domingo, 18 de dezembro de 2022

Comentando o primeiro livro de Watashi no Shiawase na Kekkon: Por favor, Deixem Miyo ser feliz!

Anteontem, terminei de ler a primeira light novel (*livro curto*) de Watashi no Shiawase na Kekkon (わたしの幸せな結婚), de Akumi Agitogi e com capa Tsukiho Tsukioka (*é só capa mesmo, LAMENTAVELMENTE*).   Publicado inicialmente online através do site de romances Shousetsuka ni Narou, foi posteriormente adquirido pela Fujimi Shobo, que vem lançando os encadernados desde janeiro de 2019 sob sua marca Fujimi L Bunko.  A série, que tem mangá e terá anime e filme live action em 2023, já tem seis volumes e os três primeiros saíram nos Estados Unidos pela Yenpress, foi a edição que tive acesso. Até o momento somando os livros e o mangá, a série já vendeu mais de 5.5 milhões de cópias, o que é muito bom para um shoujo.

Meu intuito ao mergulhar na leitura de Watashi no Shiawase na Kekkon foi tentar entender o motivo do sucesso da série que, a julgar pela minha primeira olhada no início mangá e pelos resumos, me parecia nada inovadora.  Confirmei exatamente isso, Akumi Agitogi não reinventou a roda, mas a fez girar de forma muito delicada e dramática nesse início de Watashi no Shiawase na Kekkon.  Vou fazer um resumo rápido do início da trama e seguirei comentando.  Aviso desde já que os spoilers são inevitáveis.

Miyo Saimori tem 19 anos e pertence a uma família importante e poderosa em um Japão de fantasia que estaria no correspondente à Era Meiji, neste mundo, algumas famílias são especiais, porque seus membros têm poderes capazes de afastar criaturas (grotesqueries) que podem interferir no mundo natural e causar problemas.  Miyo nasceu de um casamento perfeitamente arranjado entre os Saimori e a misteriosa e temida família Usuba, só que sem os poderes, o que representa uma vergonha para seu pai.  Após a morte da mãe da protagonista, seu pai se casa com sua antiga amante, deste novo casamento nasce Kaya e logo se percebe que a criança tem o dom. A partir de então, Miyo passa a ser tratada pela madrasta e pela meia-irmã como se fosse uma criada, menos que isso, uma escrava, sem que seu pai demonstre qualquer interesse por ela.

Crescida, Miyo não tem grandes esperanças de ser feliz, mas o seu único amigo de infância, Shouji Tatsuishi,  sinaliza que gosta dela e o coração da moça se enche de alguma esperança quando ele vem visitar sua família e ela é chamada pelo pai que a ignora.  Só que é somente para atirá-la em um poço de desespero,  pois o patriarca lhe comunica que o rapaz está de casamento marcado com sua meia-irmã e que ela terá que ir para a casa de seu futuro noivo, Kiyoka Kudou, um sujeito de família muito mais poderosa que a dela, mas que já espantou várias noivas.  Elas normalmente não conseguem ficar mais que três dias em sua casa.  Só que Miyo não tem para onde voltar, logo, ela precisa transformar seu casamento em um matrimônio feliz.  O nome da série, se traduzido para português, poderia ser "Meu Casamento Feliz".

Como ponto de partida, é preciso notar que Watashi no Shiawase na Kekkon revisita a conhecida história de Cinderela.  Para quem não sabe, este conto de fadas não foi inventado na Europa, mas tem versões mais anteriores, uma delas é chinesa e do século IX, a mais antiga versão conhecida é, no entanto, a grega Rhodopis, do século I a. C., sobre uma escrava que se casa com o faraó.  E o modelo é a mocinha, filha mais velha e uma rica família, fica órfã de mãe, seu pai se casa novamente, esse pai morre, ou é negligente, e a menina passa a ser maltratada pela madrasta e pela irmã, ou irmãs, mais novas, ou de um casamento anterior da mulher má.  Um dia, um príncipe aparece na vida da pobre menina e ela é libertada de seus sofrimentos.  No fim das contas, Cinderela é uma história que fala de abuso dentro do ambiente familiar e de como o casamento poderia ser a saída para a menina que sofre.  Guardem isso, porque acredito que é aqui que Watashi no Shiawase na Kekkon traz algo de novo.

Além de ser uma típica história de Cinderella, Watashi no Shiawase na Kekkon a autora diz ter buscado  inspiração nas Eras Meiji (1868-1912) e Taisho (1912-1926), períodos em que aconteciam rápidas mudanças no Japão, além disso, ela diz isso no final do primeiro livro, que achou interessante introduzir o elemento mágico, isto é, a ideia de que um grupo de famílias tem dons que os distinguem dos humanos comuns.  Ao final do volume 1, com a trama muito bem resolvida, eu calculo que Akumi Agitogi estava preparada para parar ali a história caso necessário sem grandes perdas, sobra resolver algumas questões referentes à família materna da mocinha e ao fato dela também ter o dom, mesmo sem saber disso.

Sobre a época em que se passa a história, eu realmente acredito que é na Era Taisho por causa dos automóveis e outros detalhes .  No mangá, isso fica evidente no capítulo em que aparece a irmã de Kudou, e que deve estar no livro #2, porque optaram por colocá-la com roupas ocidentais típicas dos anos 1920.  Vamos ver como a coisa é descrita na light novel.  Outro detalhe interessante nesse primeiro livro é que a autora coloca que os dias de glória dessas famílias que veem as grotesqueries e as caçam e protegem o império talvez estejam chegando ao fim, porque com a tecnologia as pessoas cada vez acreditam menos no elemento mágico e o medo alimenta esses monstros, é preciso crer neles para que seu poder para causar destruição seja potencializado.  Enfim, a ciência poderia resolver o problema sem a necessidade dessas famílias, normalmente nobres, detentoras de dons sobrenaturais.

E qual a razão do sucesso da série?  Não acredito que seja nada do que eu descrevi acima.  Eu fiquei pensando se não havia algo de nostalgia das histórias de pobres meninas órfãs que povoavam os shoujo mangá entre os anos 1950-70.  A garota que vinha de um ambiente familiar hostil, da miséria, e se descobria filha de um nobre, ou se casava com um.  Bem, a Helena Morelli me deu um estalo, talvez seja isso sim e algo mais, Watashi no Shiawase na Kekkon é muito efetivo em retratar uma vítima de abuso psicológico e físico.  Miyo viveu aterrorizada, sendo massacrada na sua autoestima, se achando um nada, incapaz de reagir, porque isso significaria um prolongamento da tortura.  Mesmo quando ela se descobre amada por Kudou e por sua velha empregada, Yurie, a menina não consegue se acreditar digna desses sentimentos e se encolhe.  

Ao longo do livro, a autora vai mostrando o quanto é difícil para uma vítima de abuso, ainda mais tão prolongado, desenvolver autoestima e confiança em si e no afeto que os outros lhe dedicam.  E é muito tocante o sofrimento interior de Miyo e como é fácil para quem lê sua história desejar que ela seja feliz, querer lhe dar colo e odiar aqueles que tornaram a sua vida miserável.  Conforme a história avança, percebemos que Kaya, a irmã caçula, também foi vítima de abuso psicológico, mas na relação com Miyo, ela é a agressora, mesmo que tenha sido instigada pela mãe e pelo descaso ativo do pai com sua irmã mais velha.  A autora parece querer dialogar com os nossos dias e responsabiliza todos os que podiam fazer alguma coisa e não fizeram.   Shouji agiu como covarde, depois de adulto, ele tinha o dever de fazer alguma coisa por Miyo, a quem amava, e, não, o duplo suicídio não é visto como uma saída.

Quem age para impedir o moço de agir é seu pai, o chefe do clã Tatsuishi que, diferentemente do genitor de Miyo, percebe que mesmo que a menina não tenha o dom, ela talvez possa passar esse poder adiante (*Estamos no campo da genética aqui? Gen dominante e recessivo?*).  Ele quer que Miyo seja mantida na sua miséria, quer que seu valor de troca no mercado matrimonial continue baixo, porque ele a deseja como nora.  No fim das contas, do seu jeito torto, o velho, que é um dos grandes vilões desse primeiro livro, quer satisfazer a vontade do filho caçula casando-o com Miyo, mas o pai da mocinha a despreza tanto, que prefere que sua filha caçula seja usada nessa aliança.  Retornando, a autora é muito precisa em apontar que todos são responsáveis pelas crianças e adolescentes e seu bem estar, quem fecha os olhos para isso, está cometendo um ato covarde, ou crime.  

Obviamente, ela está em um mundo de fantasia e pode projetar nele valores de nossos tempos, as regras na Era Taisho não eram essas, pais podiam vender seus filhos e filhas, ou alugá-los e isso era visto como aceitável.  O que consideramos abuso certamente poderia não ser em outro contexto histórico.  De qualquer forma, lendo Watashi no Shiawase na Kekkon, me recordei de My Broken Mariko, que sendo contemporâneo, mostra situação semelhante, a criança maltratada e abusada sem que ninguém se prontifique a intervir para amenizar as suas dores.  Em My Broken Mariko, e isso está no resumo da história, a personagem do título dá fim a sua vida, Miyo pensa em fazer o mesmo, mas encontra dentro de si e na confiança em pessoas que se mostram amáveis com ela as forças para buscar a cura.  E, muito importante aqui, a autora não vai vir com o discurso de restaurar os laços de Miyo com a família paterna, é preciso distância dessa gente ruim, ela não deve ter o dever de conviver com eles.

E vamos falar do nosso mocinho? Kiyoka Kudou tem má fama e ele realmente admite ao longo da história que ele tem problemas para se relacionar com as mulheres.  Uma esposa é uma necessidade, ele sabe disso, mas ele deseja alguém que seja o oposto de sua mãe, uma mulher fútil e que gostava de ostentar sua riqueza e poder.  Para não conviver com familiares e com as criadas (!!!), ele vai morar em uma casinha modesta na floresta que fica na borda da capital.  Yurie, que foi sua ama, é sua única empregada e ela não dorme no trabalho.  De lá para a cidade é rápido e ele comanda o destacamento responsável por caçar as grotesqueries.  Já no final do livro, ficamos sabendo que é seu pai, que abriu mão de comandar o clã Kudou que fica mandando as noivas que ele rejeita.  Idade adequada e boa família são as credenciais que seu pai busca, mas nenhuma delas conseguiu tocar o coração gelado de Kudou.

Não sabemos a idade de Kudou, mas ele deve ser pouco mais velho que Miyo, ainda que se comporte como um homem maduro.  Ele é descrito como espetacularmente bonito e louro, ou platinado, o que indica que no mundo de Watashi no Shiawase na Kekkon tem cabelo de anime, deve aparecer gente de cabelo azul, ou rosa, mais cedo ou mais tarde.  A escolha do cabelo platinado e dos olhos azuis é óbiva, serve para compor essa ideia de que Kyoka Kudou é frio, ele deveria ser a fera da nossa história, PORÉM não demora meia dúzia de páginas para que a gente entenda que ele é somente tímido, reservado e que está irremediavelmente apaixonado pela mocinha.  E ele, mesmo que com alguma dificuldade, começa a mostrar gentileza para com Miyo, passar mais tempo em casa com ela, e desconfia que há algo de errado, que a menina não se comporta como alguém de sua classe social.

Se nosso mocinho fosse burrinho, ciumento, ou autoritário (*é um ambiente patriarcal, mas ele está mais para o protetor do que para o dominador quando o assunto é Miyo*), a história poderia ficar comprometida, mas Kiyoka não é nada disso.  E ele coloca seus agentes para fazerem um dossiê sobre Miyo e descobrir tudo o que podem para explicar o comportamento e aparência da moça (*roupas velhas, desnutrida, nunca sorri etc.*).  Ao descobrir todo o mal que os Saimori fizeram contra ela, ele se colcoa ao lado de Miyo e que jamais a deixaria partir atirando-a de novo em um ambiente de abuso.  Ele faz mais até, ele vai até a casa do pai de Miyo e o esculacha.  Ele sabe que os Saimori estão em crise, que sua importância dentro das famílias com o dom está desaparecendo, para o pai de Miyo estar em boas graças com os Kudou é algo importante.  

É nessa visita que Kaya, a irmã caçula de Miyo, coloca os olhos em Kiyoka e decide que ela o quer como marido, que a mocinha jamais poderia ter um noivo melhor que o dela.  E ela tenta trazer Shouji para o seu lado, afinal, se houvesse a troca de noivas, todos ficariam felizes.  Shouji recusa, ele precisa obedecer ao seu pai e o casamento é vontade dos patriarcas dos Saimori e dos Tatsuishi.  Shouji é uma espécie de oposto de Kiyoka, ele não consegue enfrentar ninguém, mesmo quando usa do argumento da honra e dever familiar, a coisa parece desculpa para não se posicionar.  Pior, mesmo ajudando Miyo e Kudou no final do livro, ele persiste fazendo escolhas que só o tornarão infeliz.  Ele persiste no noivado com Kaya e com a responsabilidade de se tornar o novo chefe do clã Saimori.

Kiyoka Kudou é o tipo de mocinho que é rico e usa isso a seu favor, que é inteligente e não se deixa enganar, que é capaz de usar da força se necessário for.  No desfecho do volume, ele vai tocar terror para resgatar Miyo das garras dos parentes e dos  Tatsuishi.  E, não, ele não a deixou partir, ou a expulsou, e Miyo também não optou por romper o noivado, ela simplesmente foi tirada dele.  Talvez o castigo dos vilões pareça brando aos olhos de alguns, mas para os envolvidos, as perdas foram enormes e ter Kudou de olho neles para sempre não deve ser muito confortável.  

Eu não vou detalhar os eventos, acho que já dei spoilers o suficiente.  No final do livro, não há casamento ainda, mas Miyo e Kyoka estão formalmente noivos.  Ela reside na casa dele, a ideia era aprender os costumes da família do noivo (*isso aparece em vários mangás shoujo históricos, aliás*), mas eles não são casados, nem beijo acontece nesse primeiro volume e está tudo bem, porque o afeto entre os dois, a sintonia é tão evidente que não faz diferença.  Claro, em seis volumes, espero que aconteça beijo e até uma romântica lua de mel que exponha o óbvio, ambos são virgens.  

A autora poderia parar a história no final do volume #1, mas ela segue a história, porque o sucesso foi imenso.  O que ficou pendente desse volume?  Duas coisas, os poderes de Miyo, que a gente sabe que estão lá, mas que não se manifestaram totalmente.  Ela tem um sonho, ou visão do passado, em que sua mãe fala para o pai que ele deveria confiar e esperar, que Miyo não era inútil como ele estava dizendo.  Aparentemente, ele amava tanto a amante que rejeitou a filha desde o início.  Outro ponto, é o clã Usuba.  Em sua investigação, Kiyoka não consegue descobrir nada sobre os parentes de Miyo.  Nada.  O que se sabe dos Usuba é que eles têm poderes mentais e que são perigosos, que evitam se misturar e casar com outras famílias para não perder o controle de dons que podem colocar em risco o império.  Por qual motivo uma Usuba seria dada em casamento a um clã decadente como os Saimori?  Certamente, os volumes seguintes cobrirão essa questão.

Crítica a história, acredito só ter uma, me parece pouco compreensível que Shouji não tenha recebido treinamento.  Se os dons eram tão importantes e davam tanto status, seu pai, um homem orgulhoso e ambicioso, não deixaria de desenvolver o dom do filho.  Aliás, sabemos pouco do irmão mais velho de Shouji, mas ele parece saber usar seus dons e ser um traste.  Enfim, vendo pela ótica da preservação e expansão dos dons, esse descuido com a educação, assim como com as escolhas de noivas para Kudou parecem um tanto descuidadas.  Sim, ficamos sabendo que Saimori preferiu enviar a filha "inútil", que Kaya era a escolha do pai do rapaz, mas, ainda assim, o mocinho diz que o critério de escolha do pai não era o fato da noiva ter o dom.

Concluindo, eu acredito que o filme live action e o anime cubram somente este livro.  Seria o suficiente para 11 capítulos de anime e 1h40 de filme com roteiro fechadinho.  Claro, se o sucesso continuar, há potencial para novas temporadas e novos filmes, Watasho no Shiawase no Kekkon é, sim, um fenômeno.  Eu vou continuar a leitura.  Farei resenhas separadas dos livros 2 e 3 somente se necessário.  A leitura é simples e gostosa, é tipo um romance Harlequin de média duração (*150 páginas, mais ou menos*).  Para quem quiser comprar os volumes em inglês clique nos links do Amazon (*1 - 2 - 3*), mas tem scanlations (*AQUI*).  O mangá está disponível, também (*LINK*), sei que tem em português, se jogar no Google, é fácil de achar.  Espero que a série de novels seja licenciada em português.  Abaixo, os trailers do anime e do movie.

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