sexta-feira, 23 de dezembro de 2022

Recomendação de Documentário: Filho da Mãe - Um Reencontro com Paulo Gustavo (Amazon Prime, 2022)

Semana passada, assisti ao documentário Filho da Mãe  - Um Reencontro com Paulo Gustavo, que foi pensado para acompanhar a turnê do musical "Filho da Mãe" do ator multitalentoso com sua mãe, Déa Lúcia.  O filme acompanha o musical e seus bastidores, como surgiu a personagem Dona Hermínha, a infância e adolescência de Paulo Gustavo, sua escolha profissional e como sua família, que parece ser de classe média baixa, o apoiou, seu sucesso, casamento e a pandemia, que o levou.  O filme foi dirigido por Susana Garcia, diretora de Minha Mãe É uma Peça 3 (*que eu nunca resenhei*), e codirigido pela irmã do ator, Juliana Amaral.  Susana Garcia é irmão de Monica Martelli, amiga do ator, e que atuou com ele em  Minha Mãe É Uma Peça - O Filme, Os Homens São de Marte... E É Pra Lá que Eu Vou e Minha Vida em Marte.  É espantoso como as duas são parecidas.

Ao longo do filme, são muitos os depoimentos emocionados de quem perdeu um parente querido, um amigo, um companheiro de trabalho, o marido  A gente ri com Paulo Gustavo e com sua mãe, mas o documentário é muito, muito triste, também.  Eu fiquei bem mal na parte final do filme.  Vendo as cenas dele no teatro, no musical com a mãe, me peguei imaginando que eu gostaria de estar ali assistindo.  Nunca fui muito fã de Paulo Gustavo, o humor dele não era bem do tipo que me agrada mais, e eu comentei isso nas minhas resenhas de filmes com ele, mas, como artista, ele era talentosíssimo e deveria ser um sujeito legal.  A trajetória dele até conseguir o sucesso é bem interessante, pois muito provavelmente não chegaria lá sem o apoio de sua família, que ele tão bem colocou dentro da peça que o projetou para o mundo.  Esse aspecto, a relação com a família, tem grande destaque no filme.

Ao longo do documentário, vemos o pai e a mãe de Paulo Gustavo, como eles lidaram com a homossexualidade do filho, a aceitação, e como o ator acreditava estar contribuindo para o enfrentamento da homofobia no Brasil.  E eu acredito que ele estiva certo em pensar assim, aliás, a forma como a questão do acolhimento por parte da família foi tratado em Minha Mãe é uma Peça 3 ilustra bem o pensamento de Paulo Gustavo e como ele tentava erodir a resistência dos conservadores.  Fora isso, o filme traz vários depoimentos mostrando a importância do trabalho de Paulo Gustavo para que pais e filhos pudessem compreender-se melhor.  Filho da Mãe mostra, também, como o humorista conheceu Tales, seu marido, o casamento, o exercício da paternidade, algo que era muito importante para o ator. E, claro, como o documentário foi finalizado depois da morte de Paulo Gustavo, em 4 de maio de 2021, temos o medo da COVID-19, a atitude do ator durante a pandemia, a forma como apoiou gente que trabalhou com ele em suas peças e filmes e que estava parada e sem recursos no auge da doença, e o fim, a morte do ator, que não teve tempo de tomar a vacina.

Falando da escolha profissional de Paulo Gustavo, o filme mostra que ele sempre foi um aluno pouco ajustado na escola, chegando a ser expulso.  O filme não se preocupa em explicar os motivos.  Há toda uma discussão sobre faculdade, que ele nunca conseguiria passar para a universidade pública.  Enfim, posso estar enganada, mas, na época, só havia Artes cênicas na UniRio, era a única opção.  Ele acaba fazendo um curso particular mesmo, com grande sacrifício para a família.  Quem nasceu longe da universidade pública, ou nasceu pobre, sabe o quanto passar era difícil.  Sou mais velha que Paulo Gustavo, mas estamos na mesma geração.  De Niterói para Urca, se ele fosse para a UniRio, ou para Laranjeiras, onde ele acabou cursando, era uma viagem.  

E temos o choro e as palavras de gente que conheceu Paulo Gustavo e que sofreu com sua morte prematura.  Acredito que é Pedro Bial quem diz que ele estava somente começando sua carreira. E isso é verdade, não sabemos o quanto mais ele poderia oferecer para o mundo.  E é impossível, pelo menos para mim, assistir ao documentário sem pensar que Paulo Gustavo poderia estar aqui, se o presidente que está deixando o cargo não tivesse escolhido tentar nos matar a todos.  Sim, Pfizer tentou vários contatos para iniciar o uso da sua vacina no Brasil; o governo federal tentou sabotar a Coronavac como pode, e houve o experimento em Manaus.  E se alguém vier deixar comentário neste post dizendo bobagem, saiba que você é um canalha, mentiroso e sem compaixão, porque o tempo da ignorância e d inocência já passou, se você nega os fatos, o faz por escolha.  

O fato é que mesmo gente muito rica como Paulo Gustavo, um sujeito saudável e relativamente jovem, foi vítima da COVID.  A doença matou muito ais pobre e negros, mas ela se comporta de forma mauito mais democrática do que a maioria das moléstias.  Só que Paulo Gustavo não deixou marido, filhos e parentes desamparados, mas há milhares de vítimas da COVID em nosso país e falo, também, dos sequelados.  Há muitas pessoas em situação de vulnerabilidade neste momento, porque o governo decidiu sabotar o afastamento social e atrasar as vacinas.  E eu já ouvi que ele morreu por ser orgulhoso, por acreditar que seu dinheiro poderia comprar a cura, ou por castigo divino.  Sinceramente?  Quem pensa assim não entende nada de amor cristão, absolutamente nada.

É isso.  Se você assistir Filho da Mãe  - Um Reencontro com Paulo Gustavo vai rir muito, vai conhecer melhor a mãe dele e entender como surgiu Dona Hermínha, talvez perceba o quanto é importante apoiar um filho nos seus sonhos e, no caso do ator, não virar-lhe as costas em virtude da sua orientação sexual.  Nesse sentido, a parte em que Paulo Gustavo fala do pai, que a gente conhece menos, é uma das melhores do filme, aliás, o ator devia muito à mãe, parecia muito com ela, mas acredito que o pai tenha tido um papel importante na construção da personalidade e caráter do humorista.  Eu recomendo muito o filme, mas digo que preparem os lenços, porque é de cortar o coração.  Ele nunca verá os filhos crescerem e, sim, ele poderia ter tido mais chances de viver se tivéssemos uma política de vacinas séria durante o (des)governo Bolsonaro.  E ainda recebemos a bomba de que ele faleceu no mesmo dia em que estreou Minha Mãe é uma Peça e no mesmo horário, também.

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