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segunda-feira, 20 de julho de 2026

Pipoca & Nanquim lança manhwa sobre revolucionária coreana

Não conhecia Alexandra Kim (1885-1918), mas ela foi uma revolucionária bolchevique coreana nascida na Rússia.  Sim, o pai de Alexandra migrou para a Rússia e morava em uma vila coreana chamada Sinelnikovo, na Sibéria. Segundo a Wikipedia, porque eu tenho ZERO conhecimento sobre essa presença coreana na Rússia, essa região onde ficava a via era uma espécie de estufa de nacionalistas coreanos. Esse período da passagem do século XIX até 1910 é marcado pela disputa entre russos e japoneses pela influência sobre a Coreia e termina com a invasão japonesa da Península.   

Alexandra cresceu em um ambiente nacionalista, mudando-se com frequência, tornou-se professora e casou-se.  Como seu envolvimento político se tornou cada vez mais intenso, ela terminou se divorciando e abandonando o ensino.  Em 1916, Alexandra entrou para o Partido Bolchevique e, em 1917, Lenin a enviou de volta à Sibéria para mobilizar os coreanos contra as forças contrarrevolucionárias.  Na cidade de Khabarovsk, Alexandra era responsável pelos assuntos externos no Departamento do Extremo Oriente do Partido. Lá, ela se encontrou com outras lideranças ligadas à luta pela independência coreana. Juntos, eles fundaram o Partido Socialista Coreano em Khabarovsk em 28 de abril de 1918.   Kim foi capturada, juntamente com muitos outros comunistas coreanos, pelas forças brancas e tropas japonesas em 4 de setembro de 1918. Ela foi executada em 16 de setembro de 1918. Segundo relatos, suas últimas palavras foram "Liberdade e independência para a Coreia!"

Enfim, tudo isso é novidade para mim e o que importa é que o álbum Alexandra Kim: Filha da Sibéria está em pré-venda no Amazon.  Segundo o Amazon, o quadrinho foi adaptado da biografia escrita por Jung Cheol-Hoon e é o sexto manhwa da premiada Keum Suk Gendry-Kim (Meu Amigo Kim Jong-un, Grama) lançado no Brasil. Não sabia que tantos álbuns da autora tinham sido publicados no Brasil.  Tem resenha de Grama no blog.  Acredito que vou comprar esse álbum, é sempre importante conhecer mais mulheres que tiveram papel importante em momentos nos quais a gente é levado a acreditar que os grandes atores eram os homens. 

domingo, 7 de janeiro de 2024

Todas as resenhas de 2023 - Parte 2

Este ano, estou demorando muito a postar, mas aqui está o segundo post com as resenhas do ano.  Reuni anime, mangá, quadrinhos que não são japoneses, os livros de Watashi no Shiawase na Kekkon.  Coloquei o documentário de Sailor Moon em anime, ele faz parte do programa Manga Explosion, houve um programa sobre a Rosa de Versalhes, mas eu não resenhei.  Até que houve muita coisa, porque eu resenhei primeiros capítulos de anime e fiz o Shoujocast cobrindo todos os episódios de Watashi no Shiawase na Kekkon.  Agora, de mangá, houve muito pouco, infelizmente.  Espero fazer melhor este ano.

Anime

domingo, 31 de dezembro de 2023

Feliz 2024! Que venha o Ano do Dragão!

Último dia de 2023, gostaria de agradecer a todos que visitaram o blog e assistiram ao Shoujocast este ano.  Este blog existe por tantos anos, também por causa de vocês.  E o dragãozinho é por causa do ano do Dragão no Horóscopo Chinês.  Eu sou de Dragão, mas como além do signo temos os elementos, o ano que vem será do dragão de madeira, o meu é o de fogo.  Os elementos do Horóscopo Chinês são Madeira, Fogo, Terra, Metal e Água; eles se alternam também em ciclos, como os signos.  

A ilustração cima é da Suu Morishita, ela postou no Twitter. Várias autoras estão postando suas ilustrações de Ano Novo na rede do Elon Musk.  Abaixo, o Shoujocast de Retrospectiva do ano de 2023.  Ficou longo, mas tem a minutagem e, se você quiser assistir, pode fazer aos pedacinhos.  Outra coisa, saio de Brasília hoje, então, tanto o blog, quanto o Shoujo Café, vai entrar em ritmo de férias.  A internet onde vou ficar é ruim.  Feliz 2024 para todos, todas e todes!

terça-feira, 11 de julho de 2023

Muito Além do Mangá: Comentando Mulheres na Luta - 150 Anos de Liberdade, Igualdade e Sororidade

Mês passado fiz a resenha do álbum norueguês A Queda do Patriarcado - O Combate ao Machismo Através dos Séculos e, quando estava pesquisando para o meu texto, descobri que a Companhia das Letras tinha publicado em 2019 outro trabalho de Marta Breen (roteiristas) e Jenny Jordahl (artista com um traço muito dinâmico e divertido), Mulheres na Luta - 150 Anos de Liberdade, Igualdade e Sororidade.  Olhando as informações e imagens de Mulheres na Luta, desconfiei que este trabalho anterior das autoras era melhor que o mais recente e, sim, eu estava certa.  Se na minha resenha de A Queda do Patriarcado, fiz várias críticas, algumas bem sérias, agora, com Mulheres em Luta, acho que terei quase que somente elogios.  É realmente muito, muito bom.

Talvez, as chaves para que Mulheres em Luta seja tão competente sejam duas, em primeiro lugar, o recorte temporal; em segundo lugar, a diversidade de personagens abordadas.  As autoras delimitaram o século XIX como ponto de partida e não buscam abordar uma temporalidade imensa de forma reducionista, além disso, estabelecem o Ocidente como o seu espaço principal.  A ideia é explicar as lutas feministas em cento e cinquenta anos de caminhada e as autoras cumprem.  

Logo no início, as autoras estabelecem como fio condutor o que elas chamam de "As Três Principais Lutas do Movimento Feminista": "O Direito à Educação, de Exercer uma Profissão e Ganhar o Próprio Dinheiro", "O Direito de Votar em Eleições Políticas" e "O Direito de Decidir sobre o Próprio Corpo".  A partir daí, elas apresentam várias personagens, lutas femininas coletivas, as três ondas do feminismo e, o que faltou no primeiro livro, que direitos adquiridos podem, sim, ser perdidos.  É importante ressaltar que a obra é muito didática e acessível.  Aliás, vou testar com a Júlia quando ela voltar das férias, se ela quiser, claro, ela pediu para ler A Queda do Patriarcado. 

O outro ponto interessante do volume é que elas não se apegaram mulheres brancas, tivemos Harriet Tubman, Sojourner Truth, Táhirih e Malala recebendo atenção ao longo das páginas.  Há uma preocupação em apontar que a luta pelo voto era global, inclusive, colocando a cronologia da obtenção do voto feminino em vários países, começando com a Nova Zelândia, e as placas pelo direito de voto em vários idiomas e levantadas por mulheres diversas.  Tubman e Truth estão ligadas à luta contra a escravidão nos Estados Unidos e, posteriormente, à luta pelo direito de voto para todas as mulheres, brancas, ou negras. 

Nesta parte do livro, somente uma crítica, elas falam de A Cabana do Pai Tomás e sua autora, Harriet Beecher Stowe, o livro coloca que Lincoln era abolicionista (*OK*) e que libertaria os escravos como razão da Guerra de Secessão.  Lincoln não anunciou a abolição, contra parte do seu partido, ele afirmava que a escravidão era questão estadual e que o que ele não aceitaria é a secessão, a ruptura.  A escravidão foi a desculpa do Sul e as autoras compram isso. 

Enfim,  Malala, acredito que vocês conheçam, mas e Táhirih?  Eu conheci a iraniana Táhirih (1814/1817-1852) lendo Mulheres em Luta e ela é apontada como a primeira mártir na luta pelo feminismo, eu diria, pelos direitos das mulheres. Ela era filha de um importante especialista em lei islâmica e foi educada em casa (*as autoras dizem que o pai lhe negou educação, isso não procede*) como era mais comum para uma mulher, tornou-se escritora e especialista na religião.  Teve um casamento infeliz arrumado pela família, porque ela queria continuar buscando sua elevação espiritual e, nesse caminho, ela se converteu ao Babismo (*antecessor da Fé Baha'i*) e isso virou um problema, porque ela rompeu com o Islã e passou a pregar sua nova fé, ou seja, não era somente uma questão de direitos das mulheres, a coisa vai bem além.

Seu marido pediu o divórcio e levou seus filhos, sua família se sentiu envergonhada, ela foi presa várias vezes e se tornou um grande problema quando em uma assembleia da sua própria nova fé, retirou o véu diante de todos.  Afinal, se todos ali eram irmãos e irmãs não haveria problema em retirar seu véu.  Acabou presa e, anos mais tare, condenada à morte.  É uma figura bem interessante.  Agora, as autoras representam as iranianas com o rosto coberto, as mulheres no Irã normalmente não cobrem os rostos, salvo em alguns grupos étnicos muito específicos.

Uma parte muito interessante do livro é quando elas representam a luta pelo voto focando nos Estados Unidos e na Inglaterra.  Millicent Fawcett e Emmeline Pankhurst, líderes sufragistas, recebem atenção especial e são rotuladas no livro, uma como pacifista, a outra, como adepta da ação direta.  Durante um bom tempo, elas estiveram juntas, mas, enfim, as autoras mostram as formas e ação do grupo de Emmeline Pankhurst, suas filhas (Christabel, Sylvia e Adela), e como a União Social e Política das Mulheres (Women's Social and Political Union/WSPU) organizava suas ações.  Elas entravam em confronto com a polícia, elas colocavam bombas (*não, bombardeavam, como está na tradução*), elas entravam em confronto com a polícia etc.  E algumas delas lutavam Jiu-jítsu.  Há um quadro que sugere isso, mas as autoras não explicam e seria importante.  Aliás, recomendo o filme Sufragistas, minha resenha está aqui.

Outro problema dessa parte, dois, na verdade.  Elas não falam das americanas contemporâneas, seria enriquecedor, e o livro não faz a ponte entre a posição do WSPU e o Socialismo, que é o capítulo seguinte.  Pankhurst era uma patriota e suspendeu as ações do seu grupo aderindo ao esforço de guerra, por conta disso, sua filha Sylvia, que era socialista, rompeu com o movimento, porque os socialistas eram pacifistas.  O livro coloca essa atitude do WSPU sendo retribuído com o voto feminino no pós-guerra para as mulheres maiores de 30 anos.  Não é tão simples assim.  

Como o capítulo das socialistas vem quase em seguida, daria para fazer a ponte perfeita.  Enfim, uma favorita das autoras é Clara Zetkin, ela aparece no A Queda do Patriarcado, e Rosa Luxemburgo são as protagonistas desse capítulo que começa falando das condições péssimas das mulheres no mercado de trabalho e de como elas vão se organizar a partir a luta sindical socialista.  É neste capítulo que se fala do pacifismo de guerra, mas ficou isolado em relação ao capítulo das sufragistas.  O curioso é que as autoras não falaram da URSS, que deveria entrar aqui, mesmo que rapidamente, e não tocaram no nome da Alexandra Kollontai, já que trouxeram de volta a Zetkin.  Mas o capítulo é muito bom, mesmo com esse problema.

A antepenúltima seção do livro é sobre o direito e decidir sobre o próprio corpo.  Temos a biografia a pioneira norte-americana pelo controle de natalidade, Margaret Sanger, e sua importância para o desenvolvimento da pílula anticoncepcional.  A seguir, as autoras fazem a discussão sobre o direito de aborto, enfatizando a importância da Roe vs. Wade de 1973 e a guerra em torno o tema nos Estados Unidos, inclusive as violências contra funcionários das clínicas de aborto.  

Como as autoras o publicaram sua obra em 2019, não viram o horror que foi a decisão da Suprema Corte dos EUA, no ano passado, tornando a questão do aborto um assunto estadual e sem salvaguarda da constituição.  Mas isso combina com algo que está muito claro no volume, direitos podem ser perdidos e, não somente, no Afeganistão.  E é triste constatar que isso tem se tornado mais comum do que as pessoas pensam, vide retrocessos nos direitos das mulheres em vários países, mesmo dentro da Europa, como a Polônia.

A Penúltima parte é para falar da luta das pessoas LGBTQIAPN+ pelo direito à existência, ao amor, aos direitos civis.  É interessante que as autoras começam com Safo, no período Arcaico, passam pelas perseguições às pessoas que não se ajustavam à heteronormatividade, falando inclusive da perseguições dos nazistas aos gays e da invisibilização (*e estupro corretivo via casamento*) das lésbicas, passando por Stone Wall até nossos dias. A Dinamarca foi o primeiro país a reconhecer a união civil de pessoas do mesmo sexo em 1989. Achei muito interessante, porque as autoras deram alguma visibilidade às mulheres trans nessa seção e valorizaram a luta dos LGBTQIAPN+ como um todo. E isso causa contraste com o vazio que foi A Queda do Patriarcado nesse aspecto.

Antes dessa parte do direito ao amor e à cidadania, temos o reconhecimento da luta coletiva das mulheres nesses 150 anos, dá destaque às (poucas) mulheres que foram chefes de estado, começando com três primeira-ministras no continente asiático: Sirimavo Bandaranaike (Sri Lanka, 1960), Indira Gandhi (Índia, 1966) e Gola Meir (Israel, 1969).   Até nossa Dilma aparece,  ❤️ como são poucas mesmo até 2019, até hoje, na verdade, cabe em uma página.  E, não, rainhas não contam nesse caso, elas não foram eleitas.

E terminamos com Malala e a demonstração de que a luta continua, que direitos tios como naturais não o são, mas resultam da luta de gerações de mulheres de várias classes sociais e em todos os continentes; algumas se identificavam como feministas, outras somente, como se fosse pouco, percebiam a injustiça e se insurgiam contra ela.  Lembremos dessas mulheres e honremos o seu legado.  

O livro fecha com um posfácio da Prof.ª Bárbara Castro, do Departamento de Sociologia da UNICAMP, comentando a história dessa mesma luta no Brasil e uma bibliografia.  Alguma quadrinista poderia pegar esse texto, que começa lá na colônia, e transformar em um quadrinho, porque precisamos de obras assim em nosso país, não é mesmo?  E, para quem quiser comprar Mulheres na Luta, está no Amazon, é só clicar aqui.  Há uma amostra do livro na página da Cia das Letras, eis o link.

domingo, 25 de junho de 2023

Muito Além do Mangá: Comentando A Queda do Patriarcado - O Combate ao Machismo Através dos Séculos

Não sei onde eu vi a capa de A Queda do Patriarcado (*o título é grande, vou ficar só com a primeira parte*), acho que foi em um post da Dani Marino.  Trata-se de um quadrinho norueguês do selo Seguinte, selo ou ramo da Cia das Letras.  Chegou rapidinho, li no mesmo dia e estou me demorando para fazer a resenha, porque ando muito ocupada.  O volume saiu na Noruega em 2021 e já está em nossas livrarias.  As autoras, a jornalista Marta Breen (roteirista) e Jenny Jordahl (desenhista), já eram conhecidas no Brasil, pois seu álbum anterior Mulheres na luta: 150 anos em busca de liberdade, igualdade e sororidade foi lançado pela Cia das Letras em 2019.  E eu não conhecia, nem tenho em casa, mas me pareceu não cair em um dos problemas que eu vi em A Queda do Patriarcado, talvez o recorte temporal tenha ajudado, mas eu preciso ler ainda e o farei.

Sim, sinalizei que vi problemas em A Queda do Patriarcado, vi, sim, e não são poucos, mas trata-se de um bom quadrinho, com um traço interessante e que permite que a gente reconheça muitas das mulheres célebres desenhada.  Para quem quer ter um panorama de alguns temas (patriarcado, casamento, virgindade etc.) e como as mulheres foram oprimidas, difamadas e, ainda assim, lutaram contra o sistema, é uma leitura interessante.  Agora, apesar dos painéis com mulheres de várias culturas, as que recebem atenção no volume são principalmente brancas e europeias.  

A falta de diversidade, inclusive na discussão da orientação sexual e de identidade de gênero, me decepcionou, exatamente porque a capa e o início do volume sugerem outra coisa.  Além disso, classe e raça ficam de fora das discussões das autoras.  Trata-se de uma opção complicada, porque não é possível descolar as lutas das mulheres, sejam elas declaradamente feministas, ou não, dos imperativos de raça e gênero.  Pronto, se você quiser parar a leitura aqui, tem meu parecer geral da obra, em uma escala de 0-10, ela ganharia um 6.  O texto daqui para adiante irá esmiuçar o volume e será longo, estou já no terceiro dia de redação parando e retomando.

Vamos lá, o volume começa com uma série de manchetes da luta das mulheres ao redor do mundo e, a seguir, temos duas cientistas brancas, talvez a representação das próprias autoras, que guiarão todo o quadrinho, tentando definir o que é patriarcado e elas dão como significado "predomínio da autoridade do pai", e as lutas de diversas mulheres contra o sistema. A partir daí, didaticamente, elas vão mostrando o que isso significa na prática para as mulheres, menos poder, menos riqueza, menos autonomia etc.  

Em seguida, passamos para as origens da sociedade Ocidental, que elas situam na Atenas clássica, mostrando como Platão e Aristóteles discordavam em relação ao papel das mulheres, mas que foi o segundo, que considerava as mulheres machos incompletos, quem deixou marca mais profunda no pensamento europeu e, por tabela, no resto do mundo sobre o tema.  Eu costumo brincar que tudo no pensamento ocidental parece ser ainda um embate entre Platão e Aristóteles, por isso, compreendo a escolha.

As duas cientistas então fazem um apanhado ao longo dos séculos de frases de teólogos, filósofos, artistas, cientistas sobre a inferioridade das mulheres. Ideias misóginas que continuam no nosso imaginário até hoje.  Obviamente, alguns dos citados são muito famosos (Agostinho, Thomas de Aquino, Rousseau, Freud etc.) e outros mais locais, caras lá do Norte da Europa que não tem impacto muito além das fronteiras da Escandinávia, mas que estão em consonância com o pensamento misógino dominante.  E as autoras citam falas ligadas ao mundo islâmico, judaico e mesmo budista, só que sem dar o nome do santo.  Ora, por qual motivo identificar os ocidentais e deixar como algo genérico ou anônimo as falas misóginas de outras religiões?  Não entendi e não gostei da opção.

Depois disso, temos páginas mostrando como é possível manter o patriarcado privando as mulheres de educação adequada e obrigando-as a cumprir inúmeras funções sempre enfatizando o serviço aos homens e a família.  Corretíssimo, mas preciso pontuar que a mulher hipotética pré meados do século XX ali mostrada é branca e de classe média pelo menos.  As mulheres pobres e não-brancas não estavam restritas, em muitos casos, ao espaço doméstico, aliás, se o estavam era como criadas de famílias abastadas.  Sim, vou pontuar essa falta de visão de classe e raça praticamente o tempo inteiro, porque é um dos calcanhares de Aquiles dessa obra muito interessante.

Passamos então a um lindo painel com mulheres importantes desde o século XIX, balões com suas falas, uma diversidade de mulheres e eu bati o olho e reconheci várias, como a egípcia Nawal El Saadawi (1931-2021), Malala, Emma Goldman (1869-1940), Soror Juana Inés de la Cruz (1651-1695), até a nossa Bertha Lutz (1894-1976) está lá.  Agora, se não reconhecer alguém, não tem problema, porque há uma lista com o nome de todas elas no cantinho.  

No meio de tantas mulheres, temos um homem John Stuart Mill (1806-1873), filósofo, economista, membro do parlamento britânico e defensor dos direitos das mulheres.  Ao seu lado, sua esposa Harriet Taylor (1807-1858), ela também era filósofa e escreveu a primeira petição pelo direito de voto das mulheres; seu marido defendia a proposta, também.  Se as autoras colocaram um homem no meio das mulheres, seria interessante explicar o que ele está fazendo lá, ou não?  Só que não explicam. Virando a página, temos as feministas ou ativistas dos direitos das mulheres que não sobreviveram.  É impactante, porque cada lápide traz o nome de uma delas, mas a mensagem é clara "Nunca esqueceremos de vocês!".

Depois disso, vem um dos momentos brilhantes do volume, quando as autoras explicam como as mulheres (*ricas*) subverteram o impedimento de ocuparem o espaço público transformando suas casas em lugar de encontro de sábios.  O papel das salonistas durante o Iluminismo é muito importante e a personagem em destaque é Madame de Staël (1766-1817) com destaque para seus problemas com Napoleão.  A seguir, as autoras mostram que uma das estratégias usadas pelas mulheres para poderem publicar suas ideias e obras era o anonimato.  Dá-se destaque para Emily Dickinson (1830-1886), que publicou pouco, mas produziu muito e em segredo.  O caso dela não é bem de anonimato, vamos combinar... 

Mas o problema aqui, nem é Dickinson, mas incluir na pilha de livros de autoras que usaram o anonimato, como Jane Austen ("A Lady"), ou nomes masculinos para esconder sua identidade feminina e terem maiores possibilidades de sucesso e aceitação, J.K. Rowling.  Você deve estar me achando louca, mas não é esse o caso. Tampouco estou reclamando de Rowling estar lá por ela esta envolvida em uma guerra contra as pessoas trans, mas porque a autora aparece na pilha como Robert Galbraith e, não, como J.K. Rowling.  Autoras abreviam suas iniciais para esconder que são mulheres.  Rowling, usa J.K. para esconder o nome "Joanne Kathleen", pois seus editores acreditavam que Harry Potter, uma série de fantasia juvenil, não venderia se soubessem que a autora era uma mulher.  Logo, se Rowling estivesse na pilha por esse motivo, se esconder atrás de iniciais, OK, corretíssimo, mas não como Robert Galbraith, porque as escolha desse nome para sua série de detetives foi simplesmente para separar a autora de Harry Potter da sua série de romances policiais.  

Rowling não precisou esconder sua identidade neste caso, trata-se uma escolha, porque qualquer coisa que ela, já então uma escritora renomada e com um imenso fandom, fizesse atrairia a atenção.  Acredito que usar Robert Galbraith como exemplo junto com casos concretos de anonimato foi até ofensivo às mulheres que de fato tiveram que se esconder, ainda mais quando a própria Rowling foi uma delas.  Esta parte termina com o anúncio de que algumas mulheres tiveram que se vestir de homem para ter mais liberdade.  E segue uma lista de algumas delas.  Não conhecia duas delas, uma artista plástica, Rosa Bonheur (1822-1899), e Petra Herrera (1887-1917), heroína da Revolução Mexicana.  Herrera aparece na capa, aparece em outras imagens detro do livro e, o que é frustrante, sua história não será contada no volume.  Como pode ser isso?  Pois é, pode. 

E há um erro na lista de mulheres que se vestiram de homem para ter liberdade de criar, lutar, trabalhar.  As autoras incluem a marquesa Émilie du Châtelet (1706-1749), intelectual iluminista e renomada matemática e física, que foi reconhecida em vida.  Achei estranho, porque há mais de um quadro de Châtelet, sempre com símbolos que sugerem sua atividade intelectual e científica, e sempre em roupas femininas.  Fui investigar e descobri que ela se vestiu de homem aparentemente uma única vez na vida para entrar em um café frequentado por intelectuais e que proibia a presença de mulheres.  Resumindo, ela nunca precisou de fato se esconder, ou usar roupas masculinas, para ter liberdade, para ser uma cientista.  

Havia outros exemplos, eu poderia citar mais de um, nossa Maria Quitéria (1792-1853)Katalina/Antonio Erauso (c. 1585/1592-c.1650), ambas mulheres soldado; Isabelle Eberhardt (1877-1904)  exploradora, jornalista e ativista contra o colonialismo francês no Norte da África; ou ainda a médica Enriqueta Favez (c. 1791-1856), que teve sua identidade feminina exposta de forma dramática e teve que arcar com as consequências.

A escolhida para o destaque nessa parte da obra é a faraó Hatshepsut (c. 1508-1458 a.C.), um exemplo notável de mulher que virou a mesa em cima dos homens,  que governou de forma competente, mas quase teve sua memória apagada.  Ela é a única mulher não-branca a receber um grande destaque no volume.  A única.  E aproveita-se nesta parte para se vender a ideia de que mulheres sempre buscam a paz, enquanto homens fazem a guerra, por isso, o governo de Hatshepsut foi pacífico e marcado pelo comércio e grandes construções.  Trata-se de um estereótipo complicado, fora a necessidade de se olhar o contexto da época para compreender esse período de paz gozado pelo Egito.

Depois temos a discussão do casamento como prisão, há falas de feministas sobre o tema (Camilla Collett, Simone de Beauvoir, Kate Millett) e a personagem de destaque é a Rainha Kristina da Suécia (1626-1689).  Eu amo esta personagem e falei bastante dela em uma resenha sobre o filme The Girl King.  Aqui, as autoras enfatizaram o intelecto de Kristina, o fato de ser uma workaholic e sua rejeição ao casamento.  Sim, dois pontos corretos.  Ao falar do seu gosto por se vestir com roupas masculinas, omitiram o fato de que o pai da rainha tinha deixado em testamento que ela deveria ter sido educada como um príncipe, ou seja, sua educação foi masculina.

Não falaram que ela teve uma amante Ebba Sparre e que seu primeiro-ministro moveu os pauzinhos para afastá-la da corte, como tinha feito antes com um sod pretendentes da rainha para favorecer seu próprio filho.  O que as autoras enfatizam é que Kristina não se interessava por homens, quando há evidências de que ela teve alguns favoritos, inclusive um cardeal, mesmo que nenhum deles tenha ocupado o papel de Sparre na sua vida.  Trata-se de meia verdade, ela sabia bem, ao que parece, o que significaria o casamento para ela.  Já no final da parte de Kristina, as autoras falam que ela foi acusada de ser hermafrodita, com nota explicando que poderia ser intersexo.  E poderia mesmo, mas que um exame tinha provado o contrário.  Olha, o exame mostrou que ela era XX, nada se sabe sobre a genitália da rainha que foi confundida com um menino ao nascer (*olhem a minha resenha*), mas terminam dizendo que uma autópsia nada poderia dizer sobre ela ser trans.

Não sei o que se quer dizer com trans nesse caso.  Homem trans?  Pessoa não-binária?  Kristina foi ensinada desde muito jovem a desprezar o que era feminino, a se sentir uma mulher acima das mulheres, assim como a rainha Elizabeth I, a quem admirava e em quem se inspirava.  Isso é discutido na biografia da rainha escrita por Veronica Buckley.  Ora, Kristina tinha muito poder, mesmo depois de renunciar ao trono com míseros 23 anos, e podia fazer quase tudo o que desejasse.  Transitar entre papéis de gênero, isto é, expectativas sociais e históricas sobre o comportamento masculino e feminino nada fala de identidade de gênero.  

Parece que houve uma necessidade de mostrar preocupação com diversidade forçando uma personagem dentro de um molde.  A graça é que o que sempre escapa nas análises sobre Kristina é sua possível bissexualidade.  Acredito que de todas as letras da sigla LGBTQIAPN+, o "B" é a mais negligenciada.  Fora, claro, que os rótulos que temos hoje para identidade de gênero e para orientação sexual certamente não faziam sentido antes de meados do século XIX e isso vale para a heterossexualidade, também.  Vou parar por aqui, ou vira um texto dentro do texto.

Depois de Kristina, entre Wooddy Allen e temos uma discussão sobre "male gaze", termo da feminista Laura Mulvey, que é a perspectiva masculina sobre as mulheres marcada no cinema, na verdade, um "(...) olhar triplo (do público, da câmera e dos personagens) que olha para as mulheres de um ponto de vista masculino e as considera meros objetos (sexuais)." (Fonte) Além de apresentar as mulheres como passivas e os homens, ativos.  As mulheres, segundo as autoras, são categorizadas a partir desse olhar masculino (*a mãe, a esposa, a amante, a musa, a prostituta, a virgem*), sempre coadjuvantes e em função do olhar masculino.  As autoras falam então do valor da virgindade, das vestais romanas e de como as mulheres que escapam são chamadas de vadias e promíscuas.  Daí, escolhem uma série de personagens que ficaram assim conhecidas e as colocam em fotos como as "mugshots", aquelas usadas em arquivos policiais norte-americanos.

Em seguida, elas falam que as mulheres que não se enquadram sofrem slut-shaming em seu tempo (*e, muitas vezes, continuam sendo vítimas nos livros de história*).  Slut-shaming é a prática de criticar pessoas, especialmente mulheres e meninas, que violam expectativas de comportamento e aparência em relação a questões relacionadas à sexualidade.  As escolhidas para ilustrar esse estigma são Charlotte Corday (1768-1793), que matou o agitador revolucionário Marat, Mary Wollstonecraft (1759-1797), a precursora do movimento feminista e que viveu intensamente aquilo que defendia.  E elas passam meio batido em Olympe de Gouges (1748-1793) para ilustrar que a ação de Corday desencadeou uma reação contra as mulheres, com o fechamento dos clubes políticos femininos e outras personalidades que não se conformavam aos papéis de gênero.

Logo em seguida, temos a discussão sobre a influencia de Wollstonecraft sobre a primeira onda feminista, no século XIX, a importância de seus escritos, em especial, Reinvindicação dos Direitos da Mulher.  Temos um salto e uma nova biografia, a da revolucionária comunista, feminista e primeira mulher ministra de estado e  embaixadora, Alexandra Kollontai (1872-1952).  As autoras marcam que ela é uma revolucionária como foi Wollstonecraft e Corday, mais de cem anos atrás, e falam rapidamente de sua amizade com Clara Zetkin (1857-1933), feminista alemã.  E o quadrinho faz questão de mostrar que Kollontai foi responsável pelas modernas leis favoráveis às mulheres no início da URSS relativas ao aborto, divórcio, licença para a amamentação, salários iguais, proposta de gestão coletiva dos trabalhos domésticos e cuidados com as crianças. 

Com o tempo, Kollontai passou a ser um problema mesmo para os seus companheiros comunistas.  O livro faz questão de mostrar críticas feitas por Lênin e Trotsky (*dessas não sabia, procurei rápido e não achei nada*) e, depois, de Stálin, que suspendeu parte da legislação (*não toda, como o quadrinho coloca*).  O que o volume não diz é que a seção feminina do partido comunista soviético foi fechada por Stálin.  Enfim, ainda assim, Kollontai não foi eliminada por Stálin, como muitos dos que começaram a construir a URSS, ela é exceção.  Ela morreu de morte morrida.

Já chegando no final, as autoras discutem como a História está cheia de gênios, que eles são sempre homens e tomam Goethe (1749-1832) como exemplo.  A ideia, suponho, é discutir o privilégio masculino.  Gênio seria "alguém declarado como tal pelas pessoas ao seu redor".  Elas então falam que ao longo dos séculos as mulheres foram perseguidas, difamadas e mortas, mas que, hoje, as coisas melhoraram muito, há internet, maior acesso à educação e maior capacidade de organização não somente local, mas global.  Otimista, bem otimista.  O capítulo fecha com uma coletânea de falas de mulheres célebres de nosso tempo, a maioria branca, a maioria do centro do capitalismo (Europa/EUA) nenhuma trans, tampouco uma feminista radical, nenhuma comunista ou anarquista ou realmente crítica ao capitalismo.  E, no final, temos o ranking do maior misógino da História.  Leiam para descobrir quem ficou com ouro, prata e bronze.

Concluindo, me senti um tanto decepcionada com o volume.  A minha leitura pode ter sido crítica demais, certamente foi, mas eu esperava mais de um quadrinho com o título tão grandioso de A Queda do Patriarcado - O Combate ao Machismo Através do Tempo.  Senti falta de classe, de raça, de Ásia, de América Latina, de África (*Egito antigo está fora*).  Na verdade, não houve articulação, caso em raros momentos, da experiência individual das mulheres célebres citadas para empoderar outras mulheres.  Tudo parece muito individualista, ou seja, se tivesse que rotular, seria um quadrinho alinhado ao que é chamado de Feminismo Liberal.  

Se quiserem um material que esteja na contra mão de A Queda do Patriarcado, recomendo (*e nunca resenhei*) Uma Breve História do Feminismo no Contexto Euro-Americano, que delimita as coisas e não se propõe a fazer o que não vai executar.  É isso.  A Queda do Patriarcado - O Combate ao Machismo Através dos Séculos está por um bom preço no Amazon e vale a leitura, mesmo que eu tenha feito tantas críticas ao material, ele é bonito, colorido e bem didático.  A Júlia, minha filha de 9 anos leu e entendeu uns 80%, aproveitei para discutir o material com ela.

sábado, 14 de janeiro de 2023

Muito Além do Mangá: Comentando Colaboração Horizontal de Navie e Carole Maurel

Colaboração Horizontal acabou de ser lançado pela Nemo, uma editora que eu gosto bastante, porque se preocupa em lançar mulheres em dar visibilidade a autoras e desenhistas, especialmente, as europeias.  Além disso, a editora publica materiais sobre questões relevantes, neste caso, a chamada colaboração horizontal.  O termo pejorativo, machista, é aplicado às mulheres francesas que se relacionaram intimamente com alemães que ocupavam a França durante a Segunda Guerra.  

Com o término do conflito, essas mulheres foram localizadas e expostas à humilhação público, tiveram seus cabelos raspados, algumas foram surradas, suas roupas foram rasgadas, houve as que tiveram suásticas pintadas na testa, ou mesmo marcadas à faca, em alguns casos tiveram que desfilar pelas ruas, não raro carregando os filhos que eram testemunho de sua traição.  Aliás, cortar os cabelos é uma forma de atacar um dos aspectos tidos como naturalmente femininos, não é uma escolha casual, é privar essa mulher dos encantos que ela usara para trair seus compatriotas.

Curiosamente, a França pós-guerra foi muito mais tolerante com os colaboracionistas homens, alguns deles membros das forças policiais que trabalhavam em conjunto com os nazistas.  Talvez, você nunca nem tenha ficado sabendo, porque nem todos os professores sabem disso, e pode não ter dado tempo de comentar em aula, mas parte da França era aliada da Alemanha, era fascista e governada pelo Marechal Pétain, a chamada República de Vichy.  A França que resistiu representava uma parte menor do país.  Foram os próprios franceses que entregaram os seus judeus, começando por aqueles que tinham origem estrangeira.  Há filme sobre isso, recomendo assistir Amor e Ódio (La Rafle).  

Esses homens, ofendidos pela "traição" de suas mulheres, porque as fêmeas são propriedade coletiva de todos os machos de uma nação, decidiram fazer o justiçamento com o apoio das mulheres que por terem elas mesmo resistido durante a ocupação, ou para passarem a imagem correta de indignação cívica, que poderia reafirmar a sua virtude, tomaram parte no espetáculo.  Há muitas fotos desses rituais de humilhação.

O fato é que da mesma forma que foram humilhadas, tratou-se de rapidamente esconder a tal colaboração horizontal, porque, afinal, a França é uma das vencedoras da guerra e precisava reafirmar discursivamente o seu caráter de resistência e horror ao nazismo.  Vocês então, já sabem como termina a nossa história, ou, pelo menos, as memórias da protagonista, Rose, a mulher que ousou amar um alemão e ser amada por ele.

Vou colocar a seguir o resumo da graphic novel na página tirado direto da página da editora francesa, a Delcout: "Colaboração Horizontal é a história de um amor proibido, de uma comunidade de mulheres unidas, do cotidiano de um prédio sob ocupação... Entre o heroísmo e a traição, há apenas um passo, muitas vezes perigoso. 1942, Paris, Passage de la Bonne Graine. Rose, para salvar sua amiga judia, Sarah, decide intervir junto ao oficial encarregado da investigação, Mark. Rose é casada com um prisioneiro de guerra, com quem tem um filho. No entanto, ela se apaixonará por esse alemão que lhe revelará a mulher que ela é. Este edifício é o santuário de mulheres heroicas e comuns, viúvas ou solteiras, judias ou ateias, escandalosas ou rabugentas."

Colaboração Horizontal, lançado em 2017 na França e em 2022 pela Nemo, não trata somente de Rose, nossa protagonista, ele conta a história de uma comunidade de mulheres.  Quando comecei a ler, e nem tinha visto esse resumo, tinha percebido exatamente isso.  Embora soubesse que o centro era o romance de Rose com algum alemão, as autoras primeiro nos apresentam o edifício, a vida em uma comunidade na qual os únicos homens são crianças, um gentil idoso cego, casado com a síndica, e o marido violento da amiga de Rose.

Quando começamos a ler Colaboração Horizontal, somos apresentados a um conjunto de tipos humanos.  A síndica que parece mesquinha e reprime sua filha, Simone, porque ela veste calças compridas e está mais interessada em cursar a universidade e estudar do que arranjar um marido, ela abre as cartas dos vizinhos e quer desocupar o porão do prédio, que está alugado para uma velha viúva, Henriette, que resiste a ideia.  Henriette diz criar gatos, mas o que a velha senhora que parece estar variando guarda no porão são pessoas cuja vida está por um fio.

Há também Joséphine, a bela do prédio, uma jovem solteira que faz faxina para Henriette durante o dia, mas que as vizinhas desconfiam que se prostitui à noite.  Simone é sua melhor amiga, para o desespero de sua mãe síndica.  Secretamente, a jovem Simone alimenta uma paixão por Joséphine.  As autoras se posicionam claramente sobre a profissão noturna de Joséphine, ela se prostitui, ela é mulher, sozinha e precisa de dinheiro, ela não queria estar nessa condição, ela queria uma vida "normal" e dedica um grande carinho ao pai de Simone, o único homem que parece não estar interessado em abusar dela.

Mas o que é uma mulher normal?  Judith, amiga de Rose, tem tudo o que uma mulher poderia desejar.  Ela se casou com um homem com uma profissão segura, ele é policial, ela tem uma casa, mas é humilhada por este homem todos os dias e torce para que a criança em seu ventre seja um menino, pois "eles têm todos os direitos".  Uma das questões discutidas em Colaboração Horizontal é os direitos civis das mulheres na França.  Simone quer o direito de voto, sua mãe defende que o importante é ter comida na mesa e um lar, enquanto chora por seu filho que está aprisionado em algum lugar.

O álbum não detalha, mas imagino que tanto o irmão de Simone, quando o marido e Rose, tenham sido capturados em Dunquerque, porque eles eram das tropas regulares.  Rose também é uma mulher normal, casou-se com um bom homem, tem uma casa e um filhinho, além disso, ela é enfermeira e admirada pelas vizinhas por ter uma profissão (*de mulher*).  Rose casou-se sem amor, não sei em quais circunstâncias, mas ela me lembrou a protagonista de Small Island da BBC, série baseada em livro e que é contemporânea a este quadrinho, a diferença é que a personagem de Ruth Wilson era uma moça das classes trabalhadoras e sem uma profissão mais ou menos respeitável e aceita como a de Rose.

Rose além de ser enfermeira decidiu ajudar a esconder uma vizinha judia e seu filhinho, para tanto, ela se aproximou de um jovem oficial alemão da inteligência, Mark.  O que começa como uma tentativa desesperada de salvar a vizinha, acaba virando um romance.  Sarah e o garotinho são salvos, Rose, no entanto, perde o seu coração e passa a se comportar de uma forma que os vizinhos acham estranha.  Mark é gentil, eles dividem sonhos, o sexo é muito bom também e as autoras não fazem julgamento moral a respeito dela, que começa a se arriscar demais.  Enquanto isso, o marido de Judith assedia Rose, a quem diz ter prometido proteger ao marido prisioneiro da moça.  Rejeitado, ele desconta na esposa.

O idílio amoroso de Rose, no entanto, não pode durar para sempre.  Os nazistas precisam se retirar em 1944 e ela e Mark não poderão ficar juntos.  Ele não quer deixá-la para trás e eu não entrarei em detalhes do que ele faz, ou do que ocorre, mas eu me senti comovida ao encontrar uma folha dobrada na última página do álbum, era a carta que Mark não conseguiu entregar para Rose.  A jovem fica para trás e está grávida.

Antes disso, em um dado momento, Mark fala de sua família e de como desenvolveu seu ódio pelos judeus.  Seu pai morreu na Primeira Guerra, sua mãe tornou-se militante contra a França e contra os judeus, que era culpados de tudo.  Vemos, rapidamente, as falas e sua mãe, a passagem pela escola, pela Juventude Hitlerista.  Mark não conhece nenhum judeu, mas odeia todos, Rose pondera que assim como qualquer grupo humano, há judeus diferentes, os bons, os maus, mas eles têm pressa, preferem se amar a discutir essas questões.  

Enquanto isso, as autoras mostram que a sororidade não domina a pequena comunidade do edifício. Ela pode vir de quem não se espera, a síndica machista, e pode faltar de gente em quem se confia, como Sarah, que deve sua vida à Rose, e Judith.  Aqui, cabe destacar que as mulheres também não são um bloco monolítico e que nos é ensinado desde sempre que a nossa fidelidade deve ser em primeiro lugar para os homens.  Tente deslocar isso para um contexto no qual as mulheres ocupam um lugar não somente subalterno, mas de dependência, pois sua cidadania não é completa.  A classe dos homens sempre se une, a das mulheres é ensinada a fazer o inverso.

Já me encaminhando para o final, dois destinos nesse graphic novel são tristes, o de Rose, claro, privada do seu amor e traída pelas mulheres que acredita amigas, e Joséphine.  O final da moça, que adoece e é acolhida por Rose, que guarda seu segredo, é bem triste, mas ilustrativo da sua solidão e da hipocrisia da sociedade na qual vivia.  Aliás, muitas prostitutas foram acusadas de colaboração horizontal, quando, na verdade, por vontade, ou necessidade, eram exploradas tanto por alemães, quando por franceses.  Até por conta disso e, também, como uma última forma de degradar e ofender, há quem defenda que todas as mulheres que se envolviam com alemães eram prostitutas, se não o fossem por ocupação, o eram por serem traidoras da pátria.

Concluindo, recomendo muito a leitura de Colaboração Horizontal. A arte de Carole Maurel é muito bonita, dinâmica, a quadrinização é precisa e garante uma perfeita compreensão da história.  Navie, a roteirista, é historiadora de formação e especializada em Fascismo, ou seja, ela estava colocando dentro da narrativa todos os seus conhecimentos sobre o período e o assunto.  Além disso, trata-se de um álbum conscientemente feminista e crítico, porque não passa a mão na cabeça e ninguém, ao mesmo tempo em que abraça o amor e nao se propõe a julgar suas personagens.  Gostaria que fosse mais longo, umas dez páginas, talvez.  Eu gostaria de saber o destino do bebê de Mark e Rose, voltando para a comparação com Small Island, lá, pelo menos, a criança nascida do caso entre a inglesa branca e o soldado jamaicano foi adotada por uma família que genuinamente a amou.

sábado, 4 de dezembro de 2021

Pele de Homem Amanhã no "Aspas Comenta"

Amanhã, no canal da Associação de Pesquisadores em Arte Sequencial, Natania, a Fabiana e eu estaremos falando de Pele de Homem (*resenha aqui*), premiado quadrinho de Hubert e Zanzim. O programa entra no ar às 16h e estou convidando vocês para assistirem comentarem (*caso queiram*) e, principalmente, a ler a obra, porque vale a pena. Foi lançada pela Editora Nemo em nosso país.  O link no Youtube é este aqui.

E eu falei, falei, falei e acabei não pontuando que o quadrinho inspirou o título no conto clássico, que eu adoro, Pele de Asno.  Pensei e esqueci e acabou não entrando no vídeo mesmo.  Aliás, a imagem acima é do filme francês de 1970 com Catherine Deneuve.  Recomendo muito, é um excelente filme.