sexta-feira, 29 de julho de 2022

Comentando Lovespell (Irlanda/EUA/1981): Uma modesta, mas convincente versão para a história de Tristão & Isolda

Dois domingos atrás, finalmente assisti um filme que procurei por mais de vinte anos, Lovespell, uma das várias adaptações para o cinema da história de Tristão e Isolda, um dos meus romances favoritos.  Descobri o filme na época em que Star Trek Voyager (1994-2001) estava sendo exibida, porque o papel de Isolda é interpretado por Kate Mulgrew, a Capitã Janeway, na verdade, foi o primeiro papel dela no cinema.  Já tinha tentado encontrar torrents, mas acabei achando meio que por acaso no Youtube.  Qualidade ruim, mas eu precisava matar a minha curiosidade.  Achei até bem decente, porque é visivelmente um filme de baixo orçamento e acabou saindo no mesmo ano de dois épicos que foram super produções, A Fúria de Titãs e Excalibur, apesar de ter sido gravado em 1979.

Para quem quiser ler o meu resumo da história, que tem inúmeras versões (*e eu estou longe de ter lido todas*) desde o século XII, fiz um post sobre ela muito tempo atrás, está aqui.  Lá, eu conto a história de amor dos dois, coisa que não irei fazer nesta resenha, porque a coisa pode se esticar demais.  Aliás, um ano e pouco atrás, eu reli duas das três versões de Tristão e Isolda que tenho aqui em casa (*1 - 2 - 3*).  Ia resenhar e acabei não fazendo isso, um dia, quem sabe?  Enfim, o tal post foi em preparação para a estreia de Tristan + Isolde, que foi uma das primeiras resenhas que fiz de filme que fiz para o canal.  

Retornando, em uma boa sacada, Lovespell inicia com um texto explicando que a história de Tristão & Isolda foi contada muitas vezes desde o século VI, quando supostamente os eventos aconteceram, e que o filme contará a sua versão do amor dos dois.  Isso é uma forma de neutralizar as críticas a uma falta de fidelidade ao original, que não existe, marquem bem isso, porque há várias versões de Tristão & Isolda, ao mesmo tempo em que se dá ao direito de criar em cima das narrativas medievais.  No caso do filme, o foco fica muito mais sobre o rei Mark, marido de Isolda e tio de Tristão, do que sobre os amantes e é fácil entender esta opção, porque Richard Burton é o nome mais importante do elenco. Já Kate Mulgrew oferece uma Isolda que não é loura, detalhe importante nas narrativas sobre ela, mas é forte e ardilosa como as das primeiras versões da história. Então, como começa o filme?

O rei Marc da Cornualha (Richard Burton) está na Irlanda buscando fazer as pazes com o lorde (Cyril Cusack) cujo cunhado, Morholt, atacou o seu reino e foi derrotado e morto por seu sobrinho, Tristão (Nicholas Clay).  O objetivo maior era conseguir descobrir uma cura para a ferida mágica que o inimigo deixou em Tristão e que não sara nunca.  Marc e seu escudeiro (Niall Toibin) acabam encontrando uma adolescente (Kate Mulgrew) e seu falcão caçando, o acompanhante do rei a confunde com uma camponesa, a trata com desdém, e acaba sendo humilhado por ela.  A jovem se chama Isolda e é filha do tal lorde.  Marc se encanta por ela e o pai da jovem diz que o cunhado era um problema, que não guarda rancor, e oferece os cuidados de Isolda ao sobrinho do rei, porque ela herdou da mãe o conhecimento de ervas e o dom de cura.  Marc parte prometendo à Isolda que iria lhe mostrar a sua corte, afinal, a menina vivia em um castelo depauperado com um pai idoso e uma ama, Bronwyn (Geraldine Fitzgerald) igualmente velha.  Mal sabia a menina, que o velho rei a pretendia apresentar a sua corte como sua rainha.

Tristão segue para a Irlanda para ser curado e levando, também, um pedido de casamento do velho rei para Isolda.  Ele não se sente ofendido pelo tio querer se casar, algo que colocaria em risco sua condição de herdeiro do trono, mas Isolda se mostra incrédula com o pedido.  Marc é um velho com cerca de sessenta anos, ela uma adolescente, ela o via como amigo, não como possível marido.  Tristão defende a causa do tio, mas os dias passam, Isolda cuida dele e ambos se apaixonam, apesar de nada falarem sobre isso.  Bronwyn adverte o pai de Isolda sobre o que está acontecendo e insiste que Isolda deve se casar com o rei, alguém que pode lhe dar proteção.  Ela pede permissão ao seu senhor para recorrer às velhas artes pagãs e preparar um filtro do amor que faça com que Isolda e o marido se apaixonem.  Isolda resiste, mas cede e parte com Tristão para a Cornualha.

Na maioria das versões de Tristão e Isolda, a moça tem uma dama de companhia, Brangaine, que se confunde e dá a poção de amor para os jovens durante a travessia de barco para a Cornualha.  Como Brangaine não existe neste filme, Isolda está informada sobre o filtro e o que deveria fazer.  Curiosamente, o filme opta por unir Tristão e Isolda sem a ação do filtro, ideia que foi acompanhada pelo filme de 2006, mas o herói jamais sucumbiria ao desejo sem um agente mágico o obrigando. Enfim, Isolda parece triste e abatida durante a travessia, Tristão se compadece dela e não consegue resistir mais quando ela lhe declara o seu amor.  O Tristão deste filme, mesmo com este desvio, é muito semelhante ao das versões do poema que li.  Ele é honrado e se vê corroído pela culpa por trair o tio.  O problema é que, nos poemas, ele conhece Isolda antes de Marc, ele a ama primeiro, mesmo só descobrindo seus sentimentos bem mais tarde.

O único problema para mim é que Nicholas Clay interpretou Lancelot e o tom que ele deu para Tristão, e acredito que Lovespell tenha sido filmado antes de Excalibur, é o mesmo.  Sim, sim, o drama de dos dois cavaleiros é semelhante, ambos amam a esposa de seu senhor, mas salvo pelo orgulho que Lancelot demonstra no início de Excalibur, não vejo grande diferença na forma como Clay os interpreta.  Talvez, tenha sido uma escolha, porque nas versões mais tardias, quando Tristão aparece incorporado aos romances arturianos, ele é meio que um duplo de Lancelote.  Enfim, ao chegarem à Cornualha, Tristão se retrai, ele sabe que não deve se aproximar mais de Isolda e é aí que ela lhe dá o filtro sem que ele saiba.  

Nas versões do poema, Isolda sempre teve mais iniciativa mesmo, Tristão é quem mais sofre, pois se sente irremediavelmente preso à rainha e, portanto, cometendo a maior traição contra o tio.  Isolda é capaz de muitos ardis, algo que é reduzido neste filme, para conseguir enganar o rei e a corte e ter Tristão em sua cama.  Já o cavaleiro, faz de tudo para resistir, mas o filtro o impele a agir contra a honra.  Em um filme com mais vinte minutos, essas tensões poderiam ter sido melhor desenvolvidas. Como é um filme de baixo orçamento, há menção a outros sobrinhos de Marc, mas eles não aparecem, quem percebe que há algo entre Tristão e Isolda é o escudeiro do rei, o mesmo que foi humilhado pela mocinha e quer vingança.  Isto fica mais do que claro na forma como ele conduz o rei a descobrir o adultério.

Quem ajuda Tristão e Isolda é Governal (Niall O'Brien), que, nos poemas, tinha cuidado da educação de Tristão desde a infância e o acompanha de seu reino natal, Lionesse, até a Cornualha.  É ele que consegue levar Isolda para ver Tristão antes que ele seja executado e que dá fuga ao cavaleiro.  Achei interessante que o filme tenha colocado a cena da floresta, quando Marc surpreende os amantes fugitivos dormindo juntos floresta, mas separados por uma espada nua, sinal de castidade.  O problema é tudo ter sido muito corrido e enxugado, porque essa parte da floresta demora algum tempo e o efeito do filtro começa a se desfazer, fazendo com que Tristão, ele antes dela, recupere a razão.

Quem tem a personalidade muito vem desenvolvida no filme é o rei Marc e a gente consegue ir da pena à profunda raiva por ele.  Marc não é cruel o suficiente para entregar Isolda aos leprosos, como em algumas versões do poema, ainda que ela fuja para viver entre eles quando descobre que Tristão será morto, tampouco, tolo o suficiente para trocar a esposa por uma canção (*isso não está no filme*), o que, no poema, enfurece Tristão, mas ele se mostra explosivo e capaz de grandes violências.  O filme usa Marc para discutir relações desiguais entre homens e mulheres, não somente no passado, mas no presente.  

Marc, um homem experiente, interpreta a gentileza de uma menina como interesse romântico por ele e a deseja como esposa por acreditar que sendo uma dama-criança (*é o termo usado por ele no filme*), ela será fácil de moldar.  Casamentos com grande diferença de idade entre o homem e a mulher não eram incomuns em tempos passados, mas continuavam não sendo em 1979, ou, hoje.  Não espantava ninguém durante muito tempo ver a modelo de 15 anos "namorando" um homem que poderia ser seu avô, ou casando com ele.  Filmes como O Profissional (1994), de Luc Besson, tornado cult por muita gente, exploraram a tensão erótica entre uma menina de 12 anos (Natalie Portman) e um homem com mais de três vezes a sua idade dela (Jean Reno) e muita gente acha isso lindo até hoje. Portman, assim como outras damas-criança antes dela, tornou-se um símbolo sexual talvez antes mesmo de menstruar.  

O que o filme faz muito bem, e eu o chamaria de feminista neste ponto, é deixar muito claro a violência implícita neste tipo de relação.  Um homem rico acredita ser capaz de comprar uma menina pobre, ainda que nobre, ainda que seu pai e sua velha ama interpretam isso como proteção.  Ao mesmo tempo, ele deseja que ela lhe pague com um corpo submisso, com sorrisos e sua vitalidade.  Isolda não está disposta a aceitar isso, ela ama Tristão, um parceiro que está muito mais próximo dela do que o rei que poderia ser seu avô.  Marc a força e precipita a tragédia.  

Aqui, cabe esticar mais um pouco, Marc não forçou Isolda na noite de núpcias, mostrou-se paciente, porque projetava nela a inocência que despertava o seu desejo, ele poderia esperar mais e seduzi-la, porque ele se achava o mais espetacular dos homens, porém, ao descobrir que ela o estava rejeitando por amar Tristão e já ter se deitado com ele, ele a agride e, muito provavelmente, a violentou, ainda que não vejamos a cena.  O filme mostra muito bem a relação de dominação, a violência de Marc contra Isolda e, em nenhum momento, a coloca tendo dúvidas em relação aos seus sentimentos, ou se sentindo seduzida pelo homem mais velho.  Isolda mente, ela engana, mas ela é fiel aos seus sentimentos por Tristão. Ela resiste, ela quer, e é no filme, senhora também de seu próprio corpo.

Como Lovespell é curto, a passagem de Tristão pela Bretanha, para onde ele foge da ira do tio, é muito corrida.  Assim como Brangaine foi eliminada, o mesmo é feito com Kaherdin, melhor amigo de Tristão.  No filme, o cavaleiro é ferido de morte em uma emboscada feita por salteadores, aqui, achei que o filme foi bem perigoso, e termina sendo acolhido e cuidado por uma dama, a outra Isolda, a das mãos brancas (Kathryn Dowling), que deveria ser a irmã de Kaherdin e sua mãe.  Descobre-se que ele é sobrinho do rei Marc e Tristão diz que somente Isolda, rainha da Cornualha, poderá curá-lo.  Ele manda buscá-la, mas quem vai ao encontro do rapaz é Marc, porque Richard Burton é o verdadeiro protagonista do filme e porque Isolda estava fraca e quase à morte por estar presa em um casamento infeliz.  Sem Tristão, Isolda quer morrer.

Aqui, Lovespell faz uma invertida curiosa, porque nas versões do poema, Tristão pede que Kaherdin erga a vela negra do barco, caso Isolda não venha, pois, assim, ele estará livre para morrer e fica mirando o mar através da janela deitado em sua cama de moribundo.  O filme coloca o pedido nos lábios de Isolda e é ela quem fica observando o mar.  Marc traz Tristão, parece perdoá-lo, mas, tomado pelo ciúme, por vingança, ele exibe a vela negra quando já está próximo da Cornualha e provoca a morte de ambos os amantes.  É muito diferente do poema, porque tira, também, o peso das costas da outra Isolda, que teria mentido ao marido que a vela era negra para se vingar da sua rejeição.  Melhor assim.  A Isolda das mãos brancas deste filme até se apaixona por Tristão, deseja ser amada por ele, mas age movida pela bondade e, claro, Tristão não se casou com ela como nos poemas e a ofendeu.  Aliás, nos poemas esta é a única cachorrada que Tristão faz, casar com outra acreditando que poderia esquecer Isolda e acaba trazendo sobre si mais desgraça.

Enfim, demorei muito tempo para concluir esta resenha.  Estou meio triste esses dias e tenho publicado pouco no blog, porque minha filhinha está de férias e longe de mim, mas precisava terminar o texto.  Eu realmente ainda acredito que é necessário que Tristão e Isolda recebam uma adaptação a altura, mas Lovespell me impressionou na sua simplicidade.  No geral, ele respeitou as personalidades das personagens originais, mesmo alterando e enxugando a história.  Algumas opções, como eliminar Kaherdin e Brangaine ou colocar Tristão cedendo e fazendo amor com Isolda antes do filtro do amor, não me agradaram.  O cavaleiro precisava desse catalisador, no entanto, na lógica do filme, o amor dele já era grande demais para que ele resistisse.  

O figurino do filme, mesmo pobre, é interessante.  No início, as roupas sem forma da Isolda adolescente me pareceram visualmente desagradáveis, mas, como o passar do tempo, e o amadurecimento da personagem, ela ganhou alguns bons vestidos.  As roupas masculinas optaram por passar a ideia de transição de um mundo romano para a Idade Média.  O que não dá muito para aceitar é Nicholas Clay sempre de pernas de fora naquele frio.  Ele deveria usar meias, ou algo que parecesse com isso.  De qualquer forma, a proposta do filme é ser o mais realista possível.  Fala-se de mágica, há o filtro, mas é o único elemento realmente fantástico da história.  Já a corte de Marc, ainda que muito melhor que a do pai de Isolda, é bem modesta.  Nada do brilho e do recurso aos mitos que seria visto em Excalibur.  

Bem, acho que é isso.  O que mais escrever?  Sim, sim, o filme cumpre a Bechdel Rule, porque Isolda e Bronwyn conversam sobre magia, filtros e a mãe de Isolda.  Fora isso, o filme tenta colocar que Isolda, sua mãe, Bronwyn, teriam sido pagãs até algum tempo e que a princesa curandeira não abandonara de todo as tradições de seus ancestrais.  Deixar a Irlanda, casar-se com Marc iria domesticá-la ainda mais.  Aliás, é o amor possessivo do rei, um homem poderoso que não aceita um não e que se apaixona por uma menina, que termina por destruir Isolda e, claro, Tristão.   Há muito pouca informação sobre este filme na internet, talvez, por não saber quais o título que este filme teve no Brasil.  Encontrei em um site o título de Pecado Mortal, que não faz muito sentido com o que é narrado, em outro, além deste nome, Magia do Amor, tradução direta do título em inglês.  Coloquei o filme abaixo, para quem quiser.

1 pessoas comentaram:

Concordo que Tristão e Isolda ainda precisam de uma adaptação a altura, porque penso o mesmo sobre o mito arturiano e toda a Matéria da Bretanha. O único filme que realmente gostei sobre o assunto foi "The Green Knight"(2021). Acho Excalibur (1981), Camelot (1967) e o telefilme Sir Gawain and the Green Knight interessantes e divertidos, mas que envelheceram muito mal.
O único livro que li sobre Tristão e Isolda foi o do Joseph Bédier e confesso que não gostei, mas tem tempo que sentia vontade de dar uma nova chance para esse casal trágico e suas resenhas me fizeram correr atrás de novas leituras. Obrigada :)

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