sábado, 5 de setembro de 2020

Comentando The Blood of Madam Giselle: Por qual motivo esse marido ainda está vivo? (+ 18)


Uns meses atrás, não sei quanto, alguém sugeriu no Facebook do Shoujo Café uma webtoon coreana chamada The Blood of Madam Giselle (지젤 씨의 피), ou Giselle's Blood , da quadrinista coreana Lee Yeonji. Como tem se tornado bem comum, muita gente na minha bolha parece fascinada pela Coréia do Sul e  é comum que as pessoas tentem valorizar as produções coreanas rebaixando o mangá feminino feito no Japão.  Isso renderia, aliás, um grande texto, mas ele talvez não fosse muito diferente deste aqui.  De qualquer forma, fui lá ler The Blood of Madam Giselle, olhei os primeiros capítulos e ontem voltei para ver a quantas andava a história.  Desculpem, mas o texto terá spoiler, é inevitável.

The Blood of Madam Giselle se passa em uma espécie de Século XIX ao estilo europeu e conta a história da personagem título, uma moça casada com um homem mais velho chamado Carter Nathan.  Ele não era o primogênito da família, mas por sorte seu irmão e sobrinho morreram e condições misteriosas e ele herda o título de nobreza.  Para Giselle, no entanto, nada disso faz diferença, apesar de linda e de ter uma boa índole, ela é maltratada pelo marido, que a reprime e agride de todas as formas possíveis.

Ao se mudarem para a mansão da família, ela é advertida pelo marido de que havia duas regras a seguir, a primeira que ela deveria representar bem socialmente o papel de boa esposa, o segundo, que ela não deveria vagar pela casa, teria que ficar restrita aos espaços domésticos pré-determinados.  Toda a administração da casa, aliás, está sob a responsabilidade de uma governanta de nome Sophie que age como olhos e ouvidos do patrão.

Só que depois de mais um estupro conjugal, Giselle espera o marido dormir e começa a andar pela casa.  Ela percebe uma criada adolescentes se movendo sorrateiramente rumo ao porão e a segue.  A jovem estava indo checar um prisioneiro, um menino pálido, esquálido e aparentemente vulnerável.  Assustada com a presença da patroa, a empregada se aproxima demais das grades e é agarrada pelo garoto, Giselle tenta resgatá-la e recebe uma mordida na perna e tem seu sangue sugado. 

Ela é atendida por um médico, recebe 20 pontos na perna e é punida pelo marido na frente de várias criadas, mas movida pela curiosidade, convence a jovem criada, que se chama Anne, a lhe dar as chaves do porão.  Ao retornar, ela descobre que o prisioneiro não é mais um menino, mas um jovem e muito bonito.  Ela lhe oferece seu sangue novamente e nasce entre eles um forte sentimento, que pode colocar em risco o casamento de Giselle.  A mocinha tenta fugir do sentimento de ternura pelo vampiro e do desejo crescente que sente por ele, mas é tudo em vão.

Sim, voltei para olhar a quantas andava a história e Giselle, mesmo depois de ter iniciado um romance com o vampiro, que se chama Isaac, ainda assim está PREOCUPADA com seu casamento.  Somente no capítulo 28, há 30 disponíveis em inglês, ela se dignou a pedir o divórcio e apanhou novamente, claro.  Por esse detalhe, eu fiquei realmente perplexa.  Como esse homem ainda está vivo?  Como?  Umas moças vieram me explicar brincando que Giselle e Isaac estavam muito distraídos se pegando para matarem o marido.  Enfim, isso não procede. 

Apesar de ter muitas cenas de sexo, ou quase sexo, a autora nos oferece mais cenas desse tipo entre o marido de Giselle e Roxy, uma prostituta que acaba conseguindo um lugar como criada na mansão e quer (*obviamente*) o lugar da patroa do que entre a protagonista e o vampiro, fora que os estupros cometidos por Carter contra a esposa são mais gráficos do que deveriam.  Aqui, quero pontuar que isso foi o que mais me incomodou em The Blood of Madam Giselle e não sei se é peculiaridade do quadrinho coreano para mulheres, porque meu conhecimento é muito pequeno, eu não quero ver estupros detalhadamente desenhados como se fossem cenas de sexo.

Se a autora queria desenhar um estupro, OK, a partir dele já sabemos o caráter do marido, já sabemos que ele é horrível, não preciso ver o sujeito estuprando Giselle repetidas vezes ao longo da trama, inclusive enfiando os dedos dentro dela.  Eu também não queria ter visto as elaboradíssimas cenas de sexo, inclusive com detalhes sado-masoquistas, entre Roxy e o patrão.  Eu prefiro ver Giselle com seu vampiro e, sinceramente, eu já li livros e mangás eróticos o suficiente para saber que mostrar a mocinha sendo estuprada e o marido estuprador transando não é a regra, nem nos EUA, nem no Japão.  A autora já mostrou mais a bunda do marido da protagonista do que a do vampiro.  Isso, a meu ver não conta pontos para a história.

Já o maior problema é que a protagonista parece querer poupar a vida de Carter sem nos dar suficientes justificativas para tanto, porque Isaac queria despachá-lo bem antes do capítulo 10, ele chega, inclusive, a visualizar a cena.  Já Giselle até imagina no capítulo 10, eu acho, que, talvez, as coisas poderiam melhorar se ela tivesse um filho do marido, que, aparentemente, é estéril.  Nessa altura, sabemos que ela já está emocionalmente envolvida com Isaac, mesmo que eles não tenham feito sexo ainda.  Como a mocinha poderia ainda estar tão ligada ao sujeito e à regras sociais que parece desprezar?

Vejam bem, se seu amante é um vampiro, você não tem necessidade de se curvar às aparências, você não precisa conviver com um marido estuprador, mas Giselle sequer foi capaz de dizer as palavras mágicas "Eu te amo" para Isaac ainda.  Se o objetivo da autora é que a gente tenha raiva da mocinha, está funcionando comigo, tenha certeza.  Se esse tipo de situação é comum em material coreano, algo cultural, me perdoem, eu não tenho realmente as referências, mas não serve de bom cartão de visitas, não.  Isso quer dizer que a série é ruim?  Não, mas ela tem uns defeitos que eu considero graves mesmo.

A arte do mangá, que é toda colorida, é muito bonita e elegante.  Os vestidos das mulheres nobres, em especial, me parecem bem interessantes e as mulheres adultas e casadas todas usam o cabelo preso.  Isso fez a série ganhar pontos comigo.  Giselle aparece muito com os cabelos soltos, porque se encontra com seu vampiro na calada da noite mesmo.  Acho mesmo que nem as moças do Frock Flicks achariam defeito no espartilho que Giselle aparece usando na cena em que ela descobre que sente desejos pelo vampiro, porque, como eu pontuei, ele parece uma criança no primeiro encontro, mas se torna rapidamente um jovem ao voltar a ingerir sangue.  

Falando em vampiros, e sei que essa resenha está super desorganizada, Aparentemente, a única coisa que você da representação mais comum das criaturas da noite é esse aspecto, se o vampiro fica sem  ingerir sangue, às vezes por anos até, ele meio que desidrata.  Mas eles podem andar de dia (*ao que parece*), ainda que fiquem mais fracos, tem super força e velocidade, sentidos super apurados, além de capacidade de cura e de curar com sua saliva.

Tanto Giselle quanto Isaac são lindamente desenhados.  Ele, o vampiro, é muito bonito com seu cabelo muito negro e seus olhos dourados.  Essas duas características marcam os vampiros desse quadrinho.  E vários já apareceram nesses trinta capítulos, quer dizer, acho que são quatro, mas certeza, não tenho.  Aliás, há uma série de assassinatos não-resolvidos e  Giselle não acredita que Isaac seja o responsável pelas mortes, mas teme que ele termine sendo capturado (*porque, agora, ele entra e sai do porão quando bem quer*)  e sabe-se lá o que farão com ele.

Giselle, a mocinha, é a personagem feminina mais bonita da série, isso era o esperado, aliás, mas Roxy a prostituta-amante do marido-criada é uma espécie de clone dela.  Mesma altura, cor de cabelos e olhos, só que com muita maquiagem e aquele indiscutível olhar maligno e um ar muito vulgar.  É uma composição clichê da vilania, claro.  É a personagem utilizada para expôr a hipocrisia do marido de Giselle que aceita toda sorte de humilhações nos jogos sexuais com Roxy.  Obviamente, repito, a autora não precisava entupir a série com cenas de sexo dos dois.

Roxy quer mater Giselle, não vou adiantar como, e propõe ao marido que ela, que é idêntica á mocinha, gere o herdeiro que ele tanto deseja.  Na altura em que estamos na história, Giselle já sabe do caso do marido com a ex-prostituta, mas parece referir ignorar.  Agora, o que pode acontecer com o desenrolar da história é que Roxy e Sophie, a governanta, entrem em choque. Sophie é absolutamente fiel ao patrão, não se desenhou ainda qual a origem dessa relação, se veio por costume/tradição, ou é algo mais pessoal.  Talvez, Sophie tenha sido amante do pai de Carter, nada foi dito.

Enfim, se Sophie não tem problema em enquadrar Giselle, a patroa, nem  de provavelmente cometer assassinato para proteger o bom nome da família Nathan, não vai ser Roxy que vai fazer a governanta engolir algum desaforo.  Esse embate entre as duas pode render alguns bons capítulos se a autora quiser entrar nessa seara.  Já Isaac pode eliminar uma das duas, ou as duas, para proteger Giselle, mas se a autora não o deixa nem matar o marido... 

Agora, já que eu falei de Sophie, a série tem uns problemas sérios quanto à pesquisa histórica, ou fez umas opções muito pobres.  Sophie é a governanta, mas se veste com o mesmo uniforme de maid.  Isso é um erro.  Se a fonte de inspiração é a Inglaterra, e parece ser, deveria haver um mordomo, também.  E não parece ter nenhum footman na casa dos Nathan, o marido de Giselle é vestido por maids.  E não se trata de perversão do sujeito, mas de problemas mesmo de entendimento da época que supostamente se quer retratar.  Ele deveria ter um valete, maids ou criadas pessoais são para vestir as damas.

Quando Giselle está tendo suas memórias de infância, e ela teve pais muito pouco amorosos,  ela se lembra de seu casamento e do quanto Carter Natan parecia ser um cavalheiro até que, bem, ela foi viver com ele e descobriu que ele não era.  Enfim, Giselle quer cavalgar, diz que é um passatempo elegante entre as damas da boa sociedade, o marido bate nela e a proíbe dizendo que só uma vadia iria andar de pernas abertas sobre um cavalo.  

Damas europeias, à despeito do que muitos filmes mostram nos últimos anos, não montavam à cavaleiro, de pernas abertas, mas atravessadas na sela, que era feita para mulheres.  Das duas uma, ou a autora não sabe como mulheres nobres montava até as duas primeiras décadas do século XX, ou a questão é da cultura coreana e as autoras não conseguem se desvincular disso. 

Estou comentando, porque em Ebony (에보니), que não tem uma arte tão boa quando o de The Blood of Madam Giselle, mas constrói melhor o mundo onde a história se passa, a mocinha também é proibida de montar à cavalo, mas a ideia é de que nenhuma mulher deve guiar qualquer coisa, mesmo um animal.  Não é o discurso do marido de Giselle, mas, de novo, cavalos e mulheres parecem não combinar, algo que não era verdade em sociedades aristocráticas que parecem inspirar The Blood of Madam Giselle.

Falando de outras personagens, uma que tem importância, mas é bem misteriosa é a Duquesa viúva Tuitte, ela é suspeita de ter se livrado do marido e afronta a sociedade com seu estilo de vida.  Por exemplo, ela só parece ter bishounens bonitos trabalhando em sua casa, nenhuma maid. Seu mordomo louro e lindo, Sir Leo, parece guardar muitos mistérios, provavelmente, sabe mais sobre os vampiros do que gostaria e mostra certo desprezo por Giselle.  

Ele a salva de um ataque aparentemente para encobrir o segredo de sua senhora, a duquesa, mas, sei lá, esse desprezo me parece interesse, mas não sei se a autora vai criar um triângulo.  Provavelmente, não vai.  A duquesa tem uma amante vampira, há cenas de sexo entre as duas, ainda que menos explícitas, e a tal vampira tentou capturar Isaac em um dos capítulos.  

Voltando ao marido, acho que a autora não conseguiu acertar, ou estabilizar, o rosto do marido de Giselle, talvez, porque ele não possa nem ser uma personagem genérica, nem possa ser um bishounen lindo.  A autora de  The Blood of Madam Giselle desenha muito bem homens jovens e bonitos, os personagens masculinos idosos, ou comuns, ou cômicos, para compor o fundo, mas o marido de Giselle não parece ter traços muito regulares.     

Já terminando, porque escrevi demais, eu devo continuar observando esse quadrinho, porque quero saber do passado de Isaac e como os vampiros serão tratados ao longo da história.  Falando nisso, a gente não sabe quantos anos Isaac tem.  Ele foi comprado pelo pai do marido de Giselle muitos anos atrás.  Ele, no entanto, parece ter um bom coração, ou ser capaz de amar pelo menos, à despeito de todas as crueldades sofridas.  A gente descobre, também, que ele não tem nenhuma experiência sexual e esse descobrimento do desejo (*e vale para Giselle, também*) é bem abordado pela autora ao longo dos capítulos.

Agora, é fato que me desagrada muito as sequências de estupro desnecessárias, porque você pode expôr a violência sem mostrá-la e as cenas de sexo do marido de Giselle com a amante.  A autora poderia guardar seu talento para quem importa e parar de dar tratamento semelhante à cenas de sexo consensual e estupros, há recursos narrativos que ela evidentemente domina que poderiam ser usados nesse momento.  

Falando em sexo e masturbação (*tem isso, também*), as cenas tem aquele blurr que impede que vejamos as genitálias.  Acredito que seja a regra nos quadrinhos japoneses, mas não fui procurar informações à respeito.  Alguém poderia me confirmar se procede?  Enfim, acredito que um grupo brasileiro, porque em inglês está borrado, cismou de desenhar as genitálias.  A coisa, obviamente, ficou mais explícita do que já é e não digo que é para melhor, a não ser que você realmente goste da coisa.  O detalhe é que todas as genitais são depiladas, porque o realismo é somente onde convém.  

Se quiser olhar essa versão em português, ela está aqui, siga direto para os capítulos 16-17, que é onde o casal principal faz amor pela primeira vez. Se quiser a versão em inglês, está aqui.  Procurando imagens para a resenha, encontrei uma versão em um site brasileiro no qual colocavam stickers cretinos sobre os seios de Giselle e as genitais, um lixo.  Enfim, do que eu li de webtoon coreana, Ebony (*resenha aqui*) deixa The Blood of Madam Giselle comendo poeira, mas se você quer ver sexo, e nem vai ter tanto assim entre o casal protagonista, você sabe qual escolher.

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4 pessoas comentaram:

Valéria, vc sabe que tem uma distância muito grande na questão do sexo nas wetoons e nos dramas Mês passado teve uma polêmica muito grande com dois deles por insinuações sexuais e nem foi sexo. Um, que acho que terminou por esses dias levou até multa (e olhe que para olhar ocidental não era nada demais), ele foi apatado de um webtoon, teve muita coisa cortada mesmo assim foi multado e recebeu avaliação baixa do público. O mesmo aconteceu com Tudo bem não ser normla, no Netflix, que é uma história linda, mas acredite, eles multaram pq a protagonista é ousada demais. Eum siceramente li poucos webtoons, só aqueles que deram origems a adaptações, mas notei isso, uma censura muito grande com relação ao sexo pela televisão, o que não acontece com os webtoons. Li sua resenha e dei vontade de comentar. Só não sei se vou ler o webtoon, não faz muito meu estilo :-)

Eu também estou lendo esse webtoon e quase não passei do primeiro capítulo... Realmente acho muito desnecessárias as cenas entre Giselle e o marido, ou as cenas do marido em geral. No momento leio mais pela relação dela com o Isaac e por estar intrigada com os assassinatos e a questão dos outros vampiros. Mas as vezes fico me perguntando se ela vai mesmo explorar isso, ou vai ficar só no núcleo Giselle/Isaac/Marido.
Enfim, adorei ler sua resenha. Na hora que li o título pensei na hora "Finalmente alguém vai falar disso!". Já que até agora não encontrei ninguém que comentasse sobre os estupros. Muito obrigada!

Valéria, em relação ao blurr nas cenas de sexo/masturbação, no momento eu só tinha comigo esse artigo tratando especificamente da censura nos doramas coreanos (e acredito que a filmes também), mas deve esbarrar provavelmente na questão dos quadrinhos.

Espero que seja útil.

Segue: https://medium.com/blogadqsv/o-que-os-borr%C3%B5es-em-dramas-policiais-nos-ensinam-sobre-a-censura-coreana-5a3269e7e4bd

É exatamente isso mesmo, e antes de ler esse artigo dei uma procurada em outros mangás sul coreanos, e era o mesmo tipo de censura.

Ps.: a quantidade de cenas de estupro nos mangás sul coreanos é perturbadora, chega a ser mais doentio do que as dos hentai de estupro que já é algo que deveria ser proibido!

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