segunda-feira, 7 de setembro de 2020

Confirmado o Remake de Pantanal em 2021, só não sei se vai ter Pantanal para as filmagens


Em 1990, estreou a novela Pantanal na extinta TV Manchete, ela vai voltar em nova versão no ano que vem.  Escrita por Benedito Ruy Barbosa e dirigida por Jayme Monjardim, ela se aproveitou intensamente das beleza da natureza pantaneira, além de sexo e nudez, para disfarçar uma história com muitas barrigas e clichês já vistos e derrotar a imbatível Globo na audiência.  Tudo isso ajudou a criar um mito de que Pantanal era uma novela espetacular e de fato a trama influenciou esteticamente várias produções globais, especialmente, do próprio Benedito Ruy Barbosa daí para adiante.

Falo de influências estéticas, porque algumas das ideias já tinham sido vistas antes nas obras do autor, como a ideia do bom coronel e fui buscar a definição que coloquei no meu texto sobre o início de Velho Chico: "O bom coronel – garanhão, machista, autoritário – que parece malvado às vezes, mas, lá no fundinho, é um homem de bem, zeloso e que só precisa aprender a expressar seus sentimentos."  Também certos elementos fantásticos, como o diabinho da garrafa.  José Leôncio (Cláudio Marzo) tinha o seu, mas lá em Paraíso (1982), o coronel também tinha o mesmo diabinho e  quando voltasse para a Globo, em Renascer (1993) veríamos a mesma coisa.  O filho enjeitado de Pantanal interpretado por Marcos Palmeira repetiria o papel em Renascer.  Muda-se alguma coisa, mas basicamente é a mesma dinâmica na relação.

Sim, eu não gosto de Pantanal e eu tive que assistir muitas novelas rurais de Benedito Ruy Barbosa antes de me libertar disso.  Assisti Pantanal em sua primeira exibição, meus pais amavam a trama e, apesar de evangélicos, o sexo e a nudez da história não os incomodavam como tinham incomodado em novelas anteriores da Manchete.  Eu não pude assistir Dona Beija, nem Kananga do Japão em suas primeiras exibições, mas a história da beleza do Pantanal fez com que meus pais se apaixonassem pela história.  Até hoje há quem chame meu pai de "Velho do Rio" por causa dessa novela.  Vai entender, na época ele não era velho e nunca teve barba.

Pantanal era um programa obrigatório familiar.  Eu tinha que estar na sala, gostasse, ou não.  A partir dela, eles passaram a consumir todas as novelas da Manchete, coisa que não faziam antes.  Não sei bem qual trama me torturou mais, se Pantanal, Ana Raio e Zé Trovão, ou Mandacaru, mas o fato é que a novela foi um divisor de águas.

Mas muita coisa mudou de 1990 para cá.  O conteúdo sexual das novelas, salvo as das 23h, que não existiam na época, foi muito amenizado, muitos papéis de gênero foram questionados. Algo que me irritava enormemente em Pantanal, era que parte da trama girava em torno das masculinidades e o padrão era José Leôncio, o macho de verdade.  Por conta disso, o filho educado no rio do fazendeiro, Jove (Marcos Winter), ou Joventino, só foi aceito quando passou a reproduzir comportamentos de gênero que o pai considerava aceitáveis, isto é, se torn ar um peão e fazer sexo com uma ou mais mulheres, nesse caso, Guta (Luciane Adami), filha do coronel inimigo, e Juma Marruá (Cristiana Oliveira), a mocinha da trama.

E havia toda a trama do peão gay, também, apesar de Benedito Ruy Barbosa ter expressado opiniões muito homofóbicas na época do lançamento de Velho Chico.  Vou trazer, também, do meu texto de Velho Chico: "De qualquer forma, o velho Benedito Ruy Barbosa não deveria vir com esse papo de "odeio história de bicha", porque lá em Pantanal, no distante ano de 1990, ele criou, sim, um homossexual que tinha uma participação significativa na história e até uma traminha - lá na parte da enrolação e esticação para aproveitar a audiência - na qual o peão gay e ex-mordomo Zaqueu (João Alberto Carvalho Pinheiro) está apaixonado por outro peão, Alcides (Ângelo Antônio).  Quando o vilão da novela, Tenório (Antônio Petrin), supostamente castrou Alcides, foi Zaqueu que provou para o rapaz, durante uma noite de íntima "conversa", que ele não estava castrado coisa alguma... Depois, não me venha falar que odeia história de bicha, porque, na época, a historinha causou um misto de furor e escândalo."

Havia uma violência de gênero muito grande nessa novela, e eu nem falei das mulheres, e que nunca era relativizada, ou questionada de verdade, pelas personagens realmente positivas.  Acho mesmo que uma repetição da trama seria palatável para muitos pessoas ainda hoje, porque, bem, vivemos um momento de backlash e seria como abrir uma cápsula do tempo.  Espero que o neto de Benedito Ruy Barbosa, que deve ser o autor desse remake, faça alterações consistentes na trama.

Enfim, esse boato sobre remake de Pantanal estava rolando fazia semanas.  A confirmação nem é novidade, só me parece um tanto inoportuna.  O Pantanal está queimando nesse momento, não existe nenhum plano governamental para combater incêndios criminosos, ou o que seja.  Será que vai haver Pantanal para filmar a novela, ou a Globo construirá um ecossistema cenográfico no Rio de Janeiro?  Ou será que a ideia é essa mesmo, denunciar a destruição do meio ambiente?  Eu aqui esperando remake de O Direito de Amar e me vem essa história de Pantanal... 

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