) ganhou o Prêmio Kodansha Manga. SATONAKA Machiko também é autora de vários mangás históricos, incluindo Tenjou no Niji (“Arco-Íris Celestial”) e Jotei no Shuki (“Memórias da Imperatriz”). Ela também atua como professora na Universidade de Artes de Osaka e presidente da Associação de Cartunistas do Japão.

Tenjo no Niji (“Arco-Íris Celestial”) (publicado pela Kodansha Ltd.) retrata a vida da Imperatriz Jito (a 41ª governante imperial do Japão, que reinou de 690 a 697), usando Manyoshu como tema.  Foto: SATONAKA Machiko

Nos últimos anos, os mangás japoneses têm recebido aclamação internacional, despertando grande curiosidade sobre as origens de sua concepção e o processo de criação. Entrevistamos Satonaka Machiko, uma das principais artistas de mangá do Japão e presidente da Associação Japonesa de Cartunistas, sobre o que torna a originalidade da criação de mangás japoneses tão cativante.

As histórias em quadrinhos são amplamente publicadas em diversos países ao redor do mundo. Quais são as características distintivas dos mangás japoneses em comparação com os quadrinhos estrangeiros, na perspectiva do processo criativo?

Primeiramente, em países que não o Japão, os artistas de quadrinhos são basicamente considerados ilustradores, e seu trabalho é visto principalmente como o de desenhar. Por exemplo, como pude constatar durante uma visita aos Estados Unidos, a criação de quadrinhos americanos é muito semelhante à produção cinematográfica de Hollywood. A prática comum nos EUA é a editora controlar os direitos autorais e criar o mangá sob um sistema de divisão de trabalho, designando um artista para desenhar o personagem principal, outro para desenhar a personagem feminina, um roteirista para criar o roteiro e assim por diante. A pessoa cujo papel mais se assemelha ao de um artista de mangá no Japão, na verdade, apenas desenha seguindo as instruções da editora. Isso significa que, mesmo para o mesmo título de quadrinho, há vários artistas responsáveis ​​pela criação dos desenhos. Fiquei surpresa quando um artista de quadrinhos americano que conheci me disse: "Trabalhei no personagem principal do Batman por um tempo", porque essa abordagem é diferente da prática comum no Japão.

Na Europa, particularmente na esfera cultural francesa, desenvolveu-se um estilo pictórico de banda desenhada chamado "bande dessinée" ("tiras desenhadas" ou "BD", abreviadamente). Este estilo enfatiza o poder da imagem como principal ferramenta narrativa. Nele, cada fotograma se sustenta por si só como um desenho individual, e acredito que este método de criação seja uma forma de "apresentar a imagem como elemento principal".

Por outro lado, ao contrário dos quadrinhos americanos, o mangá japonês é, em princípio, criado exclusivamente pelo autor/desenhista de mangá. Em outras palavras, assim como os romancistas, os artistas de mangá são responsáveis ​​por todo o processo criativo, desde a fase conceitual de decidir que tipo de obra criar, até o desenho da arte original final e seu envio à editora. Além disso, existe uma continuidade entre todos os quadros e, partindo dessa continuidade, o artista cria um esboço conceitual chamado "nome"* ( neimu em japonês), que funciona como roteiro e storyboard, servindo de base para a criação do mangá. Cada obra é essencialmente um mundo único desenvolvido pelo artista; portanto, no Japão, a morte do artista significa o fim de todas as séries de mangá que ele criou. Diferentemente da animação, que é produto de uma divisão de trabalho, cada traço dos desenhos e cada fala dos personagens só podem ser criados por aquele artista em particular. Esses elementos compõem o mundo único do mangá japonês.

Como você acabou de mencionar, existe uma originalidade na criação de mangás japoneses que os diferencia dos de outros países. Qual você acha que é o principal motivo para o desenvolvimento desse estilo único que cativou o mundo moderno?

Particularmente significativa para o rápido desenvolvimento do mangá japonês após o fim da Segunda Guerra Mundial foi a influência de Osamu Tezuka.** No Japão, Osamu Tezuka é considerado o "Deus do Mangá", não apenas por ter criado muitas obras fascinantes, mas também por ter rompido com a sabedoria convencional do mundo do mangá e expandido os métodos expressivos do gênero. Antes de Tezuka, a estrutura do mangá era semelhante à de peças teatrais, consistindo em composições relativamente simples, nas quais o movimento era principalmente lateral. Em comparação, a composição do mangá de Osamu Tezuka era tridimensional e possuía profundidade. Além disso, Tezuka sempre apresentava composições altamente inovadoras, como desenhos em perspectiva aérea e a inserção de quadros com closes dos olhos.

Ambientado no século XXI , Mighty  Atom ( Astro Boy , Tetsuwan Atomu em japonês) é um mangá de ficção científica sobre um garoto robô com 100.000 cavalos de potência.  ©Tezuka Productions

Osamu Tezuka também era um gênio na criação de enredos. Até então, os mangás consistiam em histórias simples para crianças, ou engraçadas de uma forma inocente e um tanto tola, ou ainda contos fáceis de acompanhar sobre a "justiça sempre triunfando sobre o mal". Nas obras de Tezuka, por outro lado, os personagens principais eram figuras tipicamente desprezadas pela sociedade, incompreendidas por todos, solitárias, capazes até mesmo de se sacrificar para salvar o mundo. Apresentar um robô em vez de um humano como protagonista também foi uma abordagem inovadora.

A originalidade de Tezuka pode ser explicada pelo fato de que, durante o período em que esteve ativo, as revistas para meninos e meninas eram a principal plataforma de publicação de suas obras, de modo que seu público leitor era composto principalmente por alunos do ensino fundamental e médio. Assim, ele desenhava histórias que ensinavam às crianças, de forma acessível, que o mundo é um lugar complexo, onde as coisas nem sempre acontecem como desejamos, e que existe mais de uma forma de justiça. Essa abordagem levava os leitores a refletir sobre a questão: "Afinal, para que as pessoas vivem?". Em outras palavras, o poder da narrativa é o que conferiu às obras de Tezuka sua originalidade inigualável. A razão pela qual o mangá japonês atual não se apresenta apenas por meio de desenhos, mas se baseia fortemente em narrativas, cenários e layouts de quadros, é porque um único gênio, Osamu Tezuka, surgiu e mudou drasticamente a visão e o conceito convencionais de mangá.

Qual é, então, o processo normal de criação de mangás japoneses, um gênero que cativou a imaginação de pessoas no mundo todo?

No Japão, ao criar um mangá, o autor primeiro concebe a história. Ele imagina o cenário e o universo da obra que deseja retratar, bem como os personagens que aparecerão na narrativa. Esse processo de elaboração do conceito de um mangá leva muito tempo, às vezes até décadas, dependendo da obra.

Em seguida, para transformar o conceito em um mangá propriamente dito, o artista inicia um processo de criação de um rascunho chamado "nome", que funciona tanto como roteiro quanto como storyboard. Nele, pensa-se na composição de cada página, no layout dos quadros e nos diálogos. O mais importante de tudo é o design dos personagens. Qual a aparência deles, como se vestem, como falam? Diferentemente dos romances, o design visual também é fundamental nos mangás.

Esboço a lápis da obra de SATONAKA em Kojiki (“Registros de Assuntos Antigos”).  Foto: SATONAKA Machiko.

Assim que o “nome” estiver praticamente definido, o autor cria um esboço a lápis. Através de um processo de tentativa e erro, ele decide se desenha um close do personagem principal ou se altera a composição após comparar a página da direita com a da esquerda. Em seguida, vem o processo de arte-finalização com tinta.

O desenho após o rascunho ter sido finalizado com tinta.
Foto: SATONAKA Machiko

No desenho analógico, o artista usa uma caneta com tinta ou tinta sumi, mas alguns artistas preferem usar pincéis ou marcadores. Recentemente, muitos artistas também desenham mangá digitalmente, usando um computador pessoal. Depois de desenhar os personagens, o próximo passo é desenhar o cenário. Às vezes, o artista desenha paisagens como prédios, árvores e o céu, e às vezes adiciona efeitos como preenchimentos ou padrões. Esse trabalho às vezes é feito por assistentes. Através dessas diferentes etapas, o mangá ganha vida.

Desenho finalizado com fundo, retículas e cabelo preenchidos.
Foto: SATONAKA Machiko

A imagem do rascunho (à esquerda) e a versão final (à direita) lindamente concluídas através do trabalho de arte-finalização na pós-produção (de Tenjou no Niji (“Arco-Íris Celestial”).  Foto: SATONAKA Machiko

Muitas de suas obras possuem uma visão de mundo e um enredo épicos. O que você considera importante ao criar mangás?

No caso de mangás históricos baseados em fatos, por exemplo, esforço-me para incorporar um senso de respeito por figuras históricas que realmente viveram no passado em meu trabalho. Por exemplo, quando era adolescente, comecei a trabalhar no conceito de um mangá baseado em Manyoshu (“Coleção de Dez Mil Folhas”), uma antologia compilada aproximadamente no final do século VIII. O Japão antigo era considerado uma sociedade dominada por homens, com um sistema de status rígido, mas esse era o Japão após o estabelecimento da sociedade samurai. Como uma jovem garota, fiquei muito impressionada com o mundo completamente diferente, aberto e livre retratado em Manyoshu . Ao trabalhar neste projeto, fui inspirada pelo desejo de disseminar o conhecimento sobre as sensibilidades e ideias japonesas únicas que foram transmitidas desde os tempos antigos, expressas nos poemas waka dos poetas de Manyoshu .

Seu trabalho reflete sua paixão pela cultura japonesa. Que outras obras você recomendaria para quem se interessa por mangá japonês?

É maravilhoso ver cada vez mais mangás japoneses ambiciosos abordando temas difíceis e complexos. Estou especialmente impressionado com a profundidade e a intensidade dos mangás de guerra criados por jovens artistas. Um exemplo recente é Peleliu: Guernica of Paradise (de TAKEDA Kazuyoshi), que se passa nos campos de batalha da Segunda Guerra Mundial. Algumas outras obras recentes de mangá, cujos autores nos surpreendem com a escolha de temas desafiadores, incluem: Orb: Sobre os Movimentos da Terra (de UOTO), uma história sobre pessoas pesquisando a teoria heliocêntrica na Europa do século XV; e GOLDEN KAMUY (de NODA Satoru), uma história de aventura ambientada em Hokkaido no final do período Meiji e que retrata a cultura Ainu. Espero que os leitores tenham a oportunidade de descobrir este mundo de mangás japoneses excepcionais que se libertam das amarras do senso comum e criam novos valores e originalidade.

Peleliu: Guernica of Paradise (de Kazuyoshi Takeda) conta a história de jovens nos campos de batalha da Segunda Guerra Mundial.  Foto: ©Kazuyoshi Takeda / Hakusensha, Incorporated

GOLDEN KAMUY (de NODA Satoru), um mangá de grande sucesso ambientado em Hokkaido no final do período Meiji.  Foto: SHUEISHA

* Um esboço preliminar do layout do quadro, composição quadro a quadro, diálogo, posicionamento dos personagens, etc., criado ao desenhar um mangá. Também é conhecido como layout de quadro, nome preliminar, rascunho ou, em alguns casos, storyboard.
** Tezuka Osamu (3 de novembro de 1928 - 9 de fevereiro de 1989) foi um artista japonês de mangá e animação que também possuía um diploma de medicina. Ele foi uma figura de destaque no mangá de histórias no Japão. Suas obras notáveis ​​incluem Astro Boy (conhecido no Japão como Mighty Atom (em japonês: Tetsuwan Atomu), Phoenix e Black Jack.
*** As linhas da grade que dividem os desenhos de mangá em cenas ou seções de diálogo são chamadas de quadros. Determinar o tamanho e o posicionamento de cada desenho é chamado de "layout de quadro".
**** Uma folha transparente adesiva com vários padrões e gradações impressos, usada em design gráfico, ilustração, mangá, etc.    
***** A antologia de poemas waka mais antiga existente no Japão, que se acredita ter sido compilada no final do século VIII. Waka é um estilo literário de poema curto exclusivo do Japão.
****** Povos indígenas da parte norte do arquipélago japonês, particularmente em Hokkaido, que desenvolveram uma cultura única. Sua língua também é chamada de Ainu e pertence a uma família linguística não relacionada ao japonês.

Por MOROHASHI Kumiko

Foto: ©Kazuyoshi Takeda / Hakusensha, Incorporated; ©Tezuka Produções; SATONAKA Machiko; SHUEISHA

domingo, 1 de março de 2026

71º Shogakukan Manga Award é adiado por causa do escândalo com mangá-ka condenado por abuso sexual

Para quem não leu meu post de sexta-feira, um breve resumo: "A editora Shogakukan suspendeu a distribuição do mangá Joujin Kamen (常人仮面) após descobrir que seu autor,  Ichiro Hajime, era na verdade Shouichi Yamamoto, autor  do mangá Daten Sakusen (堕天作戦). O departamento editorial do aplicativo de mangá da plataforma Manga ONE, que pertence a Shogakukan, anunciou no dia 27 que interrompeu a distribuição digital da série e suspendeu o envio dos volumes encadernados. Um comunicado oficial explicando as circunstâncias e pedindo desculpas foi publicado no site da empresa."  

De novo temos que gente do calibre de Rumiko Takahashi (Ranma 1/2, Inuyasha), ONE (One Punch Man), Kanehito Yamada e Tsukasa Abe (Sousou Frieren) decidiram retirar seus mangás da plataforma Manga One.  Houve também uma nota da Associação dos Cartunistas do Japão comentando o caso.  E a Shogakukan fez um novo pronunciamento, se desculpando ainda mais (Mangás Brasil).  Vou repetir o que escrevi no post de sexta: os editores do Manga One sabiam que era o mesmo cara, achavam que o processo contra ele não daria em nada e que ninguém se importaria de verdade.  Outra coisa, a desenhista deveria estar no escuro.  Não acredito que ela soubesse.

Enfim, a última novidade é  que a Shogakukan anunciou que o 71º Shogakukan Manga Award, que seria no dia 3 de março, foi adiado.  Segundo consta, ainda não foi determinada uma nova data.  Imagino que deve estar  um barata voa na editora, porque eles devem estar prevendo o prejuízo, porque eles terão.  Não estou falando de perda de valor de mercado da marca, estou falando do dinheiro perdido com a reação dos mangá-kas, especialmente, dos maiores.  E é isso por enquanto.  Apostaram que poderiam contar com a ignorância e insensibilidade do  público.  Até o momento, estão se quebrando.

domingo, 31 de agosto de 2025

MPEG anuncia Chihayafuru e Hananoi-kun to Koi no Yamai no Brasil

 

Ontem, aconteceu em São Paulo a MPEG Fest e a editora anunciou uma série de títulos, sem deixar de fora as demografias femininas.  Durante alguns dias, foram postadas pistas nas redes sociais da editora e muita gente começou a fazer suas apostas.  Hananoi-kun to Koi no Yamai (花野井くんと恋の病), de Megumi Morino, era dado como certo, porque a pista era algo como "mangá shoujo com mais de 15 volumes e que teve anime".  Como a série é muito amada, ainda que eu não consiga gostar dela, e fez um sucesso absurdo, eu estava entre os que apostavam que seria o anúncio mesmo.

Já Chihayafuru (ちはやふる) era a aposta de algumas pessoas, porque a pista falava em mangá de esportes que popularizou no Japão um jogo.  Karuta pode ter se tornado mais popular por causa do mangá de Yuki Suetsugu no Japão, mas eu só apostaria na série se falassem que tornou o esporte conhecido no resto do mundo.  Afinal, teve várias temporadas de anime, dorama, filme live action, novels derivadas, spin-offs e contando para garantir a difusão do material.

O interessante de Chihayafuru, o que mais me chama a atenção, é o fato de ser a volta por cima da autora, acusada de plágio (*por uma bobagem*) e ostracizada.  Ela simplesmente criou um dos maiores  sucessos do mangá josei de todos os tempos e, ao que parece, terá dificuldades para seguir em frente.  Enfim, Chihayafuru tem 50 volumes, foi publicado entre 2007 e 2022; a edição da MPEG será a 3 em 1 e terá 17.  Acredito que é uma escolha segura, porque muita gente pedia o mangá por aqui.  Espero, espero mesmo, que a editora repense o uso dos honoríficos e não fique inventando coisas que atrapalham o texto (*veja meu Shoujocast sobre Nodame Cantabile*).  Talvez, eu compre o volume 1, mas nunca tive grande interesse por Chihayafuru, esse número de volumes me sugere que a enrolação foi grande e tenho tolerância baixa para essas coisas.

Voltando para Hananoi-kun to Koi no Yamai, serão 18 volumes.  A série, que começou em 2017, terminou este ano, em julho; o último volume sairá em outubro no Japão.  Também acredito que a editora vai conseguir um bom retorno.  Segundo o anúncio, Hananoi-kun começa a sair este ano, já Chihayafuru começa no ano que vem.  Ambos os mangás foram premiados, entraram em listas de melhores títulos no Japão e são publicados em vários países.  Grandes apostas, portanto.

sábado, 24 de maio de 2025

Kadokawa compra editora italiana de mangás e light novels

Segundo o ANN, a editora japonesa Kadokawa anunciou na última segunda-feira um acordo para a compra da editora italiana de mangás e light novels Edizioni BD S.r.l (também conhecida como J-Pop Manga).  A gigante japonesa comprou 70% das ações da editora italiana e a irá torná-la sua subsidiária. Se o negócio for confirmado, o presidente e CEO da Edizioni BD, Marco Schiavone, deteria 20% das ações, e a distribuidora Messaggerie Libri, 10%.  E cito direto do ANN:

"Com a aquisição da Edizioni BD, sediada em Milão, Itália, a Kadokawa pretende traduzir e publicar mangás, light novels e títulos relacionados. A empresa planeja expandir sua presença por toda a Europa com suas colaborações internacionais. A estratégia de negócios da Kadokawa é promover uma "Mistura Global de Mídia com Tecnologia".  A Edizioni BD (Mangá J-Pop) publica cerca de 500 mangás e light novels em italiano. A empresa introduziu novos designs de livros no país, com capas e sobrecapas envolventes semelhantes às dos volumes compilados do Japão."

A matéria comenta a seguir de vários movimentos da Kadokawa rumo a expansão de seus negócios no Japão e em outros países através de compras de outras empresas e parcerias.  Espero que, no caso da editora italiana, a parceria seja benéfica.  A Itália é um dos maiores mercados de mangá fora do Japão.


sábado, 1 de março de 2025

Panini faz vários anúncios importantes para fechar fevereiro

Ontem, a Panini anunciou novos mangás, assim como a data dos seus próximos lançamentos.  Vamos lá!  Todos os links são do site Biblioteca Brasileira de Mangás.

  • Honey Lemon Soda (ハニーレモンソーダ) entrará em pré-venda no dia 03 de março.  Lembrando que o anime da série está no ar e que ela já está no seu 28º volume no Japão e com grande sucesso.
  • Tamaranai no wa Koi na no ka (たまらないのは恋なのか), de Mia Sorahana, da Betsufure, foi anunciado com previsão de lançamento é para maio.  A série está com 4 volumes até o momento.
  •  Goukon ni Ittara Onna ga Inakatta Hanashi (合コンに行ったら女がいなかった話), ou How I Attended an All-Guy’s Mixer, de Nana Aokawa, é publicado no site Gangan Online.  Sai ainda este ano e tem 8 volumes até o momento.  A série shoujo teve anime na temporada de outubro.
  • Por último, foi anunciado o mangá josei Kaisha to Shiseikatsu On/Off (会社と私生活-オンとオフ-), de Shinnosuke Kanazawa, que sai na Gangan Pixiv,  tem três volumes até o momento.  Sai este ano, sem data definida.
  • Foi só isso, ou tem mais alguma coisa?

Duas coisas, fico muito feliz que o nosso mercado está em uma boa maré para shoujo e josei.  Tão bom que a gente pode/precisa ESCOLHER o que comprar.  Imagina que a gente poderia chegar nisso?  Como estão anunciando coisas novas todo o tempo, a gente imagina que as vendagens estejam compensando.  Agora, como eu estou furiosa com a Panini, porque Meu Casamento Feliz (Watashi no Shiawase na Kekkon) ou não saiu, ou meu volume não chegou na minha mão ainda.  A data original era 29 de novembro.  Comprei no Amazon, na pré-venda, nunca chegou e aparece indisponível.  Está na loja da Panini como indisponível, também.  E, vejam que coisa curiosa, tem pacote de pré-venda com vários volumes no site da editora.  Vou arriscar?  NÃO!

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2025

Nova editora de mangás no Brasil anuncia importante título da editora Kodansha

Não conhecia a editora Taverna do Rei.  Pesquisando, descobri que é um desdobramento de uma importante loja de quadrinhos e colecionáveis.  Se o site da SERASA não está errado, ou eu estou procurando no lugar errado, ela nem é antiga, parece que o registro é de 2022.  A loja deles na internet é esse aqui.  Alguém me passou uma postagem da BBM (Biblioteca Brasileira de Mangás) comentando da live (*não sei de quem*) que anunciou o licenciamento de  Kimi no Yokogao wo Miteita (きみの横顔を見ていた), de Rumi Ichinohe, que é publicado na revista Betsuma.  A série foi indicado para o 48º Prêmio Anual de Mangá Kodansha na Categoria Shoujo em 2024.

O resumo da série é o seguinte: "Hikari é vista como uma garota extraordinariamente comum. Um dia, ela começa um novo hobby. Imaginar como seria um romance entre sua linda amiga Mari e o cara bonito da classe, Ootani. É tudo uma diversão inofensiva até que os papéis começam a se confundir na mente de Hikari. Ela realmente tem que ser apenas a melhor amiga nessa história de amor? E quem está na mente de Otani quando seus olhos vagueiam?"  No momento, Kimi no Yokogao wo Miteita tem 4 volumes lançados.  

Apesar do resumo do Bakaupdates, eu raramente vi uma protagonista que se mostre tão interessante logo no primeiro capítulo.  Primeira coisa, Hikari é mais bonita que a melhor amiga bishoujo.  Segundo, mesmo se vendo como medíocre em tudo, a personagem tem uma grande imaginação (*ela criou o tal romance entre Mari e Ootani, com direito a escalação de elenco para dorama*) e ela se empenha em ajudar a amiga, não tendo nenhuma trava para conversar com os garotos.  É um shoujo escolar promissor, eu diria.  Tem scanlations para quem quiser conhecer.  Elas estão aqui.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2024

Shoujocast no Ar! Balanço dos MangásShoujo e Josei lançados em 2024 no Brasil

O ano de 2024 foi marcado por uma série de lançamentos de mangás que, no Japão, são voltados para o público feminino.  Neste Shoujocast de balanço do ano, listamos todos os lançamentos de shoujo e josei das editoras brasileiras e falamos um pouquinho de BL e GL, também.  A base para a lista dos lançamentos é o site Biblioteca Brasileira de Mangás.

sexta-feira, 29 de novembro de 2024

Shounen Jump aumenta o salário dos mangá-kas novatos

O Sora News trouxe uma matéria sobre a decisão da direção da Shounen Jump, a mais importante antologia de mangás do Japão, de aumentar os valores pagos aos artistas novatos.  A mensagem postada no Twitter é a seguinte: “Gostaríamos de informar a todos que o pagamento mínimo de manuscrito para mangás serializados ou one-shot na Shonen Jump foi aumentado, com efeito a partir de novembro de 2024.  Com base nos lucros de vendas recebidos dos leitores da Weekly Shonen Jump (edições impressa e digital), continuaremos a fazer tais reservas no futuro para produzir melhores ambientes de trabalho para os criadores da nossa revista.”

Com a mudança na tabela de pagamentos, os artistas receberão um mínimo de 31.350 ienes (US$ 206) por página colorida e 20.900 ienes (US$ 139,30) por página em preto e branco. Segundo o SN, "A grande maioria das páginas de mangá é publicada em preto e branco, e assumindo uma contagem média de páginas de 20 páginas por capítulo, isso daria 418.000 ienes em ganhos por capítulo/semana, o que se estende a 1.627.000 ienes por um mês com quatro edições, ou cerca de 21,7 milhões de ienes por um ano de 52 semanas."  

Que fique claro que é o pagamento para novatos, não estamos falando de mangá-kas experientes, muito menos dos figurões da revista.  Gostaria de ter uma ideia de qual o pagamento em outras revistas de menor tiragem.  E imagino que o artista, caso tenha assistentes, divida esse valor com os colegas.

quinta-feira, 7 de dezembro de 2023

Mermaid Melody Pichi Pichi Pitch é o novo shoujo da Panini

Em um movimento que me surpreendeu (*e não foi positivamente*), a Panini anunciou Mermaid Melody Pichi Pichi Pitch  (マーメイドメロディーぴちぴちピッチ), de Michiko Yokote (roteiro) e Pink Hanamori (arte), na CCXP.  A série tem 7 volumes e foi publicada na revista Nakayoshi entre 2002 e 2005.  Mermaid Pichi Pichi teve duas temporadas animadas que juntas somaram 91 episódios e nunca foram exibidas no Brasil, nem lançadas em home vídeo.  O ponto de partida do mangá é o seguinte:

Lúcia é a nova aluna da escola. Ela e a irmã administram um banho público muito popular. Quando Lúcia conhece um surfista de aparência incrível, há apenas um pequeno problema: Lúcia é uma sereia - não qualquer sereia, mas uma princesa em uma importante missão para salvar os sete mares de uma força maligna decidida a assumir o controle do mundo marinho. Tal responsabilidade não deixa muito tempo para o romance. Mas Lucia promete proteger seu mundo e conquistar o coração do belo Kaito.

Trata-se de uma série de garota mágica (mahou shoujo) feita na onda de Sailor Moon (美少女戦士セーラームーン).  Lucia irá ter uma equipe de companheiras, essa é a novidade lançada por Naoko Takeuchi em seu grande trabalho, mas, como na boa tradição das garotas mágicas desde os anos 1960, a protagonista é uma princesa que está em nosso mundo com uma missão.  Mermaid Melody Pichi Pichi Pitch tem seu fandom e, em 2021, começou na mesma Nakayoshi uma continuação com a filha da protagonista chamada Mermaid Melody Pichi Pichi Pitch aqua (マーメイドメロディー 『ぴちぴちピッチaqua』).  O mangá original foi relançado em 2022, aniversário dos vinte anos da série, com novos extras, mas sem os gaiden da primeira edição.  Imagino que seja esta a versão que a Panini deve lançar por aqui.  

Há quem esteja contando que o movimento da Panini, que poderia ter anunciado o novo mangá de Io Sakisaka, ou a nova versão de Mars (マース) publicada pela editora na Europa, é contando com um novo anime da série, seja um remake do original ou uma versão da sua continuação.  Eu creio que se Mermaid Pichi Pichi tiver novo anime será somente para os 20 anos da série de TV, ou seja, em 2025, se for o da série nova, ele pode vir antes. 

 

Esta imagem é um fanart e veio daqui.

Bem, não me interessei pela série quando ela foi lançada lá atrás.  Não vi nada de especial em Mermaid Pichi Pichi que me puxasse para a leitura do mangá ou para o anime.  Talvez, compre o primeiro volume para que minha filha, que tem 10 anos, público alvo original do produto, possa dar uma olhada, mas eu duvido que ela se interesse de verdade.  Vamos esperar para ver.  

Uma coisa é Sailor Moon, um fenômeno cultural, outra coisa é apostar em derivados de segunda linha, mas é uma escolha da Panini, espero que a série encontre seu público, seja o novo, seja o de saudosistas.  De minha parte, a Panini foi a editora que menos se empenhou nos lançamentos de shoujo e josei este ano.  A JBC e a Newpop tem oferecido muito mais.

sábado, 5 de agosto de 2023

L&PM lançará em agosto mangá norte-americano de Orgulho & Preconceito

Em 2017, postei a resenha da edição de Orgulho & Preconceito feita nos Estados Unidos por Stacy King (roteiro) e  Po Tse (Arte) como parte os meus posts para marcar os 200 anos da morte de Jane Austen, autora do livro original.  Hoje, o Apolo Dionísio me repassou um post o Twitter do Lacradores Desintoxicados comentando o lançamento da obra pela L&PM.  Como ele falou mangá, meu coração deu uns pulinhos, porque pensei que era o mangá-mangá Kouman to Henken (高慢と偏見) feito por Reiko Mochizuki.  

A previsão de lançamento é 15 e agosto, no Amazon não há preço ainda, mas na página da editora está R$74,90.  E há o resumo do volume: "Em uma época em que as mulheres não podem trabalhar nem receber heranças, meninas e jovens são criadas com um só objetivo em mente: casar com um homem rico. Mas Elizabeth, a mais inteligente e espirituosa das irmãs Bennet, não pensa exatamente como as outras moças. Porém, as regras de etiqueta e a separação entre as classes sociais podem atrapalhar, e muito, as relações entre as pessoas. Conseguirá ela enxergar a verdade, além do orgulho e do preconceito?  O romance Orgulho e preconceito foi escrito no final do século XVIII e publicado por Jane Austen em 1813, conquistando milhões de leitores em todo o mundo, atravessando séculos e ganhando incontáveis adaptações. Toda a alegria, o suspense e o humor da obra de Jane Austen estão aqui preservados nessa versão em mangá, especialmente pensada para a nova geração de leitores."  Abaixo, a contracapa original.

Orgulho & Preconceito é o livro mais lembrado de Jane Austen, foi adaptado em vários países para quadrinho, cinema, TV e séries da internet.  A última citação à Orgulho & Preconceito que apareceu diante de mim, foi no filme Barbie.  Aliás, já assistiu?  Vale a pena!  Aqui, no Shoujo Café, além da resenha do quadrinho, tenho textos de outras adaptações de Orgulho & Preconceito: 1940 (filme), 1967 (série da BBC), 1980 (série da BBC), 1995 (série da BBC), Lost in Austen (série da ITV/2008), Orgulho & Preconceito & Zumbis (filme).  Sim, eu preciso resenhar o filme de 2005 e já é mais que tempo de uma nova adaptação de Orgulho & Preconceito para a TV, ou cinema, desde que não seja pelo pessoal que fez o último Persuasão da Netflix.  De qualquer forma, devem estar esperando 2025.

domingo, 14 de maio de 2023

Com um em cada sete livros vendidos, a França se tornou o outro país do mangá (Artigo traduzido)

Estava procurando algum artigo interessante sobre mangá no Le Figaro, importante jornal francês, e tropecei neste artigo que foi publicado durante o Festival Internacional de Quadrinhos de Angoulême, o mais importante do mundo.  "Avec un livre sur sept vendus, la France est devenue l'autre pays du manga" é um texto curto e assinado pela própria editoria do jornal e trata do crescimento do marcado de mangá na França, a fatia que os mangás já abocanharam dentro da quantidade de livros vendidos no país e, um detalhe importante, dois, na verdade a renovação do público e como o Pass Culture, um subsídio do governo francês, vem servindo para alavancar as vendas de mangá no país.  

O texto traduzido está abaixo.  Mantive a estrutura do texto, só linkei o instituto GfK.  Como não tinha imagens, não coloquei.  O texto traz vídeos de Angoulême, mas tem que abrir o link original, que está lá em cima.


Com um em cada sete livros vendidos, a França se tornou o outro país do mangá

Por Le Figaro com AFP

Em 2022, 28 títulos do gênero apareceram no ranking dos 100 livros mais comprados do país.

Cerca de um em cada sete livros comprados na França em 2022 foi um mangá, com crescimento que deve continuar dada a pouca idade dos leitores, segundo estudo revelado pelo instituto GfK. O instituto, que é uma referência na venda de livros, constatou durante o Festival Internacional de Quadrinhos de Angoulême que os mangás representavam 57% do mercado de quadrinhos em número de volumes, o que representa 25,2% do mercado livreiro. “Os mangás estão atingindo novos patamares, depois de já terem tido um ano histórico em 2021”, explicou a consultora da GfK Casseline Rosello em entrevista coletiva.

Em dez anos, o volume do mercado francês de mangás, segundo no mundo atrás do Japão, quadruplicou. Atingiu 381 milhões de euros em valor em 2022. Um gênero de mangá, shounen (para meninos adolescentes), representa sozinho 43% das vendas de quadrinhos na França.

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Embora nenhum mangá tenha aparecido entre os 100 livros mais vendidos em 2019, foram três em 2020, 24 em 2021 e 28 em 2022. Esses títulos muito populares, como as 253.000 cópias em 2022 do primeiro volume de One Piece, geralmente são estreias de séries de baixo custo, para convencer o leitor a prosseguir. One Piece tem, portanto, 103 volumes até o momento em francês.

O papel do Passe de Cultura, um subsídio estatal para alunos do ensino fundamental e médio [1] para a compra de produtos culturais, deve ser colocado em perspectiva. “A ideia de que o Passe de Cultura seria um Passe de mangá foi bem recebida”, sublinhou quinta-feira de manhã em Angoulême a Ministra da Cultura Rima Abdul Malak.

Quanto aos livros adquiridos com este passe, o item mais comprado pelos seus seus detentores é o mangá representando 43% das vendas em volume e 29% em valor. A GfK observou a expansão da base de clientes de mangá. Em 2022, “leitores que já compravam mangá compraram um pouco menos. Temos mais crescimento do lado de quem não comprou”, disse Casseline Rosello.

Este ano, o Festival de Angoulême recebeu várias estrelas da manga como Hajime Isayama (Attack on Titan), Ryoichi Ikegami, criador da série Crying Freeman, entre outros, ou Junji Ito (Maniac de Junji Ito, antologia macabra na Netflix).


[1] O limite de idade é 18 anos, se entendi bem.

domingo, 16 de abril de 2023

Mangás: como as editoras alternativas estão lidando com os gigantes do mercado (Artigo Traduzido)

Mais um artigo sobre o mercado de mangás francês.  Também, publicado na seção de economia do importante jornal Le Figaro, é de 2022, mas acredito que a discussão não mudou de lá para cá.  O título original é "Mangas: comment les éditeurs alternatifs font face aux mastodontes du marché", o autor da reportagem, Arthur Bayon, é o mesmo do artigo que traduzi e publiquei na semana passada (Mangás: editoras francesas trazem clássicos esquecidos de volta à vida).  Como expliquei na semana passada, meu francês é preguiçoso, se você detectar algum problema na tradução, ou tiver alguma sugestão, é só deixar nos comentários.  Tentei manter a estrutura original do artigo, inclusive, com as mesmas imagens, e coloquei como nota o nome original dos mangás que estão no texto em sua versão francesa.

Sei bem que o mercado francês é imenso e não há possibilidade de compará-lo em seu gigantismo com o nosso minúsculo mercado de mangá, porém, as estratégias das pequenas contra as grandes, o tema do artigo, parecem ser semelhantes as usadas aqui.  De resto, um dos editores coloca em evidência o quanto as editoras francesas vendem muito mal os shoujo mangá.  E isso foi discutido semana passada.  Não acreditam no seu potencial, não fazem promoção adequada e, como está no artigo da semana passada, a maioria dos jornalistas são homens e pouco, ou nada, entendem de mangás femininos, isso, claro, quando não os olham com preconceito.  Mas leiam o artigo, porque vale a pena.


Mangás: como as editoras alternativas estão lidando com os gigantes do mercado

Por Arthur Bayon

Capa do volume 7 de Tigre des neiges [1] de Akiko Higashimura (detalhe), publicado pela Lizard Noir.

INVESTIGAÇÃO – O sucesso dos quadrinhos japoneses na França está deixando você tonto, mas apenas um punhado de editoras domina esse lucrativo setor. Diante delas, as independentes devem competir em inventividade para se destacar.

Com 47 milhões de cópias vendidas na França em 2021, o dobro de 2020, é impossível negar a explosão do mangá na França. Mas nem todos os editores se beneficiam dessa mania da mesma maneira. De fato, metade das vendas desses quadrinhos japoneses no ano passado se concentrou em apenas 17 séries.

Um punhado de editoras divide a maior fatia do bolo: as históricas Kana (Naruto), Panini (Demon Slayer), Glénat (One Piece) e Pika (Attack on Titan), e aquelas que floresceram nos anos 2000 como Ki- oon (My Hero Academia, Jujutsu Kaisen), Kurokawa (Spy x Family) e Kaze, que se tornou Crunchyroll (Kaiju n°8).

Nesse contexto, como as menores editoras conseguem encontrar um lugar ao sol? Le Lézard noir, Noeve Grafx, Akata, Mangetsu, naBan e Shiba, coroados com vários sucessos nas livrarias, revelaram as suas receitas ao Le Figaro.

Cuide muito bem das características físicas do mangá... e mantenha um preço acessível

"A primeira coisa em que queríamos marcar a nossa diferença é a confeção", explica Bertrand Brillois, director editorial da Noeve Grafx. Lançada em novembro de 2020, esta editora manga completa a oferta da Noeve, uma editora especializada em livros de arte e fotografia. Alto relevo, baixo relevo, impressão metalizada, verniz seletivo, verniz inchado, laminação com iridescência ou lado emborrachado... Noeve Grafx oferece uma diversidade impressionante de técnicas que visam "transformar o mangá em um belo livro".

O caso de Veil é bastante emblemático: grande formato em cores, capa em relevo com título dourado, cinco papéis diferentes... Além disso, a textura da jaqueta de Don't Call It Mystery [2] imita o cabelo de seu herói e o de Miss Kobayashi Dragon Maid [3] se assemelha a pele de réptil. “Procuramos melhorar, em consulta com o detentor dos direitos ou o autor, tudo o que pode ser melhorado”, resume Bertrand Brillois. A bela edição de colecionador de Steam Reverie in Amber [4], por exemplo, não foi publicada no Japão.

Steam Reverie in Amber na edição de colecionador. Noeve Grafx

Apesar de tudo, o preço do mangá da Noeve continua razoável, começando em 7,95 euros, como é o caso de seus três títulos mais vendidos de 2021, Rent-a-Girlfriend [5], Miss Kobayashi's Dragon Maid e Stop Hating Me Nagatoro [6] (entre 30 e 50.000 cópias vendidas). Desde abril, foi lançada uma coleção XS a apenas 3,95 euros – série completa e não apenas os primeiros volumes. Bertrand Brillois explica simplesmente que optou por uma "margem menor" que a da concorrência, mantendo-se lucrativa.

Versão da Mangetsu

Mangetsu também dá especial atenção à produção de seus mangás, em particular suas capas muito elaboradas com verniz seletivo, tudo a um preço atraente (24,90 euros pela capa dura completa de 752 páginas de Tomie). O design mais simples de sua série principal Ao Ashi permite que o preço caia para 6,90 euros.

Construir e manter a comunidade

O que seria de uma editora sem seus leitores? Não muito! Muito próximo de sua comunidade, Mangetsu entendeu bem isso. Lançada em março de 2021, esta marca se juntou recentemente ao grupo Hachette junto com sua controladora a Bragelonne. Em termos de número de liberações mensais, recursos financeiros e pessoal, o funcionamento do Mangetsu permanece no momento comparável ao de uma estrutura independente.

Todo mês, na lua cheia (mangetsu em japonês), o diretor da coleção, Sullivan Rouaud, convida seus leitores a se encontrarem no YouTube para apresentar os últimos lançamentos, discutir números de vendas e anunciar uma novidade que está por vir. "Tsukimi", uma transmissão ao vivo no Twitch na companhia de um convidado, completa o dispositivo mensal. O público desses vídeos permanece modesto (entre 1.000 e 11.000 visualizações por vídeo no YouTube), mas tem como alvo os livreiros e leitores mais engajados.

Trecho do 9º episódio do “Tsukimi”, no canal da editora Mangetsu, com Sullivan Rouaud (esquerda) e o artista Tiers Monde. Captura de tela do YouTube.

A Mangetsu está particularmente atenta ao feedback de seus leitores. “A primeira edição de Tomie tinha pequenos erros com o papel sendo muito fino. Rapidamente corrigimos isso”, explica o editor da coleção. Este mangá está perto de 40.000 volumes vendidos hoje.

Versão da Noeve Grafx: cartões colecionáveis

A Noeve oferece cromos dentro de cada manga, feitos por Cartamundi (Magic: The Assembly). Há até 30 a 60 chances de encontrar um cartão assinado à mão pelo mangaká.

Versão da Shiba: cheio de brindes

A pequena editora belga Shiba toma um cuidado especial com seus brindes: frasco de pedras fosforescentes para Colorless [7] (“intriga as pessoas que dizem para si mesmas “bicho, eles dão sais de banho”, brinca Laurent Schelkens, o diretor editorial), marcadores de livro, tatuagens autocolantes, tote-bags, mouse pads ou placas duplas para colocar o seu terceiro mangá Zingnize [8].

Assumir uma linha editorial clara e alternativa

Para resumir a linha editorial da Akata, Bruno Pham cita três eixos: "mangá feminino", "mangá social" e "maluco" ("gosto de descrever a coleção WTF?! como a Fluide glacial [9] em forma de mangá"). Os dois primeiros eixos, que muitas vezes se sobrepõem, conferem a Akata uma identidade marcada com muitas obras que tratam da violência social e questões discriminatórias (estupro e assédio em En proie au silent [10], surdez em A Sign of Affection [11], transidentidade em Boys Run The Riot [12]... ).

"Você tem que ser capaz de se assumir porque pode ser muito polarizador", diz o gerente editorial. "Somos muito criticados por isso porque supostamente mudamos o assunto das obras, que as politizamos... Também temos comentários homofóbicos em nossa linha editorial com características de assédio."

Akane Torikai é um dos principais autores da Akata. Seu último título, Saturn Return, está concorrendo ao título de melhor quadrinho asiático do ano, concedido pela ACBD. Akata

A Akata é sem dúvida a editora mais apegada ao shoujo, ou seja, aos mangás destinados ao público feminino, geralmente escritos por mulheres. “Sempre reivindicarei a importância do shoujo", insiste Bruno Pham. "Se pensarmos em termos de quadrinhos internacionais, não há outro país além do Japão que tenha dado tantos lugares para as mulheres como autoras. Porém, o shoujo tem fama de vender mal... É um discurso da mídia e de algumas editoras, e isso me cansa. Se não pudéssemos vender shoujo, já teríamos fechado há muito tempo."

"Queremos decifrar a sociedade japonesa contemporânea, mostrar um Japão real longe dos cartões postais"
Stéphane Duval (Le Lézard noir)

Inicialmente focada no terror com autores como Suehiro Maruo, a linha editorial de Le Lézard noir deu uma guinada em 2009 com Le Vagabond de Tokyo [13], “crônica social e marcadora do que viria a ser o catálogo”, explica o diretor da publicação Stéphane Duval. Essa vontade de "decifrar a sociedade japonesa contemporânea, de mostrar um verdadeiro Japão longe dos cartões-postais" encontra-se na obra de Shinzo Keigo (Mauvaise Herbe [14]) e Minetarou Mochizuki (Chiisakobe). Regularmente selecionado em Angoulême, Le Lézard oferece um catálogo às vezes exigente, mas também mangás muito acessíveis, como seu best-seller La Cantine de Midnight [15] (150.000 cópias vendidas desde 2017) e seus mangás infantis.

“Quando você é uma pequena editora, não deve tentar se colocar no nível das grandes, isso não faz sentido. A melhor maneira [de sobreviver] é encontrar um núcleo duro de leitores que se interessem por seus títulos por meio de suas escolhas, e que sejam relevantes para a “cor” do catálogo”, acredita Christophe Geldron, gerente editorial da naBan , que notavelmente conseguiu se unir em torno dos títulos de ficção científica Destination Terra [16] (12.000 vendas) e Millenium Darling [17], atualmente bem recebidos.

Versão IMHO: assustador e esquisitices

IMHO apresentou vários autores cult na França: Suehiro Maruo (The Camellia Girl) [18], Hideshi Hino (L'Enfant Insecte) [19], Atsushi Kaneko (Bambi), Junko Mizuno (Cinderalla) e, claro, Shintaro Kago (Carnets de massacre) [20].

Cornélius, Isan e Black Box, especialistas em clássicos

Em 2005, a Cornélius lançou Prince Norman de Osamu Tezuka e, desde então, assumiu a edição de dois monumentos do mangá clássico: Shigeru Mizuki (NonNonBâ [21]) e Yoshiharu Tsuge (Les Fleurs rouges [22]). Criado em 2011, o Isan Manga foca exclusivamente em clássicos, com obras cult como Cobra de Buichi Terasawa, Kamen Rider de Shotarou Ishinomori e Cutie Honey de Go Nagai. A Black Box primeiro se especializou em animação japonesa antes de publicar mangás tradicionais de 2013. Seu catálogo inclui notavelmente Go Nagai (Devilman, L'École impudique [23], Mazinger Z), Hideki Arai (Irène [24]) e Toshio Maeda (Urotsukidoji, La Blue Girl).

Com 25.000 e 4.000 vendas respectivamente, Old Boy e Colorless são os dois maiores sucessos da naBan e da Shiba. 

“Ser editor é ser um bom gestor, colocar o cursor no nível certo em termos de objetivos”, diz Bruno Pham, da Akata. "Um mangá que vende 3.000 exemplares mas é bem controlado pode ser mais lucrativo do que outro que vende 10.000 para o qual tínhamos o dobro como objetivo. A responsável pele área editorial da Akata ainda aposta numa tiragem mínima de 3.500 exemplares para manter um título disponível no catálogo, “mesmo que demore dez anos a esgotar”.

"Alguns editores antiéticos não se importam em perder dinheiro em determinados projetos." 
Bruno Pham (Akata)

"A explosão de vendas em 2020 e 2021 teve, no entanto, o efeito de aumentar o preço das licenças que as editoras francesas pagam aos detentores de direitos japoneses, a ponto de complicar o trabalho dos independentes." Stéphane Duval, da Lézard noir, conta ter feito “uma oferta irracional” para conseguir o último Shinzo Keigo, Hirayasumi. Por outro lado, ele não conseguiu obter a nova série de Akiko Higashimura, Gourmet Détective [25], licenciada pela Delcourt-Tonkam.

Sem apontar o dedo para uma editora em particular, Bruno Pham denuncia as práticas de “certas editoras antiéticas que não se importam em perder dinheiro em determinados projetos” e querem simplesmente “sufocar a concorrência”. Esta é uma opinião compartilhada por vários de seus colegas.


[1] Yukibana no Tora (雪花の虎) de Akiko Higashimura.
[2] Mystery to Iu nakare (ミステリと言う勿れ) de Tamura Yumi.
[3] Kobayashi-san Chi no Maid Dragon (小林さんちのメイドラゴン) de COOL Kyoushinsha.
[4] Kouakushoku no kuusou (琥珀色の空想汽譚) de Kuroimori.
[5] Kanojo, Okarishimasu (彼女、お借りします) de Miyajima Reiji.
[6] Ijiranaide, Nagatoro-san (イジらないで、長瀞さん) de Nanashi.
[7] Colorless ( カラーレス) de Kent.
[8] Zingnize (ジンナイズ) de Warainaku.
[9] A Fluide Glacial é uma revista mensal de quadrinhos franco-belga e uma editora fundada em 1º de abril de 1975 por Gotlib, Alexis e Jacques Diament. É uma das revistas de quadrinhos de maior sucesso na França, junto com a Métal Hurlant.
[10] Sensei no Shiroi Uso (先生の白い嘘) de Akane Torikai.
[11] Yubisaki to Renren (ゆびさきと恋々) de Suu Morishita.
[12] Boys Run the Riot (ボーイズ・ラン・ザ・ライオット) de Keito Gaku.
[13] Dokudami Tenement (独身アパートどくだみ荘) de Fukutani Takashi.
[14] Nora to Zassou (ノラと雑草) de Shinzou Keigo.
[15] Shinya Shokudou (深夜食堂) de Yarou Abe.
[16] Terra E... (地球へ ...) de Takemiya Keiko.
[17] Sennen Darling (千年ダーリン) de Iwasawa Midori.
[18] Shoujo Tsubaki (少女椿) de Suehiro Maruo.
[19] Dokumushi Kozou (毒虫小僧) de Hino Hideshi.
[20] Koro Koro Soushi (殺殺草紙 大江戸無残十三苦) de Kago Shintarou.
[21] NonNonBa (のんのんばあとオレ) de Mizuki Shigeru.
[22] Akai Hana (紅い花 つげ義春カラー作品集) de Tsuge Yoshiharu.
[23] Harenchi Gakuen (ハレンチ学園) de Go Nagai.
[24] Itoshi no Irene (愛しのアイリーン) de Arai Hideki.
[25] Bishoku Tantei Akechi Gorou (美食探偵) de Akiko Higashimura.

domingo, 23 de outubro de 2022

Liberte o Shoujo!! (Libérez les Shōjo !!): Sugestão de vídeo

Acabei de assisti ao vídeo que vou comentar graças a uma sugestão que o Lacradores Desintoxicados fez no Twitter.  Enfim, o vídeo traz uma análise do comportamento do mercado francês de mangá, o segundo do mundo, pois só perde para o Japão, país de origem do material, em relação aos shoujo.  O vídeo está abaixo.  Depois, eu volto.

Confesso que, como a autora fala muito rápido, foi complicado manter o foco, mas como sei do que ela está falando, isso ajuda a gente não se perder.  Resumindo, segundo ela há uma queda acentuada na publicação dos shoujo na França.  Esse declínio, acusa a autora, se deve à misoginia.  Misoginia é o desprezo, aversão, pelas mulheres e tudo o que é feminino.  Não é uma questão pessoal, mas algo que está presente nas próprias estruturas das sociedades patriarcais e pode se manifestar de diversas maneiras. A autora do vídeo, vai discutir uma de suas manifestações no mercado editorial de mangás franceses.

Dito isso, a gente está em terreno conhecido, afinal, este blog já caminha para seus vinte anos e eu não comecei a falar de shoujo aqui por puro deleite, mas para dar destaque a uma demografia que era desprezada e mal compreendida.  Segundo o vídeo, enquanto os mangás shounen e seinen recebem propaganda e são tratados como material diverso e interessante, os shoujo são reduzidos a sinônimo de romance e recebem logos e capas que reforçam esta sua especificidade e limitação.  Veja bem, a tia aqui já bateu várias vezes na tecla de que romance é parte da vida, mas que ao se marcar que é "coisa de mulher", cria-se uma barreira para que o material seja considerado sério e ele passa a ser imediatamente inferior e indigno da atenção dos homens e, também, das mulheres que tenham um mínimo de bom senso e bom gosto.

Se, para piorar, eu coloco rosa na capa, ou na lombada, eu estou sinalizando que é para mulher, logo, se você é homem, ou uma mulher fora da caixinha, você vai preferir mangás que não são água com açúcar. Sim, estou repetindo o senso comum, porque não há problema nenhum no rosa e em materiais que efetivamente são água com açúcar.  Para um homem, ser visto com um mangá assim, e lembrem das reclamações sobre Otomen (オトメン(乙男) e seu destino triste no Brasil, é algo que pode atentar contra sua masculinidade.  Lembrem que "menino veste azul e menina veste rosa", logo, devem consumir mangás que sigam esta linha de raciocínio limitado e castrador.  Trata-se obviamente de uma falácia, as autoras de shoujo, porque são mulheres que escrevem para essa demografia, falam de tudo e foram responsáveis por introduzir discussões que terminaram por influenciar todas as demografias de mangá.  

Como exemplo, a autora do vídeo afirma que graças ao shoujo e seus homens sensíveis, os heróis de shounen mangá, podem chorar.  Discordo, o choro masculino no Japão nunca teve o estigma que passou a ter no Ocidente a partir do século XIX, ainda que existam formas e motivações para o choro vistas como adequadas às mulheres e aos homens.  O shoujo influencia o shounen e há estudos sobre isso, porque o mercado japonês sabe que mulheres e meninas leem shounen e seinen e autoras de shoujo migraram para demografias masculinas, e há as que sempre estiveram produzindo para essas demografias, trazendo um olhar diferente para as mesmas.  O inverso, entretanto, não ocorre, o se acontece é de forma muito marginal.  Enquanto as demografias masculinas são vendidas como universais, porque o homem do sexo masculino é o parâmetro, as femininas são vistas como carregadas de especificidades que, aos olhos do ocidente, carente de autoras mulheres de destaque, tendem a apequenar os mangás femininos.  Na verdade, com quase trinta anos de publicação de mangá no Ocidente de forma contínua, os editores e editoras (empresas) parecem não saber lidar muito bem com o fato de metade da indústria de mangás ser feita por mulheres e para mulheres.

Voltando, a autora do vídeo aponta, e isso parece ser muito comum na França, que é comum enquadrar de forma errada um mangá por ele não entrar na caixinha que os editores desejam.  Assim, shoujo que não sejam centrados no romance recebem outro rótulo, normalmente, seinen.  O caso recente mais escandaloso foi Baraou no Souretsu (薔薇王の葬列), lançado no selo seinen, porque os editores o consideraram dark demais para um shoujo mangá. E se o shounen, ou seinen, é centrado em romance, um slice of life sem peso para o fanservice, vai ser chamado de shoujo, porque os sujeitos não sabem lidar com o fato de que meninos e homens também gostam desse gênero e, no Japão, ninguém parece ver isso como problema.  

Alivia-se a culpa do machinho, que não vai ter que comprar o mangá de lombada rosa, infla-se a vendagem de uma outra demografia, que acaba incorporando um grande sucesso do shoujo, e perpetua-se o a desvalorização dos mangás femininos, porque tudo o que é feito por mulheres tem que ser visto como inferior.  Essa fuleiragem, que parece ser lugar comum no mercado francês, é pior do que o que acontece no Brasil, porque esse tipo de palhaçada rola, mas a gente cai matando de pau e as editoras passaram a ter mais cuidado com essa coisa de "tem romance é shoujo".   Ainda assim, há aqui a omissão, que ocorre na França, também, de omitir que muito do material de Junji Ito é originalmente shoujo, porque há revistas shoujo especializadas nesse gênero.

No básico, é isso que está no vídeo.  A inspiração para fazê-lo, segundo a autora, veio de protestos no Tik Tok.  A autora decidiu reabrir seu canal para divulgar o shoujo, sua diversidade, e autoras, começando com a fantástica Akiko Higashimura.  O vídeo já está no ar.  A autora diz que vai recorrer nos seus vídeos à edições japonesas, norte-americanas e italianas, pois, segundo ela, ambos os mercados tratam melhor o shoujo que o francês, ainda que, no geral, sejam mais modestos.  É uma forma de resistência e de educar quem aceite ser educado, tipo a proposta inicial deste blog e que continuo levando a sério mesmo depois de tantos anos.  

De resto, acredito que usar shoujo como guarda-chuva em um vídeo mais geral é válido, mas a gente não pode omitir, e é minha crítica ao vídeo, que há várias demografias femininas, o josei, o uso do termo, inclusive, está consolidado no Japão para se aplicar às revistas voltadas para vários segmentos de mulheres adultas, assim como TL, que é sigla para teen love, ainda que seja material erótico-pornográfico para mulheres adultas, e  o BL, boys love, que a gente não deve mais chamar de yaoi, que são igualmente demografias femininas. O que não impede, mesmo no Japão, de continuarem premiando mangás josei na categoria shoujo para dar os prêmios da categoria geral para os seinen.  Porque, de novo, se é feminino é inferior e mesmo no país dos mangás, há discriminação.   

Aliás, eu nunca fui me informar sobre como funciona a publicação de BL na França e a autora nem comenta sobre a demografia, mesmo que para dizer que não será assunto do seu vídeo.  Não vou procurar agora, mas duvido que não tenha saído um bom número de títulos por lá.  Já TL, bem, aí é coisa mais recente e muito pouco divulgada mesmo.