quarta-feira, 23 de setembro de 2020

Comentando o capítulo 5 de Orgulho & Preconceito (BBC/1995): O capítulo dos olhares em sintonia.


No domingo, assisti ao quinto capítulo de Orgulho & Preconceito e, por motivos de trabalho e familiares, não consegui resenhar.  Já queria ter concluído toda a série nessa altura do campeonato.  Enfim, este capítulo é o que tem a minha sequência favorita de toda a série, na verdade, os quinze minutos iniciais desse episódio são perfeitinhos.  Fora, claro, as vezes em que Caroline Bingley tenta rebaixar Lizzie aos olhos de Darcy e consegue exatamente o contrário. É a parte onde a gente dá aquele sorriso com o canto da boca, porque são três grandes bolas fora.

Quando terminamos o capítulo anterior, Darcy está lá na estrada olhando a amada se afastar no coche junto com seus tios.  Houve o encontro fatídico depois da cena do lago e Mr. Darcy está disposto a recomeçar do zero a sua relação com a heroína.  Ela, por sua vez, já tinha digerido a carta do moço e avaliado melhor a personalidade de Wickham, sua visão sobre Darcy já estava bem transformada em relação ao que tinha sido nos três primeiros episódios.  Fora isso, ela viu Pemberley e ficou meio que deslumbrada e assustada com o que tinha recusado.

No outro dia de manhã, lá estava Darcy, com um olhar bem gentil para Lizzie, a irmã dele e Bingley na hospedaria para falar com a protagonista.  É a primeira vez que ouvimos a voz de Emilia Fox, que interpreta Georgiana Darcy.  A atriz deu um tom perfeitinho para a moça tímida e que, sim, tinha passado por uma experiência bem traumática poucos meses antes.  No primeiro diálogo entre ela e Lizzie, cria-se um sentimento de simpatia entre as duas e a heroína irá tomar como verdade o testemunho da adolescente sobre seu irmão.  E, claro, Georgiana diz que tinha ouvido falar muito dela, o que indica que Darcy não a teria esquecido de modo algum.  Lizzie também observa a forma afetuosa como Mr. Darcy trata a irmã e isso o eleva ainda mais aos seus olhos.

Agora, dessa primeira sequência, o que se destaca é o diálogo com Bingley, porque as caras que Crispin Bonham-Carter são bem divertidas, aliás, hoje é aniversário do ator.  Ele passa a ideia de excitação, de alegria e, ao mesmo tempo, sabe que precisa se conter.  Ele lembra exatamente de quanto tempo partiu de Netherfield, mas não pode perguntar diretamente de Jane.  Pergunta pelas irmãs de Lizzie, se todas estão em casa, ela diz menos uma e o rosto do rapaz meio que se transforma diante da expectativa negativa.  "Será que Jane se casou?"  Ao ser informado que a ausente é Lydia, o rosto dele se desanuvia.  É uma das melhores cenas de Bonham-Carter na série inteira.

Logo, em seguida, cortamos para Pemberley e Elizabeth está ao piano tocando e cantando.  Enquanto isso, lá do sofá, Darcy está derramando um olhar apaixonado sobre a moça e sua boca, se não esboça um sorriso completo, está perto disso.  O tio de Elizabeth olha para a sobrinha, depois para Darcy, enfim, todo mundo já percebeu o que está acontecendo.  É o capítulo dos olhares, por assim dizer.  No livro, inclusive, é nessa parte que a autora escreve que tanto Darcy, quanto Elizabeth, estavam tentando disfarçar o indisfarçável, isto é, o interesse mútuo, porque todos os estavam observando.  Depois disso, Elizabeth e Georgiana conversam sobre Darcy de forma elogiosa, ele parece desconfiar que falam dele, mas não tem como ouvir.  O rosto de Colin Firth mostra curiosidade e um certo constrangimento, mas não como lá, no primeiro baile, quando ele ofendeu Lizzie e a moça vai conversar com Charlotte.    

Georgiana é convencida por Elizabeth a tocar, mas ela se recusa a cantar.  Os efeitos positivos da heroína sobre a moça, mesmo em tão pouco tempo, já são visíveis.  Moças da classe social dos Darcy precisavam saber receber convidados e entretê-los, Georgiana precisava desenvolver essa competência.  Como a moça é muito tímida, Lizzie a ajuda a ter segurança.  E acontece uma cena que difere um pouco do livro, uma diferença significativa, aliás.  Lizzie se afasta do piano e é interpelada por Caroline Bingley. No livro temos esta fala de Miss Bingley: "Pray, Miss Eliza, are not the ——shire Militia removed from Meryton? They must be a great loss to your family."  ("Por favor, Miss Eliza, os soldados da milícia não foram removidos de Meryton? Eles devem ser uma grande perda para sua família.")  


No livro, Caroline não cita o nome de Wickham, porque ninguém ousava falar o nome dele diante de Darcy, mas só essa frase é suficiente para que Georgiana se agite.  A ideia, claro, era rebaixar Elizabeth aos olhos de Darcy, e Austen se apressa em dizer que Caroline jamais teria feito a observação (*sem o nome*) se soubesse o mal que causaria à Georgiana. Na série de 1967, da qual sobram poucos fragmentos, a reação de Georgiana (Tessa Wyatt) é histérica nessa cena, aliás, diferindo absolutamente do livro.  Enfim, na série de 1995, Darcy começa a se mexer na cadeira e Caroline fala o nome de Wickham. Georgiana erra a música que estava tocando, se mostra confusa e Darcy prestes a pular do sofá. 

Elizabeth intervém graciosamente e vai acudir a irmã do amado.  Em seguida, os dois trocam um olhar afetuoso e cheio de compreensão, é uma declaração muda de amor.  A cena consegue derreter meu coração sempre que eu a assisto de novo.  Ele se recompõe e Georgiana discretamente olha de um para a outra e continua tocando.  Esta é definitivamente a minha cena favorita da série inteira.  Colin Firth e Jennifer Ehle se olhando em perfeita sintonia, com sorrisos discretos.  Eu revi a cena várias vezes já desde o domingo.  É a perfeição da perfeição, mesmo derivando de uma alteração no original.  E, no outro dia, bem cedo, Darcy fica indeciso sobre o que usar e deixa seu valete meio doido para agradá-lo.  

É engraçado porque a cena, que não está no livro, subverte o que é esperado dos papéis de gênero convencionados em nossos dias, mas, na natureza, é o macho que normalmente precisa impressionar a fêmea. E ele não pode ser rejeitado de novo e pega a tal casaca verde que da qual parece gostar tanto, que usou no primeiro pedido de casamento. Eu acredito que a ideia ali era sugerir que ele iria propor casamento de novo para Elizabeth, a intenção do roteiro e da direção era nos convencer disso, porém, temos a carta de Jane, as cartas, na verdade, contanto que Lydia fugiu com Wickham.

Nessa sequência é a primeira vez que Darcy toca deliberadamente na mocinha, ele a pega pelo braço e segura sua mão por alguns instantes para acalmá-la, antes de saber do que se trata.  Quando entra Wickham na história, ele se afasta, levanta, uma sombra desce sobre seu semblante.  Darcy se sente culpado por não ter exposto o canalha, mas Elizabeth crê que é repulsa pelos acontecimentos descritos por ela.  O que quer que seja, denunciar publicamente Wickham poderia ter manchado a reputação de Georgiana, como irmão consciencioso, Darcy não poderia fazer isso.  Melhor seria desafiar o canalha em duelo e matá-lo, mas, enfim, não é bem o estilo de Jane Austen, aliás, a autora faz troça disso mais tarde com Mrs. Bennett acreditando que o marido vá desafiar Wickham e ser morto por ele. Essa história de duelo vai aparecer em Lost in Austen, mas de forma diferente, porque os eventos da história foram alterados por conta da heroína que invadiu o livro.

O fato é que Darcy parte e Elizabeth fica desolada.  Mesmo sem admitir para si mesma, ou para a irmã, Jane, quando a reencontra, que o ama, ela se sente profundamente mortificada pelo que Darcy possa pensar dela, por ter perdido sua estima.  Lizzie sofre, é verdade, mas Darcy, por amor a ela, mergulha no submundo de Londres atrás de Wickham e Lydia.  Para ele é um grande sofrimento e está somente começando.  As expressões faciais de Colin Firth daí até o final serão todas soturnas, por assim dizer.

De novo, temos o ponto de vista de Darcy, aquilo que é inovador na série de 1995 e que não está no livro.  Aliás, quem provoca a decisão do moço?  Quem o empurra para esse esforço colossal de tentar resgatar a honra de Lydia por amor à Elizabeth? Caroline Bingley.  Em mais uma tentativa de chamar a atenção de Darcy, afinal, ele está silencioso e tenso, ela lembra ao moço da ausência da heroína e que ele deveria estar sentindo falta dela.  Na verdade, Caroline dá três bolas fora nesse episódio e só ajuda a aproximar Darcy de Lizzie. E o que temos no resto do capítulo #5?

Elizabeth retorna com os tios para Loungborn e vemos Mrs. Bennett se lamentando e dizendo que sempre desconfiou de Wickham, principalmente, depois que sua irmã, Mrs. Phillips conta que histórias sórdidas sobre ele começaram a aparecer.  Alison Steadman estava brilhante nesse capítulo.  Jane sofre quando finalmente compreende que o mau passo de Lydia pode ter acabado com as possibilidades de casamento um casamento respeitável dela e de suas irmãs.  Ela também se culpa por ter silenciado sobre o caráter de Wickham, mas Lizzie a assegura que ela não tem culpa alguma.  Mary tem seus momento de protagonismo ao expressar as opiniões misóginas que leu nos livros sobre a honra perdida das mulheres e Kitty é exposta como cúmplice.  E há Lydia, claro... 

Uma questão cada vez mais discutida nos grupos em língua inglesa sobre Jane Austen é a suposta pedofilia de Wickham.  Bem, é anacronismo, mas o fato é que os responsáveis com Lydia, em especial, o pai, foram descuidados em relação a ela.  Uma moça de quinze anos se casar não era desejável na Inglaterra, mas em Portugal, no Brasil, não seria escândalo mesmo.  Havia meninas mais jovens que estavam casadas com homens vinte anos mais velhos que elas.  A própria Rainha Maria II se casou aos 15 anos, enquanto a Rainha Vitória, que nascera no mesmo ano 1819, se casou somente com 21 anos.   Vejam que é a idade de Lizzie quando se casa com Darcy.  Só que casais fugiam para Gretna Green o tempo inteiro para se casar e burlar qualquer obstáculo imposto por suas famílias. 

O X da questão são as circunstâncias.  Wickham seduziu uma moça de família e não pretendia se casar com ela, o que poderia remediar o caso todo, ainda que persistisse algum ar de escândalo.  Lydia, cabeça de vento como era, se atirou  sem pensar duas vezes nos braços do canalha.  Ela não tem noção do perigo, ela não compreende o risco que corre.  Veja que Wickham quase seduziu a irmã de Dacy quando ela tinha a mesma idade.   Ambas só tinham 15 anos e essa idade parece ser uma baliza para Jane Austen.  A menina parece uma mulher, mas não é ainda, está vulnerável aos perigos do mundo.  O tema aparece em Razão e Sensibilidade, também.  Agora, não se iludam mesmo, Lydia é uma versão mais jovem da mãe, ela certamente irá atormentar bastante Wickham, talvez mais do que ele a ela.

Ah, sim!  Temos duas outras coisas nesse capítulo.  Uma delas é o sofrimento de Mr. Bennett que consegue começar a refletir sobre como falhou no seu papel de pai.  Sim, ele cometeu vários erros e negligências, a culpa não é somente da mãe, muito pelo contrário.  Quando, finalmente, chega a notícia de que Wickham vai se casar com Lydia, ele se sente mortificado por imaginar que o cunhado, Mr. Gardiner, gastou muito dinheiro para conseguir convencer o canalha.  Saberemos que a história não é bem essa no próximo capítulo.

E Mr. Collins vem fazer uma visita.  É uma delícia vê-lo tentando tripudiar sobre as primas fingindo piedade, trazendo o veneno destilado por Lady Catherine de Bourgh, também,  e sendo suplantado por Elizabeth que o convence de que é um risco para a sua boa imagem permanecer em companhia das primas.  "O que Lady Catherine vai pensar?"  Já no finalzinho, Elizabeth pensa em Darcy e no futuro que poderia ter tido com ele.   O capítulo fecha com um close em Mr. Darcy com o rosto sombrio, no último capítulo saberemos o motivo.  É isso!  Falta um capítulo somente.  Devo colocar a resenha na sexta-feira.  A minha intenção é reassistir a série de 1980 depois.

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2 pessoas comentaram:

Boa Noite.
Onde você irá assistir a série de 1980?

Gleyce, boa noite!

Eu tenho os DVDs britânicos, mas é fácil baixar na internet. Eu tenho no PC, também.

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